MANUEL PORTELA

13 contos

LEEL (ler escrever, escrever ler)

Pedagogia Palindrómica

Os contos reunidos nesta antologia foram produzidos como exercícios finais do seminário “Leitura e Performance” do Mestrado em Escrita Criativa da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, entre finais de 2023 e inícios de 2024. A proposta era escrever um conto até 3000 palavras com o título “A leitora” e fazer um registo áudio da sua leitura. A ideia de reunir e publicar estes treze contos resulta quer da minha perceção de que o trabalho realizado nos permitia ir um pouco mais longe, quer do próprio entendimento das autoras e autores de que os seus textos e gravações mereciam circular fora do contexto original. Para a versão que agora se publica, a maior parte dos textos foi objeto de pequenas revisões e foi também regravada em março de 2024. A obra coletiva A leitora segue a lógica transmédia da ecologia medial contemporânea, apresentando-se ao mesmo tempo como livro e audiolivro digitais (publicados pelo Laboratório de Escrita em colaboração com o MATLIT Lab), e ainda como livro impresso (publicado e distribuído pela editora Carma).

Aquele contexto de produção está indiretamente presente em todos os contos, já que há situações narrativas e personagens que evocam quer os atos corporais e sociais de leitura, quer os processos estocásticos de construção de sentido que constituíram o cerne do seminário. De resto, o mergulho experiencial na performatividade da leitura foi testado autoetnograficamente através da leitura coletiva, capítulo a capítulo, durante quatro semanas, da obra de Italo Calvino Se numa noite de inverno um viajante (1979). Mas a presença das reflexões e teorias sobre o entrelaçamento quântico da leitura e da escrita nestes contos parece ser tanto mais forte quanto mais oblíqua e indireta. A principal justificação para esta antologia é justamente o grau de autonomia dos contos em relação ao seu contexto de produção, sinal do grau de autonomia criativa das suas escritoras e escritores.

O que importa sublinhar a abrir este posfácio é aquilo que o processo e o resultado testemunham como possibilidade de concretizarmos uma prática de escrita que estrutura a interação pedagógica enquanto espaço propiciador de liberdade criativa e de aprendizagem colaborativa. O conteúdo do seminário – isto é, um certo conjunto de problemáticas, textos e teorias – torna-se alimento de processos de escrita diferenciados e da imaginação singular de cada escritor/a. Não se trata de produzir textos que tenham de ser comparados com alguma espécie de versão melhorada e ideal de si próprios – e com isso reafirmar a autoridade da instituição que valida a aprendizagem –, mas de reconhecer na concretude e provisoriedade do processo e do resultado a expressão do potencial criativo individual e coletivo. O seminário tentou ser a confluência temporariamente sincronizada dessa potencialidade. Esse foi o seu objetivo último.

Por isso esta antologia não é apenas uma montra da qualidade concetual e da diversidade literária dos treze contos. Constitui igualmente uma demonstração de que é possível construirmos relações e processos pedagógicos sem uma definição rígida de modelos de validação. Embora a criatividade seja um valor universalmente apregoado, também pelas instituições de ensino, a observação mostra que grande parte das interações pedagógicas a substituem pela padronização de procedimentos e resultados. Ao definir-se como espaço de aprendizagem para a prática da imaginação através da escrita, o Mestrado em Escrita Criativa tem de ser capaz de alargar essa capacidade imaginativa às suas próprias práticas de ensino e de avaliação. Cabe-nos, em particular, reiterar a pergunta o que é possível? e responder-lhe com o máximo de imaginação. Esta antologia é possível. O processo coletivo que resultou nesta antologia é possível. Outras relações e formas de comunicar são possíveis.

É interessante verificar a amplitude estilística e de afinidades de género e subgénero nesta pequena amostra. Reconhecem-se modelos e estratégias narrativas que vão do realismo social ao realismo mágico, da ficção científica à fantasia gótica e ao terror, da narrativa de viagem à paródia metaficcional e à fan fiction. Nos destinatários preferenciais implícitos, encontramos quer o leitor adulto indiferenciado, quer o jovem adulto, quer ainda o público infantojuvenil. A figuração da leitura e das leitoras em cada um dos contos testemunha a diversidade de referências e de intenções de autoras e autores. De algum modo, os seus regimes de leitura não podem deixar de plasmar-se na sua escrita, permitindo-nos apreender a retroação que sustenta todos os processos de lectoescrita. Afinal escritoras e escritores são, por inerência de ofício, “as leitoras” e “os leitores”. É todo um universo de socialização que ecoa nessa flexão gramatical e que nos irmana às criaturas e aos mundos que ficcionamos.

Os contos foram organizados em duas partes, com base numa combinação de critérios cuja ponderação relativa no agrupamento foi variável. Por um lado, foram considerados os modos particulares de tematizar e encenar os atos de leitura em cada narrativa; por outro, foram tidas em conta afinidades formais e de género. Em alguns casos, a afinidade na tematização induziu a sua inclusão numa das duas partes; noutros casos, a afinidade genológica pesou mais na sua inclusão. Este exercício editorial permite observar a relativa independência entre a tematização da leitura e a sua narrativização ficcional. Na primeira parte, “LLL-1: livros leem leitoras”, encontramos estórias em que a consciência da agência do livro faz com que este tome a forma de narrador de primeira pessoa, personagem ou surja mesmo como uma espécie de energia cósmica universal. Na segunda parte, “LLL-2: leitoras leem livros”, a materialidade da leitura surge menos vinculada à transfiguração do real e mais situada nas suas dimensões cognitivas, afetivas e sociais.

LLL1 (livros leem leitoras)

Figuração e Transfiguração

página um sete um. lembro de cor. lemos várias vezes juntos. porque não são apenas as pessoas que leem os livros. nós, do outro lado, também lemos quem nos lê. é um espelho. no instante em que as pontas dos dedos humanos levantam a extremidade de nossas margens inferiores para virar a página, a celulose se agarra com força proporcional às falangetas vestidas de digitais. (Bruno Molinero)

A antologia tem início com “A leitora” de Bruno Molinero. Começamos pelo mergulho no denso monólogo interior de um livro de bolso levado na enxurrada, cuja narração de primeira pessoa oferece o testemunho sobre a vida da segunda personagem (“o menino”, “a leitora”), alternando o momento presente, em que o livro flutua na enchente causada por um temporal na cidade, e momentos passados, que nos dão a ver o mundo social e o dia a dia do menino. A segmentação do texto através de frases (por vezes, apenas parcialmente legíveis) do livro que se está a desfazer na água, à medida que se recorda das suas inscrições espelhada nos atos de leitura, marca transições de tempo e de espaço, dando pistas para imaginarmos os acontecimentos evocados por um livro senciente. Neste relato transgénero, a crueza do retrato da vida marginal e da violência da cidade é diretamente transposta para a linguagem verbal e para a estrutura narrativa. A segmentação em frases curtas, que funcionam por parataxe, sem conectores sintáticos, cria um ritmo sincopado que intensifica o efeito de corrente de consciência. O conto articula com significativa complexidade a dimensão micronarrativa, de grande riqueza lexical, com a dimensão macronarrativa, marcada pela composição arquitetónica de cada uma das sequências. O evidente sentido de progressão narrativa e a capacidade de explorar a ambiguidade, a sugestão e a referência oblíqua agarram o leitor da primeira à última palavra. A “leitora” lida pelo livro inverte as expectativas de agência, problematizando o processo de atribuição de sentido.

O mundo social evocado em “A leitora” de amanda santo está, de certo modo, em contiguidade com o que é simulado no conto anterior. As favelas arrastadas pelas cheias ou as casas precárias nos túmulos e nas criptas da vila-cemitério pertencem aos mesmos grupos sociais, obrigados a sobreviver de forma precária nas margens da economia. A unidade narrativa da voz e perspetiva de Duma são marcadas também através dos seus usos da língua, permitindo inferir o Cemitério Nossa Senhora das Almas Tristes como lugar ficcional não meramente coincidente com lugares físicos e sociais. A evocação direta e indireta da interioridade da personagem resulta também da composição rítmica da voz narradora através da segmentação do texto segundo convenções da paginação de poesia. A desvelação calculada da informação narrativa, quer sobre a realidade social da personagem e dos habitantes do cemitério, quer sobre a ação misteriosa do aparecimento recorrente dos livros no túmulo de Jerônima Caldas, contribui para intensificar o envolvimento do leitor. A tensão reflete-se na autorreferencialidade da simulação do processo e no desfecho em aberto, que deixa ao leitor a interpretação da experiência enigmática de Duma e dos livros que vêm do túmulo: “abre a tumba devagar / olha para o fundo da caixa / quase não pode acreditar”.

Em “A leitora” de Clara S., a leitora surge como reescritora, uma espécie de agente de retrocensura e de higienização literária universal. O conto explora exemplarmente a sua premissa – a de um mundo em que a reescrita é praticada de forma sistemática e programática. De um ponto de vista formal e temático, remete para convenções da ficção científica e da narrativa distópica. Seja na definição coerente de voz e perspetiva (Lia), de construção metonímica de espaços e ambientes (Sala de Leitura, Imperial Gabinete de Leitura, etc.) e de densificação sucessiva das inúmeras implicações da situação ficcional de partida – por exemplo, uma espécie de escala negativa do valor literário (“um livro perfeito para a sua reescrita melhorada”) e outros paradoxos decorrentes da premissa. A combinação de focalização interna e narração de terceira pessoa reforça a consistência do fluxo de consciência da personagem. A reiteração da rotina da leitora-reescritora com elementos de repetição e variação contribui para imergir o leitor na absurdez sistemática dessa rotina. Além disso, ao tornar os processos de apagamento e reescrita materialmente evidentes no texto e no áudio (apagamento parcial do texto e mistura da voz da autora com excertos da coleção “sinister sounds of the solar system”), à medida que o conto avança, o efeito de estranheza é experienciado cognitivamente pelo leitor, tornando impossível fechar a narrativa e aumentando a sua ambiguidade e o seu potencial de sentido. A vocalização e sonorização áudio traduzem, por um lado, a dimensão rotineira e burocratizada da reescrita e, por outro, a anomalia normalizada que a rasura representa. Evoca ainda, como alusão subliminar e oblíqua, os inúmeros começos e interrupções narrativas da obra de Calvino.

“A leitora” de Camila Filipa recria de forma sugestiva a cena da leitura através da produção ritualizada de sentido e interpretação que carateriza a pragmática litúrgica e homilética. Recorrendo a uma narrativa de segunda pessoa com focalização interna na personagem da leitora que deseja a cantora, mostra-nos o conflito entre a disciplinação do corpo, instado a interiorizar as exortações dos textos bíblicos (evangelhos, salmos, epístolas) e o reconhecimento da presença do desejo no próprio momento em que a liturgia tem lugar. A função disciplinadora do desejo que emana do protocolo de leitura religioso, poderosa tecnologia de regulação da subjetividade, é dramatizada por meio da intersecção entre o ato de leitura em pleno ritual, a memória autobiográfica da personagem e a atração carnal entre leitora e cantora. A contradição entre disciplina e desejo na estruturação da economia psíquica do sujeito é exposta com distanciamento e ironia, mostrando, com leveza e sentido de humor, o dispositivo dialético do pecado e do perdão. A construção – alternando recordações com a sequência temporal de microeventos durante a missa de sábado – mostra sentido de economia e progressão na alternância entre narração e diálogos, e um sentido forte de unidade narrativa, sublinhado pelo final. O registo da leitura em voz alta sugere a mistura entre a introspeção da personagem e o ato de leitura pública na igreja, fazendo com que todo o conto possa ser reinterpretado como uma paródia de um texto litúrgico. Através da leitura autoirónica da interioridade da personagem, o próprio monólogo interior surge como tecnologia alternativa à liturgia na construção do sujeito.

Nos dois contos seguintes, a agência do livro, da escrita e da leitura combina tropos da fantasia, do fantástico e do gótico. “A Leitora” de Gabriella Andrietta coloca em cena duas personagens principais, Myra e Leitora, e estrutura toda a narrativa com base no seu diálogo. O mundo evocado é o das narrativas de fantasia, e das convenções do maravilhoso que as carateriza. As personagens têm consciência de serem criaturas produzidas pela figura mítica da Escritora, que determina, como as parcas do destino, o que acontece – a morte de Callie às mãos de Myra ou o seu casamento com Kastos. Na sequência final (após o desaparecimento de Myra), a Leitora dirige-se aos Leitores do próprio texto, evocando a coincidência entre escrita e leitura como fundamento ontológico do mundo criado pela palavra (“Por hora, vou deixar você em paz para seguir o seu caminho, esse mundo já deu tudo que tinha a oferecer. Talvez nós nos vejamos de novo, talvez não...”). A estratégia narrativa usada integra elementos metanarrativos nas convenções da narrativa de fantasia, encenando a performatividade da leitura e da escrita através da vinculação entre leitora-personagem e leitora-empírica, e entre escritora-personagem e escritora-empírica.

“A leitora” de M. L. Vieira estrutura-se em três momentos: no primeiro momento, no meio de uma tempestade numa cidade obscurecida, Lavínia entra e adquire o livro vivo que vê na montra de uma loja; no segundo momento, Lavínia regressa a casa, pousa o livro sobre uma mesa cheia de engrenagens e tem um pesadelo no qual se misturam uma caverna, um precipício, mar, névoa, montanhas, um castelo e um olho gigantesco que a observa do céu; por fim, no terceiro momento, Lavínia acorda e toca na “casca latejante” do livro, abre-o e vê-se projetada num mundo semelhante ao que testemunhara no pesadelo, vendo-se consumida pelo próprio livro (“Corpo e alma. É consumida.”). O conto termina com a presença ameaçadora, tentacular e canibalística de um livro vivo, de cujo alfabeto alienígena se escutou o sussurro por três vezes anteriormente (na loja, no sonho, em casa). As convenções estilísticas e de construção dos ambientes humanos e naturais ecoam modelos da literatura fantástica e de terror, em particular na evocação do sobrenatural através da associação onírica de elementos contrastantes (escuridão, tempestade, contraposição de escalas). A ficcionalidade da linguagem e do livro enquanto construtor de mundos surge assim alegorizada, destacando-se a ficcionalização metafórica da leitura enquanto processo de devoração da leitora. O ambiente fantasmagórico da narrativa tem expressão no ritmo das frases e permite-nos apreender a função da transição entre terceira e primeira pessoa como um dos elementos da projeção emocional da perspetiva de Lavínia no leitor.

LLL2 (leitoras leem livros)

Cifração e Decifração

“Na dança atemporal entre quem escreve e quem lê, uma alquimia sutil ocorre. À medida que tu, Ludmilla, mergulhas nas palavras que compartilho, e eu, Mary Shelley, sou evocada por tua leitura, juntas desencadeamos uma metamorfose em que partilhamos os nossos pensamentos. Nada permanece igual, tudo se mistura.” (Ana Braz)

Partindo da noção de leitura como decifração infinita, “corrente de ar” de Pedro Palma revisita ironicamente o ensimesmamento da teoria literária com especulações e intuições reificadas acerca do processo de comunicação escrita. A paródia divide-se em duas partes: na primeira, somos conduzidos por um narrador de primeira pessoa que é uma autora que ficou fechada dentro de casa, não consegue sair para participar no lançamento da sua obra e decide telefonar para os bombeiros a pedir ajuda; na segunda, ocorre a mudança para um segundo narrador de primeira pessoa, que percebemos ser o leitor e apresentador do livro que está à espera da chegada da autora. A contraposição de uma autora encerrada que não consegue chegar ao lugar de leitura, e um leitor que especula independentemente da presença da autora recria parodicamente o processo de comunicação literária, por um lado, e as teorias sobre o processo de comunicação literária, por outro. O debate sobre as soberanias relativas de autor e leitor adquire contornos patéticos e burlescos. A dramatização da prática de leitura e da prática social de lançamento de livros é feita com economia narrativa, dinamismo na alternância entre diálogo e narração, e com deliciosa autoironia. Paródia da obra de Calvino e do próprio seminário que o motivou, o conto recifra numa pseudoalegoria as chaves teóricas de que parte. O desenlace – com o leitor incapaz de encontrar a saída e com múltiplos autores fechados nos seus compartimentos sem desejo de sair – confere unidade cómica ao conjunto, aumentando a ambiguidade e o jogo.

Em “A leitora” de Rita Andrade, a unidade narrativa estabelece-se a partir do ponto de vista da narradora e da sua introspeção e observação do mundo numa viagem de comboio. A reflexão existencial combina-se com comentários irónicos sobre os acontecimentos antes, durante e depois da viagem. Um dos elementos de estruturação da estória está na duplicação da figuração da leitora, como sujeito e como objeto. A relação imaginária construída entre a leitora de Jane Austen e a leitora de Jon Fosse parece sugerir, ao mesmo tempo, o desejo de leitura como desejo pelo outro e a aleatoriedade do “ciclo natural das coisas”, captado nos vários momentos do percurso do comboio. A projeção do sujeito num universo ficcionado através da leitura é evocada através da caraterização de ambas as leitoras a partir das suas leituras. A perspetiva distanciada da narradora oscila recorrentemente entre pathos e autoironia de um modo que contribui para unidade enunciativa da sua voz. Essa distância não esconde, todavia, o desejo de resolução final, com a aparente relação especular entre as duas leitoras, transformando a leitura numa figura arquetípica do desejo amoroso. Desejo e desejo de leitura confundem-se.

“A leitora de Dante Romano” de Margarida Conde, cuja ação é narrada em perspetiva de primeira pessoa por Dante Romano, professor de arte e falsificador de quadros, constrói um retrato caricatural da aristocracia italiana consumidora de arte. As convenções descritivas e de diálogo combinam elementos da literatura romântica e policial, com ecos de Edgar Allan Poe e de narrativas de mistério e fantasia. Os ambientes e nomes das personagens (como Abigail Lestrade) contribuem para essa associação. O conto tem um foco preciso e organiza a progressão narrativa em função desse foco, instaurando ambiguidade relativa à personagem da jovem investigadora que descobre as falsificações. A natureza equívoca (genitiva e dativa) da expressão “A leitora de Dante Romano” sugere Dante como objeto de leitura (criatura que é decifrada), mas também como autor da própria leitora (cifrador da obra falsificada). A natureza produtiva da leitura surge traduzida de forma quase alegórica, também através da linguagem na caraterização das personagens e das suas intenções segundo convenções de género, seja na perspetiva do narrador, seja na dinâmica dos diálogos entre Dante e Abigail. A ativação dessas convenções é crucial para a eficácia metonímica da narração, mostrando que o pastiche de uma forma é crucial para que um mundo ficcional possa coalescer numa figuração internamente consistente.

“A leitora” de Ana Braz dramatiza uma comunidade imaginária de leitura em que contracenam personagens oriundas do romance de Calvino (Lotária e Ludmilla) e personagens de escritores (Machado de Assis, Clarice Lispector, Gabriel García Márquez, William Shakespeare, Albert Camus, Mary Shelley, etc.). A confusão ontológica entre personagens e pessoas deriva desse trânsito que o ato de nomeação sustenta entre seres de papel e seres de carne. A condição verbal da sua existência referenciável permite que coexistam num espaço simbólico de fronteiras fluídas. Além disso, a partitura da escrita garante que a sua existência verbal possa ser revivida a cada leitura, segundo uma noção de leitura como conversa entre autores e leitores, entre leitores e personagens, e entre autores e personagens. As transições entre momentos e cenas, através da alternância entre as vozes da narradora e das personagens, concretiza expressivamente as conexões arbitrárias que formam a biblioteca dos leitores e o seu universo de ficções. Recapitula-se, através dos livros e autores que entram em cena, a socialização e disciplinação na prática da leitura, culminando na presença consciente da voz da leitora. Interna e externa à narrativa, ao mesmo tempo produzida pelo texto e produtora do texto, a ação da leitura parece consistir nesse vai e vem entre imersão onírica num universo ficcional e emersão exploratória num universo enigmático de sinais.

“A leitora” de Manuela Sofia Silva constrói-se também em primeira pessoa na perspetiva de uma criança (Sofia) que lê histórias para o avô. O conto divide-se em 5 partes evocando sucessivos episódios de leitura e mostrando, como eixos entrelaçados, a experiência de leitura da criança e a relação afetiva com o avô. As experiências são ficcionadas a partir de livros concretos, citados e referenciados no corpo do texto. A aprendizagem da leitura é sugerida pelo grau de complexidade narrativa dos textos e pela socialização escolar (7 anos, 8 anos, quarto ano, professora de português, etc.). A tensão entre linguagem e perspetiva infantil e linguagem e perspetiva adulta mostra-nos a dificuldade de recriar a perceção subjetiva da criança, como se deixasse de ser possível recuperar essa presença da interioridade passada. O conto recria o processo de socialização na leitura, seja enquanto conhecimento do texto e da linguagem, seja enquanto conhecimento do mundo e de construção do eu mediado pela aprendizagem das palavras. De certo modo, pode ler-se todo o conto como encenação do modelo didático da leitura, que tende a sobre-explicitar as suas próprias noções.

“A Margarida” de Lucas Castor integra na narrativa um conjunto de referências que ficcionalizam a própria comunidade de escrita e leitura que o curso constitui. A narrativa divide-se em cinco partes, projetando a leitora em dois momentos no tempo e colocando o narrador na posição de leitor dessa escritora futura. A ficcionalização com base no grupo de escrita criativa projeta-se num futuro hipotético para os aprendizes de escritor. O espectro de probabilidades desse destino literário antecipado vai da escritora bem-sucedida de impacto mundial ao editor de escritores minoritários sempre à procura de financiamento. A transição entre as secções (incluindo a secção 3, que corresponde ao manuscrito “Alexander morre, Ana morre” lido pelo narrador) contribui para dar uma certa densidade interior às personagens. A predominância de uma lógica de montagem parece sugerir uma narrativa maior, que pode continuar, e evidencia princípios cinematográficos na justaposição das cenas.

A antologia termina com “A leitora” de Ana Carolina Gomes, uma revisitação arqueológica da cena de leitura que o seminário constituiu. Projetado a partir de um futuro pós-apocalíptico, depois da Quarta Guerra, que cobriu o mundo “de uma capa densa de nevoeiro acinzentado”, uma leitora ciborgue (Ela), a precisar de reparar uma prótese, revisita as ruínas da sala (Bloco L – Piso 2 – Sala IENA) e encontra dispositivos mediais dessa era passada – fósseis de livros e computadores abandonados – que se dispõe a ler e a escutar. Ciborgue de limpeza dos blocos modulares que alojavam os sobreviventes, Ela vê-se tomada pela ânsia incontrolável de leitura dos livros que encontra e pelo desejo de escrever: “Enfrentando o monitor, munida do teclado, não chegou a premir a pausa do som. O som de repente dissolveu-se. Não era nada e ao mesmo tempo era um metrónomo das ideias que começavam a surgir. Nasceu-lhe uma gargalhada mal ensaiada, estranha e desconfortável para quem a ouvisse, animalesca e crua.”

Num momento histórico em que os donos das armas do mundo já anunciam, em conferências de imprensa para os devidamente credenciados e com a volúpia da violência antecipada, a Terceira Guerra, imaginemo-nos depois da Quarta, num mundo povoado de ciborgues em que a escrita é um vestígio intrigante e indecifrável de uma prática primitiva. Imaginemo-nos – a nós, às nossas estórias e aos nossos artefactos mediais – como uma pequena camada no registo fóssil do Antropoceno. Um livro soterrado. 13 ficheiros inaudíveis. Restos incompreensíveis de uma estranha vontade de ler e de escrever.


A leitora (2024) [PDF]


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