CAMILA FILIPA
a leitora
lei·to·ra n.f. [Liturgia] Aquela que recebeu a segunda das quatro ordens menores da hierarquia eclesiástica.
Sábado, Semana Vigésima Nona, Ano Ímpar
Em verdade, não costumas ir à missa aos sábados. Apenas te comprometes a marcar presença aos domingos, mas nem sempre consegues cumprir essa promessa. Esta semana, decides vir ao sábado, de modo a combater a tua prevista ausência no domingo (tens um encontro esta noite, que esperas que se prolongue até bem depois da hora da missa de amanhã). Contudo, esqueces-te que a missa matinal de sábado não conta como missa de domingo. Ou seja, na realidade, para seres uma boa praticante, terias de voltar à igreja amanhã, coisa que não vais fazer. Resolves ficar, mesmo assim. Aliás, tudo ótimo, porque esta eucaristia será como as missas durante a semana, que têm menos leituras e cânticos.
Estás sossegada, pronta para iniciar algumas orações pessoais, quando vêm pedir-te para leres a primeira leitura, que nem sequer sabes qual é e nem tens tempo de preparar. Enerva-te, ligeiramente, que as pessoas não tenham noção de que ler, à primeira vista, é um grande desafio. Não entendem que ler, em geral, é uma atividade com uma elevada necessidade cognitiva. Como qualquer tarefa, ler bem, implica prática e preparação sobre a matéria, que é coisa que, neste momento, não possuis. Sabendo que terias de visualizar uma partitura que nunca viste e interpretá-la, exatamente no segundo a seguir, o teu primeiro impulso é recusar. Porém, apercebes-te de que essa poderia ser uma forma de te redimires por, deveras, não estares a ser uma boa cristã. E, para além disso, até te consideras uma boa leitora.
Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Romanos
Irmãos:
Por detrás do ambão fazes uma breve pausa, como habitualmente. Não te recordas se ao subir para o altar fizeste uma vénia ao padre ou ao Santíssimo. Por vezes, ficas ligeiramente confusa com todos os rituais que existem durante a missa, apesar de assistires a estes protocolos regularmente, há mais de 25 anos. Para iniciares a leitura, não aclaras a voz, porque sabes que isso faz mal à garganta, mas ajustas o microfone à tua altura (desde sempre que a tua estatura se encontra um pouco acima da média, em geral, então também já estás habituada a esse movimento). Inspiras, profundamente.
Não reine o pecado no vosso corpo mortal,
obedecendo aos seus desejos.
Subitamente, pensas que talvez não devesses ter vindo à missa hoje, ou pelo menos, deverias ter recusado a leitura. As palavras que lês começam a revolver-te por dentro, perturbam-te e trazem com elas memórias que não querias recordar neste momento. Agora, só querias ler, não pretendias lembrar-te dos teus pecados.
Não ofereçais os vossos membros
como arma da injustiça ao serviço do pecado;
A primeira vez que pintaste as unhas foi no baile de finalistas do nono ano, algo muito estúpido, porque verdadeiramente ninguém era finalista e a manicure acabou por ficar uma miséria. Talvez por essa razão, não voltaste a repetir a façanha no final do secundário, nem sequer foste ao baile. Em vez disso, ficaste a dormir em casa da colega que te pintou as unhas, no nono ano. Ambas recusaram os convites que receberam dos rapazes da turma.
Tens boas recordações dessa noite. Não foi “traumático” não teres ido a uma “tão importante cerimónia”, como a tua mãe ficou a pensar. Tu e a rapariga estiveram o serão a experimentar roupas, tentando fazer as combinações mais berrantes que conseguissem, imaginando como seria a forma mais escandalosa de ir a um baile. Acabaram ambas nuas, rindo, e decidindo que toda a gente deveria andar mais assim, como veio ao mundo. Daquela forma era tudo mais real, mais presente, mais belo.
Quanto à noite do baile do nono ano, dessa não te recordas bem. Neste momento, só consegues evocar a memória de um cheiro a melancia, não proveniente da fruta, mas de um perfume, num frasco muito cor-de-rosa, com formato de borboleta. O cheiro estava em todo o lado. Foi uma chatice tirá-lo da tua roupa, dos teus lábios e do teu coração. Aparentemente, ainda hoje consegues senti-lo.
Ao longo, dos anos, raras foram as vezes que permitiste que te pintassem as unhas ou que te colocassem perfume no corpo. Nunca foste uma menina de meninas, nesse aspeto. Conseguiste quase sempre, com sucesso, escapar ao pecado da futilidade.
mas oferecei-vos a Deus,
como homens que revivem de entre os mortos,
Quando eras mais nova, tinhas muitos mais amigos que amigas. Não por gostares mais de estar com meninos, simplesmente, para ti era mais fácil nutrir amizade com o sexo oposto. As meninas intimidavam-te. Perto delas ficavas mais calada, tímida, observadora. A tua mãe, por te ver tantas vezes rodeada de rapazes, insinuava que eles estariam todos apaixonados por ti. Mas tu pensavas que era ridículo. Para quê oferecerem-se a alguém que não os quer?
Agora, ainda no início da leitura, percebes que vires aqui é ofereceres-te a Deus, contudo, nunca tiveste a certeza se Ele, verdadeiramente, te queria...
e oferecei os vossos membros
como armas da justiça ao serviço de Deus.
Desde os oito anos que lês na missa (todavia, sempre com preparação prévia, não como nesta situação em que te encontras). Desde muito cedo, percebeste que o teu elemento mais poderoso era a tua voz e isso foi igualmente observado pelos teus pais, que perceberam que tal dádiva deveria ser usada para aclamar a Palavra do Senhor. Sobes ao altar, semanalmente, desde os oito e é também, mais ou menos desde essa idade, que sentes a falta da graça na tua vida. Apesar de leres as palavras de Deus, não te parece que Ele queira salvar-te.
A princípio, esse sentimento era muito subtil, vivia num lugar escondido, dentro de ti, onde não conseguias localizá-lo. Mas aos poucos foi crescendo. Começaste a aperceber-te de que era verdade, que Deus não punha a Sua mão protetora sobre pessoas como tu, só porque têm uma boa voz e vão à missa.
E o pecado não vos dominará,
porque não estais sob o regime da Lei,
mas sob o regime da graça.
Se a tua relação com Deus estivesse escrita num contrato real, assinado por duas partes, terias muitas queixas a apresentar. Participas na eucaristia, rezas, acreditas, porém, continuas a sentir que é falso o que lês, embora não tenhas coragem para o dizer a ninguém. Por mais que te negues, entregando-te ao Senhor, a tua pura existência continua a escavar um vazio enorme dentro de ti.
Como, então? Havemos de pecar,
porque não estamos sob o regime da Lei,
mas sob o regime da graça?
De modo nenhum.
Não sabeis que, se vos ofereceis como escravos a alguém
para lhe obedecerdes,
vos tornais escravos daquele a quem obedeceis,
quer seja do pecado, que leva à morte,
quer da obediência, que vos leva à justiça?
Sempre foste muito independente. Nunca gostaste de dar satisfações às pessoas e tal intensificou-se ainda mais quando iniciaste a vida académica. Rareaste as visitas aos teus pais, que muito choravam e te pediam que, ao menos, não deixasses a Igreja. E cumpriste. Não a deixaste. A prova disso é estares aqui a ler a Palavra do Senhor, cujo conteúdo, efetivamente, continuas a não entender bem.
De vez em quando, nas chamadas semanais que fazes para casa, em vez de contares apenas como vai a vida no escritório ou na habitação partilhada, gostarias de confessar que continuas a rezar diariamente a oração da noite que a tua mãe te ensinou e que ainda sabes de cor todas as músicas que aprendeste nos Escuteiros. Querias poder fazer entender aos teus pais que tu não abandonaste Deus, que foi ele quem te abandonou a ti.
Mas demos graças a Deus,
porque, se éreis escravos do pecado,
agora vos submetestes de todo o coração
à norma de doutrina que vos foi transmitida. E assim, libertos do pecado,
vos tornastes servos da justiça.
O teu corpo que lê, também é o teu corpo que peca, por isso, esta mensagem de bem-aventurança, não é para ti. A tua missão é apenas fazê-la chegar aos ouvidos de quem pode, sim, ser salvo.
Palavra do Senhor.
Olhas uma última vez para a assembleia, que te responde com: “Graças a Deus” e depois desces, sentindo-te momentaneamente tonta. Sem querer, o teu braço roça ligeiramente no braço de uma pessoa que se posicionou ao teu lado, para proceder à próxima leitura. Através do toque, tens um súbito momento de consciência. Então, ambas se baixam, ao mesmo tempo, numa reverente vénia ao Santíssimo: ela sobe e tu voltas para o teu lugar.
O órgão da igreja começa a ouvir-se enquanto tu aterras no banco, ligeiramente a suar. Entretanto, reparas que o lugar atrás do teu está vazio. A pessoa que vai cantar o salmo é a mulher em quem reparaste, ao entrar, aquela que estava vestida em tons alaranjados, com uma blusa branca por dentro da camisa cor de tijolo.
Não estavas à espera que se fosse cantar o salmo, por isso, surpreendes-te quando a cantora começa a sua atuação. De repente, esqueces-te da leitura que acabaste de fazer e de todos os sentimentos que levantou dentro de ti. Toda a tua atenção fica presa à mulher e apercebes-te de que é impossível desviares o olhar. A beleza da cantora não reside em nenhuma das qualidades físicas que lhe possas atribuir, mas na sua presença no altar. Não consegues formular uma noção clara. Porém, é como se o seu corpo tivesse adormecido por instantes e reinasse apenas a voz, uma melodiosa mensageira de Deus e dos Anjos e Santos. Aquilo que vês é um corpo ausente, mas, ao mesmo tempo, é o exemplo real de um estado de graça, da carne, fora do pecado.
A cantora parece ter uma concreta intenção sobre o texto, como se soubesse precisamente o que as palavras lhe estão a pedir. Está a ser tão agradável ao teu ouvido que te sentes num estado profundo de hipnose: permaneces ali, em presença, mas o teu ser voa com a ária, que parece estar numa língua que não compreendes, apesar do texto pertencer ao mesmo livro de onde tu acabaste de ler. Sabes que aquela voz produz uma linguagem, mas não é a linguagem em si. Não consegues ter foco no que está a ser dito, pois o teu foco está na cantora.
Na bíblia, João Batista era a Voz, e Jesus Cristo, a Palavra. Neste momento, Deus continua a ser Palavra, mas João Batista é substituído por aquela presença feminina, cujo som transcende tudo, não como se cantasse as palavras, mas sim o seu verdadeiro significado.
Continuando sem entender, apercebes-te que o escutar daquele salmo começa a curar a ferida sentida há pouco, enquanto lias, no altar. A dor de um vazio total, criado através de imposições que sentiste uma vida inteira, começa a dissipar-se. Aí, tens a certeza de que estás perante a verdadeira representação de um agente sagrado.
De repente, termina o salmo. Já toda a gente repetira o refrão uma última vez, até tu, completamente alienada de ti mesma. Agora, a cantora desce e volta para o banco atrás de ti. Não parece vir desconcertada, aliás, aparenta estar em total controle de todas as suas capacidades.
- Estiveste muito bem. – Não resistes, mal chega ao seu lugar, viras-te para trás e sussurras-lhe. O teu corpo está ainda a processar a adrenalina do momento. - Cantaste muito bem. – Reafirmas, ainda sem conseguires controlar a tua carne pecadora e extasiada.
A cantora parece responder-te através de um sorriso tímido, um simples levantar dos cantos da boca. Os lábios dela são de um tom rosa baço, um pouco finos. Não havia ninguém sentado atrás dela, por isso permites que o teu olhar pouse nela durante mais uns segundos. Notas que possui um pequeno sinal acastanhado, por baixo do olho direito e recordas-te que há uns tempos conheceste uma rapariga com um sinal parecido com aquele, numa noite, num bar.
Quando o padre começa a cantar o Aleluia, sentes ser um sinal e dás meia-volta para a frente, sem conseguires prestar atenção ao padre, porque, finalmente mais calma, refletes sobre a interação, tão infantil, que acabas de ter, bem como o controle que agora necessitas para perder a vontade de continuar a analisar o rosto da cantora.
O Evangelho era de São Lucas. Jamais, nos teus anos de vida, pensaste em ter filhos. Porém, se algum dia surgisse um, não te importavas que se chamasse Lucas. Consideras ser um nome bonito. Também não te importarias que fosse homem. Não tens nada contra os homens. Sendo justa contigo, já estás é farta de mulheres na tua vida.
Subitamente, sentes um toque suave no ombro e tornas a voltar-te para trás.
- Tu também cantaste bem. – Profere ela, baixinho, chegando-se muito perto do teu banco, com um sorriso um pouco mais aberto, que deixa vislumbrar um bocadinho dos dentes da frente. Desta vez, está tão perto que parece ser possível contar o número de pestanas que ela possui.
Embora atordoada pela repentina aproximação, tentas descodificar o que a cantora te disse. Como assim, “cantaste bem”? Tu não és cantora, és leitora! É sabido que mudas ligeiramente a entoação das palavras quando queres que o texto saia de terminada forma (como é o caso de um texto bíblico), mas, para ti, isso é o trabalho de qualquer leitora. Claramente, não chamarias a isso cantar...
A tua cara espelha, por completo, a confusão que te surge no espírito. Sem conseguires conter o teu corpo pecador, soltas um baixo som de interrogação. A cantora ri-se sem imitir ruído e as linhas do sorriso afundam mais. Desta vez, quase todos os dentes se mostram: são brancos, direitos e sem falhas, com gengivas de um vermelho suave. Questionas-te se ela terá usado aparelho dentário ou se terá, além do dom vocal, uma igual bênção dentária.
- És bastante melodiosa quando lês! - Ela torna a rir-se. Será que está a brincar contigo, apesar do olhar fixo no teu não te parecer totalmente malicioso? Efetivamente, nem sabes se estarás a ouvir as palavras como deve ser, uma vez que vocês estão ambas a murmurar.
- Ah – começas a balbuciar como resposta - Desculpa, assim deve ser mais difícil de entender a leitura...
- Não, de todo! É o contrário! Acho que tens uma forma engraçada de ler, porque és bastante expressiva! Talvez até mais do que quando falas. – Ela acrescenta, quase interrompendo-te.
- Bem, é verdade que a forma como lemos nunca é igual à maneira como falamos... – refletes, mais ou menos em voz alta.
- Era isso que queria dizer! Para mim, a leitura parece-me um canto!
De repente, ouvem um pequeno “shhh” e são confrontadas com um olhar de esguelha, vindo do banco à frente do teu, do lado direito. Daí, observa-vos alguém em quem não tinhas reparado: uma senhora, de pé, que segura um missal vermelho desbotado, com as letras da capa quase a perder a cor. Nitidamente, quer ouvir Lucas. Mas tu, queres ouvir a cantora.
Infelizmente, por causa disso, a vossa conversa interrompe-se. A cantora, responde rapidamente à senhora com um olhar de perdão que tu tentas imitar, mas sabes que falhas redondamente (como já se comprovou, nunca foste muito boa a ocultar as emoções no teu rosto). Depois, voltam-se de novo uma para a outra e ela sorri-te, mas, desta vez, além dos dentes descobertos, a pontinha da língua aparece também por entre eles. O sorriso já não parece tímido, mas desafiador. Consegues contemplar nele um perigo iminente, quase como se dele saísse uma chama capaz de te queimar viva. És, inesperadamente, apanhada desprevenida, não pelo sentimento de risco, que tu já sentiste muitas vezes ao longo da tua vida, mas pelo suave toque de dedos, longos e frios que pousam sobre o teu ombro e roçam no teu pescoço descoberto, fazendo arrepiar os pelos. Com uma mão sobre o teu ombro e outra sobre o banco, a cantora empoleira-se e chega a boca muito perto do teu ouvido esquerdo, de tal forma que consegues sentir o ar quente que ela exala, antes de começar a falar. O som sai-lhe extremamente baixo, como se aquilo que fosse dizer se tratasse de um segredo, que nem Deus pudesse ouvir.
- Já que vamos pecar com os nossos corpos, ao menos que usemos as nossas vozes para louvar o Senhor. – E dizendo isto, afasta a mão e encosta-a à boca, com o indicador reto sobre os lábios onde fica espelhado o mesmo sorriso perigoso, que em câmara lenta se desfaz: a língua enrola para dentro, os lábios cobrem os dentes e tudo volta à sua posição natural. É como se a expressão anterior tivesse sido apenas uma miragem.
Desta vez, és tu que quebras o contacto visual. Acenas em câmara lenta com a cabeça, girando para ficares de costas para a cantora e elevando o rosto, cheio de interrogação, na direção do Santíssimo. Sentes suor a escorrer-te debaixo do peito. Parada, tentas regularizar a respiração, enquanto tomas consciência, com horror, do quanto desejas a mulher sentada atrás de ti. Apercebes-te de que a salvação te é impossível. A tão prometida graça de Deus nunca chegou e nunca estará contigo ou com quem se assemelha à tua pessoa. Por muito que fujas, o pecado, de quem és escrava, encontrar-te-á, até na casa do Senhor.
Merda, pensas. Perdão, pedes.
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