Lucerna | Ânia Rodrigues

Ao ser desafiada a refletir sobre o momento que me trouxe até aqui, entrei em introspeção. Chego à conclusão de que é impossível definir apenas um momento isolado. Estou convicta de que a vida se constrói a partir de um conjunto de vivências (boas e más) que nos fazem quem somos e nos levam onde estamos!

Retrospetivamente, creio que sempre fui a menina dos “porquês”. Talvez o meu avô tenha tido um papel fundamental nisso, confesso. Com a paciência infinita que só os avós têm, respondia a todas as minhas perguntas (muitas delas sem sentido algum) e incentivava-me consistentemente a querer saber sempre mais. Por mais banal que possa parecer, essa curiosidade tornou-se um pilar da minha personalidade. Talvez por isso tenha enveredado por um caminho que me permite (e obriga) a ser curiosa todos os dias. Os “porquês” fascinam-me, pois são eles que nos permitem desenvolver um espírito crítico sobre o mundo que nos rodeia.

Desde criança que a ciência me encanta. Houve um tempo em que sonhei ser cientista e tive o meu próprio microscópio de brincar, confesso que sem saber muito bem em que consistia esta profissão. Talvez fosse motivada pelos “cientistas malucos” dos desenhos animados, com as suas explosões e químicos coloridos. Motivava-me a magia, a diversão e a “rebeldia” que transparecia desta profissão. Hoje sei que a realidade é diferente do que imaginava, mas a magia de fazer ciência, existe mesmo!

Mais tarde, durante o ensino secundário, percebi que a área da biologia, especialmente a vertente da saúde, era a minha grande paixão. Fascinava-me compreender os pequenos detalhes do funcionamento do corpo humano. Assim, segui a Licenciatura em Ciências Biomédicas, certa de que investigação era o meu destino. E foi, de facto, nos meus primeiros contactos com o laboratório que confirmei estar no lugar certo. Via-me a fazer da ciência, vida.

Passados três anos, e perante uma nova decisão, rumei a Coimbra para fazer o Mestrado em Investigação Biomédica. Foi nesta etapa onde comecei verdadeiramente a minha jornada científica. Fiz a minha dissertação no iCBR, no Group of Ubiquitin-dependent Proteolysis and Intercellular Communication (GuIC), orientada pelo Professor Henrique Girão. Foi aqui que tive contacto direto com a vida de investigador, dei os meus primeiros passos autónomos na bancada e abracei o “meu” próprio projeto. Não podia estar mais grata pelas oportunidades e pelas pessoas que encontrei ao longo deste percurso. Permitam-me um destaque especial ao Professor Henrique que, sem dúvida, teve uma enorme contribuição na minha admiração pela carreira científica.

Agora, continuo "em casa" para iniciar uma nova etapa: o Doutoramento em Ciências da Saúde. Sei que será um percurso desafiante, mas estou certa de que é o passo seguinte.

Olhando para o presente, percebo que aquela menina curiosa continua muito presente em mim. No fundo, o meu percurso é resultado da minha vontade constante de descobrir, apoiada pelas pessoas certas que tive a sorte de se cruzarem na minha vida. Foi tudo isto que me trouxe até aqui. E que feliz que estou por aqui estar…


Ânia Rodrigues é estudante do Programa de Doutoramento em Ciências da Saúde da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra.