Do curso de Medicina | Joaquim Murta
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O olhar que levou a Oftalmologia Portuguesa mais longeClínico e investigador de referência, construiu uma carreira onde a prática clínica, a investigação e o ensino convergiram num objetivo comum: o de melhorar a visão – e a vida – dos doentes. O objetivo foi reconhecidamente cumprido e, de Coimbra para o mundo, Joaquim Murta tornou-se numa das personalidades mais respeitadas da Oftalmologia portuguesa. Nasceu em Coimbra, a 21 de agosto de 1955, e aos três anos de idade, entrou no Externato ‘O Colmeal’, que frequentou até à quarta classe [atual 4º ano do Ensino Básico] e onde cultivou as primeiras amizades, que ainda hoje mantém. “É engraçado estar a relembrar isto, porque, na semana passada, recebi no consultório a visita da minha professora da primária. Foi lá de propósito só para me ver!”, revela. “Tenho memórias muito boas da infância… Dividia a minha vida entre Coimbra, Cantanhede e Lemede, de onde eram os meus avós”, indica. Depois da conclusão da quarta classe, Joaquim Murta foi para o Liceu D. João III [atual Escola Secundária José Falcão]. “Foi no Liceu que se deu a primeira grande mudança na minha vida, porque fui integrado, entre o primeiro e o quinto anos [correspondentes aos atuais 5º e 9º anos] numa turma específica, chamada ‘Matemática Experimental’”, começa por indicar. “Era uma turma de miúdos de grande categoria. Só para ter uma noção, doutoraram-se cerca de 10 elementos dessa turma, como Fernando Seabra Santos, que foi Reitor da Universidade de Coimbra [UC], Adriano Rodrigues [FMUC], António Pais Antunes, Jaime Silva, Luís Simões, da Faculdade de Ciências e Tecnologia da UC [FCTUC], Martinho Rosário [FMUC], Anselmo Castro [Universidade de Aveiro], António José Robalo Cordeiro e José Manuel Caseiro Alves, que foram para Direito, entre vários outros. Era uma turma excecional, e obviamente isto é algo que tem uma grande influência no desenvolvimento de uma criança. Foi o que aconteceu comigo”, complementa. |
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Se, nos primeiros anos da infância, Joaquim Murta não sonhava sequer com uma profissão específica que gostaria de vir a exercer no futuro, quando, terminado o quinto ano, se viu obrigado a pensar, com mais seriedade, sobre o assunto, o foco recaiu apenas numa área: a Medicina. Para tal, confessa que houve uma pessoa em particular que contribuiu para essa única opção. “Até já disse isto ao Professor Carlos Robalo Cordeiro [atual Diretor da Faculdade de Medicina da UC] uma vez, que foi o pai dele, o Professor António José Robalo Cordeiro, que, pelas suas características, me fez querer seguir Medicina. Era uma referência, um homem de grande impacto científico, clínico reconhecido, bem como de enorme humanidade e excelente relacionamento com os doentes e colegas. Foi sem dúvida ele que teve a maior influência nesta minha escolha, para além de algum conselho do meu tio mais velho, médico oftalmologista”, conta. “Se bem que não foi por causa do meu tio que, mais tarde, escolhi a Oftalmologia como especialidade!”, acrescenta. Findo o liceu, que terminou na Escola Secundária D. Duarte, Joaquim Murta tornou-se, então, aluno do curso de Medicina da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (FMUC). Decorria o ano de 1972. Dessa altura, recorda, sobretudo, um “ambiente fantástico” vivido entre colegas, que mantém com muitos até hoje. “O curso era muito grande… Éramos cerca de 400 de alunos, creio eu. A maioria das avaliações era feita através de exame oral e não através de prova escrita, o que, quer queiramos, quer não, era mais exigente e requeria dos alunos um tipo de estudo diferente”, observa. Da relação com os professores, destaca o enorme respeito mútuo. “Parece contraditório, mas, apesar da distância entre professores e alunos ser, naquela altura, maior do que hoje, existia, simultaneamente, uma relação de grande proximidade sempre que precisávamos do seu apoio”, salienta. |
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Dos tempos de curso, que terminou em 1978, lembra ainda a “época muito conturbada do 25 de abril de 1974”, bem como o envolvimento associativo e a prática desportiva, nomeadamente do basquetebol e depois do rugby. “Durante o curso, em 1976, concorri a Monitor de Anatomia Topográfica, tendo concorrido e passado a Assistente logo que me formei. Foi fantástico porque recebia o ordenado mínimo, e, portanto, fiquei praticamente independente do ponto de vista financeiro! Era um ordenado de três contos, o equivalente, hoje, a 15 euros, mas a verdade é que nunca mais pedi dinheiro ao meu pai. Era o início da minha independência económica!”, graceja. “Quando terminei o curso, fiz oito meses de Saúde Pública em Tondela. Naquela altura, a viagem entre Coimbra e Tondela levava quase duas horas”, recorda. “Mas a experiência foi fantástica, porque me permitiu conhecer muitos médicos e iniciar verdadeiramente a minha atividade clínica. Tondela está muito próximo do Caramulo, que, naquela altura, era um lugar de formação de muitos cirurgiões, nomeadamente torácicos”, indica. “Depois desses oito meses, voltei para Coimbra, onde estive a fazer diversos estágios. E fiz também o Serviço Médico à Periferia em Cantanhede”, acrescenta. Seguiu-se, passados cerca de dois anos, o exame nacional para escolha da especialidade, a prova nacional que, durante décadas, regulou o acesso à especialidade médica em Portugal. Joaquim Murta obteve uma excelente classificação no exame, o que lhe permitia escolher qualquer especialidade. “Podia escolher aquilo que queria. Desejava uma especialidade cirúrgica, mas não sabia muito bem qual!”, afirma. “Quando fiz os estágios, passei pelo Serviço de Dermatologia, dirigido pelo Professor Poiares Baptista, que me recomendou vivamente que escolhesse essa especialidade. Mas eu queria uma especialidade cirúrgica e, naquela altura, a Dermatologia não tinha muito essa componente”, indica. Como é sabido, a escolha de Joaquim Murta não recaiu sobre a Dermatologia. “Por isso, sempre que encontrava o Professor, ele dizia-me em tom de brincadeira «Você traiu-me!»”, conta. “Acontece que, três dias antes de ter de escolher a especialidade, resolvi pedir a opinião de uma pessoa de quem fui muito amigo até ele morrer, o Professor José Faria de Abreu [médico oftalmologista que foi também chefe do Serviço de Oftalmologia dos Hospitais da Universidade de Coimbra]”, refere. “Foi um dos homens que conheci que mais de Oftalmologia sabia. Era um clínico e um académico de excelência. E foi ele que me convenceu a escolher esta especialidade, porque tinha a componente clínica – médica e cirúrgica – e a componente de investigação já bem marcada. O Serviço era liderado pelo Professor Cunha-Vaz, que dava todas as possibilidades a quem quisesse aliar a prática clínica à investigação… E era precisamente isso que queria fazer”, observa. “Na primeira semana no Serviço, o Professor Cunha-Vaz veio conversar comigo. Perguntou-me pela média de curso e o que é que eu queria fazer. Como disse, nessa altura era já Assistente de Anatomia Topográfica na FMUC”, refere. “Perguntou-me também se eu estava interessado na investigação e se um dia me quereria doutorar. Disse-lhe imediatamente que sim”, conta. |
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Passado um ano e meio desta conversa, Joaquim Murta estava nos Estados Unidos da América (EUA), precisamente a preparar o doutoramento. “Fui para Chicago. Aí, deu-se a grande modificação no modo como eu via a Oftalmologia, mas também a Medicina em geral”, revela. Joaquim Murta esteve no Illinois Eye and Ear Infirmary, um dos mais prestigiados centros mundiais de Oftalmologia, e no Lions of Illinois Eye Research Institute, ambos ligados ao Departamento de Oftalmologia e Ciências da Visão da Universidade de Illinois Chicago (UIC). Depois daquela que considera ter sido a primeira grande mudança na sua vida – a integração na turma de ‘Matemática Experimental’ no Liceu D. João III –, seguiu-se a segunda grande mudança: a permanência em Chicago, juntamente com o Professor Cunha-Vaz, aquando do desenvolvimento da sua investigação para preparação do doutoramento. “Foi aí que fui influenciado de forma decisiva na parte clínica, na investigação clínica e nas ciências translacionais, que conectam a investigação biomédica básica de laboratório com a aplicação prática na saúde, movendo o conhecimento do laboratório para o leito do paciente e vice-versa. Havia reuniões diárias com todos os Internos e reuniões gerais de Serviço duas a três vezes por semana. A organização do Serviço era muito diferente da que tínhamos em Portugal na altura”, recorda. “Era um verdadeiro hospital universitário”, destaca. “Não havia nenhum trabalho que fossemos apresentar a um congresso que não fosse apresentado antes no Serviço”, complementa. “Essa experiência modificou radicalmente a minha forma de ver a Medicina, a maneira como ela é ensinada e a importância de existir uma boa relação entre as ciências fundamentais e a clínica, dado que, na verdade, têm de estar muito interligadas”, observa. “E a este respeito, tenho de dizer que Coimbra, a nível europeu, é das poucas cidades que agrega a possibilidade fácil de uma boa relação entre estas áreas, tanto mais que geograficamente estamos todos muito perto uns dos outros, mas, apesar de melhorias acentuadas, não temos aproveitado completamente as enormes vantagens que temos”, lamenta. “Antes, as pessoas vinham de propósito a Coimbra para serem tratadas. Era, sem dúvida, a capital da saúde. No entanto, e faço esta crítica há mais de 20 anos: não temos uma estratégia de comunicação interna e externa forte, contínua e coesa, ou seja, um gabinete de imagem e comunicação moderno e consistente. Não sabemos mostrar aquilo que de verdadeiramente bom fazemos. Temos muitas empresas em Coimbra na área da saúde, o Instituto Pedro Nunes [IPN], institutos de investigação nas mais diversas áreas, de grande impacto nacional e internacional, um dos maiores hospitais, senão o maior em termos de produção, mas não aproveitamos totalmente as sinergias que poderíamos ter. É urgente a criação de um verdadeiro Hospital Universitário. Sem um verdadeiro hospital universitário, não há desenvolvimento médico. E nós temos pessoas e equipas de grande categoria na área da saúde em Coimbra”, observa. |
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Joaquim Murta tem um percurso muito vasto. A par da prática clínica e da investigação, foi Presidente da Sociedade Portuguesa de Oftalmologia entre 1997 e 1998. No ano de 2000, desempenhou o cargo de Presidente do Colégio de Oftalmologia da Ordem dos Médicos, tendo, também nesse ano, passado a Chefe do Serviço de Oftalmologia dos Hospitais da Universidade de Coimbra. Entre 2003 e 2004, foi Membro da Comissão responsável pela elaboração do Plano Nacional de Saúde para a Visão. Em 2008, tornou-se Diretor do Centro de Responsabilidade Integrada de Oftalmologia do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC, atual ULS-Coimbra). Desempenhou também o cargo, a partir de 2009, de Consultor da Direção-Geral da Saúde. Em 2010, recebeu as insígnias de Grande Oficial da Ordem do Mérito pelo Presidente da República pelo trabalho realizado na Transplantação. Em 2013, tornou-se Professor Catedrático da FMUC e também Coordenador da Unidade de Oftalmologia de Coimbra (UOC), criada nesse mesmo ano. Desse vasto percurso, aqui apenas brevemente exemplificado, faz também parte o desempenho, por dois mandatos, do cargo de diretor da FMUC, entre 2012 e 2015. “Depois de ter conversado com a minha mulher e quatro grandes amigos, aceitei esse desafio [direção da FMUC] e foi uma das melhores experiências que tive na vida”, assegura. “Criámos um grupo de direção muito coeso, com os Professores Américo Figueiredo, Francisco Corte Real, Francisco Ambrósio e José Pedro Figueiredo. As primeiras ações foram reformular a organização da Faculdade de Medicina, dos seus órgãos de gestão e definir quais seriam as suas áreas científicas estratégicas procurando um modelo de desenvolvimento científico mais eficaz. Depois, tentámos criar uma relação mais próxima com o CHUC, com vista à criação de legislação de um hospital universitário, elaborámos a revisão dos estatutos da FMUC e iniciámos as reformas do plano curricular e pedagógica dos estudantes de Medicina, sob a liderança do Professor Filipe Caseiro Alves, bem como de Medicina Dentária. A estratégia de comunicação interna e externa foi igualmente um tema preponderante, procurando assegurar uma cooperação entusiástica, efetiva e responsável com todos os Professores e Investigadores das ciências básicas, clínicas ou de translação. A nossa atividade de ensino nos Açores intensificou-se também nessa altura, e foi no segundo mandato que efetivamente iniciámos as nossas relações com Cabo Verde, também na componente do ensino”, indica. “O plano de Internacionalização alargou-se, criou-se o consórcio Ageing@Coimbra, sob a liderança do Professor João Malva, e só não conseguimos o financiamento e iniciar a construção do Instituto Multidisciplinar do Envelhecimento e do Campo da Vida, na área do antigo Hospital Pediátrico, por falta de visão estratégica de alguns elementos da Universidade. Felizmente, conseguiu-se essa realidade alguns anos mais tarde”. “Delineámos também uma estratégia em termos de desenvolvimento científico para a escola, tentando solidificar, no segundo mandato, as áreas estratégicas. O Programa de Doutoramento em Ciências da Saúde foi também alvo de uma reestruturação, com a grande ajuda do Professor Henrique Girão, reestruturação essa que tinha começado com a Professora Catarina Resende de Oliveira. A experiência enquanto diretor da FMUC foi muito rica, especialmente pelo convívio e trabalho de equipa. É algo de que muito me orgulho. Penso que foram dois bons mandatos, que modificaram, projetaram e melhoraram a maneira de trabalhar na FMUC e a relação com o hospital”, acrescenta. Joaquim Murta orgulha-se, igualmente, da extensa e profícua atividade desenvolvida enquanto Diretor de Serviço de Oftalmologia do CHUC. “É o serviço do hospital com mais doutorados, maior produção científica e maior produção assistencial”, salienta. “Fomos também responsáveis pelo início da criação de uma Sala Branca no hospital, porque éramos o Serviço que mais transplantes de córnea fazia a nível nacional”, indica. Esta Sala Branca em Oftalmologia foi inaugurada no passado mês de outubro, e, conforme esclarece Joaquim Murta, assume-se enquanto motor de transformação clínica e científica, uma vez que permitirá a disponibilidade e a qualidade dos tecidos para os transplantes, ampliando as opções terapêuticas, impulsionará a investigação translacional e fortalecerá a integração de Coimbra em redes globais de investigação em transplante e regeneração ocular. “Orgulho-me muito de ter consolidado o Serviço, num processo iniciado pelo Professor Cunha-Vaz, a que dei continuidade. Isso sempre me motivou, o facto de poder trabalhar com pessoas fantásticas – médicos, investigadores, administradores hospitalares, enfermeiros, secretárias e doentes –, de grande categoria pessoal e científica, com elevado espírito de equipa, com quem tenho uma ótima relação. A humanização da Medicina e dos cuidados médicos é fundamental. O Serviço de Oftalmologia de Coimbra é uma referência, nacional e internacional, nas Ciências da Visão”, enfatiza. Os prémios e distinções ao longo da sua carreira são também diversos. Recebeu em 2013 o Achievement Award da American Academy of Ophthalmology, em 2017 o Prémio Pfizer da Academia de Ciências Médicas de Lisboa e em 2018 o Prémio Obstbaum (ASCRS e ESCRS). Mais recentemente, em outubro de 2022, tomou posse, em Chicago, como membro efetivo da Academia Ophthalmologica Internationalis (AOI), a mais prestigiada Academia em Oftalmologia. E a 7 de abril deste ano, Dia Mundial da Saúde, foi agraciado pelo Ministério da Saúde com a Medalha de Serviços Distintos – Grau Ouro, pelo seu contributo no ensino, investigação e desenvolvimento da Oftalmologia em Portugal. |
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Com uma vida profissional intensa, que parece não ter abrandado com a recente jubilação, Joaquim Murta confessa, com efeito, que os tempos livres são poucos, ou até inexistentes. “A vida é feita de ciclos, e, no meu caso, a jubilação foi o terminar de um deles. Eu continuo com a prática clínica e com a cirurgia, que adoro fazer. Sempre gostei da clínica e da relação com o doente”, afirma. “Além da prática clínica, continuo com alguma atividade no Ministério da Saúde, na comissão dos centros de referência nacionais, bem como com a atividade de consultor de algumas empresas”, complementa. “Sempre tentei organizar o meu trabalho de maneira a conseguir conciliá-lo com a vida familiar. Da Família tive sempre um apoio incondicional, considerando que a parte profissional é muito importante. É fundamental mantermos a cabeça sempre ativa”, observa. “Por isso, dedico o pouco tempo livre à Família e aos grandes e muitos amigos que tenho. Adoro igualmente viajar! E gosto muito também de rugby, é uma paixão que tenho. Assumi até, em 2022, a presidência da Secção de Rugby da Associação Académica de Coimbra [AAC], que tive de abandonar por motivos pessoais”, revela. Assim, e quando questionado sobre como gere a intensa vida profissional, Joaquim Murta responde com prontidão. “Muito trabalho, mas sempre motivado e movido por desafios, com o apoio, obviamente, da Família, especialmente a minha mulher e filhos, e de muitas pessoas que se dedicaram de alma e coração aos diversos projetos em que nos envolvemos, por acreditarem neles tanto quanto eu acreditei e acredito”, afirma. Mais do que os cargos, os prémios ou as distinções, o percurso de Joaquim Murta é marcado pela ideia-chave de que a Medicina só se cumpre plenamente quando, aliada à prática clínica, à investigação e ao ensino existe, acima de tudo, humanidade. Entre Coimbra e o mundo, entre a prática clínica, a investigação e o ensino, construiu um legado que continua a projetar a Oftalmologia Portuguesa e Coimbra e a instruir o olhar de quem a aprende e de quem dela cuida. |
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por Luísa Carvalho Carreira fotografias gentilmente cedidas por Joaquim Murta |





