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Programa ‘SORRISOS (Con)SENTIDOS’


Resultado do Protocolo de Cooperação para a Implementação do ‘Programa Municipal de Promoção da Saúde Oral de Grávidas, Crianças e Jovens’, assinado, em maio de 2022, entre a Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (FMUC) e o Município de Ferreira do Zêzere, o programa ‘SORRISOS (Con)SENTIDOS’ é dinamizado pelo Instituto de Odontopediatria e Medicina Dentária Preventiva da FMUC.

Liderado por Ana Luísa Costa, médica dentista especialista em Odontopediatria e professora da FMUC, este programa, que teve início no terreno em fevereiro de 2023, conta já com o desenvolvimento de diversas ações de literacia em saúde, através de atividades presenciais, distribuição de materiais e envolvimento comunitário no âmbito da promoção da saúde oral, a identificação de problemas de saúde oral e a possibilidade de encaminhamento de crianças para consultas realizadas no âmbito das aulas de prática clínica do Mestrado Integrado em Medicina Dentária (MIMD) da FMUC.

O envolvimento comunitário e a abordagem interdisciplinar

“Dada a natureza comportamental e reversível de muitas doenças orais infantis, reconhecemos que intervenções na forma de programas comunitários de educação e prevenção da saúde oral que envolvem múltiplos intervenientes podem potenciar ganhos efetivos, e é precisamente esse o objetivo do nosso programa”, contextualiza Ana Luísa Costa.

Mais concretamente, “e cumprindo todos os requisitos éticos requeridos em programas deste tipo”, o ‘SORRISOS (Con)SENTIDOS’ tem promovido múltiplas ações de literacia e promoção de saúde oral destinadas a grávidas, crianças entre os 3 e os 6 anos de idade, pais e educadores, envolvendo também, de forma dinâmica, toda a comunidade pré-escolar – professores, educadores e auxiliares – do Centro Escolar de Areias, do Centro Escolar de Ferreira do Zêzere e da Santa Casa da Misericórdia de Ferreira do Zêzere, bem como funcionários autárquicos, médicas dentistas docentes do MIMD, estudantes do MIMD e áreas como a terapia da fala, o aconselhamento de amamentação e a nutrição.

A integração com a formação académica

A par das ações de promoção e do rastreio da condição oral destas crianças, é feita a sinalização individual a professores e cuidadores das mesmas para que as condições diagnosticadas que são consideradas mais urgentes possam ser tratadas, com recurso ao médico dentista ou terapeuta da fala assistente, caso as crianças já tenham sido, ou estejam a ser, alvo de tratamentos neste âmbito, possibilitando igualmente, e ao abrigo do protocolo firmado, a referenciação para as consultas de Odontopediatria e Ortodontia, realizadas no âmbito da prática clínica do MIMD.

“Este facto é altamente relevante, porque cria uma dinâmica muito interessante com os próprios alunos do MIMD, que não apenas participam nas ações de promoção e rastreio, mas também nos tratamentos, em contexto de aula de prática clínica”, destaca Ana Luísa Costa. “Reforço que nesta possibilidade, do meu ponto de vista vantajosa para todas as partes envolvidas, contemplamos e encorajamos, não apenas a resposta a nível curativo, mas também preventivo”, acrescenta.

A avaliação do impacto e a dedicação da equipa

A par das ações desenvolvidas, foram sendo simultaneamente implementados instrumentos de avaliação do programa, através, por exemplo, da aplicação de inquéritos, com o intuito de avaliar o impacto destas ações no que respeita a hábitos e comportamentos em contexto escolar e familiar, e também em termos de qualidade de vida das crianças e famílias.

Até ao momento, o programa ‘SORRISOS (Con)SENTIDOS’ conta com cerca de uma dezena de ações realizadas em distintas datas, destinadas aos seus diferentes públicos-alvo, tendo envolvido cerca de 250 crianças na componente de rastreio da saúde oral e consequentes acompanhamento e tratamento.
Conforme enfatiza Ana Luísa Costa, este programa só tem sido possível pela dedicação constante das várias pessoas envolvidas no seu desenvolvimento. “Nesse sentido, elogio particularmente o envolvimento da Professora Doutora Ana Elisabete Ferreira, mentora inicial deste programa, no papel de vereadora da Câmara Municipal de Ferreira do Zêzere, à data de início do protocolo e da sua implementação no terreno” refere.

“Mas não posso também deixar de destacar o importante envolvimento neste programa por parte do Dr. Bruno Gomes, Presidente da Câmara Municipal de Ferreira do Zêzere, do Dr. Orlando Patrício, Vice-Presidente, da Dra. Dulce Verdelho, responsável do município pela implementação do projeto nas escolas, das Professoras responsáveis Manuela Craveiro e Clementina Queijo e demais equipa dos estabelecimentos de ensino envolvidos, das docentes da FMUC Ana Margarida Esteves e Inês Nunes, e dos estudantes do MIMD, em particular a aluna Maria Inês Bolhaqueiro, que desenvolveu a sua dissertação de mestrado precisamente sobre este programa”, complementa.

Os reconhecimentos e distinções

Com três anos de existência, o programa ‘SORRISOS (Com)SENTIDOS’ conquistou já várias distinções que “enaltecem a sua relevância em termos de saúde pública oral em contexto escolar”. Com efeito, o projeto foi reconhecido em 2024 na 1ª Edição dos Prémios Nacionais de Educação promovidos pela Betweien, com uma Menção Honrosa na categoria de ‘Saúde’, e também com o Prémio de Excelência Autárquica na área da ‘Educação’, atribuído pela Cidade Social. Mais recentemente, foi alvo de candidatura ao Prémio Inovação em Saúde – Todos pela Sustentabilidade, promovido pela Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, pela Sanofi e pela NTT DATA.

“Convém não esquecer que a cárie dentária é a doença crónica mais prevalente na infância no mundo. Faz todo o sentido que ela possa ser prevenida e que todos os recursos estejam ao alcance para que esse objetivo seja concretizado”, observa. “E a verdade é que isto tem sido uma experiência muito gratificante porque partimos do princípio de que a maioria das doenças orais são comportamentais e, por isso, muitas vezes preveníveis e até reversíveis. Especialmente na infância, faz todo o sentido apostar na prevenção: se não conseguirmos evitar que estas doenças ocorram, pelo menos podemos reduzir a sua gravidade e minimizar os seus impactos", evidencia.

“Saliento também que nos tínhamos proposto inicialmente tratar, caso os pais assim o desejassem, as condições que sinalizássemos como as mais urgentes, condições orais mais prementes de serem resolvidas. Mas, depois, fomos percebendo que, se este programa tem como essência uma base preventiva, por que não querer também trazer para a nossa consulta crianças que tenham uma boa condição oral, mas que queremos motivar para que continuem a tê-la?”, comenta.

“Decidimos, então, abrir a possibilidade de vinda a todos os que desejarem ser seguidos na consulta de Odontopediatria da FMUC, obviamente cumprindo os requisitos inerentes ao funcionamento geral da consulta, que obedece a uma lista de espera, e tentando fazer com que a nossa capacidade de resposta seja o mais célere possível”, indica.

“Nesta fase, o programa contempla crianças do pré-escolar apenas. Quando tivermos o programa mais solidamente implementado, e caso, obviamente, ele se mantenha no ativo, vamos começar a tentar abranger outro tipo de faixas etárias, nomeadamente o 1º ciclo, e assim por diante”, refere.

“Claro que isso pressupõe que consigamos ter suficientes meios envolvidos. Nós organizamos estas iniciativas do programa em acumulação. Já ocorreu a deslocação a Ferreira do Zêzere dar-se ao sábado… O programa não é tão espontâneo como às vezes fico com vontade de que seja!”, desabafa.

Outras iniciativas resultantes do programa

“Estamos a tentar que, no terreno, a importância desta abordagem extravase, sendo valorizada no dia a dia destas crianças, das suas famílias e até da comunidade em geral. Então, o que é que nos lembrámos de fazer? Lançámos um repto, logo no primeiro ano do programa, para que, no desfile de Carnaval pelas ruas do município, aquele que as crianças habitualmente fazem nas escolas, o tema fosse a saúde oral. O desafio foi aceite e o resultado foi muito engraçado”, comenta Ana Luísa Costa.

“Depois, também lançámos o repto para que houvesse uma ‘Semana da Leitura’, nas bibliotecas escolares, só com livros versando a saúde oral. E a verdade é que este repto foi tão bem acolhido que, em vez de uma semana, passou a ser uma quinzena dedicada a este tópico”, congratula-se. “Nessa quinzena, todas as bibliotecas escolares têm um conjunto de mesas só com literatura relacionada com a saúde oral e organizam-se jogos e fazem-se trabalhos sobre este tema”, explica.

Mais recentemente, Ana Luísa Costa conta que o programa conseguiu o apoio de uma empresa farmacêutica, a Pierre Fabre Oral Care, para a instalação de um ‘Escovódromo’, “uma área de escovagem dos dentes em cada um destes centros escolares, devidamente apetrechado para que as crianças que queiram – e cujos pais, naturalmente, autorizem – possam realizar a sua higiene oral em contexto escolar”.

“Pedimos o apoio a esta marca que aceitou colaborar com o nosso projeto, através da decoração de um espaço em cada estabelecimento para que se torne acolhedor e motivador para a prática da higiene oral em contexto escolar. A Câmara Municipal de Ferreira do Zêzere, em conjunto com a marca, vai fornecer todos os meios necessários para que a escovagem seja assegurada”, complementa. “Pode parecer algo muito singelo, mas não se pensarmos que podem existir crianças cuja única escovagem de dentes diária que fazem poderá vir a acontecer precisamente na escola...”, destaca.

O balanço de três anos de projeto

Ana Luísa Costa assegura que os dias em que a equipa do programa se desloca a Ferreira do Zêzere para mais uma iniciativa são “dias felizes”, a avaliar pelo entusiasmo das crianças, o que demonstra que o esforço tem dado resultados.

“Fizemos já também uma avaliação do programa através de inquéritos, para percebermos o impacto que tem tido junto da comunidade que participa nas nossas iniciativas, e percebemos que as pessoas estão muito agradadas”, indica, revelando que as crianças que beneficiam do programa acabam, elas próprias, por serem agentes de mudança no seio familiar, ao levarem os ensinamentos que aprenderam para casa.

“Apesar da exigência das nossas práticas clínica e docente, após as quais pouca disponibilidade nos resta, e da dedicação de todos os envolvidos na organização das atividades deste programa, acredito, com toda a certeza, que o ‘SORRISOS (Com)SENTIDOS’ é uma mais-valia e um bem maior para todos os seus beneficiários, sobretudo as crianças”, destaca.

“Por isso, o balanço é claramente positivo, mas eu também sou uma pessoa muito feliz neste contexto! Acredito, efetivamente, que isto pode trazer ganhos, não apenas em saúde oral, mas também, e indiretamente, para a saúde geral destas crianças. No entanto, há muitas coisas ainda a fazer e um longo caminho a percorrer, não me dando por satisfeita, de todo”, finaliza.



por Luísa Carvalho Carreira

fotografias gentilmente cedidas por Ana Luísa Costa