Laboratório de Ciência de Dados e Inteligência Artificial em Saúde - LIAS
A 11 de dezembro de 2024, no âmbito das comemorações do Dia da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (FMUC), o diretor desta Escola Médica, Carlos Robalo Cordeiro, apresentou as perspetivas de futuro da instituição.
O destaque foi dado à criação de um Laboratório de Ciência de Dados e Inteligência Artificial em Saúde, o LIAS, já aprovado pelo Conselho Científico da FMUC e que se encontra em processo de constituição. Este laboratório, com ramificações dentro e fora da UC, resulta de uma parceria estratégica com a IBM, que irá instalar em Coimbra um hub com foco na inteligência artificial e ciência de dados.
Do conceito à realidade: a criação do laboratório
“Esta é uma história longa, mas que podemos tornar mais curta”, começa por esclarecer o diretor da FMUC quando questionado acerca do contexto da criação deste laboratório.
“O primeiro estímulo para a criação do LIAS foi a candidatura ao Impulso Mais Digital, um Programa do PRR [Plano de Recuperação e Resiliência]” que tem como objetivos o estímulo à modernização da rede de Ensino Superior e das suas práticas pedagógicas e a atualização tecnológica e a modernização das condições de formação, bem como o aumento das competências nas áreas digitais e tecnológicas.
Ainda no âmbito da candidatura a este Programa do PRR, o consórcio do Centro, liderado pela FMUC, propôs também, com o apoio da IBM, a criação de um biobanco virtual e digital de imagens, que permitirá o acesso a um volume significativo de dados sobre diversas condições e doenças.
“Este é um conceito inovador em Portugal, e o nosso compromisso é o de abrirmos esta estrutura a toda a comunidade académica e científica”, destaca Carlos Robalo Cordeiro, explicando que a mesma irá funciona a par, e em estreita articulação, com o já existente biobanco físico do Centro Académico Clínico de Coimbra (CACC).
“Através da candidatura ao Programa Impulso Mais Digital e da proposta para a criação do biobanco virtual e digital, bem como da parceria com a IBM, o nosso interesse pela área da inteligência artificial na saúde intensificou-se, e foi isso que esteve na génese da criação do nosso mais recente laboratório, o LIAS”, sintetiza.
A crescente aposta na inteligência artificial aplicada à saúde
No intuito de promover a inteligência artificial em saúde, a FMUC abriu, no ano passado, uma vaga para a posição de professor auxiliar nesta área. “Recebemos diversas candidaturas para este lugar de professor auxiliar de ciência de dados e inteligência artificial”, refere, avançando que a vaga foi preenchida por um engenheiro biomédico, que faz agora parte do corpo docente da faculdade.
Foi também a par desta crescente aposta na inteligência artificial aplicada à saúde que o Dia da FMUC, que, conforme anteriormente indicado, se celebrou no passado dia 11 de dezembro de 2024, foi dedicado a esta área.
“Nesse dia, organizámos um painel que teve como principais oradores as pessoas envolvidas neste projeto da criação do LIAS, numa sessão em que mostrámos também aquilo que a FMUC e os institutos de investigação e unidades que connosco colaboram têm vindo a fazer em termos de investigação e produção científica na área da inteligência artificial”, observa o diretor da FMUC.
“Na comemoração do Dia da FMUC, pudemos ainda constatar esta necessidade da conjugação do trabalho académico com o trabalho médico, em contexto hospitalar, nesta estreita conjugação que o CACC permite, para que possamos ter mais capacidade de obtenção de dados robustos através do trabalho com bases de dados amplas na perspetiva da sua utilidade, utilizando a inteligência artificial”, complementa.
|
As possíveis (e futuras) colaborações
“O LIAS é uma estrutura que pretende ser abrangente, inclusiva e ramificada”, evidencia Carlos Robalo Cordeiro. Assim, todas as iniciativas em curso, nomeadamente relacionadas com a recolha de dados e respetiva estruturação, curadoria, gestão e armazenamento, têm também como objetivo a entrada e a participação da FMUC em redes nacionais e internacionais de investigação e de inovação na área da saúde.
“Tendo o LIAS a sua sede na FMUC, temos já identificados muitos parceiros da UC, das suas unidades orgânicas e de investigação, que fazem, aliás, parte do grupo de trabalho que está a desenvolver este laboratório, como é o caso do ICNAS [Instituto de Ciências Nucleares Aplicadas à Saúde], do DEI [Departamento de Engenharia Informática], bem como parceiros da estrutura hospitalar, nomeadamente através do CACC”, faz saber.
Para além das referidas parcerias, o objetivo do LIAS passa, igualmente, “pela progressão e consolidação desta estrutura”, por forma a, num futuro próximo, encetar novas parcerias e colaborações com outras instituições e empresas, nacionais e internacionais, para expandir o alcance e os resultados das atividades desenvolvidas neste laboratório.
“O que estamos a construir com o LIAS é uma plataforma que sirva não apenas para gerirmos o que fazemos e termos a informação organizada e preparada para ser utilizada de forma mais consistente, mas também para nos abrirmos para outras academias que não apenas a de Coimbra”, indica.
“Esta postura de abertura é, desde logo, mandatória, porque na nossa candidatura ao Programa do PRR, a nossa boa classificação, atribuída por um painel internacional, foi, de certa forma, determinada pela inovação do nosso projeto, claro, mas também pelo compromisso de abrirmos esta plataforma e, mais concretamente, o biobanco virtual e digital, a toda a área das ciências da saúde de todas as Escolas Médicas em Portugal.
“Não queremos que o LIAS seja uma estrutura fechada. Estamos, naturalmente, abertos a parcerias e colaborações. A UC também está a olhar para a área da inteligência artificial de forma criativa e estruturada. Pretendemos integrar-nos nesta estratégia da universidade, e também que ela nos integre a nós”, refere.
“Existe, de facto, um grande potencial da saúde neste domínio, que não deve, de forma alguma, ser desperdiçado. A própria IBM está também a olhar para Coimbra enquanto área de investimento particular da sua estratégia de alargamento pelo território nacional, concretamente na área da inteligência artificial e, sobretudo, da inteligência artificial nas ciências da saúde. Há aqui uma cadeia de interesses que me parece muito importante, e que deve ser fomentada”, evidencia.
O impacto na oferta formativa da FMUC
Conforme afirma o diretor da FMUC, a inteligência artificial encontra-se já presente na estratégia de ensino e de aprendizagem da Escola. “É muito importante transmitirmos desde logo aos nossos alunos a importância da inteligência artificial em diversos domínios: no apoio ao diagnóstico e prognóstico, à gestão da saúde e dos cuidados de saúde dos doentes”, destaca.
“Portanto, quanto mais robustez tivermos nesta capacidade de obtenção de dados e de informação estruturada com o apoio da inteligência artificial, melhor será o ensino que podemos dar aos nossos alunos nestes diversos domínios”, complementa.
No entanto, Carlos Robalo Cordeio admite que, atualmente, essa presença da inteligência artificial no ensino da FMUC acontece ainda de forma “pontual e num âmbito mais individualizado, sem uma estratégia coordenada”. Por isso, um dos objetivos do LIAS é também o de funcionar enquanto estrutura de apoio às diversas unidades curriculares e formações pré e pós-graduadas “na utilização da inteligência artificial ao serviço das ciências da saúde”.
|
O impacto na comunidade e na saúde
Para além dos já referidos benefícios académicos, o diretor da FMUC acredita que o LIAS trará, igualmente, benefícios para a comunidade e para a saúde em geral. “Acho que o impacto pode ser realmente bom e muito grande”, começa por indicar.
“Posso recorrer a um exemplo. Eu sou pneumologista. Ter um programa que recorre a inteligência artificial e que me permita saber qual é o risco de um doente asmático ter uma crise ou uma agudização dos sintomas, cruzando diversos dados e diversa informação, não apenas de saúde, como a circulação de infeções respiratórias, mas também informação meteorológica, de temperatura, de poluição atmosférica e de outras variáveis, permite a existência de uma estratégia preventiva da doença, e isso é, seguramente, um benefício de grande impacto para a comunidade e para a saúde como um todo”, salienta.
“Dei o exemplo da minha área de especialização, mas isto acontece também, e acontecerá cada vez mais, estou certo disso, na prevenção de doenças associadas ao envelhecimento, doenças crónicas, degenerativas, inflamatórias, oncológicas… Além de permitir também a identificação de perfis de risco. Será um avanço muito significativo conseguirmos atuar, desta forma, na prevenção de diversas doenças, recorrendo, de igual modo, a informações de natureza demográfica, biométrica, genética, patológica, laboratorial, bioquímica…”, observa.
A privacidade de dados e a tomada automatizada de decisões
Falar de inteligência artificial é falar também de questões éticas relacionadas com a sua utilização, como a privacidade de dados e a tomada automatizada de decisões. Carlos Robalo Cordeiro admite que essas têm sido preocupações constantes do grupo de trabalho do LIAS.
“No nosso grupo de trabalho, temos discutido amplamente estas questões, que, como é óbvio, são muito relevantes. É uma preocupação de todos os que constituem este grupo, desde médicos a farmacêuticos, matemáticos, bioquímicos, engenheiros biomédicos e pessoas particularmente dedicadas à inteligência artificial. Temos reuniões virtuais semanalmente, para desenvolvermos este projeto, e trabalhamos para que todas as questões éticas sejam cumpridas, para que a privacidade e a anonimização dos dados sejam garantidas”, revela.
“Quando defendemos a candidatura ao Programa do PRR, o painel internacional atribuiu, inclusive, especial importância à proteção de dados e à componente ética na gestão da informação, e quiseram certificar-se de que estávamos preparados e tínhamos todos os instrumentos necessários para que o devido cumprimento destas questões pudesse acontecer”, afirma.
|
Um legado decisivo para o futuro
Questionado acerca das perspetivas para o futuro da inteligência artificial na saúde, o diretor da FMUC não tem dúvidas. “Não existe nenhuma área, desenvolvida nos últimos anos, que esteja com uma progressão tão ciclópica quanto a da inteligência artificial nas ciências da saúde”, garante.
“O que era verdade no ano passado, já não o é este ano. Ou melhor, o que o ano passado estava em agenda, agora já está mais do que ultrapassado. Por isso, é difícil fazer grandes previsões quanto ao futuro desta área”, constata.
“Aquilo que, de certa forma, posso antever, são os riscos de uma utilização excessiva da inteligência artificial na saúde em detrimento de uma medicina de proximidade. Uma das dimensões mais sagradas, por assim dizer, da nossa atividade, é, e deve continuar a ser, a relação médico-doente”, evidencia.
“E eu acho que essa dimensão nunca vai deixar de existir. Hoje, ao formamos os nossos alunos, recorremos a modelos de simulação que os retiram um pouco daquilo que é a proximidade com o doente, porque as unidades de saúde estão cada vez mais restringidas a um acesso de maior dimensão, mas isso não retira, acredito eu, aquilo que é o olhar atento do médico para o seu doente quanto este está à sua frente. Nesse sentido, julgo que o grande objetivo da inteligência artificial é o de apoiar, e não o de nos substituir”, observa.
Para o diretor da FMUC, o LIAS representa, assim, “um legado muito significativo que a atual direção pode deixar” para o futuro da faculdade e das ciências da saúde. “Estou no meu último ano enquanto diretor da FMUC, e não tenho dúvida nenhuma de que este é um legado decisivo que esta direção irá deixar. Um legado marcante para o futuro”, conclui.
por Luísa Carvalho Carreira (texto e fotografia de topo)
fotografias de João Matias
|