Isto é FMUC

Um biomarcador-chave no cancro do colo do útero

No final do passado mês de setembro, a Unidade Local de Saúde (ULS) de Coimbra atribuiu uma bolsa para o melhor projeto de investigação translacional. Esta bolsa, no valor de 15 mil euros, visa apoiar o desenvolvimento do projeto ao longo dos próximos três anos.

O projeto premiado é da autoria de Judy Paulo, estudante do Programa de Doutoramento em Ciências da Saúde da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (FMUC), investigadora do Instituto de Investigação Clínica e Biomédica de Coimbra (iCBR- FMUC) e assistente hospitalar em Oncologia Médica na ULS de Coimbra.

Uma breve contextualização

Conforme esclarece Judy Paulo, este projeto, que pretende estudar o papel do microRNA-133 como biomarcador preditivo na resposta a terapias citotóxicas e antiangiogénicas em doentes com cancro do colo do útero, faz parte da sua investigação de doutoramento, na qual tem vindo a estudar o conteúdo e o impacto das moléculas de comunicação intercelular no processo de carcinogénese e de metastização.

“Neste projeto, tenho vindo a estudar as moléculas de adesão e comunicação intercelular nas células tumorais de cancro do colo do útero e o impacto na comunicação com o ambiente hospedeiro, nomeadamente na vascularização tumoral”, explica. “Sabemos que os tumores, para se desenvolverem, necessitam de vasos sanguíneos. Nesse sentido, esta comunicação entre a célula tumoral e as células endoteliais [as células que revestem os vasos sanguíneos] assume, para mim, um interesse especial”, complementa.

O trabalho do grupo de investigação do iCBR-FMUC do qual faz parte, o GuIC (Group of Ubiquitin-dependent Proteolysis and Intercellular Communication), “já tinha identificado que o conteúdo das vesículas extracelulares era diferencial nas células que expressavam uma proteína denominada Conexina 43, sugerindo que esta pode regular as moléculas que são selecionadas para serem ‘empacotadas’ nestas vesículas extracelulares”.

Nesse sentido, “aproveitando os resultados decorrentes dessa investigação, que identificou três microRNA que estão enriquecidos em vesículas com Conexina 43, fizemos testes pré-clínicos e percebemos que um destes três microRNA, mais concretamente o microRNA-133, parecia ter uma ação pró-angiogénica, isto é, favorecer a formação de novos vasos sanguíneos”, refere. Foi essa a descoberta que esteve na origem do desenvolvimento deste projeto de investigação translacional.

Um projeto, três etapas

Tratando-se de uma investigação translacional, o plano de trabalhos deste projeto encontra-se organizado em três etapas, que têm como objetivo unir a ciência básica, desenvolvida em laboratório, à prática clínica e a aplicações em contexto real.

Na primeira etapa, serão realizados estudos de investigação básica. “Isto significa que vamos trabalhar diretamente com as células tumorais in vitro, em laboratório, e manipular as células do tumor que produzem e libertam o microRNA-133, para avaliar o contributo deste microRNA na comunicação entre as células tumorais e as células endoteliais que formam os vasos sanguíneos”, indica Judy Paulo. Para tal, serão utilizadas diversas abordagens experimentais que permitem avaliar, em laboratório, as diferentes fases do processo de formação de novos vasos, nomeadamente ensaios de sprouting e de tubulação, que permitem demonstrar se as células estão a comportar-se de forma diferente devido à presença deste microRNA, libertado pelas células cancerígenas.

“Ainda no decorrer dos trabalhos desta primeira etapa, vamos, depois, tentar inibir a produção e libertação deste mediador para perceber se, ao fazê-lo, conseguimos impedir o efeito pró-angiogénico que observámos, ou seja, se conseguimos reduzir a formação de novos vasos. Vamos também realizar ensaios com esferoides, que são pequenos agregados de células, organizadas em estruturas tridimensionais, usados para estudar, de forma mais realista, a interação entre células tumorais e células endoteliais”, acrescenta.

Na segunda etapa, será realizada a translação para um modelo animal: neste caso, o ratinho. “Vamos estudar se, ao desenvolvermos pequenos tumores – caso isso seja possível – e ao administrarmos sequencialmente meios contendo as moléculas secretadas pelas células tumorais, nas quais se manipulou a produção do microRNA-133, ou meios que, para além da presença das moléculas produzidas ‘naturalmente’ pelas células tumorais, serão enriquecidos ‘artificialmente’ com o microRNA-133, conseguimos perceber o impacto não apenas de todas as moléculas libertadas pelo tumor mas também do miRNA-133, em particular, no processo de propagação e disseminação do tumor, isto é, metastização, e na vascularização desses tumores”, refere.

Seja no desenvolvimento tumoral primário ou, mais provavelmente, num modelo metastático, dado que o nosso foco é a metastização, pretendemos avaliar se existe um maior desenvolvimento de metástases devido ao facto de estarmos a estimular a angiogénese”, esclarece.

Na terceira etapa, e de acordo com os resultados obtidos na primeira e na segunda etapas, o objetivo será fazer a translação para os doentes. Para o cumprimento deste objetivo, serão utilizadas amostras disponíveis no Biobanco do Centro Académico Clínico de Coimbra (Biobanco CACC), conforme explica Judy Paulo. “Nesta vertente clínica, e uma vez que precisamos de algum tempo para avaliar a resposta dos tumores aos fármacos, bem como a própria evolução da doença e o prognóstico de cada tipo de tumor, iremos recorrer a este Biobanco, que considero que deve ser continuamente alimentado, promovido e desenvolvido, já que representa uma mais-valia para a investigação, particularmente em oncologia”, destaca.

“Aproveitando as amostras existentes no Biobanco CACC, vamos avaliar os níveis de Conexina 43 no tumor inicial e também avaliar a expressão do microRNA-133, correlacionando os resultados, tanto com o prognóstico, quanto com a resposta à terapêutica citoestática e à terapêutica anti-angiogénica. Ainda não sabemos se essas amostras incluirão doentes em tratamento com imunoterapia, pois esta é uma terapêutica mais recente no percurso clínico de doentes com cancro do colo do útero metastático”, observa.

Os membros da equipa

Para além de Judy Paulo, investigadora principal, este projeto conta ainda com a colaboração de uma equipa multidisciplinar com vários investigadores do iCBR-FMUC e de clínicos da ULS de Coimbra. O GuIC, grupo de investigação do iCBR-FMUC, está associado às tarefas "da vertente de investigação básica", que serão desenvolvidas na primeira etapa do projeto: os investigadores deste grupo que colaboram no projeto são Henrique Girão, líder do grupo, Tânia Marques, Teresa Rodrigues e Maria Cardoso.

A investigadora do iCBR-FMUC Célia Gomes participa na segunda etapa do projeto, relativa "à vertente de microambiente tumoral, metastização e translação para modelo animal".

Já na vertente clínica, levada a cabo na ULS de Coimbra ao abrigo da terceira etapa do projeto, participam Joana Rodrigues, do Serviço de Oncologia Médica, Cristina Frutuoso, do Serviço de Ginecologia, e Rui Almeida e Ana Gomes, ambos do Serviço de Anatomia Patológica.

O impacto expectável na prática clínica e na investigação

Quando questionada acerca do impacto que espera que este projeto possa vir a ter na abordagem ao cancro no colo do útero, tanto na prática clínica quanto na investigação, Judy Paulo afirma que o foco será sempre o desenvolvimento da ciência, bem como a melhoria do tratamento e o aumento da sobrevivência dos doentes oncológicos.

Assim, do ponto de vista clínico, Judy Paulo espera que os resultados alcançados com o desenvolvimento do projeto sirvam como ferramenta de apoio às decisões clínica, e também ao tipo de tratamento a indicar ao doente. “Nós [clínicos], ao termos acesso a biomarcadores, conseguimos dirigir os tratamentos a cada doente, de acordo com o seu perfil”, constata. “E o cancro é, cada vez mais, tratado com recurso a biomarcadores que nos podem ajudar a perceber quais são os doentes que respondem melhor ou pior à terapêutica antineoplásica, o que nos permite estabelecer uma melhor estratégia, mais personalizada, de tratamento e de controlo da doença”, acrescenta.

“Já do ponto de vista laboratorial, este projeto tem um objetivo muito claro – e por isso é que, na altura da candidatura, optámos pela categoria de investigação translacional –, que é a aproximação da investigação à clínica. É algo que vamos fazendo, de acordo com o que nos é possível, mas esta aproximação nem sempre é fácil, apesar de ser, realmente, o mais desejável para que, em conjunto, a clínica possa evoluir com um trabalho de união entre equipas laboratoriais e clínicas, nomeadamente entre a ULS de Coimbra e a FMUC, no âmbito do CACC”, enfatiza.

Os desafios esperados

Relativamente aos desafios que espera enfrentar na execução do projeto, Judy Paulo admite que, apesar da primeira etapa ser aquela que considera “mais imprevisível”, pelo facto de, mesmo com o controlo das técnicas laboratoriais, os resultados poderem não corresponder ao esperado, é a segunda etapa que considera tecnicamente mais complexa.

Na segunda etapa, “o modelo animal, é, sem dúvida, o mais desafiante”, revela, “porque nem sempre conseguimos mimetizar os modelos de metastização no modelo animal de forma totalmente eficaz”.

Quanto à terceira etapa, o desafio será outro. “Aqui, o desafio é relativo à patologia. O cancro do colo do útero não é dos mais prevalentes e, por isso, esperamos um número mais reduzido de casos para analisar, o que pode, eventualmente, ter impacto no poder estatístico e na análise dos resultados desta investigação”, menciona.

Assim, Judy Paulo mantém uma perspetiva realista, mas otimista, quanto ao impacto global deste projeto. “Não espero conseguir fazer uma translação imediata para a prática clínica, mas acredito que este trabalho possa abrir portas para outras investigações e colaborações na área”, constata.

A notícia da atribuição da bolsa

“Nós vamos conciliando a investigação e a prática clínica de forma muito humilde, sem esperar qualquer tipo de resultado ou benefício pessoal que não seja o da contribuição para a ciência e para aumentar a sobrevivência dos doentes oncológicos. Se, como resultado do nosso trabalho, conseguirmos aumentar a sobrevivência livre de doença, ou de progressão de um doente, por dirigirmos melhor o seu tratamento através destes biomarcadores, já valeu a pena todo o esforço”, garante, quando questionada sobre a forma como recebeu a notícia de que lhe tinha sido atribuída a bolsa da ULS de Coimbra para o melhor projeto de investigação translacional.

“Esta conjugação da área clínica com a área laboratorial nem sempre é fácil, mas é uma ginástica que vale a pena pela forma tão querida e próxima com que sou tão bem recebida por toda a equipa, no iCBR-FMUC, e também pelo apoio, abertura e disponibilidade na ULS de Coimbra e, anteriormente, no IPO [Instituto Português de Oncologia] de Coimbra, onde mantive sempre toda a atividade assistencial”, afirma.

“Recebi a notícia de que tinha recebido a bolsa com muita surpresa, mas também com muita gratidão, pela dimensão que têm o hospital [ULS Coimbra] e a faculdade [FMUC]”, revela. “Saber que estas instituições têm apoiado a investigação translacional e feito um esforço para que investigadores e clínicos colaborem mais em conjunto e saber que esta bolsa contribui para mostrar que essa aproximação – não só entre o laboratório e o hospital, mas também com o envolvimento de vários serviços e valências dentro da ULS Coimbra – é possível, é muito gratificante”, assegura.

“Sou muito grata pela atribuição desta distinção à ULS de Coimbra e ao CACC, nomeadamente ao Professor João Sargento, Diretor da CTU [Clinical Trials Unit], ao Professor Alexandre Lourenço, Presidente do Conselho de Administração da ULS de Coimbra, à Doutora Anabela Barros, diretora do Serviço de Oncologia Médica da ULS Coimbra e ao Professor Henrique Girão, diretor do iCBR-FMUC e líder do GuIC”, indica.

Um percurso (também) translacional

Há cerca de 15 anos, quando estava prestes a terminar o Mestrado Integrado em Medicina (MIM) da FMUC, Judy Paulo, ao conversar com Carlos Fontes Ribeiro, professor de Farmacologia, sobre o seu fascínio pela investigação, recebeu do professor um panfleto do Mestrado em Investigação Biomédica (MIB).

“O Professor Fontes Ribeiro entregou-me o panfleto e disse-me «veja, que vai gostar»”, conta. Na altura, Judy Paulo já trabalhava, pelo que ingressar no MIB a tempo integral parecia ser praticamente impossível. Mas não foi. “O Professor Paulo Pereira, que, à data, era o coordenador do MIB, incentivou-me a fazer a inscrição no mestrado. E assim foi”, revela. A tese foi sobre mecanotransdução nas células tumorais, numa altura em que iniciou o foco nas moléculas de adesão e comunicação intercelular. Foi nessa altura que conheceu e passou a integrar o laboratório GuiC.

Findo o MIB, Judy Paulo inscreveu-se no Mestrado em Oncologia Avançada da Universidade de Ulm, na Alemanha. “Consegui uma bolsa para fazer este mestrado. Fazia as aulas online e, no fim de cada semestre, ia à Alemanha, durante uma semana, para fazer os exames”, indica.

“Conhecia o Professor Henrique Girão já desde a altura em que desenvolvi o projeto para o MIB e, quando precisei de fazer a dissertação deste Mestrado em Oncologia Avançada e mantive o interesse nas moléculas de adesão, fui novamente acolhida no laboratório GuIC” refere. “Foi aí que comecei a estudar a Conexina 43 e o seu papel na carcinogénese do cancro do cólon”, complementa.

“Fui sempre fazendo investigação em paralelo com a prática clínica”, constata. Por isso, depois do MIM, do MIB e do Mestrado em Oncologia Avançada, Judy Paulo ingressou no Programa de Doutoramento em Ciências da Saúde da FMUC, do qual é atualmente aluna.

Dado o notável fascínio pela investigação, não houve como não perguntar se, alguma vez, ponderou deixar a prática clínica. “Na verdade, eu gosto muito de ambas! Gostava era de conseguir ter mais umas horas na minha semana para poder fazer mais e melhor”, desabafa.

“Tenho noção de que tudo aquilo que faço, em termos de investigação, é feito de uma forma muito humilde. Tento que a qualidade do trabalho de investigação que executo seja, obviamente, a melhor possível, ainda que o trabalho seja pouco comparado com o trabalho de um investigador a tempo inteiro!”, observa.

“Ao longo dos anos, tentei utilizar as valências do laboratório e impactar o menos possível o desenvolvimento dos projetos dos investigadores, independentemente da área de investigação: cardiologia, biologia... Às sextas-feiras, questionava os investigadores do laboratório sobre as técnicas que iriam utilizar na semana seguinte e tentava adaptá-las à evolução do meu trabalho laboratorial. Aprendia enquanto trabalhavam, adaptando depois o que aprendia às células tumorais”, revela.

“E a verdade é que tenho tido também um apoio inacreditável de todas as pessoas do laboratório, que muito admiro pois são a base do desenvolvimento da ciência e da medicina! Desde o MIB, todos os investigadores com quem me fui cruzando sempre tiveram uma disponibilidade enorme para me ensinar, e estou muito grata, principalmente aos membros do GuIC”, conclui.

por Luísa Carvalho Carreira (texto e fotografia de topo)

fotografias gentilmente cedidas por Judy Paulo