2-3 julho, 2026
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Informações importantes:
Chamada para comunicações até
21 de novembro, 2025
Comunicação dos resultados a partir de 5 de janeiro, 2026
Inscrições: final de janeiro até 22 de maio, 2026
Data do evento: 2-3 julho, 2026 | PRESENCIAL
Faculdade de Letras - Universidade de Coimbra
Retórica do silêncio: Lugares de conforto, resistência e violência
Qual é a essência do silêncio? Será possível apreendê-lo enquanto conceito e teoria? O senso comum dirá que é uma simples ausência de palavra e de ruído, vacuidade, algo incorpóreo. Como explicar a expressão “fazer silêncio”, ainda assim diferente de silentium facere (‘mandar calar’, segundo Tito Lívio). Já Séneca asseverava que os desgostos da vida ensinam-nos a arte do silêncio, como se a contenção verbal fosse sinónimo de prudência e sabedoria; também Shakespeare preferia ser rei do silêncio a ser escravo das palavras; Espinoza desejara que os homens tivessem no silêncio a mesma capacidade que têm no falar, e Eugénio de Andrade afirma que podemos gastar tudo menos o silêncio. A voz popular também tem algo a dizer acerca do silêncio: a palavra é de prata e o silêncio é de ouro ou para bom entendedor meia palavra basta. Estudos indicam que os silêncios podem ocupar entre 30 e 50% do tempo de um discurso (político, mas não só) com todas as suas pausas, suspensões, hesitações, omissões. Pela voz dos oprimidos, o silêncio pode representar a sua impotência, resignação, resistência; pela voz dos opressores, violência e indiferença. O silêncio consubstancia-se, diferenciadamente, em cada uma das suas realizações semântico-pragmáticas: silêncio de fascínio ou de desprezo, de descontração ou de tensão, de serenidade ou angústia, de encontro connosco e/ou de afastamento dos outros; o silêncio pode servir cúmplices ou culpados; em cenário de doença é luto, em cenário de guerra é morte, em cenário idílico é paz.
Os poemas homéricos não podem ser lidos sem a consciência do quão silenciadas e silenciosas foram as vozes femininas: veja-se a recusa de Telémaco em ouvir Penélope, que talvez seja o primeiro exemplo registado na literatura ocidental de um homem a mandar calar uma mulher. Mas será possível interpretarmos silêncios de Penélope? Da mesma forma, que destaque dão ao silêncio os antigos tratados de retórica greco-romana, exarados por Sofistas, e autores como Platão, Aristóteles, Cícero, Quintiliano? O silêncio merece especial atenção enquanto habilidade comunicativa também nos restantes géneros literários da Antiguidade: trágico, cómico, historiográfico, lírico, e noutros sistemas semióticos como a pintura e a escultura, que manuseiam estratégias retóricas não verbais; todavia, potenciadoras de um fluxo linguístico íntimo. No humanismo renascentista, as obras enciclopédicas (“Collectanea”, “Miscellanea”, “Adagia”) são reveladoras do labor filológico assente na supressão e contenção, na multiplex imitatio e na ars colligendi de aforismos e sentenças - maxima in minimis.
A Historiografia pratica, desde a Antiguidade, estratégias retóricas indiciadoras de silêncios, seleções e omissões, e a Literatura hipercontemporânea explora-os ficcionalmente, construindo a partir dos escombros outras/novas alternativas do que ficou por cumprir, do que poderia ter sido, iluminando alguns desses ângulos mortos. Os Estudos Pós-coloniais são disso exemplo, no ressurgimento de dores e processos, na sublimação de traumas e na senda de dar voz aos silêncios que decantaram nas dobras do Tempo.
No campo da Filosofia (da linguagem mas não só) Kierkegaard falava no silêncio como uma interioridade inexprimível, de inefável ligação do indivíduo ao Absoluto. A Teologia debruça-se sobre esse espaço de acolhimento, de introspeção e de encontro com o Divino, que Dionísio Areopagita descrevia como Teologia apofática, São João da Cruz, como oxímoro de ausência nessa noite escura. Se pensarmos nos principais expedientes lógico-estilísticos que servem como estratégias de silêncio, enunciamos figuras como aposiopesis, abruptio, suspiratio, ellipsis, synecdoche, homoioptoton, homoioteleuton. A elipse e a ambiguidade, que se articulam com a ironia e o sarcasmo, integram as estruturas fecundas aos estudos de Humor.
Nesta Sociedade da Decepção, de imediatismo voraz, exponenciado pela IA, os formatos dry texter não deixam de conter, nos seus silêncios, omissões e distorções perigosas, esvaziados de qualquer dimensão afetiva. Na Era da hipercomunicação, em que recebemos diariamente uma infinidade de estímulos, nesta acumulação e sobreposição de informações, que espaço consagramos ao silêncio, que parece reduzido a um lugar de isolamento? Poderá o silêncio ser um meio de resistência, capaz de aprofundar, decantar e preservar algo incólume à erosão do Tempo? E afinal, terá o silêncio sempre a última palavra?