Antecedentes da acção. Um menino de sete anos foi raptado de
Cartago. O pai deste definhou de desgosto e deixou os seus bens a um primo. Um
velho misógino de Cálidon, na Etólia, comprou o rapaz, sem saber que ele
era filho de um hóspede, adoptou-o, e, antes
de morrer, nomeou-o seu herdeiro. Foram depois também raptadas duas primas do
jovem juntamente com a ama. Lico, um alcoviteiro, comprou-as a uns piratas e
trouxe-as para a vizinhança do rapaz.
A acção. Agorástoles – assim se chama o jovem – anda perdido de
amores por uma das moças, Adelfásio, sem fazer ideia de que é sua prima; e o alcoviteiro tortura o enamorado com
delongas. Mas este com a ajuda de Milfião, o escravo matreiro, monta-lhe uma
armadilha: deste modo, o proxeneta é, na presença de testemunhas adestradas
para o efeito, implicado num suposto roubo e arrisca-se a ser arrastado diante
do pretor.
Mas o desenlace é precipitado por
um reconhecimento. Chega à cidade um velho cartaginês, esperto e manhoso, que
descobre que o jovem é o filho do falecido primo e reencontra as filhas que
havia perdido.
A peça trata os problemas, actuais, do lenocínio, da escravatura
de pessoas raptadas, da pirataria, que, então, assolava o Mediterrâneo.
Pontificam os valores da dedicação (pietas) familiar, da fidelidade
aos laços desangue, à pátria e aos deveres de hospitalidade,
que se mantinham firmes de geração em geração.
O contexto
Tendo em conta as referências históricas que figuram
na peça, nem sempre claras, foram propostas datas para a composição que vão de
197 a 188 a.C. Uma fala das Testemunhas (vv. 524-525) sobre a paz civil e os
inimigos aniquilados pode conter uma alusão à derrota de Aníbal, no final da
segunda guerra púnica (202 a.C). Mas podem estar implícitas outras guerras,
concluídas ou em curso (com Filipe V da Macedónia, derrotado na batalha de
Cinoscéfalas, em 197 a.C.; com Nábis, tirano de Esparta, tomadaem 195 a.C.; com Antíoco da Síria,
derrotado em Magnésia, em 189 a.C.). Seja como for, a escolha do tema não será
inócua: na altura da primeira representação, ainda estaria bem fresca a memória
das pesadas derrotas que Aníbal infligiu a Roma (218 - 216 a.C.), sobretudo a
de Canas, a que se seguiu o supremo desespero de ver Hannibal ad portas – penas agravadas pelos danos irremediáveis,
causados pela longa permanência (até 204 a.C.) em terras itálicas de um
exército tão numeroso e heterogéneo. Era ainda recente a derrota do terrível
inimigo, seguida da paz com Cartago, em 201.
A reacção dos
romanos aos cartagineses está patente em algumas tiradas proverbiais
sobre a perfídia púnica e comentários jocosos à indumentária exótica (elementos
úteis para estudiosos e encenadores), mas não vai além disso. Contrariamente ao
que seria de esperar, e que o título parece sugerir, Plauto não se centra no
ataque ao inimigo mortal dos romanos. O cartaginês Hanão, talvez por
determinação da peça grega que Plauto, no prólogo, diz traduzir, é retratado
não como um monstro abatido, mas como modelo de virtudes ancestrais (de onde se
evidencia a pietas) e de dignidade. De tal modo que nos parece haver
algo de terenciano nesta personagem marcada pelo sofrimento. No final, Hanão é
o grande triunfador que traz o prémio para os bons e a ruína para os perversos.
Além disso, as raparigas cartaginesas, apesar da situação em que se encontram –
estão prestes a ser iniciadas na prostituição –, lutam para manter a dignidade
da sua condição (sobretudo Adelfásio). E são salvas no último momento, como
salienta a ama: quando se preparavam já para se submeterem ao destino. Daí a
esfuziante alegria, por reencontrarem o pai, há tanto tempo esperado.
A acção decorre no dia das Afrodísias, a festa de
Vénus.
As personagens
Agorástocles
não se afasta do que é de esperar do jovem enamorado, egoísta e cruel. Acrescenta-se
a avareza, pois, apesar de ser emancipado, ainda não resgatou a amada. A favor
do jovem é creditado o respeito pelos laços de hospitalidade, que o levam a
acolher incondicionalmente Hanão, bem como o orgulho da sua origem cartaginesa.
Milfião
é o típico escravo matreiro, de resposta pronta, apreciador mais do vinho que
de mulheres, como ele próprio diz. Não poupa as palavras de troça ao seu amo
apaixonado.
Adelfásio é uma jovem
raptada, destinada a ser meretriz. Nota-se, nesta personagem, uma certa
contradição de carácter psicológico: ora se apresenta consciente da dignidade
da sua origem nobre, ora parece agir como uma vulgar cortesã.
Anterástilis é irmã da anterior, raptada
juntamente com ela. Revela-se mais mundana do que a irmã.
Lico (em
grego, «lobo»), o alcoviteiro, é ávido de dinheiro até à impiedade. Mas ele
apenas cumpre o seu mester. No final, é um homem destruído, e a sua resignação
em reconhecer que perdeu e em aceitar a sorte que lhe está destinada quase
provoca a comiseração.
Antaménides
é o típico soldado fanfarrão plautino. A proclamação da sua gesta, a vitória
sobre os homens voadores, não fica atrás, na fantasia, das façanhas de
Pirgopolinices em OSoldado
Fanfarrão.
As Testemunhas
funcionam como um raro exemplo de coro na comédia romana. Não são testemunhas
isentas, pois vão prestar juramento numa acusação que sabem ser uma farsa.
Colibisco
é o caseiro de Agorástocles que, para enganar o alcoviteiro, faz o papel de
mercenário de Esparta foragido.
Sincerasto,
escravo do alcoviteiro, não partilha os valores do seu amo; lamenta-se da
decadência do lupanar e prontifica-se a contribuir para a ruína do patrão.
Hanão, o
cartaginês, procura continuamente as suas filhas raptadas. Entra em cena a
falar púnico, o que mostra que os espectadores romanos entenderiam alguma coisa
da língua do inimigo. Apesar de o termo Hanão estar consagrado em português,
como nome de várias pessoas gradas de Cartago, adoptámos para a representação a
forma (também legítima) de Hánon, para evitar equívocos da linguagem oral e
pela sonoridade exótica.
Gídenis
é a ama de Adelfásio e Anterástilis e chave para o reconhecimento imediato de
Hanão.
Finalmente, um Escravo
(nesta representação, uma escrava) do séquito de Hanão é filho da ama
Gidénis.
Ficha técnica:
Encenação: José Luís Brandão
Guarda-roupa e adereços: Carla Braz, Carlos Jesus, Dila Pato
e José Luís Brandão
Composição musical: José Luís Brandão
Selecção Musical: Carlos Jesus e José Luís Brandão
Cenários: Ana Seiça Carvalho, Beiracarp Carpintarias Lda,
Carla Correia, Carlos de Jesus, José Luís Brandão, Nelson Henrique