Do curso de Medicina | Filipe Caseiro Alves
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Do coração de Coimbra para o centro da Radiologia
Essa atmosfera marcante, que descreve como sendo um verdadeiro “caldo cultural”, teve um papel determinante na sua formação, desde muito cedo. “Coimbra tem um estilo muito próprio: um estilo mordaz, um estilo de crítica permanente, de desafio ao outro, que não se encontra em todas as cidades”, explica, sublinhando que essa característica é profundamente enraizada na identidade da cidade. Dessa identidade, faz igualmente parte a irreverência estudantil, nomeadamente universitária, mas que, de certa forma, sempre se estendeu a todos, inclusive os mais novos. E, dos tempos em que era mais novo, Filipe Caseiro Alves afirma ter memórias particularmente felizes. Éramos muito amigos! Ela era uma grande companheira.“As minhas recordações da infância e da juventude são fantásticas, algumas delas passadas com distintos professores daqui, como é o caso do Professor Carlos Robalo Cordeiro [diretor da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra - FMUC], que é o meu grande amigo, com quem fiz todo o meu percurso escolar. Todo mesmo, desde que éramos crianças!”, salienta. Em criança, Filipe Caseiro Alves acalentava já também o sonho de ser médico. “Tinha uma grande admiração pelo meu pai, que era médico internista. Acompanhava-o muitas vezes no seu trabalho”, indica. “Conviver com o meio médico desde pequeno ‘formatou-me’, digamos assim. Foi algo que sempre me motivou”, complementa. Dos primeiros tempos de vida, destaca também a convivência com a avó paterna. “Éramos muito amigos! Ela era uma grande companheira. Era de Ovar e, por isso, quando não estava por aqui, costumávamos trocar cartas um com o outro, à moda antiga. Quando ela aqui estava em Coimbra, era recorrente irmos passear só nós os dois”, conta. Foi no Externato Menino Jesus que Filipe Caseiro Alves fez a instrução primária. Dessa altura, enfatiza o “bom ambiente” vivido com os colegas, que se manteve até aos tempos do Liceu – e, mais tarde, até da faculdade –, ainda que complementado por um ensino exigente. “A minha professora era a Dona Elisa, uma professora dos velhos tempos, muitíssimo boa”, começa por indicar. “A inesquecível Dona Elisa… Exigente, que nos dava reguadas, mas que, efetivamente, punha os alunos a falarem e a escreverem bem, num excelente português, de forma legível e sem darem erros”, destaca. “Nesse tempo, o ensinamento da ortografia e da caligrafia eram mais considerados. Hoje, as coisas estão mudadas. Mas é mesmo assim. Com o tempo, há coisas que se vão perdendo e que vão sendo substituídas por outras. No máximo, hoje discutem-se as fontes [de letras] a utilizar num trabalho feito no computador!”, graceja. “Temos de ter a mente aberta!”, complementa, revelando, neste âmbito, que, atualmente, é inclusive assinante de uma ferramenta de Inteligência Artificial, com a qual chega a discutir alguns casos clínicos, com “resultados e interpretações surpreendentes”. Finda a instrução primária, seguiu-se o ensino no Liceu D. João III [atual Escola Secundária José Falcão], onde o bom ambiente, a amizade e a solidariedade entre os colegas, conforme já indicado, se mantiveram. A exigência do ensino também. “No Liceu, havia igualmente reguadas! E tivemos um professor de Geografia, um indivíduo brilhante, que revistava as unhas de todos os alunos antes de entrarem na sala de aula, para ver se estavam limpas. Palavra de honra!”, conta. Foi enquanto aluno do então Liceu D. João III que Filipe Caseiro Alves vivenciou o 25 de abril de 1974, aos 15 anos de idade. “O grau de politização era tal que, muitas vezes, a polícia foi chamada a intervir no Liceu. Havia muitos colegas que já se destacavam por terem uma vivência política muito marcada”, observa. |
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Ainda antes de entrar no curso de Medicina, esteve um ano a cumprir o chamado Serviço Cívico Estudantil, lançado depois de abril de 1974, que tinha como objetivo integrar os jovens na sociedade, envolvendo-os em iniciativas que ajudassem ao desenvolvimento do País, como campanhas de alfabetização e apoio a atividades escolares, entre outras. “Eu fiz dois destes serviços cívicos: um na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra [FLUC], e outro nos serviços sociais do meu Liceu”, indica. “Na FLUC, estive, durante seis meses, a organizar um tesouro numismático com o Professor Jorge de Alarcão… Aquilo era um pavor, eu não percebia nada do que estava a fazer!”, admite. “Depois, estive no Liceu, onde, todos os dias, fazia 40 sandes na cozinha e levava-as até ao bar, para serem lá servidas”, acrescenta. “Os colegas que ainda lá estavam a estudar, passavam por mim e riam-se… Qual foi a minha vingança? Bem, eu nunca tive muito jeito para a cirurgia, de maneira que, quando fazia as sandes, por vezes, uma fatia de mortadela ou outra caíam ao chão, mas garanto-vos que voltavam para as sandes. Nunca ninguém morreu por isso!”, revela, em tom de brincadeira. Havia uma parte lúdica também extremamente interessante.Em 1977, ingressa na FMUC, tendo vindo a terminar o curso no ano de 1982. “A faculdade era como uma extensão do Liceu, embora, relativamente ao ambiente entre estudantes e professores, houvesse, por vezes, episódios de alguma tensão, pelo facto de estarmos a sair do 25 de abril…”, menciona. Mas, a par de uma experiência universitária pontuada por alguns momentos de tensão, houve também oportunidade para vários episódios engraçados, como aquele de que Filipe Caseiro Alves se recordou ao falar dos tempos de jovem estudante de Medicina na FMUC. “Lembrei-me agora de uma história com um colega de curso que era do Brasil, o Sinomar. Ainda no outro dia vi uma fotografia dele, embora nunca mais o tenha encontrado…”, começa por referir. “Ele tinha dificuldades na cadeira de Anatomia… Aquilo não era lá com ele, pronto! E, por isso, reprovava sempre. De cada vez que fazia o exame, lá íamos nós perguntar-lhe como tinha corrido: ‘Foi outra vez o rochedo… osso danado!’, respondia ele, ao contar que tinha reprovado novamente. Mas pronto, um dia lá decorou onde ficava o rochedo [parte do osso temporal] e foi aprovado a Anatomia”, acrescenta. Sempre tive essa paixão pelo hipismo.Dos tempos de estudante de Medicina da FMUC, fortemente marcados pelos acontecimentos decorrentes, num primeiro momento, pela crise académica de 1969 e, posteriormente, pelo 25 de abril de 1974, Filipe Caseiro Alves recorda, igualmente, o regresso da Queima das Fitas, em 1979, quando o Movimento Pró-Reorganização e Restauração da Praxe Académica de Coimbra organizou uma Semana Académica, que, no ano seguinte, voltaria a ser organizada, já novamente com o nome oficial de Queima das Fitas. “Eu aderi às celebrações. Na altura, não se chamava Queima das Fitas porque não havia autorização. A esquerda era formalmente contra, para além de agressiva. Andar de capa e batina era uma coisa proscrita… houve, aliás, casos de alunos que receberam ameaças de facadas por andarem de capa e batina. Como os tempos mudam! Naquela altura, um estudante chegava a ser espancado na rua por andar trajado”, comenta. “O desafio entre colegas era, muitas vezes, o de superar o confronto de ideias e as discussões, mas, do mesmo modo, tínhamos outros interesses, outras causas motivadoras, como a Associação Académica ou a Académica [clube de futebol]. Havia uma parte lúdica também extremamente interessante”, observa. Com efeito, anos antes de ingressar na FMUC, quando tinha apenas 14 anos, Filipe Caseiro Alves começou a montar a cavalo. “Sempre tive essa paixão pelo hipismo, é uma área giríssima. Participei em diversos concursos e competições, e até há três anos, tive sempre cavalos”, faz saber. “Mas, inicialmente, como não tinha dinheiro para comprar nem sustentar cavalos, dado que falamos, realmente, de um desporto dispendioso, quem me emprestava cavalos para poder competir era o José Cid, de quem sou muito amigo”, revela. “Aliás, ainda há dias almocei em casa dele. Gosto muito dele. É um belíssimo músico e compositor, um miúdo grande e um indivíduo engraçado para se entrevistar também!”, brinca. “Durante muitos anos, entrei em concursos de hipismo com os cavalos dele. Ia saltar a cavalo para todo o lado: Algarve, Évora, Amarante... Foi muito giro”, complementa. Por isso, quando era já estudante de Medicina, o interesse por esta atividade acabou por levá-lo ao desempenho do cargo de dirigente da Secção de Hipismo da Associação Académica de Coimbra. “Foram tempos muito interessantes!”, assegura. |
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Em 1982, Filipe Caseiro Alves terminou o curso de Medicina na FMUC e, em 1990, especializou-se em Radiologia. “Terminei o curso com a aprovação na cadeira do Professor Carrington da Costa. Telefonei para a casa dele e tudo, a perguntar que nota tinha tido, para saber se podia ir comemorar ao [restaurante] Alfredo!”, recorda. “Depois disso, estive dois anos a trabalhar ao abrigo do Serviço Médico à Periferia. Foram dois anos em que, com muita sinceridade, pouco ou nada fiz, mas aprendi muito. Dá para ter uma noção daquilo que é o Portugal profundo, no meu caso, a poucos quilómetros de Coimbra. Estive em Penela e no Espinhal”, conta. “Aquilo que fiz por lá foram sobretudo algumas consultas de Pediatria básica e de Medicina Geral e Familiar. Parte da minha atividade médica era também a de passagem de atestados de salubridade para entregar a donos de estabelecimentos que lidassem com negócios relacionados com a alimentação”, refere. “Nesses dois anos, tanto eu quanto os meus colegas aproveitávamos também para estudar para a PNA [Prova Nacional de Acesso], uma prova com cem perguntas, bastante complexa. O estudo para esta prova envolvia, essencialmente, a memorização do Harrison [Manual de Medicina]”, observa. “Estudei muito e tirei boa nota, 82 em 100”, complementa. Tal como referido anteriormente, Filipe Caseiro Alves tornou-se médico por influência do pai, internista. Chegada a altura da escolha da especialidade médica, queria ter seguido também as pisadas da figura paterna, optando pela Medicina Interna. Mas, dado que, na altura, as vagas eram poucas e a especialidade mais procurada em Coimbra era precisamente aquela que também desejava escolher, essa situação forçou-se a enveredar por outro caminho, no qual veio a trilhar um percurso bem-sucedido e reconhecido. “A pessoa que também queria Medicina Interna e que conseguiu entrar, com a melhor nota a nível nacional, foi o José António Pereira da Silva, um aluno brilhante. Ele teve 97 na prova”, conta, “então, depois de pensar em alternativas, a especialidade que achei mais parecida com Medicina Interna foi a Radiologia, e foi assim que aqui vim parar”. |
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Hoje, considera que teve a sorte de enveredar por uma especialidade que, desde que iniciou a sua vasta carreira, evoluiu muito, “transformando-se completamente”. De facto, e como refere Filipe Caseiro Alves, a Radiologia passou, nas últimas décadas, por uma grande evolução, com o surgimento e avanço de importantes técnicas como a ecografia, a tomografia computorizada e a ressonância magnética, que vieram possibilitar diagnósticos cada vez mais precisos, trazendo com isso inúmeras vantagens como, por exemplo, cirurgias e tratamentos minimamente invasivos. Deste modo, uma especialidade que antes estava ligada a uma prática mais interpretativa tornou-se num campo dinâmico e fundamental para quase todas as áreas da Medicina. “Não digo que as outras especialidades médicas tenham ficado paradas no tempo, mas acredito, realmente, que a Radiologia foi a que mais se desenvolveu a nível clínico”, comenta, destacando que, atualmente, existe também a possibilidade de incorporar, cada vez mais, a inteligência artificial a esta prática, com resultados confiáveis e impressionantes. Quanto ao facto de, para além de médico, se ter tornado igualmente professor na FMUC, Filipe Caseiro Alves admite que tal era algo, de certa forma, distante do seu horizonte profissional. “Mas, quando a oportunidade surgiu, entusiasmei-me com a ideia, porque a verdade é que gosto de ensinar! Adoro o ensino, e penso que isso tem a ver com o património genético do meu avô, que foi professor de Inglês e Português e que dava umas aulas extraordinárias”, faz saber. “Foi o Professor Vilaça Ramos que me convidou para Assistente na FMUC, e foi com ele e com o Professor Maló de Abreu que montámos a cadeira de Radiologia Dentária. Foi assim que a minha experiência docente na faculdade começou. Deu-me uma trabalheira todo o estudo que fiz para montar a cadeira, foram umas férias inteiras naquilo… Eu nem sabia quantos dentes tínhamos, veja só [risos], quanto mais montar uma cadeira e ficar responsável por todas as aulas práticas como fiquei”, conta. No final dos anos 80, Filipe Caseiro Alves esteve cerca de dois anos em Paris, com o objetivo de aprimorar conhecimentos e práticas relacionadas com a ressonância magnética e, em 1998, concluiu o doutoramento com uma investigação acerca de agentes de contraste utilizados na aplicação desta técnica de imagem médica. Senti-me muito honrado com essa homenagem.Quando questionado se, considerando o seu extenso percurso clínico, na docência e na investigação, pautado pelo desempenho de diversos cargos e por variados reconhecimentos e distinções, se orgulha particularmente de algo relacionado com a sua vida profissional, Filipe Caseiro Alves confessa que ter sido distinguido, em 2016, com a Medalha de Ouro da Sociedade Europeia de Radiologia Gastrointestinal e Abdominal (ESGAR) e, em 2018, com a Medalha de Ouro da Sociedade Europeia de Radiologia (ESR) representam dois momentos que considera especialmente gratificantes. Neste contexto, houve também uma homenagem recente que o marcou particularmente. “Sabe que a falsa modéstia é a vaidade à espera de ser descoberta”, contextualiza, em tom de brincadeira, “e, por isso, não vou ser nem falso nem modesto”. Filipe Caseiro Alves refere-se à atribuição, em setembro passado, do seu nome à Biblioteca do Serviço de Imagem Médica da Unidade Local de Saúde (ULS) de Coimbra, do qual foi diretor. “Senti-me muito honrado com essa homenagem. Foi uma coisa genuína, uma iniciativa que partiu das próprias pessoas que integram o Serviço”, comenta. |
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Descrevendo-se como um homem de muitos interesses e movido por uma curiosidade constante, nos seus tempos livres Filipe Caseiro Alves privilegia os momentos de lazer e o contacto com a natureza. “Sou muito curioso e tenho interesse por tudo, inclusive pelas mais pequenas coisas. Acho tudo interessante!”, afirma, com entusiasmo. “Gosto muito da praia, de montar a cavalo, dos momentos de lazer, de estar na minha quinta, de apreciar o mar, de contemplar a natureza, de viajar e também de música”, revela. “Diria que, a par dos cavalos, a música é outra das minhas grandes paixões. Sou muito eclético, mas é o jazz que mais aprecio. Ainda há dias, estive a ouvir o Dave Brubeck, que foi um homem espetacular e um revolucionador do jazz, que tem músicas absolutamente espantosas”, indica. Mas, acima de tudo, valoriza o convívio. “Gosto muito de estar com a minha família e os meus amigos. Gosto muito de socializar!”, constata. A postura interessada e curiosa reflete também uma visão otimista da vida. Com o olhar treinado para ver além da superfície, Filipe Caseiro Alves não deixa de ver, com nitidez, o que realmente importa. “Acho que a vida é muito gira e deve ser vivida plenamente!”, conclui.
fotografias gentilmente cedidas por Filipe Caseiro Alves |




