Isto é FMUC

Unidade Curricular ‘Princípios e Práticas de Voluntariado’

A unidade curricular ‘Princípios e Práticas de Voluntariado’ da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (FMUC) oferece aos estudantes uma formação prática que os incentiva a desenvolver empatia, responsabilidade social e uma abordagem mais humanizada à medicina. Através de experiências de voluntariado, os alunos têm a oportunidade de se envolver com a comunidade e explorar realidades sociais diversas, complementando a sua formação científica com um foco no cuidado e na compaixão, conforme nos explica Marília Dourado, professora responsável por esta unidade curricular.


Quando e como surgiu esta unidade curricular (UC)?

A UC ‘Princípios e Práticas de Voluntariado’ surge como o culminar, com a naturalidade esperada e na sequência, do percurso que vínhamos a fazer desde há alguns anos como professora na FMUC onde, entre outros, criámos em 2018/2019 o NUVEM (Núcleo de Voluntariado para Estudantes da FMUC).

O entusiasmo dos estudantes que nos acompanharam não só nos motivou como incentivou à criação desta UC na área do voluntariado o que, sublinho na sequência lógica do nosso percurso, veio a concretizar-se no ano letivo de 2022/2023, tendo tido a primeira edição no 2º semestre desse mesmo ano. Para a concretização deste projeto foi crucial o contributo da senhora professora Ana Teresa Almeida Santos, coregente desta UC.


Quais são os principais objetivos e como acredita que esta UC complementa a formação dos estudantes de Medicina?

O voluntariado é hoje visto e aceite como fundamental para a construção de sociedades mais coesas, fortes e solidárias. É a demonstração de como a solidariedade posta em prática pode ajudar o nosso semelhante e contribuir para o bem-estar e desenvolvimento individual/pessoal e da comunidade.


Preocupamo-nos com a formação científica e técnica sólida e de vanguarda dos nossos estudantes. Mas entendemos, como muitos outros, que é preciso sermos ambiciosos e tudo fazer para formar futuros bons médicos que sejam também pessoas emocionalmente inteligentes, empáticas e compassivas, conscientes de que podem influenciar a vida dos que os rodeiam, às vezes com pequenos gestos.


Neste sentido, e como complemento da formação científica, definimos como principais objetivos desta UC: promover a formação social e humana do futuro médico; guiar o estudante na consciencialização do seu papel na sociedade, estimulando-o a tornar-se socialmente mais responsável; ajudar o estudante a desenvolver pensamento crítico, competência emocional de empatia e compaixão e aptidão para o cuidar; proporcionar ao estudante, precocemente no seu percurso académico, oportunidades fora dos “portões” da Faculdade, em contextos reais, de exploração vocacional e profissional, através da participação em atividades de voluntariado; e contribuir para a prática mais humanizada da medicina, centrada na pessoa e atenta aos problemas sociais.


E como tem sido a receção dos alunos relativamente a esta UC? Há algum feedback ou história de impacto que a tenha marcado?

Todos o feedback recebido têm sido o mais positivo possível. Prova disso é termos sempre um número superior de candidatos para as vagas que estão fixadas. São apenas 20 e não nos parece possível aumentar este número considerando toda a organização e gestão necessárias ao bom funcionamento da UC e acompanhamento dos alunos, apesar da procura.


Os estudantes expressam-nos espontaneamente a opinião de que esta foi uma oportunidade única de tomar conhecimento e contacto com realidades das quais estão alheados, o que contribuiu decisivamente para o seu crescimento pessoal, fortalecer a empatia e compaixão. Dizem-nos ainda que, se pudessem, voltariam a frequentar esta UC, que recomendarão aos colegas. Na impossibilidade de apresentar todos os testemunhos, transcrevemos alguns, que refletem de forma exata a opinião de todos os alunos envolvidos.

Daniel Candal, que fez voluntariado no Lar da Graça de São Filipe e na APPACDM, disse: “Foi um gosto e uma honra ser aluno desta valência, ser voluntário, e poder contar com a ajuda de docentes imensamente prestáveis, do ponto de vista logístico e, também, emocionalmente. Recomendo esta experiência a todos os estudantes do MIM [Mestrado Integrado em Medicina da FMUC], e arrisco-me a extrapolar esta recomendação a todos os estudantes e profissionais da área da saúde. É deveras fundamental o exercício do altruísmo sincero e do humanismo, princípios basilares de qualquer atividade profissional desta área.”


Inês Neves e Kinkas da Costa fizeram voluntariado no Lar Graça de São Filipe e disseram-nos: “Gostámos imenso da experiência, voltaríamos a fazer voluntariado e a abraçar outras causas. Foi verdadeiramente gratificante e acreditamos que foi uma experiência enriquecedora, pois contribuiu para o nosso desenvolvimento pessoal, uma vez que além de ajudar os idosos, também aprendemos muito com eles e com as suas histórias de vida fascinantes. Estar num lar de idosos pode ser exigente e duro, visto que nos defrontamos com situações de saúde delicadas, pessoas vulneráveis e frágeis e histórias de vida emocionantes. Porém, consideramos que é nestas circunstâncias que o nosso apoio, assistência e empatia são fulcrais.”


Mariana Cardoso e Sofia Gomes foram voluntárias na Casa de Infância Dr. Elísio de Moura e confidenciaram-nos que esta foi uma “Experiência única e gratificante. Observar a felicidade que proporcionamos é indescritível”.


Ana Oliveira, Ana Silva e Ana Terra, que foram voluntárias na ACERSI, definem esta experiência como gratificante, a de interferir positivamente na comunidade e contactar com pessoas em situação de exclusão e extrema carência socioeconómica. “Muitas vezes queixamo-nos de problemas de ínfima importância comparados àqueles que estas pessoas enfrentam: violência, abandono, abuso de substâncias, situação de sem abrigo, entre outros. Esta experiência permitiu-nos não só desenvolver a nossa formação pessoal e servir os mais desfavorecidos, mas também para a nossa consciencialização dos privilégios que temos.”


Inês Neves, Kinkas da Costa e Lourenço Tereso, que também fizeram voluntariado na ACERSI, afirmaram que esta foi uma “Experiência forte e elucidativa, de inclusão e reinserção social, descaracterizando a discriminação. Sentimento de solidariedade, justiça humana e equidade social que valorizou o que sempre tomamos por garantido.

Acontecimento com empenho, compromisso e ética, que se traduziu numa motivação de ajudar o próximo desprovida de estereótipos ou preconceito”.


Na sua opinião, de que forma o voluntariado pode contribuir para o desenvolvimento pessoal e profissional dos futuros médicos?

Com as atividades de voluntariado, em particular se efetuadas por estudantes, neste caso do MIM, não se pretende negar a legítima ambição profissional aos jovens, mas ajudá-los e guiá-los e assim contribuir para que consigam alcançar plenamente os seus objetivos, através do trabalho competente, honesto e ético, respeitando sempre o outro.


Trata-se de transmitir valores, cada vez mais negligenciados, esquecidos e não valorizados. É sabido que a experiência de voluntariado contribui para desenvolver nas pessoas responsabilidade social, competências de comunicação e atributos pessoais como a empatia a compaixão, que entre outras qualidades serão, para alguns especialistas, competências essenciais daqui a poucos anos no mundo do trabalho, opinião que partilhamos. Não basta ser bom médico: é preciso ser também um Ser Humano honesto e íntegro, com valores morais e éticos, que saiba respeitar o seu semelhante, os seus valores e os da comunidade.

A UC Princípios e Práticas de Voluntariado, dirigida a alunos dos primeiros anos do MIM, permite que precocemente, no seu percurso académico e em contexto real, tenham a oportunidade de, na comunidade, explorarem vocações através da participação em atividades desenvolvidas por algumas instituições da cidade de Coimbra, com as quais estabelecemos parcerias. Este contacto com realidades quase sempre suas desconhecidas, por vezes amargas, tem despertado diversas reações transformadoras que, acreditamos, no futuro como médicos se traduzirão por uma abordagem mais humanizada ao seu semelhante fragilizado pela doença. Através desta UC, contribuímos para a formação social e humana dos futuros médicos e para a prática da medicina mais humanizada e atenta aos problemas sociais.


Pode partilhar exemplos de projetos ou atividades de voluntariado nos quais os alunos participaram em resultado da frequência desta UC?

Partilhamos, a título de exemplo, o projeto organizado e realizado por um grupo de alunos que consistiu na preparação de sessões de esclarecimento para ajudar mães/pais desfavorecidos, alguns muito jovens, a melhor cuidarem dos seus filhos recém-nascidos e no primeiro ano de vida, chamado “1º Ano de vida – Cuidados com o bebé” (solicitado pela ADAV).

Outro, no lar da Graça de São Filipe, o projeto para os idosos com mobilidade teve por objetivos: auxiliá-los nas AVDs básicas, procurando não interferir com a autonomia e aptidão física; estimulação sensorial; leitura e “momentos de conversa”, entre outras atividades; para aqueles sem mobilidade/acamados, o projeto objetivou a prestação de auxílio nas refeições, ajuda na higiene, etc.


Como vê a integração do voluntariado no ensino superior? Acredita que mais cursos deveriam adotar iniciativas semelhantes?

Integrar o voluntariado nos diversos cursos de ensino superior seria não só uma forma de contribuir para o desenvolvimento de competências pessoais importantes para a integração e aceitação do outro nas suas diferenças, participação cívica para resolução de problemas, etc., mas também uma oportunidade para a aquisição de um conjunto de competências transversais decisivas no momento de os estudantes entrarem no mercado de trabalho.


Os Programas de Voluntariado no ensino superior deveriam, por isso, ser implementados para estimular a formação e educação dos membros da comunidade académica, particularmente dos estudantes, nos valores da solidariedade e coesão social, tolerância, igualdade e não discriminação, para assim promover uma cidadania responsavelmente ativa.


Quanto a se mais cursos deveriam adotar iniciativas semelhantes, a resposta é sim. Atrevo-me mesmo a dizer que iniciativas destas deveriam ser alargadas a todos os estudantes e profissionais da área da saúde.

Entendemos que esta é uma área que deveria ser mais valorizada em escolas como as Faculdades de Medicina, considerando o seu objetivo mais nobre que é a formação de médicos. Se queremos Médicos com práticas mais humanizadas, atentos à pessoa nas suas diferentes dimensões e atentos aos detalhes, temos de começar cedo na formação a introduzir esta matéria, que deveria ser consolidada ao logo do restante percurso académico através da participação dos alunos em atividades de voluntariado devidamente enquadradas na formação e reconhecidas no suplemento ao diploma.


Pode contar-nos um pouco acerca do seu percurso profissional?

Iniciei o meu percurso na carreira de Docente Universitária como assistente estagiária na FMUC, em 1992, por concurso público, portanto, há 32 anos. Doutorei-me em Medicina na Universidade de Coimbra, na especialidade de Patologia - Fisiopatologia/Patologia Geral, em maio de 2001. Sou, atualmente, Professora Associada com Agregação, com um percurso feito de trabalho dedicado em que todos os lugares que ocupei e ocupo, o foram e são por competência demonstrada.

Criei na FMUC duas áreas de ensino e investigação: Cuidados Paliativos, graças ao que existe hoje na FMUC um Mestrado em Cuidados Paliativos, um curso de Cuidados Paliativos não-Oncológicos; um Centro de Estudos e Desenvolvimento dos Cuidados Continuados e Paliativos (CEDCCP), que além da organização de cursos, congressos (Congresso Internacional de Cuidados Paliativos; Congresso Multidisciplinar da Dor, e outras reuniões científicas com a Conferência Nacional de Canábis Medicinal), organiza anualmente, em parceria com a IM3M e a Universidade de Cabo Verde, um curso de formação básica em Cuidados Paliativos e Dor na Cidade da Praia. Criei ainda a UC de Cuidados Paliativos (MIM) em Coimbra e no curso Básico na Universidade dos Açores.


A Medicina da Dor é a outra área de formação e investigação que criei na FMUC. Há uma pós-graduação em Medicina da Dor e vários projetos a serem desenvolvidos, tanto em medicina da dor como em cuidados paliativos. Temos tido a grata satisfação de ver o nosso trabalho reconhecido pelos nossos pares, nacional e internacionalmente.


Quais os maiores desafios e do que mais gosta no seu trabalho?

Sempre gostei muito de trabalhar, retiro do trabalho uma grande satisfação só superada pela que retiro do convívio com a minha família e os meus amigos.

Os desafios sempre estiveram presentes, sempre os encarei, com postura positiva. Um dos grandes desafios para a concretização mais efetiva dos objetivos da UC de ‘Princípios e Práticas de Voluntariado’ seria conseguir que fosse libertado tempo letivo para as atividades de voluntariado, o que permitiria consolidar as aprendizagens e mais facilmente acompanhar os alunos nas atividades práticas que decorrem na comunidade.

Talvez o maior de todos os desafios seja (tem sido) o de conseguir lidar com a falta de respeito, de valores e de ética, infelizmente cada vez mais frequente.


por Luísa Carvalho Carreira (texto e fotografia de topo)

fotografias gentilmente cedidas por Marília Dourado


voltar à newsletter