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Prestes a recandidatar-se ao cargo, Carlos Robalo Cordeiro apresenta os motivos que o levam a querer seguir para um quarto mandato enquanto diretor da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (FMUC), partilhando igualmente a sua visão acerca dos principais avanços e desafios enfrentados, nos últimos anos, por esta Escola Médica.
A FMUC tem uma longa história e um prestígio consolidado. Quais considera terem sido os principais avanços alcançados durante os seus mandatos que consolidaram ou renovaram esse legado?
Temos, de facto, tentado manter o nosso legado e o nosso prestígio, elevando o nome da FMUC. Desde logo, fazemo-lo na nossa região e no nosso ambiente universitário, enquanto unidade orgânica da Universidade de Coimbra [UC], mas também o fazemos no âmbito das Escolas Médicas Portuguesas, um ambiente, como é evidente, bastante competitivo.
Nessa perspetiva, julgo que, ao longo destes mandatos, temos dado mostras dessa realidade e trabalhado nesse aspeto. Há métricas que o comprovam, desde logo aquela que tem a ver com a percentagem de estudantes que elegem a FMUC como primeira opção aquando da candidatura ao curso de Medicina, que aumentou significativamente nos últimos anos. Há também outra métrica que me parece importante: nas últimas duas PNA [Prova Nacional de Acesso] de que temos já os resultados, as de 2022 e 2023, os alunos da FMUC obtiveram classificações muito boas e bem posicionadas no ranking das Escolas Médicas.
Temos também tentado consolidar o nosso legado e o nosso prestígio através do compromisso que temos com a Universidade dos Açores e a Universidade de Cabo Verde ao nível do ensino pré-graduado, que temos vindo a trabalhar para que se estenda ao ensino pós-graduado. Neste aspeto, julgo que temos feito igualmente um trabalho robusto.
Se falamos do prestígio e da tradição, julgo que estes são bons exemplos daquilo que temos vindo a fazer em prol da manutenção de ambos, sobretudo na área da pré-graduação. Na área da pós-graduação, temos, obviamente, evoluído também muito significativamente. A oferta formativa da FMUC no 2º Ciclo é cada vez mais abrangente, quer em Medicina, quer em Medicina Dentária. Na formação avançada de 3º Ciclo, também nos posicionamos muito bem, com a oferta do nosso Programa de Doutoramento em Ciências da Saúde, para o qual temos tido uma capacidade de atração de excelentes candidatos, nomeadamente na área clínica.
Passando para o âmbito da prestação de serviços, creio que aqui, a par do ensino, demos também um salto qualitativo muito importante. Somos a unidade orgânica da UC que mais impacto tem a este nível. Contribuímos para a melhoria dos cuidados de saúde através da oferta especializada que os nossos laboratórios permitem, gerando um importante income para a Universidade.
Já nas áreas da investigação, temos tido também uma progressão significativa, com os diversos grupos a organizarem-se de forma muito mais consistente, alargada e robusta no âmbito do nosso instituto, o iCBR [Instituto de Investigação Clínica e Biomédica da FMUC], algo que se tem comprovado pelos seus resultados. O consórcio CIBB [Centro de Inovação em Biomedicina e Biotecnologia], do qual o iCBR-FMUC faz parte, obteve a classificação ‘Excelente’ na última avaliação da FCT [Fundação para a Ciência e a Tecnologia] às Unidades de Investigação e Desenvolvimento nacionais. Esta classificação atribuída pela FCT é também resultado da forma como o nosso instituto soube renovar e reorganizar a sua oferta em investigação e inovação de uma maneira muito equilibrada e articulada entre a investigação fundamental e a investigação clínica.
Falei até agora de exemplos que consolidam o legado e prestígio da FMUC no ensino, na prestação de serviços e na investigação e inovação. Mas posso também dar exemplos do investimento que tem havido na renovação dos espaços de ensino, sobretudo no que diz respeito aos auditórios da Unidade Central e à área da simulação na Medicina Dentária, bem como a uma parte das instalações do iCBR-FMUC. É uma renovação e modernização de espaços que, a par da estética, tem acontecido com a preocupação necessária de preservação da memória da nossa faculdade e da nossa universidade.
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Um dos grandes desafios das faculdades de Medicina é adaptar o ensino às necessidades da prática clínica. Que mudanças curriculares e metodológicas destaca da sua gestão?
Devo dizer que as mudanças curriculares são uma das cinco razões que me levam a recandidatar-me ao cargo de diretor da FMUC!
Falemos então primeiro das razões que o levam recandidatar-se.
Muito bem. A primeira razão tem a ver com aquilo que resultou do nosso excelente posicionamento na candidatura ao Programa Impulso Mais Digital, que aconteceu há dois anos e que vai promover uma renovação tecnológica no apoio ao ensino, sobretudo através de uma capacitação diversificada e qualificada na área da simulação. A breve prazo, teremos essas condições instituídas. Isso acontecerá já no decorrer do próximo ano letivo.
A segunda razão, que decorre também desta candidatura ao Programa Impulso Mais Digital, tem a ver com a aposta num projeto inovador, que estamos a desenvolver com a IBM. Trata-se da criação de um biobanco virtual de imagem e de várias informações médicas e demográficas, localizado em cloud, desenvolvido, lançado e sediado na FMUC, mas aberto a toda a comunidade, inclusive a todos os Centros Académicos Clínicos. Neste âmbito, criámos recentemente o Laboratório de Ciência de Dados e Inteligência Artificial, o LIAS, algo que também julgo que será claramente diferenciador para o nosso futuro.
A terceira razão diz respeito às reformas pedagógicas do Mestrado Integrado em Medicina [MIM] e do Mestrado Integrado em Medicina Dentária [MIMD], que já vou desenvolver em seguida.
A quarta razão que me leva à recandidatura é o compromisso com a Reitoria da UC, concretamente com o senhor Reitor, que tem também a intenção de, antes de terminar o seu mandato, poder relançar a construção da unidade em falta no Polo III, que vai acolher, por exemplo, os seis grupos de investigação e de ensino atualmente no Polo I. A construção dessa unidade, mais conhecida por Subunidade 2+4, é algo que eu também gostaria muito de ver lançada, não concluída, naturalmente, já que isso seria de facto impossível de acontecer em dois anos. Mas gostava muito que a construção fosse lançada num próximo mandato como diretor da FMUC, até porque parecem estar criadas as condições, sobretudo financeiras, para se poder dar esse passo.
Por fim, a quinta razão relaciona-se com o facto de ter assumido, há menos de um ano, a presidência do Conselho de Escolas Médicas Portuguesas [CEMP], num mandato que tem a duração de dois anos. Se não me recandidatasse a um novo mandato enquanto diretor da FMUC, poderia apenas exercer o cargo de presidente do CEMP durante um ano ou um pouco menos do que isso.
Podemos voltar agora à terceira razão, relacionada com as reformas pedagógicas do MIM e do MIMD, conforme referiu.
Sim. Aquilo que, de alguma forma, foi sendo mudado na nossa oferta curricular, prende-se com a sucessiva integração daquilo que tem a ver com a promoção de múltiplas competências dos nossos futuros médicos e médicos dentistas, que vão além da formação médica e específica. Competências nas áreas da comunicação, da liderança, da gestão, da investigação, da ética e do humanismo, entre tantas outras, são muito importantes. Temos, cada vez mais, uma oferta curricular opcional para o desenvolvimento destas competências, e esse é um aspeto que, a meu ver, tem sido relevante nos últimos anos. A reforma pedagógica do MIM, presidida pelo Professor Caseiro Alves, e a reforma pedagógica do MIMD, presidida pelo Professor Francisco do Vale, trarão também muita inovação.
Falando do MIM, temos integrado, cada vez mais cedo, os estudantes na realidade clínica, com unidades curriculares que os fazem ter contacto com o hospital mais cedo, ainda no chamado ciclo básico. Isso é muito importante, essa ligação precoce à clínica e a componente humanista. O currículo, na Medicina, baseia-se muito na autoaprendizagem, com a utilização crescente da simulação e com a consolidação progressiva de definição de gestos, atitudes e atos obrigatórios que o aluno deve ter visto e saber fazer durante o curso.
Quanto ao MIMD, as alterações decorrentes da reforma pedagógica serão também muito relevantes, desde logo com a possibilidade de acesso a unidades curriculares opcionais, algo que antes não acontecia. Outra das alterações, também muito importante, prende-se com a crescente valorização da integração clínica nas fases finais do MIMD.
Estes são apenas exemplos de mudanças trazidas por estas reformas, que acontecerão a breve prazo, com início no ano letivo de 2026/2027.
Falou da importância da integração da clínica na realidade dos estudantes. Como tem sido construída a articulação entre a FMUC e a ULS Coimbra? A proximidade com os serviços de saúde tem sido suficiente para preparar os estudantes para a realidade profissional?
Nunca é suficiente, porque queremos sempre mais, como é evidente. Agora, é óbvio que isso é determinante. A simulação é importante, mas não é suficiente. A vivência clínica em unidades hospitalares e de cuidados de saúde primários é fundamental.
Temos de ir trabalhando sempre essa capacidade de interligação da FMUC com a ULS Coimbra. Esta é uma relação win-win, não tenho qualquer dúvida disso. Julgo que o hospital ganha muito com este apoio ao ensino e à formação, e a FMUC beneficia também muito da proximidade destes recursos hospitalares.
Porém, acredito que devemos diversificar também a capacidade de oferta para os nossos alunos. Apesar de sermos a segunda Escola Médica do País em número de alunos, somos a que tem menos acordos em estruturas hospitalares. Estamos um pouco limitados a esse nível, e esse é um aspeto que temos de trabalhar com muito afinco e de forma assertiva nos próximos dois anos, promovendo uma protocolização do ensino clínico mais abrangente e diversificada, inclusive em estruturas hospitalares e de cuidados de saúde primários fora de Coimbra e também privadas.
Na relação da FMUC com a ULS Coimbra, tem havido saltos qualitativos em muitos aspetos. É um caminho que temos de ir fazendo com atenção, sempre com a preocupação de melhorarmos sobretudo o nosso relacionamento no que diz respeito à gestão conjunta dos mesmos problemas e dificuldades da melhor forma possível. Para isso temos o CACC [Centro Académico Clínico de Coimbra] e uma comissão mista entre a FMUC e a ULS Coimbra.
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Feito o balanço dos anteriores mandatos e apresentadas as cinco razões para a recandidatura ao cargo de diretor, que visão tem para o futuro da FMUC? Quais serão as suas principais prioridades num eventual novo mandato?
Nas respostas anteriores, não falei propriamente daquilo que considero mais importante: as pessoas. A FMUC, e, desde logo, a UC, tem promovido uma capacidade de captação de novos recursos, com a oferta de progressões na carreira de uma forma muito significativa.
Nos últimos dois ou três anos, temos tido uma renovação do nosso corpo docente e de investigação. Esse é um dos aspetos que queria relevar. Mas é muito importante olharmos também para os recursos humanos do corpo técnico. A nossa vida não existiria sem alunos, e felizmente alunos não nos faltam, mas há que ter também uma preocupação especial com aquilo que é o equilíbrio interno da nossa Escola, possibilitado pelo corpo técnico.
Julgo que só manteremos uma coesão interna e um espírito de equipa se conseguirmos não apenas renovar os nossos recursos humanos técnicos, mas sobretudo diminuir a precariedade, criando condições para que o nosso corpo técnico tenha as suas carreiras e os seus postos de trabalho acautelados e protegidos, algo que não depende apenas de nós. A FMUC é uma das faculdades de Medicina com menos autonomia no País. Não temos autonomia administrativa e financeira. A nossa autonomia é pedagógica, científica e cultural, como é sabido.
Uma perspetiva para a qual considero também relevante olharmos de forma estratégica é a da Saúde Global. Vamos iniciar, em setembro, a trajetória de uma Cátedra em Saúde Global na FMUC, com apoios e ofertas diversas, algo que vamos construir a par daquilo que também será, por essa altura, uma realidade para nós, que é o Observatório em Saúde Global da UC, liderado pela FMUC.
Com este Observatório, teremos a capacidade para promover estudos, eventos e ações que permitem ter mais informação sobre a saúde das populações e mais informação sobre diversos aspetos que têm a ver com a saúde global e que afetam, obviamente, as comunidades. Esta é uma das inovações e áreas que também privilegiarei durante um próximo mandato enquanto diretor da FMUC, caso seja eleito.
Acredito que o que deve ser aprofundado num próximo mandato é, de facto, a promoção e a criação de rede nesta área da Saúde Global. Nós temos todas a condições para isso, e quando digo “nós”, falo da FMUC, da UC, da cidade e da região. O nosso ecossistema na área das Ciências da Saúde é conhecidíssimo. Temos todas as condições, humanas, técnicas e tecnológicas, para nos podermos afirmar nesta área, que é de excelência na UC e também na cidade de Coimbra.
Coimbra é, aliás, conhecida como uma cidade de Saúde. Temos, naturalmente, de olhar para esta mais-valia que temos na nossa cidade, que reúne condições aos mais diversos níveis, assistenciais, educativos, formativos, de investigação e de inovação, para fazermos progredir ainda mais as Ciências da Saúde.
por Luísa Carvalho Carreira
fotografias de Carina Monteiro, Paulo Amaral e João Matias
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