LUCAS CASTOR

a Margarida

1.

A Margarida eu conheci numa rua ensopada de Coimbra no final do verão de 2023. Eram meus primeiros dias em Portugal e Portugal se apresentava como Caxambu. Depois da chuva, as poças acumulavam-se nas calçadas de pedrinhas… portuguesas? Pombos tomavam banho e um manequim com olhos bem pequenos vestia roupas de inverno e se projetava na Câmara Municipal, como se fosse reencarnar a qualquer momento vereador da estação errada do ano. Coimbra, Portugal, Europa, Brasil, Minas Gerais, Caxambu. Eu fugia de casa e retornava às ruas do subdesenvolvimento.

A Margarida eu reconheci de costas, apesar de ser péssimo com fisionomias. Tínhamos um grupo de mensagem dos alunos do mestrado de Escrita Criativa, criado pela Maria assim que saiu o resultado dos aprovados.

Depois de passar pela segurança do aeroporto de Guarulhos, estiquei as pernas em cima da mala de bordo e abri as fotos de perfil dos meus futuros colegas, tomando cuidado para não ligar sem querer para ninguém, sobretudo para as garotas, que eram maioria. Tinha uma chance de não ser tomado como um pervertido logo de cara.

A foto da Margarida era de costas, um cabelão preto num formato de vassoura, duas mechas azuis escapando das bordas para um fundo borrado verde-escuro. Pensei ser uma floresta. A caminho da praça 8 de maio, eu continuava ruim de fisionomia, mas consegui distinguir duas mechas azuis, contra as paredes brancas rachadas e mofadas da cidade. Segui-a por alguns metros, até me incomodar com meus passos, então me apressei e toquei no moletom preto com capuz caído. Margarida? Foi a primeira vez que vi uma mulher se assustar sem perder o sono.

É o Lucas, e claro que ela não sabe quem diabos é o Lucas. Castor. Do mestrado. Ah. Vai tomar café antes da aula? Claro que vai tomar café antes da aula, são três horas direto. Vamos tomar um café antes da aula? Minha esposa preferiu ficar no hotel, passou mal à noite, camarão num indiano. Você nem tem esposa e quem come camarão no indiano? Vamos, há o Santa Cruz. Ótimo, preciso de um café. Nem café você toma. Ela amarra o cabelo e as mechas desaparecem. Seus olhos estão grudentos, você foi contaminado pelo sono. Um americano, por favor.

A Margarida estava confortável sem falar nada, como se o barulho das xícaras, multiplicado pelo pé direito alto do Santa Cruz, fosse a conversa da mesa. Perguntei sobre o que escrevia. Não sabia, qualquer coisa, na verdade ainda não tinha escrito quase nada. Há pouco formara-se em Desenho, e mais desenhava do que escrevia. Pedi para ver uma obra, disso isso mesmo, obra, então suas bochechas se curvaram para dentro, como se o chantilly que chupava tivesse a textura de uma banana verde. Não gosto de mostrar, e as xícaras subiram de volume.

– Mas, tipo, se você tivesse que escrever sobre alguma coisa… o que seria?

– Incesto.

– Incesto?

– Uhum.

Pronto, eu estava em casa. Enfim minha formação em Antropologia serviria para algo. Todos aqueles congressos em Caxambu, as bolhas na água da minha cidade.

– Pode crer. Incesto é bom. Já leu Lévi-Strauss?

Claro que a garota de vinte e três anos formada em Artes não leu Lévi-Strauss.

– Acho que já, alguma coisa. Tive uma cadeira de Introdução à Antropologia.

– Ele diz que a única regra social universal e você fala um monte de coisa de que não tem tanta certeza quanto parece.

– Hum. A aula é às dez.

São ainda nove e vinte, a Margarida fala às dez tentando curvar o tempo, como curva as bochechas. Salve a conversa.

– E Crônica da Casa Assassinada? Já leu? E você deu o grande spoiler do livro.

– Nunca. É sobre o quê?

– Lúcio Cardoso. Grande escritor, não tem o valor que merece. Morreu muito novo, de AVC. A Clarice Lispector tinha um crush nele, mas era homossexual. Por que você não disse simplesmente gay?

– AVC?

– Sim.

– Com quantos anos?

– Quarenta, eu acho.

– Quarenta, tás a dizer?

– Quarenta, mas não tenho certeza.

Crônica…?

da Casa Assassinada.

Aqui acabou a conversa. A Margarida tirou do bolso de canguru do moletom um Kindle de capa roxa de couro. Imaginei um jacaré violeta boiando nas poças da Rua Direita. Ri para dentro, mas buscando os olhos dela. Estava imersa, tinha outra fisionomia. As bochechas haviam retornado às maçãs do rosto. O piercing do nariz e o do lábio pareciam polidos, como se os funcionários do café os tivessem lustrado junto com as xícaras antes de abrir o Santa Clara. Descruzou as pernas e se afundou na cadeira, levou o Kindle à altura dos olhos e desapareceu. Eu não existia mais.

Acenei para o garçom.

– Pois não?

– Um chopp, por favor.

– Desculpe?

– Chopp, vocês têm?

– Não percebo, senhor.

– Cerveja?

– Agora?

– Tem razão. Um americano, então.

– Outro?

– Suco de laranja?

– Sumo?

– Isso.

– Pois não. E a senhora, quer algo mais?

Margarida não respondeu. Havia entrado na Crônica, era possível ver o mecanismo humano saltando as linhas no movimento de seus olhos. Eu espiava por cima do Kindle, tentava voltar à chácara dos Menezes pelo reflexo da versão digital de um livro que, se me dessem de olhos vendados, eu saberia dizer o peso.

Nunca haviam acatado uma sugestão minha de leitura tão rápido. Para dizer a verdade, não me lembro de terem aceito qualquer recomendação que dei. Nem mamãe, que me presenteou com a Crônica quando me mudei pra Belo Horizonte, leu o Grande Sertão. E como eu insisti. Eu queria saber mais da Margarida, perguntar de onde vinha o interesse pelo incesto, mas tive de engolir o sumo de laranja, torcendo para que diminuísse o suor, a queimação e a tremedeira da cafeína. Às nove e trinta, era eu que curvava as bochechas para as nove e quarenta.

– Oi, Margarida? Desculpa, é que já tá quase na hora da aula. Vamos indo?

– Pode ir, vou depois.

2.

2027, 2029, 2031 e agora 2033. A cada dois anos e nas férias de verão, nossa turma fazia uma reunião na Galeria Santa Clara, do outro lado ponte. Claro que nem todos participavam, a Carol morava em Singapura, onde dirigia o Partido Neomarxista, fundado primeiro numa novela ambientada na ilha, mas que depois acabou tomando as ruas, tamanho foi o entranhamento que o livro dela teve na imaginação social dos insulares. Era o orgulho dos professores, eles brincavam dizendo para as novas turmas que enfim a literatura ensinada serviu para alguma coisa. Gabriela lecionava em Berkeley, o Pedro virou ermitão na Gold Coast australiana, Tibério morreu numa queda, a Maria adaptava o próprio romance para uma sequência de filmes que diziam ser o novo Senhor dos Anéis, mas a maioria continuava em Portugal. Poucos tornaram-se escritores profissionais.

Eu editava, e minha editora não vendia nada. Lisboa estava cheia de leitores à procura de traduções, mas a Desterro apostava em autores lusófonos imigrantes em Portugal. No momento, pendíamos pela trigésima vez no século vinte e um para a xenofobia, o Chega governava de novo. Os encontros bienais no Santa Clara eram uma oportunidade para eu implorar a ajuda dos colegas na divulgação da Desterro. Para a maioria eu pedia que comentassem com seus contatos sobre nosso trabalho, pela importância de dar voz aos brasileiros, aos africanos e aos asiáticos que reclamavam o direito à terra que lhes havia sido roubada. Era só eu chegar perto com meu copo de fino e as maçãs do rosto se viravam para dentro, lá vem o Castor choramingar.

Para a Margarida, eu pedia que publicasse com a gente. Ela foi a escritora mais premiada da nossa turma. Não era a que mais vendia, mas ganhou o Saramago, o Camões e uma tradução no National Book Awards. Se com muito custo deram o braço a torcer pela tetralogia napolitana de Ferrante, os críticos tiveram de fazer malabarismos para explicar como a hexalogia coimbrã de Margarida tinha o tamanho correto para contar a tragédia dos irmãos Alexander e Ana. Duas mil e seiscentas páginas na edição de capa dura da Porto, com ilustrações dela e da Maria.

Estávamos mais uma vez no andar de cima da Galeria, a luz insuficiente e as quatro caixinhas de som a dois metros e meio de altura tocando versões em bossa nova de Taylor Swift. Pelas janelas escancaradas entrava o bafo do Mondego, eu arrependido de ter pedido o bacalhau. O Duarte me explicava como o três-cinco-um do Benfica no jogo do dia anterior foi o determinante na derrota de seis a um pro Milan. E eu, tipo, porra, Duarte, tu nunca falou de futebol, que diabo é isso? Estávamos no terceiro aperol e o Duarte ria da minha cara, não teve jogo nenhum, Castor.

A Margarida tocou nas minhas costas, não sei por que eu pensei ser uma garçonete, como se uma garçonete fosse cutucar um cliente no meio da conversa. Eu me assustei e, quando me virei e vi os olhos apertados dela, senti um sono repentino.

– Oi, querida?

– Aqui, toma.

– Que isso?

– O sétimo. Queria que lesses.

– Sério?

Ela já tinha virado as costas. Fiquei com a impressão de que bebia uma margarita, mas só me lembro com clareza do sobretudo vermelho que passava dos tornozelos, cobrindo botas que não sei se eram longas ou curtas, mas pretas. Pedi licença ao Duarte e fui a uma das poltronas dos cantos do sótão. O veludo grudava minhas costas na polo. Fiquei com medo de molhar as páginas, enxuguei as mãos na calça, a testa na camiseta. Senti o peso do manuscrito e pensei que segurava um recém-nascido, um bebê mole e imbecil. Não podia deixá-lo cair. Li na primeira página, Alexander morre, Ana morre, em baixo, Margarida Conde.

3.

Continuas trágico. Morreste pela pedra e com ela me atirou ao fundo desta casa. Volto ao teu quarto quando não encontro o que fazer com as mãos, depois de um dia inteiro de contar as coisas perdidas. Ajeito na secretária os headphones que te deixaram com o ouvido esquerdo quase surdo. A mãe avisaste. Eu tocava-te os ombros frios, mas tu fingias a surdez, mesmo antes dela. Reconhecer-me pelo olfato não era o mesmo que dar pela minha presença. Ignorou-me como a estátua que nunca amoleceu aos teus desenhos. Ignora-me morto.

Nas buscas pelo teu corpo, os bombeiros deram aos cães pedaços das tuas roupas íntimas. A Antónia buscou-as nos armários que dividiram. Eu levei também um par das nossas meias de Inverno. Na verdade, as meias que me roubaste, arrancando-as dos meus pés quando me vias nelas. As meias que a mãe deu-me no Natal. As meias que sugeri usarmos, cada um, um pé, mas negaste com o gesto violento. As meias com as quais eu acordava nas manhãs húmidas depois de uma noite em que supostamente o medo do escuro acometera-te. O pastor cheirou-as e espirrou, o bombeiro disse que era bom assim.

Só me reconhecias no escuro, Alex. Agora volto à floresta nas sextas à noite, pois a diretoria não me estendeu a semana de luto. Entro no Mustang de luvas e conduzo quase sem tocar no volante. Sinto queimar-me o que é de couro dentro do carro. Estaciono na clareira e vou flácida pela trilha, feito as anêmonas do nosso aquário. A respiração acalma-se, começo a perceber teu cheiro subindo pelos pinhais. Mais forte quanto mais perto do solo.

Casaste com a Antónia num agosto. Pensavas que se a festa ocorresse no verão tudo desapareceria. Entretanto os casamentos desses dias duram até muito tarde, Alex. Sobretudo no verão. Culpaste a ginja, mas sabemos que foi a noite a responsável pelo soco que deu no meu namorado. Beijávamo-nos e agora eu beijo outro, louro também. Como a Antónia.

Deito-me na base da pedra. Estás por todo o sítio. Tiro as luvas e toco o calcário. A pedra é ainda a pedra. Eu disse-lhe.

4.

Tentei alcançar o aperol sem tirar os olhos do manuscrito, mas não o encontrei. Tive de levantar a cabeça. O copo estava distante na mesinha, só tinha água, gelo derretido. Procurei um garçom, mas já era tarde, não subiam mais a escada para atender a cinco pessoas no sótão. Bruno, Amanda e Duarte conversavam na mesa, tomavam um tinto e riam. Tentei pescar a piada, imaginei que relembravam a professora Capinha, mas meus olhos escaparam pela janela. Vi a ponte, a baixa de Coimbra. Apertei os olhos para ver se percebia alguma floresta de pinhais perto do rio.

Estava voltando ao manuscrito, mas percebi o sobretudo vermelho escapando pelos lados de uma poltrona na outra diagonal do sótão. Fui andando até ela. Cutuquei-a. Não se assustou. Em dez anos, eu envelheci vinte, Margarida dois, três no máximo.

– Tá lendo o quê?

– Crônica da Casa Assassinada.

– Uai, achei que você já tinha lido. Lembro lá no Santa Cruz, naquele dia…

– Eu nunca terminei. E aí, o que achou?

– Do seu livro?

– Uhum.

– Eu nem terminei o primeiro capítulo ainda.

– Hum.

– Mas, pô, não é pra mim que você devia dar, Margarida. Tu sabe que eu gosto de qualquer coisa que você escreve.

– Há uma coisa, nunca perguntei.

– Quê?

– Tens irmãos?

Senti as maçãs apodrecerem no meu rosto.

5.

A Margarida fechou a Crônica onde calculei ser ainda o Diário de André, então se levantou da poltrona com dificuldade, como se tivesse o velcro positivo nas calças, o negativo no assento. Era mais alta do que eu. Quis colocá-la ao meu lado, pedir aos colegas que nos medissem com um lápis numa das paredes do Galeria. Deixar marcado, junto às fotos de Tom Spencer, o alcance das nossas cabeças. Como mamãe fez comigo e com Gabriel, até Gabriel se recusar, quando descobriu que eu apagava as marcas dele e fazia outras mais em baixo.

O bafo do Mondego passou do bacalhau à torta de chocolate. Tinha fome, e tinha comido muito. Já vou, a Margarida falou mais para a Amanda, para o Bruno e para o Duarte do que para mim. Eu estava a dois metros, eles a dez, mas em mim ela deixava uma marca que não sumiria ali, quando os garçons fechassem as janelas do bar.

A Amanda também já ia. Dividiriam um Uber. Disseram que tirariam fotos do motorista e enviariam ao nosso grupo, para, caso desaparecessem, identificássemos o predador. Rimos, depois uma ambulância nos deixou em silêncio. Imaginei a Margarida na trilha da floresta, múltiplos Alex enterrados debaixo do solo úmido. Reprimi a identificação da autora com a obra. Eu não suportava as associações autobiográficas que faziam com meus contos, e ali estava, fazendo o mesmo com ela.

– Digamos que fosse um três-cinco-um…

– Ih, lá vem ele de novo.

– Fumamos uma erva?

– Me dá pânico.

– E a Desterro, Castor, como vai?

– Enterrada. Precisamos de grana.

– Tás a ver? A empregabilidade…

– Uma merda. E a banda?

– Vai, vai…

O Bruno olhava para um lugar longe daquelas paredes. Não piscava. Escrevia, segurando uma faca, qualquer coisa pontiaguda.

– Acorda, bichão! Terra para Bruno…

– Opa, foi mal.

– Tá pensando no quê?

– Tô lendo.

– A parede?

– Meu próximo livro.

– É sobre uma faca?

– Exatamente.


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