4'33'' | Filipe Froes

Em janeiro de 2021, alertava, em entrevista à VoiceMED, para as lições a retirar da pandemia de COVID-19 e deixava um aviso claro: o de que se aproximava, de forma silenciosa, mas a passos largos, uma nova crise global, a das alterações climáticas. Hoje, como coordenador da Cátedra em Saúde Global da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (FMUC), salienta a necessidade de formar líderes capazes de enfrentar os grandes desafios que ameaçam a saúde no mundo.


Da resistência antimicrobiana à substituição do conhecimento pela ideologia, sem esquecer, uma vez mais, as alterações climáticas e as marcas profundas deixadas pela pandemia de COVID-19, Filipe Froes traça um retrato comprometido da Saúde Global e do papel decisivo que a academia deve assumir na construção de soluções para estes grandes desafios.


Coordena a Cátedra em Saúde Global da FMUC. Antes de mais, que significado tem para si a atribuição desta Cátedra?


Esta Cátedra é extremamente importante e revela, a meu ver, algo fundamental, que é a necessidade de atualizar e expandir o currículo, incluindo novos conteúdos e matérias na formação médica. Sou um grande defensor da abrangência e da célebre frase “O médico que só sabe de Medicina, nem de Medicina Sabe”.


A nível mais pessoal, só posso agradecer ao diretor da FMUC, o Professor Doutor Carlos Robalo Cordeiro, por ter identificado em mim as competências necessárias para estar à altura deste novo desafio.


Quais os principais temas que esta Cátedra pretende focar?


São temas que se prendem com vários desafios, identificados ainda antes da pandemia [de COVID-19]. Acho crucial apontar este facto, para que as pessoas percebam que falamos de desafios prévios à pandemia, identificados pela Organização Mundial da Saúde [OMS].


Em 2019, a OMS elaborou uma lista dos dez principais desafios, ou ameaças, no âmbito da Saúde Global: a poluição do ar e as mudanças climáticas; as doenças crónicas não transmissíveis; a pandemia global de gripe; os locais em crise ou com fragilidade social; a resistência antimicrobiana; o ébola e outros agentes infeciosos letais; os cuidados de saúde primários não eficientes; a hesitação vacinal; o dengue; e, por fim, o VIH, vírus da imunodeficiência humana.


Sobre algumas destas dez ameaças, há algumas considerações que julgo importante fazer. Por exemplo, no que diz respeito às doenças crónicas não transmissíveis, não nos devemos esquecer de que estas são responsáveis por cerca de 78 a 80 por cento da mortalidade a nível global, um valor bastante alarmante.


No caso das pandemias, quando esta lista foi elaborada referia-se sobretudo à pandemia de gripe. No entanto, hoje todos sabemos que há também muitos outros microrganismos, para além dos vírus Influenza, causadores da gripe, que possuem potencial pandémico, como foi o caso do vírus SARS-CoV-2, que enfrentámos na mais recente pandemia, entre 2020 e 2023.


Entre as ameaças emergentes, destaco ainda a resistência aos antimicrobianos. Na minha perspetiva, esta é uma ameaça gravemente desvalorizada, cujo significado, tanto individual quanto coletivo, muitas vezes passa despercebido. Qualquer um de nós pode ser vítima da resistência aos antimicrobianos. Eu trabalho diariamente como médico numa Unidade de Cuidados Intensivos e, neste momento, lido já com um número significativo de infeções causadas por microrganismos multirresistentes, ou seja, difíceis de tratar. Em alguns casos, essas infeções envolvem agentes extremamente resistentes, o que agrava substancialmente o prognóstico dos doentes e, sem dúvida, aumenta de forma significativa o consumo e a alocação de recursos em saúde.


A hesitação vacinal é também uma ameaça da maior atualidade. Num primeiro momento, a hesitação vacinal evoluiu para a desinformação e, posteriormente, para a politização do conhecimento. Atualmente, enfrentamos um fenómeno ainda mais preocupante: a substituição do conhecimento pela ideologia.


Esta substituição é extremamente grave, pois acarreta riscos significativos, tanto na promoção de danos individuais e coletivos como na erosão da confiança nas instituições oficiais e na academia. Está também associada a cortes expressivos na investigação, especialmente ao nível da ciência básica. Esta situação traz consequências muito graves para o futuro da civilização. Embora o desenvolvimento continue a ser alimentado pela ciência aplicada, a perda do papel central da ciência básica como motor de inovação terá, a meu ver, repercussões profundas a médio e longo prazo.


Outro reflexo dessa substituição do conhecimento pela ideologia é a suspensão de programas de apoio ao desenvolvimento, especialmente daqueles destinados a países menos desenvolvidos, por parte de países mais ricos. Isso agrava significativamente as desigualdades sociais e económicas a nível global. Sabemos que, cada vez mais, a saúde de todos depende da saúde individual. Quando há regiões com piores indicadores de saúde, esses desequilíbrios inevitavelmente terão repercussões à escala global.


Salientaria ainda que a epidemia do VIH teve um papel determinante na criação desta Cátedra em Saúde Global. Foi precisamente através dos estudos consistentes realizados neste domínio que se reforçou o valor da Medicina Social e da Saúde Global. E porquê?


Porque a Medicina Social, ao investigar as origens sociais da doença, demonstrou a sua enorme capacidade de identificar fatores estruturais e de intervir sobre eles. Foram analisadas as iniquidades sociais, os estigmas culturais associados às pessoas infetadas pelo VIH, e aspetos frequentemente relacionados a esta infeção, como vergonha, pobreza e discriminação.


Refiro-me, por exemplo, à comunidade homossexual, às mulheres, muitas vezes vítimas e, simultaneamente, vetores de transmissão, forçadas a manterem relações sexuais desprotegidas, inclusive em contexto familiar, mas também me refiro às crianças exploradas nestas situações e aos trabalhadores sexuais.


Portanto, entre estas dez ameaças, identificadas em 2019 pela OMS, observamos uma abrangência enorme de temas que colocam em causa a melhoria da Saúde Global e que pretendem alcançar a resolução dos muitos problemas estruturais que alimentam as desigualdades sociais no acesso à saúde.


E de que forma a Cátedra contribui para a formação de novos líderes na área da Saúde Global?


Acredito que tudo o que vem no sentido de aumentar a capacitação, o conhecimento e a cultura desempenha um papel determinante no desenvolvimento das pessoas e na promoção de um papel de liderança que possam eventualmente vir a exercer. Muitos de nós temos já essas capacidades de forma intrínseca, digamos assim, mas precisamos de algum tipo de desenvolvimento externo que promova uma maior manifestação dessas competências.


Espero que esta Cátedra seja, indiscutivelmente, um fator de desenvolvimento individual e também coletivo, que promova o aparecimento e o fortalecimento de novos líderes na Saúde Global.


O Observatório Nacional de Saúde Global da Universidade de Coimbra foi lançado recentemente, com o objetivo de promover o conhecimento e apoiar a implementação de políticas globais de saúde. Como vê a interconexão entre o trabalho da Cátedra em Saúde Global e as iniciativas deste Observatório? Quais são as sinergias mais evidentes?


Diria, antes de mais, que temos de ter uma grande capacidade de interação com o Observatório para produzir valor acrescentado, não apenas a toda a Universidade, mas também à região Centro. Vejo esta Cátedra não apenas numa perspetiva de Saúde Global, como é evidente, mas também numa perspetiva de intervenção global, de valorização, tanto da formação médica, quanto da academia em Coimbra e a nível nacional.


Diria também que a palavra mais correta é mesmo “sinergias”. O que precisamos, tanto em Portugal como a nível global, é de conhecer cada vez mais a realidade e dispor de indicadores que possam ser transformados em dados, e esses dados, por sua vez, convertidos em informação.


Essa informação deve ser complementada com estudos que gerem conhecimento. Somente o conhecimento e a sabedoria nos permitirão intervir de forma eficaz na correção e superação dos fatores que, muitas vezes, perpetuam condições de desigualdade de acesso e iniquidades sociais e económicas, fatores esses que estão também na base e na génese desta nova Cátedra.

Quando anteriormente referiu as dez ameaças listadas pela OMS no âmbito da Saúde Global, referiu também, como é evidente, as mudanças climáticas e as pandemias. Nesse âmbito, existe alguma solução ou inovação que esteja, neste momento, a ser discutida ou implementada?


Sim, são várias as soluções que têm vindo a ser divulgadas. O problema não é a divulgação, mas as pessoas compreenderem o seu significado e impacto. No caso das alterações climáticas, por exemplo, existe já todo um conjunto de evidência e de propostas que pretendem intervir nesse domínio.


Basta consultarmos o site da OMS para percebermos que 3,8 mil milhões de pessoas no mundo vivem em condições de extrema fragilidade perante as alterações climáticas, e que as alterações climáticas, entre 2030 e 2050, serão responsáveis por um acréscimo de mortalidade de cerca de 250 mil pessoas por ano. É uma dimensão extraordinária, pelos piores motivos.


Por isso, o grande desafio é o de sensibilizar as pessoas para a importância do impacto das alterações climáticas na vida de todos nós. É um desafio muito grande, até porque, muitas vezes, vemos pessoas em lugares de destaque que desvalorizam esta situação e que até criam condições, não só para a sua perpetuação, como ainda para o seu agravamento.


Eu diria que Portugal tem aqui um papel muito importante a desempenhar. Dispomos de uma grande capacidade no setor das energias renováveis, que pode ser utilizada não só para o desenvolvimento dos nossos clusters industriais, mas também para o reforço da literacia da população, permitindo uma melhor compreensão das vantagens de nos tornarmos rapidamente uma potência líder nesta área.


Existem vários estudos cujos resultados apontam para problemas que nos afetam diretamente hoje, como é o caso da presença de microplásticos nas águas. Portugal possui uma zona territorial marítima única, especialmente tendo em conta a sua dimensão, e por isso, tanto no domínio das energias renováveis como na economia verde e no aproveitamento do mar, temos as condições para ser um país que, sem qualquer sombra de dúvida, pode liderar uma revolução positiva à escala global.


Por fim, as pandemias constituem também uma ameaça significativa a ter em consideração. Trabalho numa Unidade de Cuidados Intensivos e, por essa razão, tenho testemunhado ao longo dos últimos anos o impacto profundo e nefasto que uma pandemia pode ter sobre a população.


A Unidade de Cuidados Continuados em que trabalha foi uma Unidade COVID.


Sim, foi uma Unidade COVID, das primeiras a sê-lo em contexto nacional. Houve, infelizmente, mortalidade, mas também houve uma característica imediata de espírito de missão por parte dos profissionais de saúde que só posso enaltecer. As pessoas devidamente envolvidas, motivadas e esclarecidas sobre esta ameaça global que foi a pandemia de COVID-19 vieram oferecer-se para colaborar connosco.


Aqui na Unidade, tivemos uma oportunidade única de testemunhar o verdadeiro espírito humano de missão dos profissionais de saúde. Mas, infelizmente, tivemos também oportunidade de observar algumas situações – e nem sei bem como hei de dizer isto – em que houve uma total ausência de fundamentação para certas afirmações.


Vou dar-lhe um exemplo. Aqui, na nossa área, temos um espaço destinado a dez doentes. Para tratar o doente grave com COVID, tivemos de reduzir essa capacidade de dez para seis doentes, ou seja, reduzimos a lotação deste espaço para 60 por cento. Devido à necessidade imperiosa de alargar a nossa capacidade de resposta, fomos obrigados a requalificar uma enfermaria de 22 camas em 11 camas de Cuidados Intensivos. Ou seja, neste segundo caso, passámos de uma lotação de 100 por cento para 50 por cento. Em dois espaços críticos, reduzimos, respetivamente, a lotação para 60 por cento e para 50 por cento. E depois, para nosso espanto, vimos algumas pessoas com responsabilidade afirmarem que a lotação dos hospitais estava bastante baixa e que, certamente, os profissionais de saúde nunca tinham trabalhado tão pouco.


Nesse contexto, aquilo que me apraz dizer é: “O que Pedro diz sobre Paulo, diz mais sobre Pedro do que sobre Paulo”. Indiscutivelmente, as pessoas que fizeram este tipo de comentário nunca trabalharam na área da Saúde em ambiente de pandemia, convivendo com a realidade destes doentes. Posso dizer-lhe que, nessa altura, vivemos os períodos de maior atividade laboral que alguma vez tivemos. Sim, houve óbitos. Mas também houve situações de enorme sacrifício que originaram resultados extraordinários.


Na minha Unidade, por exemplo, recebemos doentes diretamente de Cabo Verde e posso dizer, com todo o orgulho, que quando o avião aterrava no aeroporto de Lisboa, telefonavam-me imediatamente do SEF [Serviço de Estrangeiros e Fronteiras] para enviar uma delegação de inspetores à frente do transporte até ao hospital, evitando perdas de tempo. São pessoas que realmente perceberam a importância e a gravidade da situação e que tiveram um grande espírito de missão.


De qualquer forma, as pandemias são inevitáveis. Tivemos esta pandemia, de 11 de março de 2020 a 5 de maio de 2023, e o que noto também acerca disto é algo curioso: muitas vezes, não temos conseguido quantificar o impacto da pandemia. Tenho-me preocupado, tanto no âmbito da minha atividade profissional como médico pneumologista e intensivista, como também no âmbito da Saúde Global, em dispor de melhores ferramentas para caracterizar este impacto.


Recentemente, publiquei um artigo com um colega meu, António Diniz – um grande amigo, que foi diretor do Programa Nacional para a Infeção VIH/SIDA e Tuberculose e que é também pneumologista – e com uma jornalista, Marta Reis, que durante a pandemia trabalhava no Jornal i e que me chamou à atenção para o impacto da pandemia. Com base nos estudos que ela nos facultou, que confirmámos com dados oficiais e com modelos de análise populacional do Instituto Nacional de Estatística, chegámos a várias conclusões que nos permitem caracterizar muito bem o impacto da pandemia em Portugal.


Em traços gerais, falamos de que conclusões?


Entre 11 de março de 2020 e 5 de maio de 2023, ocorreram 26655 óbitos por COVID. Este período de três anos, ou, mais precisamente, de 1150 dias, contabilizou este número de mortes. Isso significa que, neste intervalo, morreram cerca de 2,6 vezes mais pessoas do que durante os 13 anos da Guerra Colonial, de 1961 a 1974, em que morreram 10 mil portugueses, embora de um grupo etário diferente. Ou seja, em 13 anos de Guerra Colonial morreram 10 mil portugueses, e em três anos de pandemia morreram 26655.


Os dados impressionam. Por exemplo, janeiro de 2021 foi o mês com a mortalidade absoluta mais elevada desde o ano de 1919 – 1919! Extraordinário. Podemos também dizer que, nos anos de 2020, 2021 e 2022, a mortalidade por 100 mil habitantes foi sempre superior a 1200 óbitos em cada ano, valores só encontrados anteriormente ainda antes do ano de 1957.


O período crítico da pandemia em Portugal foi de 15 de dezembro de 2020 a 15 de fevereiro de 2021. Neste intervalo, tivemos 37 dias com mais de 4000 camas hospitalares ocupadas por doentes COVID e 17 dias com mais de 6000 camas ocupadas diariamente, tendo o pico ocorrido a 31 de janeiro de 2021, com 6869 camas ocupadas.


O que significa isto? Não temos estatísticas oficiais precisas, mas diria que, antes da pandemia de COVID-19, Portugal dispunha de cerca de 17 mil camas no Serviço Nacional de Saúde [SNS]. Como algumas foram requalificadas, provavelmente estávamos próximos de utilizar entre 40 e 50 por cento da capacidade total de camas hospitalares no contexto pandémico.


Tivemos 39 dias com mais de 600 camas de Cuidados Intensivos ocupadas. E as pessoas perguntam: “O que é que significa 600 camas de Cuidados Intensivos ocupadas?”. Antes da pandemia, essa era precisamente a lotação de Cuidados Intensivos em Portugal Continental: 600 camas. E tivemos 39 dias com mais de 600 camas ocupadas, chegando ao pico de ocupação em Cuidados Intensivos no dia 4 de fevereiro de 2021, com 904 camas ocupadas.


Quanto à mortalidade, tivemos 20 dias com mais de 20 óbitos diários por COVID-19 e oito dias com mais de 270 óbitos por dia, tendo o pico de mortalidade ocorrido a 30 de janeiro de 2021, com 297 óbitos.


Portanto, quando desvalorizamos a pandemia, estamos sobretudo a prestar um mau serviço individual, um mau serviço a quem foi vítima direta ou indireta da COVID e um mau serviço ao País e ao mundo, porque estamos também a minimizar a importância da nossa preparação para futuras crises.


por Luísa Carvalho Carreira

fotografias gentilmente cedidas por Filipe Froes