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Programa DRIVE: uma aposta na inovação em saúde


Uma equipa do Centro Académico Clínico de Coimbra (CACC) integrou, recentemente, o programa DRIVE, uma iniciativa de capacitação do EIT Health liderada pela Universidade Técnica de Delft. Da equipa, fizeram parte a Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (FMUC), a Unidade Local de Saúde de Coimbra (ULS-Coimbra), a Escola Superior de Enfermagem de Coimbra (ESEnfC) e o Instituto Pedro Nunes (IPN).

Henrique Girão, diretor do Instituto de Investigação Clínica e Biomédica da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (iCBR-FMUC), Inês Costa, gestora de investigação da FMUC e Tiago Alfaro, diretor da Unidade de Inovação e Desenvolvimento da ULS-Coimbra, partilham alguns detalhes da participação neste programa, destacando a sua importância para o fortalecimento do CACC.


Um ecossistema rico, mas com desafios


O programa DRIVE tem como objetivo capacitar instituições para implementarem e desenvolverem ecossistemas de inovação para a saúde. Conforme explica Inês Costa, “em maio de 2024 o EIT Health Innostars lançou um convite aos seus membros para a participação neste programa com ecossistemas de inovação já existentes para a sua capacitação e internacionalização”.

Compreendendo a oportunidade que este programa representava para o desenvolvimento e implementação do CACC, a FMUC apresentou uma candidatura para a participação no Programa DRIVE. Foram selecionadas seis equipas de cinco países: Portugal, Itália, Polónia, Bósnia e Herzegovina e Hungria.

Este programa consistiu em três sessões presenciais nos meses de setembro, outubro e novembro de 2024 em Delft, Earlengen e Budapeste, respetivamente. Nestas sessões, as equipas tiveram a oportunidade de conhecer e partilhar experiências com vários ecossistemas de inovação em saúde europeus de referência, desenvolver um plano de implementação e ação, estabelecer novas parcerias e novas metodologias de trabalho.

Questionado acerca dos principais desafios na implementação de iniciativas de inovação em saúde como as promovidas por este programa, Henrique Girão destaca a existência, em Coimbra, de um ecossistema particularmente rico, diverso e estimulante na área da saúde.

“No âmbito do CACC, por exemplo, temos instituições, académicas e científicas, que nos permitem abordar o tema da saúde, numa perspetiva global e holística, desde a prevenção e promoção da qualidade de vida até ao diagnóstico e terapêutica. De facto, temos unidades dedicadas à investigação mais fundamental, para melhor se compreender os mecanismos que estão na base do aparecimento e progressão de doenças, permitindo identificar e desenvolver novas formas de tratamento. Temos ainda uma comunidade clínica muito forte, não apenas em termos de diferenciação dos cuidados de saúde prestados, como se pode confirmar pelo elevado número de Centros de Referência localizados na ULS-Coimbra, mas também ao nível da produção científica”, observa.

No entanto, o diretor do iCBR-FMUC refere que, se se considerar o progresso científico, desde a criação de conhecimento até à sua aplicação, como um percurso em etapas, entre vários pontos, há algumas destas etapas que não estão a funcionar em pleno, dando, neste contexto, dois exemplos.

“Um é a passagem da investigação fundamental, desenvolvida essencialmente em células e modelos animais, para a aplicação em humanos, a que chamamos vulgarmente ‘translação’: na verdade, há vários níveis de ‘translação’, e este é apenas um deles”, esclarece. “O outro diz respeito ao desenvolvimento de novas aplicações que possam chegar ao mercado, nomeadamente novas tecnologias e metodologias que permitam melhorar a prevenção, diagnóstico e tratamento de doenças. Neste caso, podemos dizer que há uma fragilidade ao nível da inovação”, acrescenta.

No que diz respeito à primeira lacuna, Henrique Girão considera que “a criação recente de uma CTU [Unidade de Ensaios Clínicos de Iniciativa do Investigador] constitui, seguramente, um contributo muito importante para acelerar a translação de novas descobertas provenientes da ciência básica para os humanos”. Já no respeitante à componente da inovação, afirma que existe a necessidade de identificar estratégias que permitam melhorar a transferência do conhecimento e novas descobertas para o mercado, com a criação de valor.

Foi com esta intenção que a FMUC integrou o programa europeu DRIVE, juntamente com outros parceiros importantes do ecossistema da saúde. “O grande objetivo é, precisamente, conceber um plano que permita alinhar e potenciar os interesses e recursos de cada uma destas instituições, com vista ao desenvolvimento de projetos que vão ao encontro das necessidades das pessoas”, salienta Henrique Girão.

A importância da interdisciplinaridade


Para Henrique Girão, na saúde, como em outras áreas, cada vez mais a resposta aos problemas, na maior parte das vezes complexos, exige uma equipa multidisciplinar. Só assim é possível ter sucesso na translação e na inovação.

“As competências trazidas por equipas com recursos diversificados, provenientes de diferentes áreas e disciplinas, são determinantes para que se possa responder, de mais efetiva, rápida e eficaz, a questões que emergem do contexto clínico”, declara.

“Para isso, e para se conseguir ir ao encontro das necessidades dos cidadãos, dos doentes, das populações e das comunidades, é preciso juntar equipas que consigam abordar as diversas dimensões do problema, como cientistas, médicos, farmacêuticos, engenheiros, psicólogos, enfermeiros, técnicos de saúde, entre outros”, complementa.

Por esse motivo, a equipa do CACC que integrou o programa DRIVE contou com membros da FMUC, ULS-Coimbra, ESEnfC e IPN. “Foi muito interessante e construtivo, nas várias reuniões que tivemos, perceber que muitas destas instituições, ainda que trabalhando lado a lado, partilham das mesmas preocupações e têm os mesmos desejos. Os recursos existem e a vontade existe. Agora, é arregaçar as mangas e por mãos à obra, para que em conjunto possamos tornar estes desejos realidades. Depende de nós!”, enfatiza o diretor do iCBR-FMUC.


Resultados iniciais e metas futuras


“O primeiro passo [no âmbito da participação no programa DRIVE] foi começar por identificar as fragilidades que comprometem a inovação no nosso contexto da saúde. Isto passa pelo levantamento e mapeamento do potencial existente, em termos de recursos e áreas de diferenciação. Depois, é necessário desenhar estratégias que estimulem uma maior aproximação e promovam sinergias entre várias disciplinas nas quais exista complementaridade de interesses e recursos, com vista à implementação de projetos mais inovadores, com maior impacto e aplicação nas pessoas, doentes e saudáveis”, contextualiza Henrique Girão.

Mas, conforme indica, este é um tipo de abordagem e pensamento que encontra ainda uma forte resistência dentro da comunidade científica, nomeadamente na comunidade clínica. Assim, no seu entender, para reverter esta situação é necessário investir na formação e no treino, para contribuir para uma mudança de mentalidade e de cultura. “Algo que levará ainda algum tempo. No entanto, há que lançar, desde já, estas sementes, para que, num futuro próximo, possamos ter uma comunidade mais comprometida com a inovação, com repercussões na prática clínica e nos benefícios para os doentes”, declara.

Uma aposta estratégica


“Este programa permitiu a criação de uma equipa multidisciplinar, motivada e capacitada para apoiar a implementação e dinamização do CACC. Temos o objetivo, a curto prazo, de apresentar um plano de ação para a implementação de iniciativas agregadoras e dinamizadoras do ecossistema da inovação em saúde da região de Coimbra, alicerçado no CACC”, refere Inês Costa.

Neste âmbito, foram estabelecidas parcerias com várias instituições europeias, tendo surgido já duas possibilidades de colaboração, um projeto europeu e uma colaboração com uma start-up.

A gestora de investigação da FMUC faz ainda saber que, no seguimento dos trabalhos durante o programa, foi identificada a oportunidade que a rede EATRIS [European Infrastructure For Translational Medicine, uma rede europeia de instituições e infraestruturas que contribuem para a translação na área da saúde] poderá representar para a investigação produzida no iCBR-FMUC, tendo sido submetida uma candidatura com sucesso para a adesão a esta rede.

O programa DRIVE revelou-se, assim, uma plataforma estratégica para impulsionar a inovação em saúde na região de Coimbra, promovendo o fortalecimento do ecossistema local e a integração em redes europeias de excelência.

"Este programa proporcionou-nos uma visão abrangente sobre a construção dos melhores ecossistemas regionais de inovação e empreendedorismo em saúde na Europa, destacando o impacto positivo na qualidade do ensino, na prestação de cuidados de saúde e no desenvolvimento económico e regional. Para além de analisarmos casos de sucesso, tivemos a oportunidade de refletir e discutir as dificuldades e desafios enfrentados ao longo deste percurso, aprofundando a compreensão dos processos necessários para a criação e sustentação destes ecossistemas", indica Tiago Alfaro.

"Recebemos ainda tutoria especializada para conceber um programa robusto e multiprofissional, alinhado com a realidade de Coimbra. Com base nas discussões realizadas entre a equipa e os tutores, identificámos estratégias para alavancar a inovação e otimizar a gestão de recursos clínicos na ULS de Coimbra, bem como para fortalecer a interação com os principais atores da inovação em saúde na região, no contexto do CACC", acrescenta.

Com esta equipa, o CACC deu um passo significativo rumo à criação de sinergias que prometem traduzir-se em benefícios concretos para a prática clínica e para as pessoas.

Apesar dos desafios, a mensagem é clara: os recursos estão presentes, as parcerias foram estabelecidas e as sementes da mudança já começaram a ser lançadas. Resta agora transformar o potencial identificado em resultados tangíveis, consolidando Coimbra como um polo de referência na inovação em saúde.


por Luísa Carvalho Carreira (texto e fotografia de topo)

fotografias gentilmente cedidas por Inês Costa