Do curso de Medicina | Manuel Santos Rosa

NOTA: Por motivos de força maior, a presente rubrica encontra-se em atualização.

Os altos voos também se fazem em terra firme

Poderia ter passado a vida a ver aviões, mas escolheu pousar no sistema imunitário, um universo tão ou mais complexo quanto o da aviação. “Em criança, tinha a vontade de, um dia, vir a ser engenheiro, tal como o meu pai. Depois, fui refinando essa ideia. O ar, os aviões, o domínio da máquina pelo homem e tudo o que estivesse no limiar da adrenalina sempre me fascinaram, e embora na altura não se falasse propriamente em Engenharia Aeroespacial, era nesse campo que pensava que viria a trilhar o meu percurso profissional”, conta.

Mas, como confirmaremos adiante, uma conversa que ouviu, quando era ainda adolescente, fê-lo mudar de ideias e, em 1975, Manuel Santos Rosa concluía o curso de Medicina da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (FMUC), dando, assim, início a um vasto e notável percurso no ensino e na investigação em Imunologia.

Nascido em Coimbra, frequentou a Escola Primária de Santo António dos Olivais, freguesia de onde é natural. A infância foi fortemente marcada pelo contacto com a natureza e pelos momentos de brincadeira.

“Tive essa grande vantagem: brinquei muito!”, admite. “Considero que, nesse aspeto, fui um privilegiado. Tanto que, quando cheguei à escola, não sabia sequer uma letra do alfabeto. Não sabia rigorosamente nada que não fosse brincadeira, natureza e contacto humano”, complementa.

“Isso levou, inclusive, a uma situação caricata: nessa altura, havia uma certa discriminação – não sei se positiva, se negativa – entre as crianças que entravam na escola primária e que já sabiam ler ou escrever um pouco e as que não sabiam ainda nada”, contextualiza. “Como eu não sabia nada, fui parar à chamada ‘turma dos burros’! Felizmente, não me mantive lá por muito tempo, mas foi uma passagem interessante da minha vida”, graceja.

Posso não parecer, mas sempre fui muito rebelde!

Posteriormente, frequentou o Liceu D. João III (atual Escola Secundária de José Falcão), ainda com a ideia fixa de seguir Engenharia e já com um novo fascínio: os desportos motorizados. “Nunca pratiquei nenhum desporto de forma oficial, mas tenho reflexos rápidos e sempre gostei particularmente de automóveis e de ralis. Já cheguei, inclusive, num simulador de Fórmula 1, a fazer o melhor tempo e, com isso, a ter o privilégio de ser convidado para assistir ao Grande Prémio de Monza [Itália]”, faz saber.

“A minha ideia, como disse, era seguir Engenharia. Fiz tudo por ser engenheiro”, observa. Até ao dia em que ouviu a referida conversa, que o seu pai estava a ter com amigos. “O meu pai tinha um conjunto grande de amigos, na área da Engenharia, em Coimbra. E eu, um dia, ouvi-os a conversarem. Disseram ao meu pai: ‘o teu rapaz realmente, tem feito um bom percurso, mas tem a vida toda facilitada porque vai para a tua área e, por isso, só tem de seguir as tuas pisadas’… Aquilo incomodou-me um bocado”, confessa, “e foi aí que decidi mudar de rumo”.

“Posso não parecer, mas sempre fui muito rebelde! E foi essa rebeldia que me fez ir para Medicina. Na altura, não comentei com ninguém que tinha sido o facto de ter ouvido aquela conversa que me tinha feito desistir de Engenharia. Apenas disse a todos que tinha mudado de opinião”, revela.

Manuel Santos Rosa afirma que viu a Medicina como uma área em que poderia ser desafiado. “Era uma área nova para mim. O meu padrinho era médico, anestesista, mas eu não sabia propriamente nada de Medicina. Por outro lado, já sentia que esta era uma área muito tecnológica, e que isso poderia vir a ser interessante para mim”, indica.

A Engenharia ficou, assim, para trás, e, aos 17 anos de idade, as portas da FMUC abriram-se-lhe, juntamente com a “ótima e recompensadora convivência e proximidade” que se gerou entre os seus novos colegas. “O meu curso era enorme, devia ter uns 400 estudantes! E, curiosamente, nessa altura havia muitos colegas que vinham de fora de Portugal, sobretudo do Brasil”, observa.

Já com os professores, a proximidade era diferente. “Havia uma certa distância entre professores e alunos, com exceção de alguns professores, que realmente nos permitiam uma maior aproximação e que eram muito estimulantes para a vida académica, como foi o caso do Professor António José de Amorim Robalo Cordeiro, que nos convidava para ver o que era um laboratório e o que podíamos fazer por lá, bem como para as reuniões de decisão terapêutica da Pneumologia”, conta.

“Portanto, nós, os alunos, começávamos logo por perceber que existiam doentes e não doenças, e que, por esse motivo, as abordagens deviam ser personalizadas. Isso é algo extremamente interessante, e que nos marca muito”, destaca.

“Acho que, atualmente, os estudantes já não sentem essa diferença tão nítida entre os vários tipos de professores, que acabam por ser todos muito mais abertos e próximos”, acrescenta.

“Gosto de sublinhar a importância desta proximidade entre professor e aluno porque, no fundo, pode não ser o objetivo de uma determinada unidade curricular aquilo que estimula o estudante, mas sim o seu professor. E isso aconteceu comigo enquanto estudante que teve professores próximos, com uma capacidade pedagógica notável”, destaca.

A troca de curso, essa, não deixou arrependimentos. “Apesar de a minha tendência natural ser seguir a Engenharia, cedo percebi que tive, com a Medicina, um casamento feliz, porque comecei precocemente a frequentar o laboratório e a perceber que se tratava de uma área em grande desenvolvimento, com muitas possibilidades no que respeitava à tecnologia, o que me agradava muito”, afirma.

“Embora nunca tenha desenvolvido essa vertente, mais tarde percebi também que tinha uma interação muito boa com os doentes. Nunca optei por isso, porque realmente fiquei entusiasmado desde cedo com a investigação em Imunologia, área na qual me especializei, mas acho que uma possível atuação na prática clínica da minha parte teria sido bem-sucedida”, constata.

Agora, uma coisa é certa: as imunoterapias trouxeram um novo horizonte (…)

Sobre o interesse pela Imunologia, Manuel Santos Rosa afirma que este se deve ao facto de se tratar de uma ciência muito viva. “Por outro lado, é uma ciência que, ainda hoje, afasta muita gente, por ser complexa, às vezes quase matemática, por ser obscura e por ser também uma área na qual ainda existe muito desconhecimento, o que leva a que várias pessoas a considerem menos interessante”, indica. “Mas o facto é que, ao longo das últimas décadas, a Imunologia teve uma evolução estrondosa, mas tem também um grande mal: aparentemente, promete muito, mas faz pouco”, complementa.

“O que quero dizer com isto é que a Imunologia já foi utilizada como a solução para vários problemas de saúde. No entanto, continuamos a ter cancro, alergias e doenças autoimunes, por exemplo, que embora hoje sejam mais controladas, não têm propriamente uma solução definitiva”, observa.

“Agora, uma coisa é certa: as imunoterapias trouxeram um novo horizonte, e a Imunologia, naquilo que diz respeito à terapêutica, melhorou muito. Cada vez mais fazemos também um diagnóstico personalizado, o que é extremamente importante. Caracterizarmos uma pessoa do ponto de vista imunológico, algo que hoje conseguimos fazer, é uma evolução extraordinária dos últimos tempos”, destaca.

Quando terminou o curso, em 1975, Manuel Santos Rosa era já professor da FMUC. “Oficialmente, a minha carreira docente teve início um ano antes de acabar o curso, em 1974, mas, na verdade, a minha presença na atividade letiva começou logo no segundo ou terceiro ano da faculdade”, indica.

“Até me sucedeu uma vez, ao entrar na sala de Anatomia, ficar entre toda aquela enchente de alunos e ouvir uma aluna a perguntar quem seria o professor. Quando percebeu que era eu – alguém com uma idade próxima à dos alunos – ficou surpreendida!”, revela.

Manuel Santos Rosa afirma que um bom professor tem de ser, de certa forma, um ator. “Temos de entrar em palco e dar o nosso melhor, para tornarmos aquilo que vamos dizer em algo atrativo”, começa por dizer. “Como bem sabemos, há cientistas espetaculares que não conseguem transmitir informação eficazmente. E há pessoas que têm muito menos capacidades científicas, mas que transmitem a informação de uma forma brilhante”, continua.

“Acho que nós [professores e investigadores] devemos perceber que uma sala de aula ou uma sala de reuniões são palcos, em que temos de brilhar na transmissão daquilo que consideramos ser o mais importante. A função do professor, ancorada na sua experiência e no seu conhecimento, é selecionar a informação que considera mais importante e torná-la no centro da atenção do aluno”, declara.

“Na minha vida profissional, tive a oportunidade de pisar grandes palcos, como auditórios com 2 mil ou 3 mil pessoas… Não se compara com a MEO Arena [risos], mas é algo que tem peso, que nos estimula e nos dá responsabilidade. É algo que nos marca”, destaca.

Para além de contar com grandes palcos, Manuel Santos Rosa conta também com cerca de cinco décadas de experiência no ensino, tendo desempenhado a atividade docente e de investigação a par do desempenho de vários outros cargos.

Na FMUC, foi diretor do Instituto de Imunologia (1990 -2022), diretor da Biblioteca Central (1996-2009), diretor dos Serviços Informáticos e de Audiovisuais (2000-2009), diretor do Gabinete Editorial, de Relações Públicas e Imagem (2004-2009), diretor do Biotério (2006 -2012), vice-presidente do Conselho Diretivo (1999-2009), diretor da FMUC (2009 -2012), diretor da Biblioteca das Ciências da Saúde da Universidade de Coimbra (2010-2023) e membro e presidente da Assembleia Geral (2019-2022).

Quando questionado acerca dos maiores desafios enfrentados no seu extenso e profícuo percurso profissional, Manuel Santos Rosa indica que estes dependeram muito da época em que foram vivenciados. “Inicialmente, acho que o grande desafio que todos enfrentávamos no ensino e na investigação era o isolamento que Portugal vivia e a dificuldade em estabelecermos contacto com o exterior”, indica.

“Não esqueçamos que, nos anos 70, se queríamos fazer uma coisa tão simples quanto uns slides a cores para uma aula ou um congresso, tínhamos de ir a Lisboa revelá-los, e muitas vezes tínhamos também de sair de Coimbra para irmos buscar material de laboratório, porque aqui não existia. Parece ridículo dizer isto hoje, mas era a realidade naquela altura”, conta.

“Mais tarde, acho que um dos maiores desafios, e que vivi enquanto diretor da FMUC, foi, depois do grande esforço feito para que a faculdade tivesse autonomia financeira e administrativa, que conseguimos quando eu era ainda vice-presidente do Conselho Diretivo, termos perdido essa autonomia, por questões relacionadas com a própria Universidade”, declara.

Ainda assim, Manuel Santos Rosa afirma que, apesar de desafiante, “pela perda de autonomia, a reformulação das equipas e a mudança para o Polo das Ciências da Saúde”, o período enquanto diretor da FMUC foi, igualmente, interessante. “Foi um período em que, apesar de ter de absorver todos esses choques e de, por isso, não ter podido realizar tudo aquilo que gostaria de ter realizado, acho que conseguimos ultrapassar essas situações com a devida serenidade”, constata.

“Como em tudo na vida, acho que não nos compete a nós dizermos se fomos bons, maus ou assim-assim, mas considero que foi um momento interessante para a FMUC, e que, apesar de complexo, foi igualmente sereno e bem ultrapassado”, afirma.

Já sobre o equilíbrio entre a vida profissional e a vida pessoal, Manuel Santos Rosa afirma que este foi “relativamente fácil”, sobretudo devido à compreensão que sempre existiu por parte daqueles que lhe são próximos. “Quando as pessoas que nos são próximas compreendem e gostam também daquilo que fazemos, tudo fica mais fácil, ainda que isso implique que a vida pessoal seja um pouco sacrificada”, observa.

“Era frequente, nas reuniões de direção da faculdade – e até aproveito a ocasião para, uma vez mais, agradecer às pessoas que estiveram a trabalhar comigo nessa altura –, chegarmos a horas que já nem eram de jantar, eram de ceia, e alguém dizer que era melhor irmos para casa… Estávamos ali a trabalhar com gosto, e esquecíamo-nos de que já era muito tarde”, revela.

“Confesso que ter tido a oportunidade de trabalhar em equipa, de sentir que as pessoas que estavam comigo vestiam a camisola e que estávamos todos no mesmo barco, a remar para o mesmo lado, tanto em dias bons quanto em dias maus, é algo que me conforta e que me deixa orgulhoso daquilo que, em conjunto, foi feito”, enfatiza.

Perdi o stress que tanto gostava de sentir!

Jubilado desde 2022, foi distinguido com o título de Professor Catedrático Emérito da Universidade de Coimbra (UC) em 2023. “Foi a primeira vez que se atribuiu este título na universidade e, por isso, tê-lo recebido foi uma honra, como é evidente”, salienta. “É também uma forma de poder manter uma colaboração mais oficial com a UC, o que considero ser extremamente relevante. Não vejo esta atribuição como uma distinção pessoal, mas como algo que me honra e que me dá a oportunidade de manter uma ligação à faculdade e à universidade”, menciona.

“No que diz respeito à jubilação, eu sempre gostei muito de stress e, para mim a jubilação trouxe essa mudança significativa… Perdi o stress que tanto gostava de sentir! Deixei de ter aquela pressão do início do ano letivo, de ter de preparar as aulas, de fazer as avaliações… Ao contrário do que talvez acontece com a maioria das pessoas, todo esse calendário, de ter de fazer as coisas naquele dia, àquela hora, era, para mim, muito estimulante. Pensar que amanhã posso fazer o que quiser e à hora que eu quiser… não é o meu estilo. Portanto, aquilo que agora tenho feito é pressionar-me e tentar manter um calendário ativo”, revela.

“E a minha vida, neste momento, é bem interessante. Para além de manter alguma atividade académica, estou no Conselho de Revisão da A3ES [Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior]. Tenho aprendido muito lá”, faz saber. “Também me mantenho atualizado em Imunologia. Gosto de ir lendo e de acompanhar o que se passa”, complementa.

“Depois, tenho desenvolvido outras atividades que me agradam, e para as quais agora tenho tempo. Uma delas tem sido tentar perceber melhor quem foram e o que fizeram os meus antepassados, como o meu pai, o meu avô e o meu bisavô. O meu pai construiu vários instrumentos musicais, sobretudo de cordas, e agora ando a revisitar os modelos que ele fez”, indica.

“Já o meu avô e o meu bisavô foram responsáveis por toda a ornamentação em pedra do Palace Hotel do Bussaco e da Quinta da Regaleira, em Sintra. Ando também a revisitar esses objetos, como os gessos que utilizavam para fazer os modelos na pedra. Ando neste regresso ao passado, agora que tenho tempo para isso”, afirma.

“Tenho-me dedicado também à fotografia, que sempre adorei. Foi inclusive por esse gosto pela fotografia que tentei sempre inovar nos materiais que levava para as aulas”, constata. “Ando igualmente focado no empreendedorismo. O meu pai e a minha mãe foram pequenos produtores de azeite, destilados e vinho – numa época já recuada, inclusive, chegaram a produzir um vinho espumante tinto, uma inovação enorme naquela altura – e ando a pensar em recuperar isso, para além de estar também a pensar em ideias relacionadas com o empreendedorismo na área da Saúde. Mantenho-me vivo, interessado e com tempo, e isso é que é importante”, revela.

Com projetos para o futuro, Manuel Santos Rosa considera, no entanto, que o mais importante é o amanhã. “Neste momento da minha vida, posso dizer que todas as nossas experiências, boas ou más – e, às vezes, a vida tem surpresas que não imaginávamos que pudessem acontecer – são, sobretudo, aprendizagens”, observa.

“Temos de nos ir sempre reformatando, repensando quem somos e como somos perante essas experiências mais contundentes da vida. E termos muita fé no amanhã, isso é fundamental. Não é no futuro distante, que ninguém conhece, mas no amanhã”, destaca. Até porque os altos voos não se medem pela distância, mas pela direção. E os mais altos, às vezes, fazem-se mesmo em terra firme.


por Luísa Carvalho Carreira

fotografia Arquivo FMUC


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