
Rui Manuel Santos Namorado
1941-2025
Após doença, faleceu o colega Doutor Rui Namorado. Licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra e Mestre em Ciências Jurídico-Empresariais pela mesma Faculdade, doutorou-se em Direito Económico na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. Exerceu funções docentes nesta nossa Faculdade, desde 1979, primeiro como assistente e depois como professor, até ser jubilado em abril de 2011, onde foi vice-presidente do Conselho Científico (2000 a 2002). Desde 1987 era também Investigador do Centro de Estudos Sociais.
A ele e à sua persistência deve a nossa Faculdade a criação e a coordenação, durante muitos anos, do Centro de Estudos Cooperativos e da Economia Social, a criação, na nossa biblioteca, de um fundo bibliográfico muito relevante, a nível nacional, sobre cooperativismo e economia social, e, ainda a criação, com outros colegas, de uma área de conhecimento interdisciplinar, que deu corpo à então pioneira “Pós-Graduação em Economia Social – cooperativismo, mutualismo e solidariedade. Foi membro da Associação Internacional de Direito Cooperativo.
O Colega Rui Namorado foi sempre um homem de causas. Uma delas foi a promoção das cooperativas e da economia Social, razão pela qual lhe foi atribuído, em 2017, o “Prémio Especial Personalidade do Ano da CASES – Cooperativa António Sérgio para a Economia Social”. Em 2012, foi membro da Comissão de Honra do Ano Internacional das Cooperativas (AIC- 2012), tendo sido membro da Comissão Científica do 1º Congresso das Cooperativas Portuguesas, realizado em abril de 1999. Desde janeiro de 2011 foi membro do Conselho Nacional para a Economia Social (CNES). Pertenceu à Rede Portuguesa de Formação para o Terceiro Sector desde 1996, tendo sido sucessivamente reeleito como Presidente da sua Comissão Diretiva, desde 1999 até á sua desativação em 2011. Desde 2004, integrava a "Comissão Científica da Economia Social e Cooperativa do CIRIEC- International".
Uma das suas outras causas foi sempre a luta pela liberdade e pela cidadania. Por isso, foi expulso da Universidade de Coimbra durante a vigência do regime autoritário, em Portugal, tendo sido um dos protagonistas da “crise académica de 1969”, em Coimbra, que contribuiu para o advento da democracia em abril de 1974, da qual nos deixou a sua memória escrita, bem como documentos relevantes. O seu ativismo cívico levou-o, entre outras causas, à militância no partido socialista, onde promoveu a secção da educação de Coimbra e a área da economia social. Foi deputado à Assembleia da República de 1995 a 1999, e membro do Conselho Nacional de educação de 2000 a 2002.
Uma das outras suas causas foi sempre a reflexão e a cultura. Pertenceu ao Conselho de Redação da revista "Vértice", desde 1964 a 1975, manteve sempre o seu blogue “o Grande ZOO”, foi responsável da Editora Centelha (1972/1974) e pertenceu à Associação Portuguesa de Escritores e à Associação Portuguesa de Escritores Juristas.
Estou certo de que o Rui Namorado gostaria de ser lembrado como um homem de abril e como poeta, pelo que aqui vos deixo o seu poema “Melancolia em Abril”.
“1. Melancolia em Abril
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As flores de Abril
já são conchas de pedra debruçadas no tempo,
violinos cansados pelos dedos antigos,
ou alarmes caindo pelas escarpas do medo.
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Mas os olhos em riste que desejam futuros
continuam escavando sem os braços caídos.
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Não deixemos que Abril seja folha caída
que o cortejo dos meses vai deixando para trás.
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Não deixemos que Abril seja o tempo que passa
de si próprio perdido por não querer regressar.
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Não deixemos que esqueça sua própria guitarra,
nem que fuja das ruas,
nem que seja saudade.
2. A liberdade guiando o povo
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Acenderam-se os cravos neste dia
numa festa de luz e alegria
e a liberdade saiu guiando o povo
pelos largos caminhos do futuro.
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A Lisboa chegaram naus de esperança
vindas do sul do deslumbramento
e palavras de poetas foram ditas
em sonetos de audácia e movimento.
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Cravos vermelhos nos jardina de Abril,
Capitães pela Pátria e liberdade,
cravos de sangue, cravos de combate,
flores do povo na eternidade.”
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José Manuel Mendes, Diretor da FEUC