4'33'' | Jorge Paiva

Aos 91 anos de idade, Jorge Paiva continua imparável. De entre os muitos projetos que tem atualmente em mãos, destaca-se o livro que se encontra a escrever, a pedido da Universidade de Coimbra (UC), sobre as plantas na obra de Camões. Nesta entrevista, fala acerca deste livro e reflete ainda sobre a importância da biodiversidade, os desafios ambientais atuais e a ligação entre a destruição dos ecossistemas e a saúde humana, sem poupar críticas à falta de políticas eficazes na área ambiental.

Está a escrever um livro, solicitado pela UC, sobre as plantas na obra completa de [Luís Vaz de] Camões. Como está a correr o processo de escrita?


Antes de mais, quero dizer porque é que eu resolvi estudar Camões. Eu sou botânico, e, apesar de ter 91 anos, ainda venho para aqui [Departamento de Ciências da Vida da UC] às sete horas da manhã e saio às oito horas… da noite! Por isso, quando vou, à noite, para casa, botânica… zero! Caso contrário, seria um indivíduo sem cultura nenhuma, apenas com cultura botânica. E, portanto, leio outras coisas.


Então, na minha vida, cinco dos melhores professores que tive foram meus professores no ensino secundário. Foi o meu professor de Físico-Química, que me ensinou a raciocinar em Química: ensino qualquer cadeira de Química sem nunca ter andado nesse curso. Foi o meu professor de Matemática, que visitei até ao fim da vida dele, e que me ensinou a raciocinar em Matemática: não precisei de estudar matemática quando andei na universidade. Foi o meu professor de Filosofia, que, só com aquilo que me ensinava, me fez tirar 16 valores no exame nacional, sem eu nunca ter aberto o livro de Filosofia. Foi o meu professor de Inglês, que só falava inglês com os alunos: nunca andei em nenhum outro lado a aprender inglês. E, por último, foi a professora que fez com que fez com que eu fosse para Biologia.


Mas tive também professores horríveis! E um deles foi o meu professor de Português, que se preocupava apenas em que empinássemos o Camões, sem o entendermos. Foi assim que decidi que ia estudar Camões. Comecei logo por estudar Os Lusíadas. Ia lendo e pensava: “Que planta é esta? Que planta é aquela?”. E, assim, li a obra completa de Camões. Todos os poemas! Ia lendo e identificando as plantas.


Mesmo assim, ando nisto há anos! E apesar de já ter publicado um artigo com as plantas na obra de Camões, este livro que agora estou a escrever tem muitas novidades, sobre plantas que nunca tinham sido identificadas e eu consegui identificar, porque já tenho muita prática e andei nos sítios onde andou o Camões.


Estudo as plantas tropicais, conheço as plantas asiáticas, as europeias… enfim, só assim consegui fazer este trabalho que sairá agora no livro, e que julgo que tem muitas coisas inéditas. Cada vez que leio Camões é uma descoberta. Foi uma mente brilhante!


E a escrita do livro está quase terminada?


Já estou quase a entregá-lo!


Muitas das plantas que estudou têm propriedades medicinais. Na sua opinião, estamos a explorar adequadamente os recursos naturais para o desenvolvimento de novas terapias, ou ainda há um grande potencial inexplorado nas plantas medicinais que poderia ser aproveitado pela medicina moderna?


Antigamente, não havia medicamentos. Quando eu nasci, não havia antibióticos, eles surgiram depois do meu nascimento. Mas já se utilizavam plantas medicinais. Garcia de Orta foi um grande médico porque cultivava plantas medicinais. As especiarias também desempenham um papel importante, porque são medicinais.


E as plantas medicinais, como qualquer medicamento, são tóxicas. É justamente essa toxicidade que as torna ativas, eficazes no tratamento. Nos medicamentos, existem regras rigorosas. Alguns são tão tóxicos que precisam ser administrados com muito cuidado, apenas com receita médica. E há medicamentos tão tóxicos que só podem ser administrados por um médico ou enfermeiro, como é o caso da quimioterapia. Mas, de certa forma, quando tomo um comprimido qualquer, estou a fazer quimioterapia. E quando estou a beber um chá qualquer, também estou a fazer quimioterapia.


Portanto, a indústria farmacêutica não está a dormir. O que é que ela faz? Recorre à fitoterapia. Pesquisa os produtos químicos e, se os encontra em abundância na natureza, ótimo. Se não, sintetiza-os. Essa ideia de que as plantas medicinais atuais podem curar tudo é algo que a indústria farmacêutica não deixou de lado. Ela estava atenta e não deixava isso apenas nas mãos de outros.


Infelizmente, neste País, não há regras para a venda de plantas medicinais. E isso é algo que deveria ser regulamentado, da mesma forma que os medicamentos são. Já me queixei à Ordem dos Farmacêuticos e à Ordem dos Médicos, mas aos governantes não adianta, só atuam quando pressionados. É preciso que haja as mesmas regras.


Em outros países, a venda de plantas medicinais segue as mesmas normas dos medicamentos, porque algumas dessas plantas são altamente tóxicas e podem ser letais. Não podemos andar a brincar com isso, e é claro que há muitas pessoas que se aproveitam desta panaceia das plantas medicinais.


Ao longo da sua carreira, tem alertado para a importância da biodiversidade. De que forma acredita que a perda de biodiversidade pode impactar não apenas o meio ambiente, mas também a saúde e a qualidade de vida das pessoas?


Nós, sem os outros, não vamos sobreviver. Não somos os produtores de biomassa, e as plantas são. Os animais não conseguirão sobreviver sem os produtores de biomassa, que as plantas sintetizam. É por isso que as plantas não têm boca. Não precisam! Elas sintetizam, despoluem e, ainda por cima, produzem oxigénio!


Ora bem, mas estamos a devastar a biodiversidade. E não sabemos se os seres que estão a desaparecer podem ser úteis ou não. Vou dar um exemplo. Antigamente, até aos 86 anos, eu corria 10 quilómetros por dia, às quatro da manhã. Agora, com 91, já não corro, mas nessa altura, enquanto tomava o meu banho e fazia a minha toilette depois da corrida, por volta das cinco e pouco da manhã, ouvia um programa na Antena 1 que é ouvido pelas pessoas que começam a vida cedo.


E um dia ouvi um pastor dizer: “Ah, você sabe que agora o teixo é muito importante?”. Isto foi na época em que se descobriu a quimioterapia do cancro através das taxanas do teixo, que são altamente tóxicas.


E o pastor continuou: “Ah, mas eu, quando vejo um teixo no meu baldio, corto-o logo! Porque vem uma cabra, come a casca, morre. Vem uma vaca ou um cavalo, come as folhas, morrem...”.


É importante notar que uma semente de teixo é menor do que um grão de milho e contém taxana suficiente para matar 12 pessoas! Desse produto altamente tóxico, começou-se a desenvolver o tratamento para o cancro dos testículos, que hoje é utilizado para vários tipos de cancro.


Claro que tem de ser administrado com muito cuidado. É tão tóxico que só um médico ou enfermeiro pode fazer a administração, a quimioterapia. Hoje, o teixo está protegido. Portanto, o que é preciso é demonstrar a esse pastor, e às pessoas em geral, que não se deve destruir uma planta ou qualquer ser vivo sem se saber se ele pode ser útil à espécie humana ou não.


As alterações climáticas estão a ter um impacto crescente nos ecossistemas, afetando diversos aspetos da vida humana. Quais, na sua opinião, são as principais consequências para a saúde pública, especialmente no que diz respeito ao surgimento de novas doenças ou à escassez de recursos essenciais como água ou alimentos?


Devo dizer que eu não vejo televisão, porque me irrita. É só show off, só serve para ouvir os exibicionistas políticos que têm de aparecer todos os dias, e não se abordam os problemas mais importantes.


Um desses problemas importantes são as alterações climáticas. Ninguém sabe delas! Se perguntar aí à população, ou lhes disser que milhões de pessoas morrem por ano devido às alterações climáticas… ninguém sabe disso. Milhões, não são mil, são milhões!


E quando às vezes – e eu também já disse isto aos jornalistas – se criticam os ambientalistas que atiram tintas e outras coisas aos políticos que não fazem nada, eu também critico, mas ninguém anuncia que, por exemplo, no ano passado, foram mortos 7 mil ambientalistas. E isso são os que estão contados, porque quem anda no interior da Amazónia, como eu, sabe como eles são mortos e isso nunca é revelado!


Quando se noticia, não se pode olhar só para um lado. As alterações climáticas estão aqui. Aliás, o engenheiro Guterres, ele até brada, mas está numa entidade, a ONU, que não é democrática. Basta haver o veto, o veto dos países mandões, de maneira que não lhe ligam nenhuma, porque esses países não se importam com estes problemas. Só lhes interessa o poder económico, e esquecem-se, como eu costumo dizer sobre essas pessoas que só sofrem por causa do dinheiro, que há uma coisa que a gente nunca compra: a morte. Eles também vão morrer como os outros.


E eu já fiz essa demonstração. Sem dinheiro, é possível sobreviver; com dinheiro, é possível morrer. Se eu puser um indivíduo rico numa situação adversa em que o dinheiro não lhe sirva de nada, ele morre. Aliás, isso já aconteceu com um automobilista de alta competição, que foi treinar com o seu bólide para o deserto da Arábia e não levou nada porque ia só treinar um bocadinho e acabou por enterrar o carro. Quando o encontraram, estava morto, claro, porque não tinha água, nem biodiversidade. Tinha dinheiro e morreu. E eu já estive sem nada numa floresta e sobrevivi, por causa da biodiversidade. E sem dinheiro!

A pandemia de COVID-19 trouxe uma nova consciência sobre a ligação entre a destruição de habitats e o surgimento de doenças zoonóticas. Acredita que esta é uma oportunidade para mudanças significativas na forma como entendemos e tratamos a natureza?

Ou considera, como recentemente afirmou, que não vale a pena continuar com a atividade cívica de educação ambiental, mesmo com estes exemplos concretos e com consequências tão nefastas?


Não, não vale a pena, porque as pessoas já se esqueceram disso… Eu, por exemplo, costumava fazer um cartão de boas festas e, durante a pandemia, fiz um cartão especial. O que nele está representado é menor do que o ponto feito com uma caneta no papel. São organismos muito pequenos, que produzem esporos, e embora devessem ser considerados plantas, não o são, pois não são reprodutores. Então, de que se alimentam? Eles dividem-se, como uma ameba, deslocam-se e, quando encontram bactérias, digerem-nas por fagocitose. O mesmo acontece quando encontram vírus: digerem-nos também por fagocitose.


Numa floresta, uma árvore de 80 metros pode estar repleta de milhares destes organismos, que são essenciais, mas frequentemente ignorados. Ao derrubarmos florestas como estamos a fazer, estamos a destruir também estes predadores de bactérias e de vírus, mas ninguém vê o impacto de não se controlar as populações de organismos essenciais para o equilíbrio ecológico.


As bactérias e os vírus, que antes não eram patogénicos, acabam por se transmitir desta forma para os animais e, eventualmente, para os seres humanos, como temos visto nas pandemias. Estas grandes pandemias são uma consequência direta do desmatamento que estamos a promover. O derrube destes ecossistemas, da alta biodiversidade, está a criar os problemas que estamos a vivenciar agora.


Mesmo que tenhamos acesso a mais informação, não vamos começar a tratar melhor nem a entender melhor a natureza?


Não, infelizmente não. Cá em Portugal, até são ministros do Ambiente aqueles que mandam derrubar sobreiros, que são árvores nacionais. É uma fantochada andar a considerar que o sobreiro é uma árvore nacional!


Falando de políticas públicas, o que gostaria de ver implementado em Portugal para garantir que a biodiversidade e a saúde ambiental sejam integradas nas estratégias do País?


Um Ministério do Ambiente não administrativo, mas efetivamente defensor do ambiente. Todas as instituições que nós temos relacionadas com o Ministério do Ambiente, como o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas [ICNF], não têm pessoal suficiente. O pessoal que tem serve só para fazer pareceres… é administrativo, mais nada.


Enquanto o Ministério do Ambiente for um Ministério pobre, sem pessoal, não tem eficácia absolutamente nenhuma. Digo isso aos senhores governantes, que me respondem que fica muito dispendioso… muito bem: tirem então da Assembleia da República todos os assessores dos deputados e dos governantes que por lá andam.


Teria primeiro de haver essa mudança estrutural, não é?


Sim, sim, e nunca houve. Um dia, o Dr. Mário Soares, quando era Presidente da República, quis conversar comigo e então nós combinamos um telefonema. E ele telefonou e atendeu uma senhora que, naquele momento, estava ainda de serviço, e que era também funcionária lá da zona onde eu trabalhava.


Depois telefonei-lhe, a dizer “então, o senhor ficou de me telefonar”. Ele diz-me “eu telefonei, mas a sua secretária disse que você não estava”. E eu respondi-lhe: “olhe, eu tenho uma secretária, mas é a secretária a que limpo o pó, está a perceber? Não sou como vocês, políticos, que estão cheios de funcionários e de assessores”.


Entretanto terá o lançamento deste livro, que vai entregar em breve. Que outros planos e projetos tem pela frente?


Continuo a fazer investigação, apesar de agora ter parado um pouco para fazer este livro. Mas aqui o Departamento já me falou numa outra pretensão, de outro livro, talvez mais fácil de fazer do que este, porque o Camões é muito difícil!


E digo isto não apenas do ponto de vista da botânica. Falamos de alguém brutalmente culto, que demorou cerca de 15 anos a escrever Os Lusíadas. Ele nem livros tinha! Tinha a memória dele e tinha manuscritos, que levava com ele, porque Os Lusíadas foram quase todos escritos na Ásia, onde ele não estava apenas a escrever esta obra.


Os Lusíadas são diabólicos! Cada estrofe tinha oito versos, cada verso dez sílabas, a rimarem… é preciso saber muito de português!


E para quando uma expedição à Antártida, um lugar sem plantas, mas o único continente onde nunca esteve?


Ah, com 91 anos, já não devo fazer!


Por que não?


Seria só porque é o único continente onde nunca estive! Não tem lá plantas…


Seria uma viagem diferente!


Acho que só por uma sorte grande é que lá vou [risos].



por Luísa Carvalho Carreira

fotografias de Marta Costa e Ana Bartolomeu (UC)