4'33'' | Rui Martins

A parceria entre a Universidade de Coimbra (UC) e a Universidade de Macau (UM), na área das Ciências da Saúde, deu mais um passo significativo com o compromisso assumido entre as duas instituições de ensino superior, no passado dia 29 de outubro, para o futuro lançamento de um doutoramento em cotutela. Este avanço surge no seguimento da criação de um Laboratório Conjunto em Envelhecimento Cognitivo e Ciências do Cérebro, uma iniciativa que reflete também uma união de esforços para enfrentar os constantes desafios das áreas da Saúde e da Medicina. Rui Martins, vice-reitor da UM, destaca a importância destas colaborações e fala da experiência de 27 anos no cargo.


No passado dia 29 de outubro foi assinado um acordo para o futuro lançamento de um doutoramento em cotutela na área das Ciências da Saúde entre as Universidades de Coimbra (UC) e de Macau (UM), na sequência do protocolo celebrado há um ano, no domínio científico, quando as duas universidades formalizaram a criação do Laboratório Conjunto em Envelhecimento Cognitivo e de Ciências do Cérebro. Como vê esta parceria na área da Saúde e de que forma considera que pode seguir a já bem-sucedida parceria da UM com a UC na área do Direito?


A UC é uma das universidades com a qual a UM mantém uma colaboração há mais tempo, desde há cerca de 35 anos, quando aqui foi estabelecido o curso de Direito. Trata-se, de facto, de uma parceria bem-sucedida na área do ensino.


Depois da pandemia, mais concretamente a partir do ano passado, assinámos acordos estratégicos com a Universidade de Lisboa, a Universidade do Porto e a Universidade de Coimbra, com o objetivo de estimularmos uma maior colaboração, desta feita na área da investigação.


No caso da UC, a área escolhida foi a de Cognitive and Brain Sciences. Com a criação do Laboratório Conjunto em Envelhecimento Cognitivo e Ciências do Cérebro por parte da UC e da UM, no final do ano passado, a ideia foi associarmos a isso a criação de doutoramentos de duplo grau na área das Ciências da Saúde em ambas as instituições.


Este acordo de doutoramento em cotutela na área das Ciências da Saúde vai permitir que alunos da UC passem um tempo aqui na UM e vice-versa. Uma vez que o acordo está estabelecido, o próximo passo é termos alunos a candidatarem-se já no próximo ano letivo, de 2025/2026.


Que impacto pode ter para a UM uma parceria, na área da Saúde, com uma instituição com um longo e reconhecido histórico, como é o caso da UC?

Na UM, não temos muitos acordos de duplo grau de doutoramento como este estabelecido com a UC. Só estabelecemos este tipo de acordo com universidades importantes e de topo a nível mundial, e especialmente com universidades portuguesas.


Decidimos avançar com esta parceria na área das Ciências da Saúde, em particular das Neurociências, porque identificámos que se trata de uma área em que Coimbra está muito avançada.


A título de exemplo, consideramos que a área da Microeletrónica é também um setor muito avançado em Portugal, daí a parceria que temos com o Instituto Superior Técnico da Universidade de Lisboa, bem como a área das Ciências Farmacêuticas, razão pela qual temos uma parceria com o i3S [Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto].


Procuramos ter este tipo de acordo com instituições de ensino superior e institutos de investigação avançados nestas universidades. A UC é muito forte na área das Neurociências, e foi por isso que avançámos nessa direção.


E como antecipa a troca de experiências e competências, bem como o intercâmbio de estudantes, na área da Saúde, com o fortalecimento dos laços culturais, académicos e científicos entre a UC e a UM?


Como referi antes, a UC é uma das universidades com a qual a UM mantém uma colaboração há já cerca de 35 anos, quando aqui foi estabelecido o curso de Direito. Os primeiros docentes da Faculdade de Direito daqui eram jovens assistentes estagiários da UC, coordenados por professores catedráticos que aqui lançaram um programa que tem tido bastante sucesso, como se pode comprovar pelo número de anos em que se encontra em funcionamento.


A colaboração com a UC vem já de longa data e, por ser bem-sucedida, vamos lançar este doutoramento em cotutela e o laboratório conjunto na área das Ciências da Saúde, para que a boa troca de experiências, competências e o intercâmbio se mantenham.


Tendo em conta a tradição que já existe e o bom trabalho realizado ao longo de muitos anos entre as duas universidades, isso só nos deu ainda mais motivação para alargarmos a colaboração com Coimbra.

De que forma a UM prepara os estudantes da área da Saúde para responderem aos desafios médicos atuais? Existem iniciativas para integrar práticas inovadoras na formação?


Aqui na UM, não temos ainda uma Faculdade de Medicina. Estamos a criar um campus no qual essa faculdade estará inserida. A construção deste campus deverá estar concluída em 2028. Uma vez que somos a única universidade pública no território, essa será também a única Faculdade de Medicina pública aqui.


O que temos atualmente é a Faculdade de Ciências da Saúde, que oferece alguns programas de licenciatura, mestrado e doutoramento, focados, principalmente, nas áreas do Cancro e do Envelhecimento. Para além disso, temos também um instituto, o State Key Laboratory of Quality Research in Chinese Medicine [Laboratório Estatal de Pesquisa de Qualidade em Medicina Chinesa].


Quer na faculdade, quer no instituto, são utilizadas técnicas inovadoras relacionadas com a investigação nas áreas do Cancro e do Envelhecimento, mas também com o diagnóstico e tratamento de doentes com cancro e de doenças em pessoas idosas.


Ia perguntar-lhe precisamente por esse campus da Saúde, cuja construção, como referiu, deverá estar concluída no ano de 2028. Em traços gerais, quais serão as valências deste campus?


Uma das características do ensino da UM, e que difere do ensino de outras universidades na China, é que o idioma utilizado na instrução é o inglês. Oferecemos também cursos em português e em chinês, nomeadamente em Direito, uma vez que são estas as duas línguas oficiais de Macau, e temos, claro, os Departamentos de Português e de Chinês aqui na universidade.


Em todos os outros cursos, o principal idioma é o inglês, algo que também acontecerá na Faculdade de Medicina que teremos no novo campus da UM. A ideia, ao oferecermos estes programas em inglês, é atrairmos não só estudantes locais e da China, mas também estudantes internacionais.


O que prevemos é que esta faculdade ofereça formação nos três graus de ensino – licenciatura, mestrado e doutoramento –, em Medicina, Medicina Dentária, Farmácia e Nutrição. Iremos ter como hospital afiliado o novo hospital aqui de Macau, que abriu recentemente e que colabora também com o hospital principal de Pequim.

Pois é, sou vice-reitor desde 1997. Se calhar, já devo ter entrado para o Guinness pelo número de anos como vice-reitor [risos]! Nas universidades de língua portuguesa, acho que devo ser realmente o vice-reitor há mais anos em atividade.


Quando iniciei funções neste cargo, ainda estávamos no tempo da administração portuguesa, em 1997, numa altura em que esta universidade era muito mais pequena. Ainda estávamos no anterior campus, e tínhamos apenas cerca de 3 mil alunos. Nessa altura, eu era o único vice-reitor, pelo que supervisionava todas as áreas, juntamente com o reitor.


Entretanto, a UM cresceu. Hoje, estamos num novo campus, 20 vezes maior do que o anterior: tem cerca de um quilómetro quadrado. Em vez de apenas um vice-reitor, a UM tem agora cinco vice-reitores, até porque, em vez de 3 mil alunos, temos agora cerca de 15 mil. Ou seja, quintuplicou o número de estudantes e de vice-reitores.


De momento, existe um vice-reitor para os assuntos académicos, outro para a investigação, outro para os alunos, outro para a parte administrativa e eu ocupo o cargo de vice-reitor para os assuntos globais desde 2018. Antes disso, fui vice-reitor de dois pelouros em simultâneo, o de ensino e de investigação, e entre 2008 e 2018 fui vice-reitor para a investigação.


Ao longo do tempo, e nomeadamente através dos seus resultados relativos à investigação, a UM tem vindo a subir nos diversos rankings, e formámos já mais de 60 mil estudantes. Por isso, o balanço destes 27 anos como vice-reitor só pode ser positivo.


Foi galardoado, em setembro, com o Prémio Nacional de Engenharia Eletrotécnica pela Ordem dos Engenheiros de Portugal. Que importância tem para si a atribuição deste prémio?


Foi a primeira vez que a Ordem dos Engenheiros atribuiu prémios aos seus membros, e selecionou-me para receber este prémio na área da Engenharia Eletrotécnica. Por isso, ter-me sido atribuído este prémio é algo de muito importante para mim.


Sou professor catedrático de Engenharia Eletrotécnica no Instituto Superior Técnico da Universidade de Lisboa e também aqui, na Universidade de Macau. Tenho dedicado toda a minha carreira a esta área.


Fundei em Macau o primeiro laboratório de referência do Estado nesta área da engenharia, que dirijo e do qual falei há pouco, e que é um laboratório de topo a nível mundial. Nos últimos cinco anos, temos estado no Top 5 de laboratórios e, nos últimos dois anos, somos mesmo líderes mundiais nesta área.


Ter sido reconhecido pela Ordem dos Engenheiros foi uma grande honra, e creio que isso reflete o trabalho que tenho desenvolvido ao longo de 44 anos de carreira.


por Luísa Carvalho Carreira

fotografias gentilmente cedidas por Rui Martins