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Um estudo inovador sobre a presença de microplásticos na Antártida revelou a escala alarmante da poluição global, até nas regiões mais inóspitas. Filipa Bessa, investigadora do Centro de Ecologia Funcional da Universidade de Coimbra, explica como este trabalho abriu portas para novas investigações e salienta a urgência de ações políticas coordenadas que visem reverter o impacto da poluição por plásticos no planeta.
O trabalho sobre a presença de microplásticos em pinguins na Antártida, no qual participou, foi altamente reconhecido. Como surgiu a ideia de fazer este estudo e quais foram os principais desafios da condução da investigação num ambiente tão extremo?
Sim, de facto, este estudo representou um marco relevante tanto no panorama científico, pois, pela primeira vez, foram detetados microplásticos (partículas com menos de 5 mm de tamanho) em pinguins da Antártida, como no âmbito da comunicação desta problemática. Ao focar-se numa região remota, o estudo sublinha a omnipresença dos microplásticos no planeta e ganhou atenção mediática ao elevar a urgência de ação na sua mitigação.
Este estudo foi possível graças à presença contínua de investigação polar de grande relevo na Universidade de Coimbra (UC), liderada pelo José Xavier ao longo dos últimos anos. Esta equipa de investigadores do nosso Departamento de Ciências da Vida, que tem estado na vanguarda de diversos estudos na Antártida, teve um papel fundamental neste estudo e abriu portas para muitos outros que estamos a preparar.
Na altura, em 2018, apresentei a proposta aos meus colegas, e durante as expedições regulares na Antártida que têm realizado foi possível obter amostras de pinguins (neste caso, fezes) que foram analisadas para a averiguar a presença de microplásticos, como forma de estudar o que poderia estar a ser ingerido pelos vários pinguins de várias colónias. Embora as concentrações encontradas sejam baixas, comparativamente a outras espécies de aves noutras regiões, o estudo foi decisivo para iniciar um novo ciclo de investigações sobre poluição na Antártida e incentivou também os decisores políticos a tomarem uma posição para combater este problema nessas regiões.
Neste momento, temos uma aluna de doutoramento, a Joana Fragão, dedicada a estudar a poluição por microplásticos na cadeia alimentar marinha na Antártida (desde zooplâncton, peixes a aves marinhas), alunos de mestrado e outras colaborações com outras instituições, incluindo o British Antarctic Survey e o Museu de História Natural de Madrid. Todo este crescimento deveu-se a este estudo seminal. Neste momento, esta temática tem tido destaque nas várias intervenções de Portugal no Tratado da Antártida, assim como nos vários grupos de trabalho que trabalham nesta região.
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Coordena diversos projetos de ciência cidadã, como o "Lixo Marinho" e o "Portugal Pellets Watch". Na sua opinião, quais são os maiores benefícios e desafios de envolver o público em projetos de investigação científica?
Durante a minha carreira, sempre tive um interesse particular em comunicar ciência a diferentes públicos, principalmente por trabalhar numa questão urgente que exige ação imediata: a poluição marinha. Ao longo desta jornada, explorei vários meios e canais de comunicação para alcançar um público mais amplo, desde atividades em escolas e campanhas de limpeza de praias até exposições fotográficas pop-up e muitas outras formas de divulgar esta problemática de maneira clara.
Nos últimos anos, encontrei na ciência cidadã uma forma ainda mais poderosa de comunicar ciência, envolvendo os cidadãos diretamente no processo científico e promovendo esta forma de ativismo científico. O aspecto mais importante desses projetos não reside apenas nos dados recolhidos ou nos artigos científicos que possamos produzir, mas no envolvimento das pessoas na compreensão do que é a ciência, do método científico e, claro, na discussão pública de temas que exigem um comprometimento global por parte de todos os atores da sociedade. A par das nossas iniciativas, existem hoje em Portugal inúmeros projetos de ciência cidadã que podem promover este interesse público por vários temas relacionados com ciência e que podem consultar através da rede nacional de ciência cidadã.
A poluição causada pelos microplásticos, especialmente no contexto de ecossistemas aquáticos, é uma preocupação crescente. Que medidas concretas acredita que todos nós - indivíduos, instituições e governos - podemos tomar para combater esse problema de forma eficaz?
Esta crise, em particular a da poluição por microplásticos, está profundamente interligada com outras crises que enfrentamos, como a perda de biodiversidade e as alterações climáticas. A solução para estas questões reside numa compreensão integrada dos seus impactos e numa ação global coordenada entre os vários atores da sociedade.
Para reduzir a nossa pegada de plástico no planeta, é essencial que cada setor da sociedade estabeleça metas e adote medidas eficazes de mitigação. A redução da produção (por parte da indústria), a melhoria da gestão de resíduos, e uma mudança nos hábitos de consumo e descarte de materiais (pelos cidadãos) são passos fundamentais. Estas ações devem estar integradas com políticas públicas que facilitem a transição para uma sociedade mais sustentável, abordando as raízes deste problema, que é amplificado pelo consumo excessivo de plásticos que sabemos que um dia se tornarão microplásticos e até nanoplásticos, invisíveis a olho nu, para o qual já sabemos estarem a circular pelo planeta.
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A par da investigação científica, a comunicação de ciência para públicos leigos faz parte do seu trabalho. Como equilibra a complexidade do seu trabalho de investigação com a também complexidade de transmitir informações científicas de forma clara e acessível para estes públicos?
Sempre senti uma forte urgência de comunicar a ciência que produzimos porque acredito que é importante aproximar os cidadãos da ciência, compreendê-la, mas acima de tudo porque acredito que para uma mudança efetiva de muitos problemas ambientais que enfrentamos, se estivermos conectados e conscientes dos problemas, poderemos envolver mais cidadãos de vários sectores.
A chave para esse equilíbrio está em simplificar sem perder o foco. Tento sempre adaptar a linguagem e os exemplos ao público-alvo, utilizando analogias ou casos do quotidiano que facilitem a compreensão dos conceitos científicos. Além disso, uso ferramentas visuais e interativas, como exposições ou atividades práticas, que ajudam a tornar a ciência mais tangível e interessante para todos. Ao envolver as pessoas em atividades de ciência cidadã, também promovo um contacto direto com o processo científico, o que não só facilita a transmissão de conhecimento, mas também estimula a curiosidade e o sentido de responsabilidade que é o objetivo principal destas sessões. No fundo, acredito que transmitir ciência de forma acessível é parte integrante da própria investigação, pois amplia o impacto e a relevância do conhecimento gerado.
Em 2018, ganhou um prémio da ONU com a fotografia "SeaPlasticSalt", que captou a atenção para a poluição por microplásticos. No seu entender, como é que a arte pode complementar a ciência na sensibilização para questões ambientais?
Como nem sempre conseguimos captar a atenção do público através das nossas atividades, como palestras ou sessões informativas, e muitas vezes as pessoas não estão ativamente envolvidas com a ciência, a arte desempenha um papel fundamental ao veicular e amplificar a informação científica para públicos e geografias mais amplas.
Tive a sorte de colaborar com artistas que utilizaram o conhecimento que temos produzido para criar obras que servem como um canal de comunicação mais abrangente e acessível. Acredito que a colaboração entre Ciência e Arte é uma ferramenta poderosa para expandir o alcance do conhecimento e envolver um público mais diversificado. Devemos estimular e criar mais sinergias nestas formas de comunicação de ciência.
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Quais acredita serem os próximos passos na luta contra a poluição causada pelo plástico nos oceanos? Existe algum avanço tecnológico ou político recente que lhe dê esperança?
Os próximos passos na luta contra a poluição por plásticos no oceano passam por uma combinação de avanços científicos, tecnológicos, e políticos, aliados a uma mudança de comportamentos a nível global. Acredito que o fortalecimento de políticas públicas que consigam a tão necessária redução da produção e consumo de plásticos descartáveis, bem como a implementação de estratégias eficazes de gestão de resíduos, sejam fundamentais e urgentes. A adoção de políticas internacionais mais ambiciosas, como o actual Tratado Global para os Plásticos que está a ser discutido, é um sinal de esperança que tenho para uma ação coordenada e eficaz que tanto necessitamos.
Do ponto de vista tecnológico, os avanços na inovação de materiais biodegradáveis e na melhoria de técnicas de reciclagem e gestão são promissores. Além disso, a utilização de tecnologias e sistemas de mapeamento para monitorizar e prever a dispersão de plásticos no planeta pode ajudar a identificar focos de poluição e a otimizar as ações de mitigação. Também temos visto o crescimento da ciência cidadã, que não só contribui para a monitorização da poluição, mas também fomenta a sensibilização e o envolvimento do público na resolução deste problema.
Embora o desafio seja reconhecido como de grande envergadura, estes avanços e a crescente consciencialização global sobre a urgência desta questão trazem-me esperança de que podemos reverter o impacto da poluição por plásticos no oceano, nos rios, e em todos os recantos do planeta.
por Luísa Carvalho Carreira
fotografias gentilmente cedidas por Filipa Bessa
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