Este site utiliza cookies para lhe proporcionar uma melhor experiência de utilização. Ao navegar aceita a política de cookies.
OK, ACEITO

Literatura, Espaço, Cartografias

I Colóquio da Primavera - Colóquio Internacional

BRAGA-COIMBRA-SANTIAGO DE COMPOSTELA

Num famoso texto, Jorge Luís Borges imaginou um império cuja arte da cartografia conseguira o milagre de fazer um mapa tão vasto que coincidia, ponto por ponto, com o território representado. O mapa ambicioso e impossível, que gerações posteriores declarariam inútil, condenando-o ao abandono e à ruína, resume talvez as ambições, limites e aporias dos propósitos representacionais da literatura enquanto cartografia rigorosa dos territórios da imaginação.

Nos últimos anos, o impacto conjugado da «geografia crítica» de Edward W. Soja, David Harvey ou Doreen Massey; da globalização e da necessidade de passar a unidades de trabalho mais vastas do que as contidas nas fronteiras da nação; do pós-colonialismo e do seu redesenhar dos mapas e dos fluxos da dependência cultural; da recodificação da literatura comparada em função de um objecto recuperado ao último Goethe – a Weltliteratur – como indispensável ao repensar da disciplina na nova era global; da cultura do virtual com a sua produção de um poderoso avatar do espaço fenomenal – tudo isso concorreu para um privilégio crescente concedido à categoria do espaço e às suas representações cartográficas.

No fundo, como Edward W. Soja afirmou, no famoso Prefácio/Posfácio a Postmodern Geographies (1989), trata-se de combater o privilégio da temporalidade na nossa análise dos fenómenos culturais, recompondo e desconstruindo a rigidez sequencial da narrativa histórica que os vai descrevendo e explicando. Este projecto teve na cidade contemporânea, sobretudo nas megalópolis que definem hoje a nossa experiência do «percurso» e da «orientação» - num mundo que se define pela conurbação e pelo difícil estabelecimento de fronteiras entre centro urbano e periferias suburbanas em permanente expansão - o seu detonador, no plano epistemológico e metodológico. Mas essa experiência foi rapidamente subsumida, e em boa medida «engolida», pela experiência mais recente e poderosa de uma rede ilimitada de conexões, percursos, deslocações e viagens por territórios para a representação dos quais cedo se percebeu que a própria noção de mapa era insuficiente: a internet, enquanto locus crítico da euforia e das aporias da simultaneidade e, antes disso, da própria noção de lugar/sítio.

A net, e o virtual, vieram questionar a noção de mapa, exigindo representações rizomáticas que reforçam o carácter conjectural da noção clássica de «mapa». A que acresce a produção de representações cartográficas – por satélite ou por software do tipo Google Earth – que nos colocam na posição dos anjos, olhando a terra (e o céu) a partir de cima e não, como até aqui, a partir de baixo. Neste contexto, qual o significado e pertinência de uma posição como a de Franco Moretti, na sua insistência de que a literatura é por natureza ortgebunden (ligada ao lugar)? Os lugares reconstituídos pelos mapas do romance europeu do século XIX que Moretti nos oferece são os mesmos, ontológica e epistemologicamente, quando os reconstituímos no Google Earth? Em que medida a experiência do lugar, e da literatura como experiência do lugar, é afectada hoje pela nossa experiência quotidiana da net como rede rizomática de não-lugares? A Weltliteratur – a de Goethe e a nossa – tem ainda algo a ver com a experiência do lugar ou é a sua centralidade teórica hoje a evidência, conquistada por via histórica e tecnológica, de que a literatura é tanto uma experiência do lugar como do não-lugar? Como funcionaram no passado e como funcionam hoje os fluxos de troca de informação que na tradição literária deram azo a noções tão operatórias como as de «influência» e «centros de influência»? De que modo a experiência moderna e modernista por excelência – a da cidade – se articula com a do terminal de computador ligado à net enquanto mega-urbe sem território?

O colóquio internacional «Literatura, Espaço, Cartografias», a realizar nos dias 6, 7 e 8 de Maio, abordará, numa perspectiva interdisciplinar e interartística, estas questões, tentando repensar a relação da literatura com as disciplinas do espaço e com as artes que têm na representação espacial o seu foco primordial.

O colóquio usará, como línguas de trabalho, o português, o espanhol, o galego e o inglês. O temário do colóquio será o seguinte:

1. Literatura, artes e representação cartográfica

2. A literatura, da nação à pós-nação

3. A Weltliteratur na era da globalização

4. Trocas, fluxos e intensidades informacionais

5. Lugar e não-lugar, mapa e rizoma

6. Da cidade moderna ao cibermundo