MANUELA SOFIA SILVA

a leitora

Para o meu Pai

E se as histórias para crianças passassem a ser de leitura obrigatória para os adultos? Seriam eles capazes de aprender realmente o que há tanto tempo têm andado a ensinar?

– José Saramago. (2001). A maior flor do mundo.

I

Lembro-me que o primeiro livro que li para o avô, ainda não devia ter os sete anos, foi um com o título “Adivinha o quanto eu gosto de ti”, a história de uma Pequena Lebre Castanha que queria mostrar à Grande Lebre Castanha o quanto ela a amava. Na altura, e para impressionar o avô, lembro-me de ter substituído os nomes das personagens lebres por “a neta” e “o avô”. Então, a história começava assim: A neta que se ia deitar, agarrou-se bem às orelhas muito compridas do avô. Quis ter a certeza que o avô estava a ouvir. — Adivinha o quanto eu gosto de ti — disse ela. E depois fazia as duas vozes diferentes e gestos enormes com os braços, com as mãos e com o corpo, que o avô não podia ver, mas por certo imaginava.

O avô ouviu a história toda com muita atenção, sorrindo por vezes e, no final de eu terminar a leitura, com ar de troça, perguntou-me:

—Eu tenho as orelhas assim tão compridas que te possas pendurar nelas?

Fiquei envergonhada, mas não dei parte de fraca e mantive-me firme na minha leitura das palavras do livro.

— Eu só li o que está aqui, timtim por timtim — repeti, sentindo as faces a arder de embaraço, mas satisfeita por ter feito sorrir o avô. Foi a partir desse dia que resolvi que, sempre que lhe lesse algum livro, eu haveria de o tornar mais engraçado, pela entoação, pelo ritmo, substituindo nomes ou acrescentando alguma coisa. Afinal, ler também podia ser assim, não podia?

— Sim — murmurava a avó – mas é um segredo só nosso.

E eu ficava feliz por ter um segredo para guardar e por poder ler daquela maneira para o meu avô, sem que ninguém me repreendesse por estar a inventar coisas que não estão escritas nos livros, mas poderiam estar, só porque são possíveis. E isso para mim, era extraordinário.

II

O meu avô está sentado numa cadeira de rodas há mais anos do que eu tenho de vida. Não sei bem quando, nem porquê que ele deixou de poder correr atrás dos sonhos, de pisar com o seu pé a relva molhada ou de saltar sobre as poças de água nos dias de chuva, mas sempre que perguntava, fazia-se um longo silêncio lá em casa. E seguia-se um suspiro sofrido da avó e eu ficava calada, não dizia mais nada porque a avó (assim como o avô, está claro) é a pessoa que mais estimo na vida e por nada neste mundo a quero entristecer. E como a infelicidade anda sempre aos pares, o avô cegou quando eu ainda era pequena. Um dia, uma nuvem branca atravessou-se pelos seus olhos e ele deixou de conseguir ver o que quer que seja, contava a minha mãe. E como o avô dizia que os olhos já não lhe tinham préstimo nenhum, mantinha-os, muitas vezes, fechados, o rosto triste e o pescoço curvado para o chão.

Resignado, o avô tinha apurado o ouvido de uma maneira incrível e não era preciso ver-me para saber quando eu chegava, mesmo antes de eu abrir a boca. E sabia sempre que o dia não me tinha corrido bem, só pelo meu tom de voz na leitura, mesmo quando eu tentava enganá-lo. Durante muito tempo acreditei que ele me conseguia ver só a mim porque sempre que eu me preparava para saltar de um sofá para o outro, ele repetia Sofia, olha que tu cais! Ou quando começava, muito sorrateiramente, a riscar as paredes da sala, imaginando que era um quadro gigante, dizia Sofia, não faças isso que a avó está a espreitar!

Comecei a ler para o avô quando já era capaz de juntar as sílabas como deve de ser. Tinha sido ideia dele. O avô gostava de histórias e andava farto de ouvir as notícias da rádio ou da televisão, todas tão parecidas e tão chatas, dizia! Além disso, a miúda precisa de treinar a leitura. Eu preferia, na verdade, ficar a brincar, mas como também não queria desagradar ao avô, fazia o sacrifício e foi assim que passei a ser a leitora privada e predileta do avô que tinha a incumbência de ler para ele todas as tardes de quarta-feira. Tudo me era permitido ler! Podia ser um livro que andasse a ler na escola, um que fosse buscar à biblioteca da vila ou um que estivesse na estante da minha mãe. Ele não era esquisito, só me dizia que não podia comer as palavras e devia ler com uma boa dicção, pronunciando cada palavra suficientemente alto para um velho com a sua idade ouvir, dizia. O que o avô não sabia (julgava eu) é que a cada nova leitura eu inventava alguma coisa, uma palavra, renomeava as personagens ou acrescentava um pormenor na descrição ou um acontecimento novo, ou um lugar diferente, a partir das imagens contidas nos livros, de modo a tornar a história mais interessante para ele e, sobretudo, mais divertida para mim.

III

Com oito anos, lembro-me que lhe li O incrível rapaz que comia livros. Peguei no livro, sentei-me na cadeira ao pé dele, procurando a melhor posição, concertei o vestido, coloquei-o em cima dos meus joelhos e preparei-me para o abrir. Mas, primeiro levei-o junto ao nariz, respirei-o como se fosse uma flor ou um bolo acabado de sair do forno e disse:

— Avô, este é um livro de chocolate que tem como título O incrível rapaz que comia livros e eu, para comprovar o seu sabor doce e achocolatado, já lhe dei uma trinca no cantinho inferior direito. — E peguei na mão dele para ele passar com os dedos na ponta do livro. — Vês, aqui? Quatro dentinhos de Sofia! E dei uma gargalhada.

O avô sorriu e depois passou com a sua mão nos meus cabelos compridos. Retomei a minha posição de leitora séria e dedicada e comecei, finalmente, a leitura pausadamente. Era a história de um prodigioso rapaz que comia LI-TE-RAL-MEN-TE livros de histórias, aventuras, dicionários, enciclopédias e todos os outros livros de utilidades práticas, e, a cada digestão, ficava mais e mais esperto, ultrapassando em conhecimentos todos os colegas da escola e a própria professora. O problema foi quando começou a ficar doente por comer tantos e tão rapidamente os livros que lhe apareciam à frente: começou a ficar maldisposto e a baralhar tudo o que tinha aprendido, dizendo grandes disparates. De repente, ele tinha deixado de ser o mais esperto de entre os espertos para parecer um tolo – o tolo da escola. Nesta altura percebeu que, se em vez de comer os livros, ele os lesse, poderia ficar igualmente inteligente e sabedor, embora isso demorasse um pouco mais de tempo, era mais saudável, menos indigesto e muito mais giro! O rapazinho tinha descoberto que gostava de ler, assim como eu estava a descobrir, sem querer, a cada leitura que fazia ao meu avô, que ler era bom e não fazia mal à barriga.

Nesta história não consegui inventar grande coisa para o avô achar graça a não ser que tinha dado uma pequena trinca num livro que sabia a chocolate e que ele nem sequer comentou. Provavelmente, acreditou (pensei eu, na altura) por eu ter tido o péssimo hábito de comer livros quando ainda não sabia ler, nem podia ficar mais esperta ao comê-los!

IV

Andava eu no meu quarto ano, quando, pela primeira vez, me apaixonei. O Eduardo andava na outra turma e era o rapaz mais bonito da escola! Era tímido e não conversava muito, mas tinha uns olhos verdes inigualáveis que podiam falar por ele. Cada vez que me cruzava com ele no recreio e ele olhava para mim, eu baixava os olhos e era incapaz de lhe dirigir uma palavra que fosse. Não encontrava as palavras certas para lhe dizer o que há tanto tempo andava para lhe contar. Então, preferia ficar calada e esperar que ele finalmente viesse falar comigo. Um dia, ganhei coragem, sentei-me ao lado dele a comer a minha sandes de manteiga e sorri, ele sorriu também e ficámos os dois em silêncio a acabar o nosso lanche. Quando tocou para a entrada, o Eduardo levantou-se, deu-me um beijinho na bochecha e disse “Até amanhã”. Fiquei a sentir borboletas na barriga o resto da tarde sem saber, ainda, se isso era bom sinal ou se simplesmente era o meu estômago a dizer-me que ainda tinha fome.

Quando cheguei a casa – ainda estava nas nuvens pelo que me tinha acontecido de bom – fui buscar o livro que me parecia perfeito para aquele momento, A grande fábrica de palavras e coloquei-o na mochila para não me esquecer dele quando fôssemos para casa dos avós. É uma história que se passa num país chamado Fábrica das Palavras, onde é preciso comprar as palavras e, como são caras, as pessoas quase não falam. É preciso comprar as palavras e engoli-las para poder pronunciá-las, mas as palavras mais bonitas são também muito caras e nem todos as podem comprar. Por isso, os mais pobres procuram palavras no lixo, compram-nas quando estão em saldos ou apanham-nas quando são lançadas ao vento. Mas estas palavras têm pouco interesse e utilidade quase nenhuma. O Filipe é um dos meninos que vive neste país e está apaixonado pela Sara, mas não tem como lhe dizer que ela é especial porque essas palavras de amor são caras e ele só pôde apanhar do vento três parcos vocábulos: cereja, poeira e cadeira e uma outra – repete – que encontrou no caixote do lixo.

Naquele dia, o tempo estava fresco e, por isso, o avô estava à minha espera na sala. A televisão estava ligada. Eu cheguei sem fazer barulho, mas o avô desligou logo o televisor como se tivesse ouvido os meus passos e sentido a minha presença, ainda eu estava a entrar porta adentro. Cumprimentei o avô como de costume, um beijinho e um grande abraço que ele recebeu com um sorriso:

— Olá, avô! Trago aqui uma história muito especial para te ler! Tenho a certeza que vais adorar!

Tirei o livro da mochila e sentei-me ao pé do avô. Com o livro no regaço, abri-o ainda com mais cuidado do que de costume, pois tinha a sensação de que aquele livro guardava o meu coração e a minha primeira história de amor. Fez-se um silêncio quase solene e comecei a ler. Achei por bem substituir os nomes das personagens por Sofia e Eduardo. Deve ter sido nessa parte da história que eu deixei de falar para só ouvir o meu coração bater estas deliciosas palavras:

As minhas palavras são tão insignificantes... pensa o Eduardo, então ele inspira fundo, pensa em todo o amor que lhe agasalha o coração e, de uma assentada, pronuncia as palavras que havia apanhado com a sua rede. As palavras voam em direção a Sofia e atingem-na como pedras preciosas. Cereja, poeira, cadeira! A Sofia deixa de sorrir. Fica a observá-lo. Ao que parece, está sem palavras. Decide aproximar-se dele e beijar-lhe o nariz com ternura.

No fim de terminar a leitura, guardei o livro contra o meu coração, fechei os olhos e revivi aquela tarde na escola em que senti aquelas borboletas na barriga. O avô, percebendo que os meus pensamentos estavam longe, chegou-se perto de mim, como se me falasse ao ouvido e disse baixinho:

— Que linda história, Sofia! As palavras são capazes de produzir as reações mais bonitas e a mais bela é deixar-nos num silêncio desprevenido ou com um sorriso como o que tu tens agora, minha querida.

Eu corei e não fui capaz de dizer mais nada. Encostei a cabeça ao ombro dele e ficámos os dois, assim, por longos minutos. Só tenho pena que o avô não tenha podido ver com os seus olhos o meu rosto iluminado de felicidade por ter partilhado com ele o segredo mais bonito que guardava no coração.

V

Hoje é quarta-feira e tenho de ir ler para o avô. Ainda bem que me consegui despachar na cantina da escola! Ainda não escolhi o livro que vou levar para lhe ler. Talvez lhe leve hoje poesia. Ou talvez não. A poesia pode ser muito deprimente. Quando chegar a casa logo vejo o que a mãe tem na estante ou o que ela me sugere. A mãe sabe sempre o que é melhor para os ouvidos do avô, sobretudo quando ele está assim, mais rabugento e deprimido. Uma boa história consegue sempre dar-lhe outro ânimo e, na melhor das hipóteses, fazê-lo sorrir um pouco. Mas agora tem sido mais difícil, o avô tem andado mais cansado, mais aborrecido do que o habitual e parece que nenhuma leitura o anima, nenhuma história o cativa. Às vezes, parece que já nem eu lhe consigo arrancar um sorriso.

Na escola, a professora de português disse que devíamos ler um livro até ao final do mês e apresentá-lo à turma. Escolhi “Os livros que devoraram o meu pai” de Afonso Cruz. Acho que vou ler-lhe esse. Já o terminei, assim também faço uma releitura para o trabalho. Além disso, a história remete para outras histórias e outros autores clássicos que tenho a certeza que o avô conhece. E depois tem uma bonita e trágica história de amor pelo meio.

Cheguei a casa do avô, e ele estava à lareira, na cozinha, por causa do frio que era muito naquele dia. Tinham acabado de tomar um chá e a minha avó contava-lhe um episódio qualquer que se tinha passado com o cão da vizinha e ele só respondia um “hum-hum” sem vontade. Quando percebeu que eu estava na cozinha, disse imediatamente, fingindo algum entusiasmo:

— O que temos hoje, querida Sofia? Um policial? Um romance?

— As duas coisas, avô — disse sorrindo.

A minha cadeira já estava ao pé do avô e na mesa havia uma terceira chávena de chá e um prato cheio de bolachinhas de chocolate acabadas de sair do forno, as mesmas que eu comia quando tinha quatro anos e que a avó costumava fazer para mim. Bebi um gole de chá e trinquei uma bolacha antes de iniciar a leitura. E como se o avô percebesse a minha pressa para comer a bolacha, acrescentou:

— Eu tenho todo o tempo do mundo para ti, Sofia, aprecia o teu chá e as tuas bolachas, que a tua avó acabou de as fazer e frias não têm graça nenhuma.

A avó sorria em silêncio, ao olhar para a nossa cumplicidade, enquanto arrumava a loiça lavada cuidadosamente para não nos incomodar, ainda que eu não tivesse começado a leitura.

Peguei, então, no livro pequeno entre as mãos e, antes de iniciar a leitura, fiz a descrição mais aproximada que pude da capa do livro: amarela, com o título a letras vermelhas, umas flores e umas borboletas no cimo e a figura de um homem vestido a rigor, de fato e gravata, com uma bengala, mas com uma cabeça de cão e chapéu de coco. O avô franziu o sobrolho com tal descrição, mas ficou calado. Não gostava de comentar o livro sem o ter ouvido na íntegra.

Comecei a ler, mas desta vez, esqueci-me de mim e, ausente na leitura, fui fiel a cada palavra, a cada acontecimento e às personagens da história. À semelhança do protagonista, Elias Bonfim, eu também tinha entrado na história que estava a ler e me tinha perdido na leitura. Não inventei nada, não adulterei uma palavra, não acrescentei uma vírgula. Terminei a leitura já a noite tinha chegado e a minha avó e a mãe se tinham juntado à volta da mesa e da lareira para ouvir a minha narrativa, beber chá e comer as bolachas. Já devia passar das dez da noite. Fez-se um silêncio bom como aquele que acontece quando acabamos um belo repasto e não dizemos nada nos cinco minutos seguintes como se isso permitisse acabar de saborear a comida.

Foi então que o avô inclinou a cabeça na minha direção e me sussurrou, de modo a mais ninguém poder ouvir:

— Linda história! Só não percebi se o Eduardo é o Bongo ou o Elias. Oxalá não tenha comido tantos pastéis de nata! — e piscou-me o olho.


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