Editorial

O mundo assiste, hoje, com perplexidade (espero...) a uma profunda revolução sociogeopolítica. Este ínfimo ponto do Universo, que teve a generosidade de nos acolher, tal como nos habituámos a vê-lo e habitá-lo, está a mudar. As leis da Natureza, que antes o governavam e mantinham o equilíbrio e a harmonia, estão a dar lugar a práticas que podem mudar para sempre a face de um planeta que tão bem nos soube receber.

O mundo, nos dias de hoje, assemelha-se a um tabuleiro onde alguns governantes parecem divertir-se a desafiar uma configuração e distribuição há muito estabelecida e respeitada. De facto, muitos políticos parecem tratar a gestão do planeta como se de um mero jogo de Monopólio se tratasse, em que a compra, venda ou permuta de casas, prédios, hotéis ou bairros é substituída por países, regiões e povos. Tal como no jogo, estes políticos pretendem ter o monopólio do mundo, levando adversários (ou inimigos) à falência, acentuando assimetrias e forçando os “peões” menos afortunados a sair de cena. E se as regras do jogo não agradam, ou não convêm, podem sempre mudar o nome das ruas, ou do bairro, para que possam sair vencedores e reinar a seu bel-prazer.

Hoje, a distribuição de terras não se faz mais com a descoberta de novos mundos, mas sim com trocas de mensagens, através das redes sociais, onde se manifesta, com impudência, a intenção de comprar (ou usurpar, se for caso disso) e (in)disponibilidade para vender, onde perante uma proposta indecorosa, segue-se um post a anunciar uma contra-proposta ainda mais grotesca. E assim vai a infantilizada gestão do mundo, caricata, risível e desrespeitosa. É este o exemplo que temos, com tudo a acontecer ao ritmo e formato de um reality show (aliás, uma Escola para muitos). Alguns destes governantes gerem as “suas” terras como se fossem verdadeiramente suas. Com o argumento de melhorar a vida económica dos concidadãos (nem que seja de uma minoria, coincidentemente poderosa), transacionam-se e “despacham-se” pessoas, como se fosse mercadoria a ser devolvida, devido a defeito. Muitas destas pessoas buscam, legitimamente, condições simples e básicas, que muitos de nós temos como certas e adquiridas e, muitas vezes, sem sabermos valorizar devidamente. Muitas destas pessoas não procuram apenas melhores condições económicas, que tragam mais dignidade à sua vida (como acontece com a emigração portuguesa), mas também um lugar onde possam respirar em paz, onde possam expressar-se, onde possam sorrir.

Há um desgoverno enorme naquilo que são as políticas sociais, assentes numa premissa de que pela economia, vale tudo! Nada mais errado. Para uma economia produtiva e pujante, o bem-estar dos cidadãos é fundamental, o respeito por princípios basilares de convívio em sociedade e da própria vida humana devem estar no topo das prioridades. A terra que pisamos não é de ninguém. O mundo, que se quer global, é de todos. Alguns tiveram a sorte de nascer em regiões favorecidas, económica e socialmente, onde (ainda) se respeita a diversidade e a opinião. Outros nem por isso. Tiveram o infortúnio, sem oportunidade de escolha, de ter como primeiro abrigo uma terra em guerra, sem liberdade, sem comida, sem futuro. E são estas pessoas que se aventuram atrás de um sonho tão singelo e imaculado, dispostas, em desespero, a correr o risco de uma vida para ter melhores condições para si e para os seus. Sejamos bondosos e caridosos. Estas pessoas merecem ser bem acolhidas e apoiadas. Não apenas porque contribuem para a economia, mas porque são cidadãos de um mundo que também lhes pertence e onde têm o direito de encontrar um espaço onde possam viver com dignidade e respeito.

Que “trumpa”, este mundo em que vivemos! Que “puti” de vida, esta! Muitas (demasiadas!) das pessoas que mandam no mundo são movidas, à descarada, sem vergonha, de forma cega, por interesses menos nobres, nomeadamente pelos seus próprios desígnios pessoais e corporativos. E para isso, para poderem ter a concordância do povo e tudo parecer mais consensual e democrático, recorrem à desinformação para mentir, manipular, ameaçar. É assustador e revoltante.

Mais do que nunca, a credibilidade de instituições académicas e científicas é fundamental para manter alguma ordem no mundo, e ajudar as pessoas a separar o trigo do joio, a verdade da mentira, os factos dos artefactos. É muito fácil, nos dias de hoje, levar as pessoas a acreditar numa falsa verdade, tal é a semelhança com a realidade. A ficção é servida num ambiente tão verosímil e real, que se torna quase impossível não acreditar. Temos governantes a negar evidências, nomeadamente científicas, com argumentos fracos e falsos. Mas uma mentira dita tantas vezes, pode tornar-se verdadeira. Por isso, quase somos levados a acreditar que o comportamento do planeta é cíclico, que momentos catastróficos são vividos de tempos a tempos, geridos, decididos e orquestrados pelos Deuses e não por mão humana. Mais do que nunca, a prova científica, obtida por meios credíveis, transparentes e validados, deve prevalecer sobre a opinião de gente com poder (e dinheiro), mas mal formada, informada e instruída. Muita desta desinformação é veiculada através de ferramentas de Inteligência Artificial (IA), que, de tão real conseguir ser, obriga a um esforço acrescido da realidade para se parecer com a ficção!

Mas a IA é também um auxiliar importantíssimo na saúde e na medicina, ajudando a desvendar aquilo que o olho humano não consegue ver. Consciente dessa importância, a FMUC lançou recentemente um Laboratório de IA e Ciência de Dados em Saúde (LIAS), que pretende, em conjunto com diversos parceiros do universo UC, criar as condições para o desenvolvimento desta ferramenta na prática clínica e investigação. Para nos apresentar o LIAS, em “Isto é FMUC”, temos, nesta edição da Voice*MED, num registo real, o grande mentor e impulsionador desta iniciativa, Carlos Robalo Cordeiro. Em “Do curso de Medicina”, vamos conhecer o ex-futuro especialista de Estudos Clássicos, Carlos Fontes Ribeiro, que, apesar de se ter tornado uma referência na área da farmacologia, não abandonou a sua veia poética. Em 4’33’’, Jorge Paiva, um apaixonado pela botânica, pelo mundo e pela vida, que, aos 91 anos, com toda a sua experiência e sabedoria, aceitou o desafio de descrever as plantas na obra de Camões. Jorge Paiva explica-nos, ainda, como a biodiversidade lhe salvou a vida, na ausência de dinheiro. Em Lucerna, o estudante do Programa de Doutoramento em Ciências da Saúde, Pedro Ferreira, mostra-nos como a febre da bola, do pião e do berlinde deu lugar a um médico que busca na ciência e na investigação a solução para os desígnios ocultos da doença. Em “Fora da Medicina”, vamos até à Akto, uma Associação sediada em Coimbra que pretende fomentar a educação, a promoção e a intervenção em direitos humanos e democracia, enquanto fatores estruturantes de uma mudança positiva na construção de um mundo mais justo e equitativo. Por fim, João Malva prescreve-nos um forte abanão de consciência sobre a condição humana, acompanhado de um último cálice ao som de Chico Buarque.

Henrique Girão


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