O drama
de Hipólito é esse, o de estar amarrado a um juramento de silêncio que o impede
de salvar a própria vida. Casto, abomina os prazeres da carne e, por isso
mesmo, há-de morrer. Porque a recusa de Afrodite, garante da ordem e da
renovação cósmicas, é também um tremendo pecado de hybris, Hipólito não é, de forma alguma, inocente. A excessiva –
porque exclusiva e exacerbada – veneração de Ártemis, que cedo o lançou para
uma virgindade ofensiva e anti-natura, é assim tão responsável pela sua morte
quanto a paixão que por ele sente a madrasta. No ponto que resta desse
triângulo surge Teseu, personagem enigmática e verdadeiramente trágica que, no
momento em que regressa ao seu palácio, assiste à sua ruína incontornável.
Sobre ele pesam erros antigos, mas vai ainda pesar um outro erro – o de confiar
cegamente na esposa morta e não conceber, em momento algum, a inocência do
filho. É a aniquilação total dos três vértices desse triângulo o balanço da
tragédia. Fedra e Hipólito morrem, de facto, mas o rei com que termina a peça
é, também ele, um ser destruído, a quem, não obstante, é ainda concebida a
dádiva do perdão.