Do curso de Medicina | Carlos Fontes Ribeiro

A vida entre fórmulas e versos

Para quem conhece ou pelo menos já ouviu falar de Carlos Fontes Ribeiro, certamente saberá que se formou na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (FMUC) e que tem uma vasta trajetória, no ensino e na investigação, na área das Farmacologias, Terapêutica, Fisiologia e Prescrição do Exercício. O que poucos talvez saberão é que, quando entrou para a FMUC, foi a Faculdade de Letras (FLUC) que perdeu um aluno de Estudos Clássicos.

“Simplesmente, já naquela altura assim era e hoje, infelizmente, é ainda pior, um professor ‘morre de fome’… E, por isso, pensei que tinha de ir para um curso que, depois de concluído, me permitisse ter um trabalho com o qual conseguisse, no mínimo, ‘comer’… então fui para Medicina!”, brinca.

Ainda assim, a entrada na FMUC e os anos de intensa atividade profissional que se seguiram ao curso não fizeram desvanecer a paixão pela literatura e o talento para a escrita. Pelo contrário: foi com ambos que conquistou, em 2015, o Prémio Revelação de Poesia da Sociedade Portuguesa de Escritores e Artistas Médicos (SOPEAM), um reconhecimento que destaca que a complementaridade entre a precisão dos fármacos e a liberdade da poesia é possível.

Até aos 11 anos, andei na escola venezuelana.

Natural de Aveiro, onde nasceu a 5 de dezembro de 1951, passou os primeiros anos de vida em Troviscal, no concelho de Oliveira do Bairro, terra da família materna. “Aos sete anos, fui para a Venezuela, onde estive até quase aos 12 anos”, conta. Inicialmente, logo aquando da mudança, Carlos Fontes Ribeiro viveu na península de Paraguaná, “abaixo da ilha de Aruba”, e, posteriormente, em Caracas. Foi na capital venezuelana que frequentou a escola, já depois de ter feito a primeira classe em Portugal.

“Fui parar à Venezuela porque a minha família andava toda por lá… Não foi propriamente por necessidade, até porque o meu pai era maquinista da marinha mercante e vivíamos bem por aqui”, observa. “Até aos 11 anos, andei na escola venezuelana. Fiz o ensino todo em castelhano. Depois, como o objetivo era voltar para Portugal, fui para uma escola portuguesa lá em Caracas”, refere.

A vivência na escola portuguesa foi “pavorosa”, uma vez que era completamente diferente daquela a que tinha sido habituado na escola venezuelana. Os castigos faziam parte da rotina desta nova escola, além de ser proibido aos alunos falarem castelhano. “Foi uma desgraça completa! Na outra escola, não havia nada de castigos e proibições”, conta.

Regressado a Portugal, fez o exame de admissão ao Liceu e, até ao fim do quinto ano [atual 9º ano], frequentou, enquanto interno, o Colégio Nacional de Anadia. “Depois desse ano, mudei de escola, na altura da crise académica de 1969, porque o meu irmão, cerca de oito anos mais velho, que era muito de esquerda, achou que eu não podia andar num colégio ‘fascista’”, revela, entre risos.

“Então lá fez com que os meus avós, que me tinham ao seu cuidado nessa altura – os meus pais ainda estavam na Venezuela –, me dessem alvará para ir para Aveiro. Fui viver para uma pensão e frequentei o Liceu Nacional de Aveiro, onde fiz o sexto e o sétimo anos [atuais 10º e 11º]”, indica.

Em 1971, ingressou no curso de Medicina da FMUC. “Entrei na fase do luto académico, e, embora para os alunos do primeiro ano isso não se tenha revelado particularmente penoso num cenário complicado, tratou-se realmente de um período difícil para a academia”, constata. “Eu sempre tive a felicidade de ser bom aluno, tanto na Venezuela quanto em Portugal, e por isso nunca tive problemas, nem com professores, nem com colegas”, acrescenta.

“Só quando se deu o 25 de abril de 1974, quando eu estava no terceiro ano de curso, é que as coisas ficaram um pouco mais complicadas… analisando toda aquela situação em retrospetiva, acho que algumas atitudes foram exageradas e muito injustas, como o saneamento de vários professores, em plenário, por braço no ar”, faz saber.

E o facto é que fui para a Farmacologia, gostei e aí continuei.

No ano letivo 1974/1975, Carlos Fontes Ribeiro começou a lecionar Farmacologia na FMUC enquanto Monitor, “com a Professora Tice Macedo como regente, após o saneamento do Professor Lobato Guimarães”, enquanto frequentava o quarto ano do curso.

“No fundo, foi assim que fui parar à Farmacologia. A verdade é que gostava mais de Imunologia, mas quando houve este concurso para Monitores, existia já uma pessoa que se estava a candidatar para a área da Imunologia e que já era praticamente ‘da casa’. Por isso, pensei em tentar Farmacologia, até porque tinha tido 20 valores nessa cadeira [risos]. E o facto é que fui para a Farmacologia, gostei e aí continuei”, constata.

A par do ensino, foi fazendo a progressão na carreira médica. “Entretanto, fiz o exame de acesso à especialidade e fiquei nos primeiros lugares, a nível nacional. Acontece que, logo na altura em que comecei a ser Monitor da FMUC, em 1975, casei-me, e a minha mulher era minha colega de curso, o que significa que também fez o exame”, conta.

“Existia o risco de ela não conseguir colocação em Coimbra, e por isso eu desisti de entrar na especialidade de Neurologia e entrei em Clínica Geral. Como éramos casados, para entrar em Clínica Geral era feita a média dos dois exames, do dela e do meu. Naquela altura fazia-se isso! E então ficámos os dois em Clínica Geral em Coimbra. Devo dizer que gostei muito da experiência, que durou três anos e meio. Depois, acabei por fazer outra vez o exame e entrei, de facto, na Neurologia”, acrescenta.

Carlos Fontes Ribeiro indica que desistiu da Clínica Geral por, entretanto, ter começado a fazer o doutoramento. “O doutoramento exigia muita dedicação, e tirava-me o tempo que deveria ter com os doentes, por quem sempre tive uma empatia e uma ligação muito fortes”, revela.

“Portanto, fiz o exame para entrar em Neurologia, estive na especialidade por cinco anos, tendo depois ficado ainda mais um ou dois anos. Entretanto, surgiu uma situação… Quando me doutorei em Farmacologia e Terapêutica, em 1987, tive de fazer uma opção”, começa por contextualizar.

“Nessa altura, estava na carreira clínica, em Neurologia, e, como não era possível a acumulação das duas carreiras, clínica e académica, tive de optar entre o hospital ou a faculdade. E eu optei pela faculdade. Deixei o hospital oficialmente, embora, na realidade, ainda lá tenha continuado durante algum tempo pro bono”, indica.

“Acho que, se fosse hoje, talvez optasse pela carreira clínica… Aquela foi uma situação traumatizante”, admite, “mas enfim, foi aquela a decisão que tomei na altura e, depois, segui os graus todos da carreira académica, conforme suposto”.

Quando questionado sobre como se conciliam interesses diversos de investigação – que, no seu caso, vão desde a farmacologia, incluindo a farmacovigilância, até ao exercício físico e a prescrição de fármacos –, Carlos Fontes Ribeiro responde prontamente: “com muita dificuldade”, acrescentando que a sua investigação teve sempre uma vertente muito clínica.

“A investigação em Farmacologia teve um desenvolvimento brutal. Claro, fomos também evoluindo tal como evoluiu toda a Ciência, apenas sempre com a mesma limitação que todos temos até hoje na investigação, e que é a limitação financeira”, lamenta.

“Hoje, podemos afirmar que evoluímos para uma investigação mais molecular, embora a investigação clínica continue bem presente”, observa, “e também, diga-se em abono da verdade, para uma investigação multidisciplinar: a colaboração com outras áreas e serviços é fundamental, para além de ser, igualmente, uma exigência atual de diversos concursos a nível nacional e europeu”.

Para além do ensino e da investigação, Carlos Fontes Ribeiro dedicou-se também à função de perito do Infarmed (Autoridade Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde). “Inicialmente, no começo dos anos 90, fui convidado para perito de avaliação para a introdução de medicamentos no mercado. Depois, porque precisavam de um perito que pudesse avaliar economicamente os medicamentos, passei para a divisão de farmacoeconomia, na qual avaliava os medicamentos para comparticipação e uso hospitalar. Até me reformar, aos 70 anos, estive nessa divisão de avaliação farmacoeconómica. E foi uma experiência muito boa”, constata.

No âmbito das funções desempenhadas no Infarmed, Carlos Fontes Ribeiro esteve também envolvido na aprovação dos medicamentos de venda livre. “Estive eu e o Professor Batel Marques, da Faculdade de Farmácia [FFUC]. Fizemos várias viagens a Bruxelas nessa altura, e tivemos situações caricatas: lembro-me, por exemplo, da Itália querer que a água fosse considerada um medicamento de venda livre! Mas confesso que aqueles foram tempos áureos…”, conta.

Foi também com Batel Marques que fundou a Unidade de Farmacovigilância do Centro (UFC). “Posso mesmo dizer que atingimos um nível de excelência nessa Unidade, na qual trabalhámos imenso até há cerca de dois anos, sensivelmente”, destaca. “Hoje, a Unidade continua em atividade na AIBILI [Associação para Investigação Biomédica e Inovação em Luz e Imagem]”, menciona.

Carlos Fontes Ribeiro não esconde o orgulho que sente “pelo nível a que a Farmacologia chegou em termos de investigação”, e indica que, embora não tão conhecidas, tem também outras conquistas das quais se orgulha.

Uma delas foi ter sido presidente da Comissão de Adaptação do Curso de Medicina da FMUC ao Processo de Bolonha. “Foi a Professora Catarina Resende de Oliveira, à data presidente do Conselho Científico da FMUC, que me escolheu para liderar esta comissão. Foi muito trabalhoso, envolveu muito compromisso e muita negociação, mas não deixou de ser recompensador”, faz saber.

Outro motivo de orgulho é o de ter estado envolvido na fundação da Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física (FCDEFUC), na qual foi, e é, também professor. “Hoje, esta é uma faculdade a par de todas as outras faculdades da UC, e é engraçado ver que quase todos os dirigentes da atual FCDEFUC foram meus alunos”, revela.

“Outra tarefa a que me dediquei e que é também um motivo de orgulho para mim, foi o desenvolvimento, no IBILI [Instituto Biomédico de Investigação em Luz e Imagem], de um serviço de investigação para a bioequivalência, tendo conseguido captar excelentes profissionais, como a Dra. Carla Neta. Durante muitos anos, fizemos esse tipo de estudos, mais de 40, sobretudo para a indústria farmacêutica, com muito sucesso”, enfatiza. “E também a coordenação da Medicina Dentária, por funções delegadas pela direção da FMUC, de que era membro, muito me honrou”, refere.

Sobre o que mais o motiva no ensino, revela que, antes de mais, é a exposição de “ideias, conhecimentos e considerações”. Depois, é o contacto com os alunos. E se há coisa que Carlos Fontes Ribeiro teve, ao longo dos anos, foi contacto com muitos alunos. “Acho que dei aulas em todas as faculdades da UC.... menos na de Letras, para onde quis um dia ir estudar!”, graceja.

Para ser um bom professor, acredita que o fundamental é “a dedicação e o tempo”, ainda que, desse modo, a vida privada e familiar acabe, lamentavelmente, por ser prejudicada.

“A dedicação de que falo pressupõe algo a que as pessoas não ligam muito, e que é a pontualidade e a correta exposição dos objetivos e do programa de qualquer unidade curricular que lecionemos”, declara. “É preciso também ser correto na avaliação, sem secretismos, sabendo explicar o porquê da atribuição de determinada nota ao aluno”, complementa.

Já sobre a difícil gestão entre a carreira e a vida familiar, Carlos Fontes Ribeiro afirma que esta sempre foi problemática. “Essa foi sempre a minha grande dificuldade…”, lamenta. “Tinha de ficar muitas horas na faculdade, como é óbvio, e isso complica a vida familiar”, observa. “Ainda por cima, sendo a minha mulher médica, isso significa que também sempre teve uma vida muito exigente”, declara.

“Tenho dois filhos. A minha filha andou sempre no ensino privado, e o meu filho acabou por ter de deixar o público e ir para o privado também. Tinha de ser assim, porque os horários que teriam numa escola pública eram incompatíveis com os dos pais”, afirma.

“Como é que conseguíamos ir buscar duas crianças por volta das quatro horas da tarde, estando eu na faculdade e ela a fazer consultas? Era impossível, de maneira que foram os dois para o Colégio Rainha Santa Isabel”, refere.

“Lá íamos buscá-los às seis horas da tarde, às vezes com muita dificuldade, mas o pessoal da escola lá ia ficando com eles até chegarmos. E, depois, fizemos aquilo com que muitas crianças são ‘martirizadas’, que foi colocar os nossos filhos em diversas atividades extracurriculares: foi a música, foi o ballet… Achamos sempre que eles devem ser aquilo que não fomos, ou que gostaríamos de ter sido”, observa.

Embora esta gestão tenha sido difícil, Carlos Fontes Ribeiro reconhece que, felizmente, nunca teve problemas com os filhos. “São teimosos e fizeram o que quiseram, mas isso faz parte”, brinca. “Hoje, são as minhas netas que são teimosas! Quer dizer, a mais velha, que tem 12 anos, é, na verdade, muito amorosa e não arranja problemas nenhuns. Agora a mais nova, que tem sete anos, é terrível!”, graceja.

Sempre li muito...

Ao longo de décadas, o extenso trabalho de investigação de Carlos Fontes Ribeiro rendeu-lhe centenas de publicações científicas, muitas centenas de participações em conferências e a coordenação de projetos de grande impacto. Mas, como inicialmente referido, para além do espaço para a ciência, houve sempre também espaço para a literatura.

“A paixão pela literatura é muito antiga”, começa por esclarecer. “Sempre li muito… O meu avô costumava dar-me uma mesada – baixinha, baixinha, baixinha – mas que dava perfeitamente para comprar livros, porque, sendo interno no Colégio Nacional de Anadia, não precisava do dinheiro para muito mais”, conta.

“Depois, quando andava no sexto ano médico, um primo meu, o Alberto, expôs-me ainda mais a essa paixão e, juntamente com ele, escrevi muitos textos sobre literatura”, revela. “O jornal República e o Diário de Lisboa tinham suplementos literários bastante bons e nós escrevemos muito para ambos, sobre autores que, de certa forma, idolatrávamos”, continua. “Além disso, chegámos ainda a fazer uns três ou quatro programas de televisão na RTP, com o Joaquim Manuel Magalhães, sobre literatura.

Com uma exigente e extensa atividade profissional e dois livros de poesia publicados – Com o Teu Calor os Meus Dias Frios de Inverno São Primavera (2014) e Seis Andamentos para um Amor Vivido (2015) –, Carlos Fontes Ribeiro considera, ainda assim, que escreveu pouco. “Deveria ter escrito mais”, lamenta. “Mas acho que, um dia destes, vou voltar a escrever”, admite.

Jubilado desde 2021, Carlos Fontes Ribeiro assegura que, desde então, a sua rotina mudou muito. “Quando alguém, a trabalhar na função pública, atinge os 70 anos de idade, há este corte absoluto, infelizmente”, constata.

“No meu caso, como faço anos em dezembro, ainda trabalhei até ao fim do primeiro semestre [do ano letivo 2021/2022]. Mas é um corte que acho absoluto e também absurdo… parece que somos atirados para um ‘Velhão’!”, lamenta.

Carlos Fontes Ribeiro conta que, antes de completar 70 anos de idade, e sabendo que, chegado a esse marco, teria de cessar oficialmente as suas funções na FMUC, pensou, com o devido tempo e cuidado, em quem gostaria que fossem os seus sucessores e regentes, no sentido de assegurar a continuidade de todas as atividades em curso. “Levei essas minhas ideias e considerações ao Conselho Científico da FMUC, que, obviamente, é a entidade que aprova estas questões, e que concordou com o que eu havia proposto”, revela.

Depois da jubilação, a direção do Instituto de Farmacologia e Terapêutica Experimental da FMUC passou para as mãos do investigador João Malva, a quem Carlos Fontes Ribeiro não poupa elogios. “Tem dirigido muito bem o instituto e não me pôs na rua. Aliás, aqui este gabinete continua a ser dos dois”, diz, em tom de brincadeira, enaltecendo, igualmente, o trabalho de todos os investigadores que fazem parte deste instituto, e que considera que fazem investigação de topo a nível mundial nas diversas áreas a que se dedicam.

“Na FCDEFUC, dou ainda cadeiras do segundo e do terceiro ciclos. E, aqui na FMUC, dou aulas a pedido também. Já não posso ser regente, mas sou ainda responsável, por exemplo, pela unidade curricular de Ergonomia e Fisiologia do Trabalho, do mestrado em Saúde Ocupacional da FMUC. Estou disponível, ainda que seja tudo pro bono. Mas isso mantém-me ativo, o que não é nada mau!”, assegura. “Dou ainda algumas aulas e faço conferências, de vez em quando. Vou fazendo aquilo que me pedem, na realidade”, brinca.

“E ando na Universidade Sénior, onde também dou uma disciplina de Saúde. Ou seja, os meus colegas lá são também meus alunos!”, graceja. “E, claro, agora dedico-me à família também. Com tempo”, finaliza.

por Luísa Carvalho Carreira

fotografias gentilmente cedidas por Carlos Fontes Ribeiro


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