Do curso de Medicina

Às vezes, o melhor plano é não fazer planos


Há quem veja a vida como uma partitura a ser lida com precisão: cada nota tocada exatamente no seu tempo, tal como previsto. Mas há também quem a veja mais como uma improvisação, na qual a melodia se adapta aos desafios e às oportunidades do momento. Foi com este segundo pensamento que Rui Providência deixou os compassos familiares de Coimbra e se lançou aos ritmos eletrizantes de Londres, transformando dissonâncias em harmonia e incertezas em conquistas. É que, na vida, o melhor mesmo é não planearmos demasiado.

Nasceu a 8 de setembro de 1980, e até aos 28 anos de idade viveu na zona da Couraça de Lisboa, a conhecida ladeira conimbricense que vai do Largo da Portagem à Rua do Arco da Traição. Rui Providência frequentou o Jardim-Escola João de Deus, nos Arcos do Jardim, até ao 2º ano. Depois, foi para o Colégio de São José, perto do cemitério da Conchada, onde concluiu o 1º ciclo. Seguiu-se a Escola Poeta Manuel da Silva Gaio, em Santa Clara, onde frequentou o 2º ciclo. Já do 3º ciclo do ensino básico até ao final do ensino secundário, frequentou o Liceu José Falcão. “Acho que ter passado por diferentes escolas e ter convivido com colegas de diferentes contextos me permitiu perceber que no mundo existe muita diversidade, com a qual temos de saber lidar e aprender”, constata.

“Cresci sempre com a Universidade [de Coimbra - UC] por perto, a ver os estudantes. E os meus pais e avô paterno trabalhavam na UC, nas Matemáticas e nas Físicas. Então, desde sempre ouvi falar de papers e revisores, quando ainda nem sabia o que isso era”, observa. “Hoje, quem se queixa dos revisores que nos rejeitam os artigos sou eu”, brinca.

“Na infância, tive igualmente bastante contacto com o campo: a minha mãe é de Alhadas, uma pequena aldeia perto da Figueira da Foz. Quando era mais novo, costumávamos ir lá ver os meus avós maternos e passar o fim-de-semana”, conta. Em criança, daquilo que mais se lembra era mesmo de “querer brincar”, mas também do fascínio pelo computador, no qual passava muito do seu tempo. “Talvez tenha a ver com a minha maneira de ser, já que sou um pouco tímido e reservado”, constata, “mas realmente acho que, desde cedo, manifestei alguma apetência para a informática”.

No final dos anos 80, Rui Providência teve, na escola, uma disciplina de introdução à programação, na qual chegou até a desenvolver um jogo. “Era uma disciplina sobre a utilização do BASIC, uma das linguagens mais simples de programação”, indica. “De facto, eu gostei muito daquilo. Só que, apesar do meu interesse, em criança eu queria era brincar e, por isso, gostava muito do computador, mas mais para jogar”, revela, “ainda que considere que, de certa forma, essa breve experiência na infância tenha acabado por influenciar um bocadinho aquilo que hoje faço”.

A certa altura, o seu interesse voltou-se dos computadores para a Física. O principal “culpado” por esse novo fascínio foi o avô paterno, conhecido físico da UC. “A figura do meu avô sempre foi muito importante para mim. Tinha uma grande admiração por ele e, por esse motivo, comecei a pensar que também gostaria de ser físico”, refere.

Mas a frequência do ensino secundário revelou-lhe outros interesses, como as Ciências Naturais e a Matemática, e aos 18 anos de idade, em setembro de 1998, Rui Providência ingressou no curso de Medicina da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (FMUC). “Quando estava no liceu, fiz testes psicotécnicos, e a Medicina surgiu como uma possibilidade”, revela. “Pensei que deveria tentar. Se gostasse do curso, continuava, até porque, muitas vezes, o mais difícil é conseguir entrar. Se não gostasse, podia sempre repetir os exames e tentar um curso noutra área”, acrescenta.

Não foi preciso repetir exames nem tentar formar-se noutra área: Rui Providência ficou em Medicina, e terminou o curso em outubro de 2004. Dos anos de curso, guarda boas recordações, muitas delas relacionadas com a música, outro dos seus interesses. “Na minha infância, fiz também o conservatório. Comecei a tocar piano aos quatro anos de idade, e toquei ainda outros instrumentos, como a viola. Tenho, ainda hoje, aquilo que se chama ‘ouvido absoluto’: as pessoas mostram-me uma melodia, e eu consigo reproduzi-la imediatamente”, afirma.

Mais tarde, e apesar de considerar a música clássica interessante, Rui Providência começou a interessar-se por outros tipos de género musical. “Na adolescência, tinha um grande fascínio pelos Queen, pelo próprio Freddie Mercury, e por muita da música que se fazia no Reino Unido: gostava muito de bandas como os Oasis, os Manic Street Preachers… ouvia as músicas que faziam e tentava tocar na viola”, conta.

“A adolescência foi a altura em que me apercebi que queria criar e fazer coisas novas. Comecei a escrever letras de músicas e cantava e gravava o qua ia fazendo em cassetes: já as perdi todas, mas acho que, se hoje as ouvisse, ia divertir-me um bocado – e rir também – com o que ali estava”, graceja.

Quando entrou na FMUC, a música foi uma importante aliada no combate à timidez. “Por ser tímido, sempre tive alguma dificuldade nas relações interpessoais, e a música permitiu-me encontrar grupos com interesses semelhantes aos meus na faculdade. Foi assim que acabei por entrar na Tuna de Medicina, o que me permitiu atuar, nos festivais de tunas, em palcos que, na adolescência, achava inalcançáveis, como os do Coliseu do Porto e da Aula Magna em Lisboa, para além de ter participado também na Serenata Monumental, algo muito desejado e ambicionado por mim. De início, achava que a tuna não era para mim, porque gostava de outro tipo de sonoridade, mas depois fui-me apercebendo da qualidade do que se fazia e do bom ambiente com os amigos que por lá fui fazendo… mais tarde cheguei até a integrar grupos de fado”, refere.

No início do curso, ao frequentar as aulas de Anatomia, Rui Providência diz ter, desde logo, percebido que existiam dois órgãos em particular que lhe chamavam especialmente à atenção, até pelo interesse que, desde a adolescência, nutria também pela Física: o coração e o cérebro. “Tanto um quanto o outro têm complexidade e eletricidade, e por isso, à medida que o tempo foi passando, comecei a ficar dividido entre a Cardiologia e a Neurologia quando pensava na especialidade médica que gostava de seguir”, constata.

“Quando precisei mesmo de fazer a decisão final, aquilo que me fez pender mais para a Cardiologia foram duas coisas: a primeira foi que a Neurologia, apesar de ser uma área apaixonante, naquela altura não era uma especialidade muito desenvolvida em termos de tratamento, e nem me passava pela cabeça que poderia, caso optasse por essa especialidade, ter uma carreira ligada à investigação, que me permitisse desenvolver esses tratamentos, à data, inexistentes”, indica.

“A segunda coisa foi, por achar que não iria ser investigador, constatar que, de facto, a Cardiologia era uma área que, nos 20 anos anteriores, tinha tido grandes desenvolvimentos, e que, por esse motivo, era uma especialidade em que eu poderia fazer algo mais pelos doentes”, refere.

“Além disso, o primo do meu avô era cardiologista [Luís Providência], e como era também uma figura que admirava, pensei que talvez lhe pudesse, de certa forma, seguir as pisadas. Ainda por cima, ele também tinha trabalhado com pacemakers – lá está outra vez esse meu interesse pela Física e pela eletricidade –, pelo que o considerava um bom exemplo a seguir”, acrescenta.

Em 2004, Rui Providência teve o seu primeiro contacto com a prática clínica. “Foi quando comecei o chamado Internato Geral, nos HUC [Hospitais da Universidade de Coimbra]. Considero que essa parte do treino médico está muito bem estruturada, porque vamos sendo, gradualmente, expostos a diversas situações, cada vez mais complexas, mas eu sempre duvidei bastante de mim e das minhas capacidades”, observa.


É capaz de ter sido o pior ano da minha vida…


“Por isso, quando houve esse primeiro contacto, só conseguia pensar em como tudo era complicadíssimo. Em contexto de urgência, fiquei até um bocado bloqueado, em pânico: é que uma coisa é termos contacto com doentes enquanto alunos, e outra completamente diferente é termos toda a responsabilidade em cima de nós, aliada ao medo de falharmos, de perdermos alguma pista importante para chegarmos ao diagnóstico correto para podermos aplicar rapidamente o tratamento e estabilizarmos o doente”, confessa.

Ao mesmo tempo que Rui Providência se adaptava à prática clínica, estudava para poder vir a seguir a especialidade que queria, a Cardiologia. “É capaz de ter sido o pior ano da minha vida… Tinha de estudar de dia e de noite para o famoso exame Harrison. Foi muito cansativo e, nas vésperas do exame, lembro-me de pensar que não sabia nada!”, revela.

Mas o exame correu bem, o que permitiu que Rui Providência pudesse escolher a especialidade pretendida. “A nota foi boa, mas não o suficiente para ir para os HUC, que era na altura o que ambicionava. Depois de ponderar e de visitar o Hospital dos Covões e também o de Viseu, escolhi ir para os Covões, um hospital do qual tinha muito boas referências e que tinha quase todas as valências da Cardiologia na altura. Menos uma: a Eletrofisiologia”, indica.

Rui Providência considera ter sido o melhor para si ter ido para o Hospital dos Covões, mesmo que à partida não fosse essa a sua primeira opção. “Acho que isso tem sido uma constante na minha carreira: não podemos planear muito as coisas, porque, às vezes, somos levados para caminhos com os quais não contávamos, mas que, na verdade, são os melhores para nós”, salienta.


Sempre tive esse chamamento para o software e para o cálculo.


Há 20 anos, este era um hospital sem “uma tradição de investigação”, pelo que o diretor do Serviço de Cardiologia, António Leitão-Marques, viu em Rui Providência alguém importante para desenvolver o serviço nesse sentido, tendo começado a incutir nos internos esta necessidade de fazer investigação. “Viu que, de facto, havia em mim essa vontade de, tal como na música, criar coisas novas, escrever, pensar as coisas de forma diferente, não só de absorver conhecimento, mas de criá-lo”, menciona.

“Nessa altura, acabei também por abandonar o mestrado em Biologia Celular que, entretanto, tinha começado a fazer e para o qual já tinha feito a componente curricular e escolhido o projeto a desenvolver, porque era muito difícil conciliar as experiências que decorriam no IBILI [Instituto Biomédico de Investigação em Luz e Imagem] com a atividade nos Covões”, denota.

Dado o interesse pelos computadores e pela Matemática, Rui Providência começou então a fazer investigação clínica, e a interessar-se pela Estatística. “Sempre tive esse chamamento para o software e para o cálculo, e comecei a brincar um bocadinho com os programas de análise estatística que existiam. O Serviço de Cardiologia trouxe também uma professora do IBILI nessa altura, a Professora Bárbara Oliveiros, para nos dar uma aula de estatística, que achei muito interessante e que me deixou a pensar o que poderíamos fazer com toda a informação que tínhamos no hospital”, relata.

Rui Providência começou, assim, a criar bases de dados de informações relativas à Cardiologia no hospital, sobre as quais começou a escrever artigos, publicados em revistas internacionais com bons fatores de impacto. Algo que, para um hospital que antes publicava pouco, foi um importante passo.

“Mas quando uma pessoa faz investigação em Portugal, tem de fazer o doutoramento, e eu, estando nos Covões, não pensava muito nisso. Achava que o meu maior foco ia ser tratar os doentes e, em menor grau, fazer um pouco de investigação”, afirma.

Só que, como referido anteriormente, o Hospital dos Covões não tinha a valência da Eletrofisiologia, “a parte que lida com a eletricidade e as arritmias cardíacas”, e o diretor do Serviço viu também em Rui Providência a pessoa ideal para colmatar essa lacuna. Foi assim que rumou a sul, até ao Hospital de Santa Cruz, em Carnaxide, por dois períodos de três meses. “Para mim, que sempre tinha vivido toda a minha vida em Coimbra, extremamente protegido em casa dos meus pais, foi uma grande aventura, já que a mudança é algo que me causa um pouco de confusão”, admite.

Mas apenas seis meses não chegaram para, no Hospital de Santa Cruz, tentar absorver ao máximo os conhecimentos e procedimentos relativos à complexa área da Eletrofisiologia. “Por isso, continuei a viajar para lá uma vez por semana durante o tempo que me restava de Internato. Saía de Coimbra de madrugada para, às oito horas da manhã, estar no hospital a fazer os procedimentos”, conta.

Ao todo, foram três anos cansativos, mas de muita aprendizagem. Ainda assim, Rui Providência considerou que, dada a responsabilidade envolvida na atividade enquanto eletrofisiologista, a experiência adquirida não era suficiente, pelo que aceitou a sugestão de fazer um estágio fora de Portugal. “Fiquei um bocado relutante, com aquele medo de, mais uma vez, mudar para um ambiente diferente… Mas, como digo, as pessoas não devem planear muito a sua vida. Foi um salto no escuro, mas decidi ir”, salienta.


Com essa base de dados, publiquei 10 ou 12 artigos com as minhas análises estatísticas, que ainda hoje são citados.


Em novembro de 2012, já enquanto aluno de doutoramento da FMUC, ciclo de estudos que viria a completar em 2015, Rui Providência chegou à Clinique Pasteur, em Toulouse. “É uma unidade privada, mas que, tal como nos Covões, não tinha grande historial de investigação em arritmias. Quem estava à frente da Eletrofisiologia era o Serge Boveda, que se encontrava também a incutir a todos os que por lá passavam a importância de fazer investigação e de criar bases de dados”, observa.

“Quando lá cheguei, existiam já algumas bases de dados que tinham começado a ser criadas. Tive a sorte de encontrar um sistema informático altamente organizado, com toda a informação disponível no computador”, declara.

Todas as semanas, Rui Providência tinha um dia em que podia dedicar-se à investigação, pelo que, durante um ano, construiu uma base de dados altamente detalhada sobre alguns dos procedimentos realizados pela Clinique Pasteur. “Com essa base de dados, publiquei 10 ou 12 artigos com as minhas análises estatísticas, que ainda hoje são citados: têm mais de uma centena de citações cada. Foi, de facto, uma grande experiência, e saí de lá, depois de 15 meses, a conseguir fazer todos os procedimentos”, indica.

A experiência foi enriquecedora, mas não apenas em termos clínicos ou de investigação. “Acho que também me ajudou muito na interação social. Quando lidamos com doentes, é importante percebermos que temos à nossa frente seres humanos, com os quais temos de estabelecer algum tipo de contacto para que se sintam à vontade e para que possam confiar em nós para contarem o que sentem e o que se passa com eles. Toulouse foi também muito importante por esse motivo”, enfatiza.

Quanto voltou para Coimbra – não sem antes ter declinado o convite para prolongar a sua estadia em Toulouse–, a expetativa era a da assinatura de um contrato como especialista em Eletrofisiologia. “Mas, infelizmente, isso coincidiu com a crise em Portugal, numa altura em que as novas contratações na Saúde estavam sempre a ser adiadas, que foi o que aconteceu comigo”, lamenta.

“Comecei a ficar um pouco frustrado com a situação e com o tempo de espera e, certo dia, o que aconteceu foi interessante, e mostra, mais uma vez, que na vida não podemos planear tudo: às vezes, o melhor é mergulharmos no desconhecido e ver o que acontece”, começa por contextualizar.

O que aconteceu foi que, no início do ano de 2014, recebeu um e-mail relativo a uma vaga de trabalho para eletrofisiologista. Tratava-se, sem dúvida, de uma boa notícia para Rui Providência, mas havia um “pequeno” pormenor envolvido: a vaga era em Londres.

“Eu olhei para aquilo e comecei a pensar na minha adolescência e no meu fascínio pela língua e pela música inglesas... Além disso, quando estava a fazer a especialidade, fui uma ou duas vezes a Londres, e achei tudo magnífico. Naquele momento, estava frustrado pela indefinição da minha situação em Portugal. Pensei que deveria, pelo menos, tentar candidatar-me, a ver no que dava! E fui logo chamado para uma entrevista, à qual fui bastante nervoso”, revela.

Lembram-se da experiência com o exame Harrison? A da entrevista em Londres foi parecida: apesar do nervosismo, correu bem. Tão bem que, depois de a fazer, passaram apenas 10 minutos até receber um telefonema a indicar que tinha sido o selecionado para a vaga. “Tratei da papelada toda, fiz a certificação no GMC [General Medical Council], que é o equivalente à Ordem dos Médicos em Portugal, e foi assim que vim parar a Londres”, indica.

No Reino Unido há 10 anos, onde vive com a mulher e o filho, Rui Providência tem um dia-a-dia bastante preenchido. É Professor Catedrático na University College of London e desempenha atividade clínica no Barts Health NHS Trust, onde é médico consultor em Cardiologia e Eletrofisiologia. Realiza procedimentos de eletrofisiologia de intervenção no Barts Heart Centre do St Bartholomew’s Hospital e dá consultas de Eletrofisiologia e Cardiologia Geral no Newham University Hospital, onde é igualmente chefe do serviço de Clinical Informatics. É também líder da Cochrane Heart, Stroke and Circulation e professor na University College of London (UCL), onde ocupa desde 2023 o cargo equivalente ao de professor catedrático em Portugal, e é membro da Commission on Human Medicines do Medicines and Healthcare products Regulatory Agency (MHRA), o equivalente ao Infarmed em Portugal.

Atualmente, as segundas e sextas-feiras são dedicadas à investigação. “Nesses dias, como consigo trabalhar a partir de casa, começo por levar o meu filho à escola. Depois, venho para casa e faço a minha investigação, o que significa que faço análise de dados e escrevo artigos e projetos, mas também que tenho muitas reuniões. À tarde, vou buscar o meu filho à escola – às sextas-feiras ainda o levo à natação –, e depois de jantarmos e o Afonso ir dormir, volto a trabalhar mais um pouco, muitas vezes até depois da meia-noite”, revela. “Os outros dias são os dias clínicos. Às terças-feiras, faço procedimentos de eletrofisiologia, às quartas-feiras de manhã é quando respondo a e-mails pendentes e trato dos documentos e relatórios que devem constar no registo clínico dos doentes e de tarde dou consultas. Às quintas-feiras, faço também procedimentos numa parte do dia, e na outra investigação”, complementa.

O grande “hobby”, admite, é passar tempo com o filho Afonso, com quem alinha nas brincadeiras. “Ele agora gosta muito de futebol, de jogos no tablet e de LEGO”, conta. Mas a música continua presente na sua vida. “Tenho também um projeto musical com a minha mulher [professora universitária no King’s College London]. Uma vez por ano, gravamos uma música em estúdio e fazemos um videoclip. Eu escrevo as músicas e ela canta, e temos também um produtor, com quem gravamos a parte instrumental”, faz saber.

“É um hobby que também nos ocupa algum tempo, mas que nos mantém vivos. Se a vida for só estar em modo de sobrevivência, a trabalhar de dia e, à noite, a fazer mais algum trabalho pendente, se não houver muito mais além disso, acho que o nosso cérebro e a nossa parte psíquica também se ressentem”, constata. “É preciso ter algo mais que não seja apenas trabalhar e seguir o ciclo da vida. É importante sonharmos e termos outras coisas para fazer”, refere.

Ainda sobre sonhos, Rui Providência garante que a situação em que hoje se encontra é já um sonho tornado realidade. “Na verdade, fiz já muito daquilo que sonhava fazer, mas que achava que não iria acontecer, que eram coisas fora do meu alcance”, afirma. “Agora, vendo que ainda tenho, pelo menos, mais 20 anos de carreira pela frente, às vezes fico um bocado deprimido… A partir de agora, é sempre a cair, não é?”, brinca.

Relativamente à atividade profissional, e porque atualmente a investigação que desenvolve se prende com a tentativa da criação de medicamentos para tratar arritmias e doenças cardíacas, Rui Providência admite que gostaria muito de desenvolver algo nesse sentido, através de um “grande estudo randomizado” para demonstrar o benefício de um determinado fármaco.

“Em termos pessoais, claro que, acima de tudo, quero que o meu filho seja feliz na área que escolher seguir. Ele já me disse que queria ser youtuber. Agora, parece que quer ser futebolista. Vamos ver. Será o que quiser ser e o que o faça feliz, isso é que é importante. E é esse o meu principal sonho, que seja e continue feliz e que se sinta realizado naquilo que um dia vier a fazer”, confidencia.

Para alguém que, há alguns anos, não imaginava – nem queria – sair de Coimbra, Rui Providência tem hoje uma opinião diferente. “Nesse sentido, acho que o programa doutoral da FMUC também me alargou os horizontes, ao mostrar o que são as carreiras dos investigadores que vão para fora para aprenderem e progredirem no trabalho que desenvolvem”, denota.

“Acho que é muito importante para os jovens das áreas biomédicas perceberem que sair é uma parte essencial do crescimento. É importante sair, passar tempo fora, seja para sempre ou apenas por um período mais curto. O mundo é global e muito vasto… Existe muita experiência para adquirir e muita aprendizagem a ser feita lá fora se quisermos, de facto, crescer na nossa profissão”, declara.

E, no seu percurso, Rui Providência afirma que tudo tem sido também uma grande aprendizagem. Sem passos meticulosamente calculados, mas com a sabedoria e a humildade de reconhecer e aproveitar as oportunidades que vão surgindo. Afinal, na vida o melhor mesmo é não planearmos demasiado.

por Luísa Carvalho Carreira

fotografias gentilmente cedidas por Rui Providência


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