Editorial
O tempo passa a correr. Parece que foi ainda ontem que escrevia estas mesmas palavras, também em tempo de Natal, também no fecho de mais um ano. Essa sensação de que o tempo nos escapa vertiginosamente por entre os dedos, convive, paradoxalmente, com a certeza de que muita coisa aconteceu. No mundo. E na nossa Faculdade. À escala global, 2025 foi um ano exigente. O regresso de um líder político à chefia de uma grande potência mundial veio baralhar ainda mais um xadrez geopolítico já de si frágil e instável, marcado por decisões erráticas, cortes significativos na ajuda internacional e sinais preocupantes de afastamento dos valores que, durante décadas, sustentaram a paz, a democracia, a igualdade de oportunidades e o respeito entre os povos. Infelizmente, apesar de alguns sinais tímidos de esperança, o som das armas continua a fazer-se ouvir em diversas paragens, como se a guerra fosse um imperativo para que a paz possa encontrar espaço para florescer.
Vivemos num mundo cada vez mais difícil de habitar. Um mundo onde o convívio se torna cada vez mais áspero, menos empático, menos solidário. A par dos conflitos armados, também as alterações climáticas continuam a deixar marcas profundas. O ano de 2025 ficará registado como um dos anos mais quentes de sempre, com ondas de calor extremas, tempestades violentas, incêndios devastadores e catástrofes humanitárias que obrigam milhões de pessoas a migrar e procurar refúgio em outras paragens, tantas vezes sem acolhimento, sem proteção, sem dignidade. Tal como as pandemias, também as alterações climáticas exigem respostas globais, concertadas e solidárias. Não há países de primeira nem de segunda quando os problemas se propagam sem fronteiras e atingem todos, de forma implacável. Estes desafios, criados pela ação humana, colocam à prova a nossa capacidade coletiva de preservar a harmonia, a paz e o futuro comum.
Temos que fazer algo para mudar. O futuro do planeta e da humanidade está nas nossas mãos. É também por isso que depositamos esperança no conhecimento, na ciência e na inovação. Em 2025, o Prémio Nobel da Física distinguiu avanços na física quântica que abrem portas a tecnologias capazes de transformar profundamente a forma como compreendemos e interagimos com o mundo. O Prémio Nobel da Medicina reconheceu descobertas fundamentais sobre o sistema imunitário, com impacto direto no desenvolvimento de novas abordagens para o tratamento do cancro e das doenças autoimunes. São sinais claros de que o saber continua a ser uma das mais poderosas ferramentas ao serviço da Humanidade.
E é neste contexto exigente, mas também fértil, que a nossa Faculdade continua a afirmar-se. 2025 foi, também para a Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, um ano de crescimento e afirmação, com muitas conquistas e vitórias. Em articulação com a Reitoria da Universidade de Coimbra, modernizámos espaços de aulas, reforçámos o ensino e a investigação, com novos e modernos equipamentos, consolidámos a nossa presença internacional na WHS Academic Alliance, continuámos a preparar o futuro do Centro Académico e Clínico de Coimbra e alargámos as áreas de investigação do iCBR com a integração de novos grupos. Tudo isto sob a liderança firme, determinada e esclarecida de um Diretor que sabe para onde quer levar a Faculdade e que trabalha para que a FMUC se apresente, num futuro próximo, na linha da frente do ensino, da investigação, da inovação e da prestação de cuidados diferenciados. Estamos no caminho certo. Mas sabemos que ainda há muito por fazer. Para isso, contamos com uma equipa profundamente comprometida, dedicada e empenhada. Se por vezes nos faltam recursos materiais, sobra-nos determinação, persistência, vontade e devoção à missão que nos une. É essa força coletiva que nos permite ultrapassar obstáculos, transformar desafios em oportunidades e continuar a construir uma Faculdade de referência.
E porque uma instituição é, acima de tudo, feita de pessoas, ninguém melhor do que Graça Carvalho, Coordenadora Executiva da FMUC, para traçar o retrato da Faculdade nos últimos anos. O seu testemunho reflete um percurso feito de desafios, mas também de um esforço contínuo para promover a união, a coesão e o sentido de pertença entre todos os trabalhadores que, de forma abnegada, sustentam o presente e constroem o futuro da nossa casa. Nos últimos tempos, vimos deixar a FMUC alguns dos nossos mais valiosos ativos. Professores que não só marcaram a história recente da Faculdade, como foram decisivos para manter o estatuto secular de Coimbra como referência nacional e internacional na área da saúde, aquela Coimbra para onde, durante gerações, se vinha “para ir ao médico”. Entre eles, destaca-se Joaquim Murta, oftalmologista de reconhecido mérito nacional e internacional, cuja carreira ajudou a manter Coimbra na elite clínica. Nesta edição da VoiceMED, em “Do Curso de Medicina”, convidamo-lo a descobrir o percurso de vida de Joaquim Murta, alguém que tem dado nova visão ao mundo e que por pouco não se deixou tentar pelos encantos da pele. Em “Fora da Medicina”, o projeto Reabilita Coimbra mostra-nos como a dignidade começa, muitas vezes, dentro de casa. Em Lucerna, Ânia Rodrigues, estudante do Programa de Doutoramento em Ciências da Saúde, partilha um testemunho sentido sobre como transformou a curiosidade dos “porquês” numa vida dedicada à ciência. Por fim, Luís de Almeida Sampaio convida-nos a viajar por clássicos intemporais que nos ajudam a cuidar da nossa individualidade e da nossa relação com o mundo que habitamos.
Nesta época de Natal, tempo de encontro, de silêncio e de esperança, desejo a todos Festas Felizes. Que o próximo ano traga saúde, paz e harmonia, e que seja rico em sucessos e conquistas, profissionais e pessoais, para cada um de vós, para as vossas famílias e para aqueles que vos são queridos.
Henrique Girão