Isto é FMUC
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Reforma Pedagógica do Mestrado Integrado em Medicina da FMUCCom o objetivo de responder aos desafios pedagógicos e clínicos da formação médica contemporânea, a Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (FMUC) iniciou uma reforma no plano de estudos do seu Mestrado Integrado em Medicina (MIM). Centrando-se no ensino por competências, na simulação clínica e no reforço da comunicação médica, a nova estrutura curricular visa preparar os futuros médicos para um exercício profissional mais ético, autónomo e tecnicamente qualificado. Filipe Caseiro Alves, coordenador do MIM, explica os principais eixos desta reforma, os obstáculos enfrentados e a visão estratégica para a sua implementação até ao ano letivo 2026/2027. Quais foram os principais eixos da reforma pedagógica do Mestrado Integrado em Medicina da FMUC? Que transformações concretas foram introduzidas?Ao olhar para a reforma do plano de estudos de 2014, constatámos, diria que quase transversalmente, no seio da FMUC, a necessidade de mitigar e/ou corrigir lacunas pedagógicas que resultam, sobretudo, do elevado número de discentes e da insuficiente articulação funcional, quase em exclusivo, com o único polo hospitalar, a atual ULS de Coimbra. A atual Direção da FMUC inscreveu o tema da reforma no seu plano estratégico e o Conselho Científico validou a criação de uma Comissão de Trabalho dedicada que tive o gosto de dirigir conjuntamente com o Dr. Hugo Camilo, sob a égide do Gabinete de Educação Médica. Corporizando o que foi a nossa contribuição no documento sobre educação médica em Portugal, editado pelo Conselho Nacional das Escolas Médicas, os objetivos da reforma prenderam-se com uma importante modificação, consistindo no ensino por competências, materializado no que se designa por entrustable professional activities, ou seja, tornar o ensino uma experiência vivenciada e participada, focado nas tarefas cognitivas e manuais que o futuro médico necessita de possuir no curto prazo. Este grande eixo tira vantagem do ensino por simulação nas suas diferentes vertentes, desde os primórdios da consulta clínica até aos gestos mais avançados a explorar nos anos clínicos. Outro dos importantes eixos centrou-se no reforço da comunicação médica em geral, apelando para o desenvolvimento de competências éticas e sociais que habilitem o futuro médico a interagir nas várias dimensões envolvidas em cuidados de saúde como sejam a comunicação interpares, comunicação de más noticias, ética e empatia. Em que medida a nova estrutura curricular visa preparar melhor os futuros médicos para os desafios sociais, científicos e clínicos atuais?O ensino "debitativo", cujo paradigma se costuma associar à lição teórica expositiva, é um modelo condenado. Os atuais meios ao dispor dos discentes são enormes e penso mesmo que nunca foram tão grandes como nos últimos anos com a entrada esmagadora (mas ainda não convenientemente regulada) da inteligência artificial. Neste novo cenário, o importante não é debitar conteúdos e esperar que isso tenha um efeito boomerang no desempenho dos discentes. Ao contrário, o que hoje colhe aceitação é a exposição a situações clínicas reais ou realistas que verifiquem não só a capacidade do aluno em os resolver como aumentar progressivamente o seu grau de dificuldade de forma longitudinal ao longo do curso. A criação de três novas unidades curriculares a posicionar do 3º ao 5º anos, centradas na medicina de internamento, de ambulatório e emergência médica, são a proposta de fundo para explorar estas competências. Outro dos importantes focos da reforma visa o ensino por resolução de problemas que encontra a sua materialização independente no 6º ano com a introdução de casos clínicos virtuais. Esta é uma medida que não constitui nenhuma rotura com o ensino precedente, mas antes o completa e de certa forma o articula com a futura PNA [Prova Nacional de Acesso]. Outras medidas com menor impacto visual na matriz curricular, mas igualmente importantes, visam a replicação e o aumento do ensino por resolução de problemas, a criação e/ou expansão de sessões de integração curricular sem que isso implique mais contacto discente (que se prevê não dever ultrapassar as 28-30 horas semanais). Atendendo à nossa especificidade que resulta de um número de discentes que considero irrealisticamente elevado (cerca de 400 novos alunos por ano considerando todos os contingentes), a reforma propõe a criação de edições semestrais em determinadas unidades curriculares na tentativa de mitigar esse problema maior. Daqui se pode facilmente depreender que a reforma, para ser efetiva, vai obrigar a consideráveis modificações operativas, nomeadamente no que respeita ao centro de simulação e corpo docente de dimensão compatível. Como foi garantida a participação ativa de docentes e discentes no processo de revisão curricular? Que contributos se revelaram mais relevantes?A estratégia que se implementou chamou a si algumas das estruturas existentes de que é exemplo o Comissão de Coordenação do ciclo de estudos, mas também passou por criar uma comissão de trabalho dedicada com coordenadores transversais de ciclo e de ano letivo para além dos coordenadores de eixos plurianuais (ex: investigação e raciocínio clínico, ética e profissionalismo, etc.). Essa fase foi morosa, pois foi necessário encontrar um fio condutor que permitisse uma primeira antevisão macro da cobertura científica do curso. Numa segunda fase, e uma vez consensualizada a matriz curricular, a comissão passou a ser alargada à Comissão de Coordenação do ciclo de estudos, que para além de docentes coordenadores integra discentes e os serviços académicos da FMUC. Foram reuniões muito proveitosas, das quais não posso deixar de referir o excelente contributo da estrutura pedagógica do NEM, que produziu um valioso e muito completo documento de análise. Toda a documentação foi submetida nos canais habituais a um período de reflexão e discussão pública, nos quais foram recebidas diversas contribuições de grande valor e que nos levaram de facto a ter a sensação e talvez a certeza de ter envolvido a Escola na sua plenitude. |
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Que inovações tecnológicas e metodológicas foram integradas no ensino, e qual o seu papel na promoção de uma aprendizagem mais eficaz e centrada no estudante?Como referi anteriormente, o ensino baseado em competências privilegiando a componente hands-on é a forte aposta da reforma curricular. Dois eixos ressaltam ainda como muito relevantes: a linha longitudinal que explora a ética, o profissionalismo e a comunicação, e a que fortalece o raciocínio clínico através da oferta de conteúdos mais integrados e o ensino por resolução de casos-problema, incluindo no 6º ano. Que métricas estão definidas para avaliar o impacto desta reforma pedagógica nos resultados académicos e profissionais dos estudantes?São hoje múltiplas as oportunidades de avaliação interna e externa dos resultados obtidos que vão desde os inquéritos do sistema de gestão pedagógica da UC até à análise exaustiva produzida pelos alunos no âmbito do Conselho Pedagógico. Outras estruturas são também relevantes para o controlo e análise das medidas tomadas, como a Comissão de Coordenação de Ciclo de Estudos do MIM e o GASQ [Gabinete de Apoio ao Sistema de Gestão da Qualidade]. Acho que acima de tudo teremos de evitar ser reativos e ser mais proactivos. Uma reforma curricular nunca está concluída e precisa de ser trabalhada numa base de grande proximidade e interação que envolva toda a Escola. Os processos de auditoria internos deveriam ocorrer com maior frequência e revisitar muitos dos pontos fracos ou menos conseguidos antes de existir a necessária validação externa pelas entidades competentes. A maior frustração que sentimos é conhecermos bem os problemas, que muitas vezes se repetem anualmente, mas não termos capacidade direta de agir para os modificar. Refiro-me concretamente aos dois grandes problemas que exigem soluções adaptadas: o mau ratio discente/docente e a inexistência de mais estruturas hospitalares de proximidade que colaborem ativamente no ensino clínico. Que balanço faz desta experiência na reforma pedagógica do curso?Muito positivo, sobretudo pela forma muito empenhada, participada e de grande suporte manifestada pelos docentes e pelos discentes. Acho que foi um processo que resultou da definição prévia de uma matriz que foi levada até à fase de projeto de execução prévia. Contudo, este ano e o próximo serão de muito trabalho, pois se existem medidas de aplicabilidade imediata (ex: novas unidades curriculares), outras haverá que obrigam a condições prévias, como seja a criação de duas edições anuais da mesma unidade curricular e necessário recrutamento de mais docentes. A construção das novas FUC [Fichas de Unidade Curricular] será o fio condutor das reformas instituídas e é esse o trabalho que se pede agora, até à entrada em vigor da reforma prevista para o ano letivo 2026/2027.
fotografia Arquivo FMUC |

