Lucerna | Pedro Gonçalo Ferreira

Fui confrontado com o desafio de sintetizar, em breves linhas, alguns momentos definidores que, sequencialmente, me propeliram na minha trajetória académica e científica até ao presente momento. Trata-se de um exercício interessante, uma vez que, frequentemente, a passagem vertiginosa do tempo e a concatenação de acontecimentos nas nossas vidas tendem a permanecer nas sombras da nossa perceção.

Não tive na minha família direta ninguém com percurso profissional na área da saúde ou na investigação. Recordo boas memórias do meu percurso de escolaridade em Caldas da Rainha (escola básica nº 5 do Bairro dos Arneiros, Escola D. João II e Liceu Raul Proença), com a felicidade de ter podido temperar o bom aproveitamento escolar com períodos felizes de arrebatamento pela “febre da bola”, do pião, do berlinde e das brincadeiras na rua até tarde.

Retrospetivamente, percebo que o primeiro apelo para a Medicina terá encapotadamente despontado por volta dos meus 12-14 anos, numa época delicada a nível familiar, marcada por um processo de doença da minha mãe, que culminou no diagnóstico de uma doença autoimune rara. Recordo-me de ter sido para mim um período marcante de preocupação e impotência perante os desígnios ocultos da doença e de uma vulnerável entrega à “alquimia” do médico. Contudo, a consolidação do impulso para a Medicina ocorreu apenas no 11º ano, paradoxalmente sob influência de um professor de Psicologia no Liceu Raul Proença. Recordo dele um nível científico exuberante, a abordagem entusiasmante à neurofisiologia e o estímulo que me imprimiu para seguir Medicina.

Concluído o 12º ano e os exames nacionais de seriação, surgiu a candidatura à Licenciatura em Medicina. Tendo obtido uma posição facilitada de escolha, a opção por Coimbra – que não era a geograficamente mais lógica - resultou de um fascínio romântico pela Universidade de Coimbra, reforçado depois pelo arrebatamento com a cidade após uma experiência de alguns dias em Coimbra durante o meu 12º ano, a convite de um amigo caldense na altura a cursar Estudos Musicais Aplicados.

Os anos da licenciatura na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (FMUC) constituíram um período particularmente feliz da minha vida, onde a confirmação da minha vocação se permeou com amizades fortes e com o namoro com aquela que seria a mulher com quem tive depois a felicidade de casar.

Durante a licenciatura, não tive grande apelo ou influência pela área da investigação, mas pude confirmar a minha vocação clínica com a serenidade de perceber que poderia ser feliz praticamente em qualquer especialidade médica pela qual viesse a enveredar. Obviamente que, pelo contacto iterativo com as diversas especialidades, de forma gradual e desassociadamente à nota a minha decisão final acabou por recair sobre a escolha entre Medicina Interna e Pneumologia. Fez-me pender para a última a influência científica do Prof. Doutor António Segorbe-Luís (Professor Associado da FMUC) durante a docência das cadeiras de Pneumologia e Imunologia Clínica, do Dr. José Fernando (Centro de Diagnóstico Pneumológico de Caldas da Rainha), e pela atração sentida, em particular, para com a patologia respiratória e uma especialidade que, sendo “médica”, agregava uma componente técnica muito interessante.

Em 2010, durante o meu 2º ano de internato de Pneumologia nos Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC), completei a equivalência ao Mestrado Integrado em Medicina, defendendo uma dissertação também na área da Pneumologia. Ao longo de todo o meu internato de especialidade tive o privilégio de contar com a orientação e o exemplo inspirador do Prof. Doutor António Jorge Ferreira, como clínico, investigador e docente. Finalizei a minha especialidade e acabei posteriormente por trabalhar durante 6 anos e meio no Centro Hospitalar do Baixo Vouga, onde consolidei a minha diferenciação na área da patologia intersticial pulmonar, tive oportunidade de organizar uma equipa multidisciplinar nesta área e de me iniciar como investigador e coordenador de ensaios clínicos.

A minha aproximação académica deu-se através do início da minha colaboração docente a partir de 2010 com o Mestrado de Saúde Ocupacional da FMUC, à qual posteriormente se associou a colaboração docente com a cadeira de Patologia Torácica e Vascular (5º do MIM) a partir de 2018, a convites respetivos do Prof. Doutor António Jorge Ferreira e do Prof. Doutor Carlos Robalo Cordeiro. Foi também a convite do último que se verificou o meu regresso “clínico” ao Serviço de Pneumologia do Centro Hospitalar Universitário de Coimbra em dezembro de 2020.

A entrada no Programa de Doutoramento em Ciência da Saúde da FMUC, em 2024, surgiu de forma coerente com a minha perspetiva pessoal sobre o mesmo enquanto clínico por vocação. Representa para mim um passo natural, refletido e sustentado na diferenciação técnico-científica dentro da minha área clínica de dedicação, permitindo uma aproximação redimensionada entre o cuidado leges artis ao doente e o meu interesse pela investigação médica.


Pedro Gonçalo Ferreira
é médico assistente graduado de Pneumologia na ULS Coimbra, Assistente Convidado e aluno do Programa de Doutoramento em Ciências da Saúde da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra.