Do curso de Medicina | Paulo Moura

Uma vida a ouvir corações ainda antes do primeiro choro

Entrou na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (FMUC) em 1976, num período ainda agitado pelo pós-25 de Abril, e dedicou as cerca de quatro décadas seguintes à Obstetrícia, à formação de médicos e à construção de um sistema de saúde materno-infantil que ajudou Portugal a passar de maus indicadores para alguns dos melhores da Europa. Pelo caminho, ainda houve tempo para a disciplinadora natação, à passagem pela Marinha e o permanente fascínio por outras áreas do saber, como a História e a Literatura, que pautam, com efeito, diversos momentos do seu discurso.

Paulo Moura nasceu em Coimbra, a 11 de novembro de 1958. “Já foi depois do Sputnik, pelo que não sou assim tão antigo!”, brinca. “Nasci na Maternidade Daniel de Matos, que, naquela altura, estava situada no edifício onde, em tempos, tinha sido decidido que ficaria o Paço Episcopal de Coimbra, mas que a Primeira República Portuguesa conseguiu captar para ser a Maternidade de Coimbra, a primeira de Portugal, em 1911. A Maternidade, designada Daniel de Matos a partir de 1921 em homenagem ao seu fundador, teve ali a sua sede durante muito tempo, até 1974”, conta.

Até aos seis anos de idade, frequentou o Jardim-Escola João de Deus. “Andei lá até concluir a primeira classe! Não me lembro muito bem dessa altura, como é natural, mas tenho ideia de ter sido muito feliz por lá”, recorda. A partir dos sete anos de idade, não havendo mais escolaridade no João de Deus, estudou na Escola de São Bartolomeu, onde concluiu a instrução primária. “Mudei-me para essa escola, na Avenida Fernão de Magalhães, porque era a que ficava mais perto da minha casa, em frente ao Parque Manuel Braga”, indica.

“Ter ido para a São Bartolomeu foi uma mudança muito grande. No João de Deus, éramos uns meninos muito apaparicados, não é? Na São Bartolomeu, era tudo diferente e, apesar da minha tenra idade, eu apercebia-me disso. Os meus colegas eram, na sua maioria, meninos ali da baixinha, alguns com muitas privações. Lembro-me também de quando o circo vinha à cidade e ficava ali onde agora é a Torre do Arnado: os meninos do circo iam lá para a escola e aquilo alterava um bocadinho as hierarquias e as dinâmicas sociológicas nos tempos de recreio”, observa.

Quando foi para o Liceu Nacional de D. Duarte, Paulo Moura acalentava já o desejo de, um dia, vir a tornar-se médico. “Tinha uns tios que eram médicos e que eram praticamente os meus segundos pais. Por influência deles, sempre tive aquela ideia de que queria ser médico também”, menciona.

“Houve uma altura em que foi lá ao liceu uma equipa de psicólogos fazer orientação vocacional. Aconselharam-me a seguir áreas como o Direito, a História ou a Filosofia, como as mais adaptadas às minhas aptidões naturais, apesar de me terem dito também que poderia seguir Medicina, já que manifestava esse interesse e que se tratava de uma área muito aberta em termos vocacionais e de competências. E pronto, lá fui eu estudar Medicina, porque era essa a minha ideia”, afirma.

Antes de ingressar no curso, Paulo Moura cumpriu ainda o Serviço Cívico Estudantil. “Nesse ano, andei a dar aulas de natação para as escolas num programa da Direção Geral de Desportos. Era nadador desde os meus treze anos”, revela. “Comecei por nadar na [Associação] Académica. Depois, acompanhei o meu treinador e fui para a ACM [Associação Cristã da Mocidade]. Era nadador federado, de modo que nesse ano do serviço cívico, entre treinos duas vezes por dia e as aulas, nadava uns sessenta quilómetros por semana. Só faltou crescerem-me umas barbatanas!”, refere, em tom de brincadeira.

Cumprido o Serviço Cívico Estudantil, foi tempo de entrar em Medicina na FMUC. Sobre os tempos de estudante, Paulo Moura assegura que foram “seis anos excelentes, muito felizes”, tanto a nível pessoal quanto académico. “Foi a primeira vez que senti que estava a fazer aquilo que eu próprio tinha escolhido, no sítio que eu tinha escolhido”, destaca.

“Foi na faculdade, aliás, que descobri que eu afinal era uma pessoa disciplinada, resultado de todos os anos na natação. Os meus pais eram professores de liceu, e quando eu andava também no liceu, havia sempre uma cena clássica lá em casa, no final do primeiro período escolar, que era o meu pai a pedir-me para eu lhe mostrar os meus cadernos, que já estavam todos fora de ordem: porque naquela altura eu era muito desorganizado”, indica.

“Ou melhor, não foi a natação que me tornou disciplinado”, corrige-se. “Eu acho que as pessoas têm as capacidades em si e depois exercitam-nas, não é? Com a natação, percebi que era capaz de ser uma pessoa disciplinada, porque aquilo exige muita disciplina! Andar ali para diante e para trás, só a ver o chão da piscina, é muito aborrecido para um adolescente. Acho que isso me permitiu descobrir em mim aquela paciência da disciplina, que depois apliquei ao estudo. Porque estudar às vezes é muito fastidioso, fazia planos de estudo muito detalhados: já sabia que se os cumprisse podia ter tempos livres sem problemas”, complementa.

Os referidos planos de estudo – quiçá os responsáveis por ter sido um brilhante aluno de Medicina da FMUC e ter terminado o curso com uma média elevada – eram rigorosos. “Eu previa quantas voltas poderia dar à matéria de cada cadeira num determinado tempo e seguia tudo à risca. Levantava-me cedo para isso, às cinco ou seis da manhã se fosse preciso, mas andava sempre tranquilo e não estudava à noite, a não ser muito excecionalmente”, afirma.

Quando terminou o curso, em 1982, Paulo Moura foi contactado por dois professores da FMUC. Foi nesse momento que a Obstetrícia começou a ganhar forma, aos seus olhos, como a especialidade a seguir, não apenas pelo desafio clínico, mas sobretudo pelo vasto potencial de desenvolvimento que começava a fazer-se notar.

“O Professor Mário Mendes e o Professor Jorge Fagulha, de Obstetrícia, vieram falar comigo e disseram-me que estavam interessados em que eu seguisse carreira clínica e docente nessa área. Era, de facto, uma área que estava com necessidade de expansão”, observa, acrescentando que a abordagem aos fetos começava, naquela altura, a ganhar mais destaque.

“Até então, a Obstetrícia era uma especialidade que se tinha dedicado muito à grávida e ao parto. Por isso, quando os professores falaram comigo, comecei a pensar que, dentro das hipóteses que tinha, essa era uma hipótese muito interessante, pelo que aceitei o desafio”, indica.

“Isso aconteceu quando estava no internato geral, mas ainda antes disso, quando estava prestes a terminar o curso, tinha sido também contactado pelo Professor Oliveira Sá para ser Monitor de Medicina Legal. O meu início na carreira docente foi numa área completamente diferente! Foi uma experiência muito interessante, até porque acabava por relacionar-se um pouco com o Direito, uma das áreas que tinha sido aconselhado a seguir na orientação vocacional que fiz no liceu e que, efetivamente, me interessava. Fui Monitor de Medicina Legal durante dois anos”, acrescenta.

Em 1985, já no internato geral, Paulo Moura foi convocado a realizar o serviço militar obrigatório na Marinha. “O serviço na Marinha tinha a duração de 24 meses, mais tempo do que o serviço no Exército Português”, indica. “Fui para a recruta nas vésperas do exame de acesso à especialidade”, complementa.

“Na Marinha, havia poucos postos em terra: eram dois em Lisboa, um em Coimbra e um no Porto, nas inspeções de mancebos. Para conseguir o posto de Coimbra, tinha de ficar muito bem classificado na recruta, o que implicava ter que estudar as disciplinas de Regulamento e Disciplina Militar e Marinharia e ficar bem avaliado nos Exames teóricos e nas provas físicas. Foi uma época complicada, em que tive de me aplicar na recruta ao mesmo tempo que me aplicava no estudo para o exame de acesso à especialidade, que era no mês seguinte”, conta.

A dedicação deu os seus frutos e Paulo Moura conseguiu escolher o posto de Coimbra. “Em julho de 1985, vim então aqui para as inspeções de mancebos, o que me permitiu organizar-me de forma a estar na Marinha e a frequentar, como voluntário, o internato nos Hospitais da Universidade de Coimbra, para que depois pudesse pedir a contagem do tempo e não me atrasasse tanto na carreira clínica. Então, nessa altura, estava na Maternidade até às três da tarde e, depois, ia para as inspeções. Foi uma experiência muito interessante a da Marinha! Acabei por ficar lá 25 meses, entre 1985 e 1987”, faz saber.

“Entretanto, o Professor Mário Mendes abriu um lugar de Assistente Estagiário de Obstetrícia e foi assim que entrei para a carreira na especialidade, em 1987”. A prática clínica foi sendo sempre conciliada com a carreira docente na FMUC. Da experiência enquanto professor, Paulo Moura destaca o especial gosto que sempre teve em ver os alunos aprenderem. “Gostava de tornar simples coisas confusas e complexas, de tornar interessantes e atraentes assuntos aparentemente vulgares ou aborrecidos, e de ver os alunos compreenderem, tornarem-se mais capazes, autónomos e a caminharem pelo seu próprio pé”, salienta.

Em 1991, fez as Provas de Aptidão Pedagógica e Capacidade Científica para acesso à categoria de Assistente. Em 1996, concluiu o doutoramento. “O Professor Mário Mendes despertou a minha curiosidade pelo estudo dos fetos. Isso atraiu-me muito, porque até aos anos 80, a Obstetrícia era uma especialidade essencialmente cirúrgica, muito dedicada, como referi antes, a fazer partos e tomar conta das mulheres”, observa.

“Sobre os bebés, pouco ou nada se sabia desde tempos imemoriais. O que é que se sabia? No princípio do século XIX, alguém amigo do senhor que inventou o estetoscópio lembrou-se de ir auscultar a barriga das senhoras, para ouvir ‘as águas’. E o que é que ele ouviu? Um coração. Ficou entusiasmadíssimo”, conta.

“Passados 20 anos, tinha sido escrito um tratado de 400 páginas sobre a auscultação fetal, bem-intencionado, mas cheio de fantasias. Curiosamente, passados uns 90 anos e o entusiasmo, os tratados de Obstetrícia, por volta de 1930, não teriam mais de umas 20 páginas sobre a utilidade da auscultação fetal. De facto, o que se sabia realmente sobre os fetos? Apenas do ponto de vista da Anatomia Patológica se estudavam os embriões e fetos que nasciam mortos”, continua.

“Nos anos 70, o Homem já tinha ido à Lua, mas o que se passava ali, apenas a uns centímetros de distância, era ainda uma enorme incógnita. Era O Mundo do Silêncio, do Jacques-Yves Cousteau!”, brinca. “A ecografia só começa a dar imagens razoavelmente utilizáveis clinicamente a partir do início dos anos 80. É nesse contexto que eu ‘caio’ e começo o meu percurso na Obstetrícia. Foi muito entusiasmante viver de perto essa evolução, e tive a oportunidade, inclusive, de durante o doutoramento ir a Londres aprender mais sobre a ecografia e o estudo hemodinâmico da circulação placentária e fetal”, refere.

No âmbito da sua investigação de doutoramento, estudou a circulação nas artérias uterinas e na placenta de mulheres com hipertensão, relacionando os achados com a aceitação imunológica dos fetos pelas mães. “Esta aceitação dos fetos pelas mães sempre foi algo que me fascinou muito. A aceitação de órgãos doados é, aliás, algo que há muito a Medicina estuda. Se formos pensar nisso, em todas as gravidezes há um ser dentro de outro que não é rejeitado, mesmo não sendo igual à mãe. No máximo, pode dizer que metade do património genético é da mãe. Metade, mas a outra metade não é. E se pensar nas gravidezes de substituição, o feto nada tem a ver com a grávida. Portanto, há aqui qualquer coisa que a natureza já resolveu elegantemente”, observa.

Paulo Moura tem uma vasta carreira dedicada às práticas clínica e docente, à investigação e ao desempenho de cargos na Ordem dos Médicos, na Comissão Nacional da Saúde Materna e Neonatal, no Conselho Médico-Legal e na direção da FMUC. Em 2006, foi nomeado diretor do Serviço de Obstetrícia dos Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC), cargo que desempenhou por 19 anos e meio, até à aposentação.

Relativamente ao trabalho desempenhado na Comissão Nacional da Saúde Materna e Neonatal, Paulo Moura indica que, quando iniciou o internato, Portugal preparava-se para entrar na então Comunidade Económica Europeia (CEE). “Apesar de, nessa altura, a mortalidade materna em Portugal ter registado uma redução significativa, os nossos números de mortalidade perinatal continuavam elevados”, recorda. Foi nesse contexto que surgiu a Comissão Nacional da Saúde Materna e Infantil e que se estruturou um plano para reorganizar os cuidados e aproximar Portugal dos padrões europeus.

Paulo Moura acompanhou, assim, uma mudança que marcou a sua geração. “Passámos de ser um dos piores países para termos dos melhores resultados assistenciais da Europa”. Mais do que uma conquista exclusivamente científica, destaca a dimensão de saúde pública desse percurso. A Obstetrícia “esteve desde então sempre muito ligada à articulação entre hospitais e cuidados de saúde primários, numa lógica que não se esgota na prática hospitalar, mas que toca aquilo que é o acesso aos cuidados de saúde de todas as pessoas”, defende.

Nas aulas, fazia questão de contextualizar este facto. “As pessoas têm de ter uma perspetiva histórica de onde é que estão e de como é que aqui chegaram, para perceberem, não só para onde vão e querem ir, mas também acerca do que se pode perder” era algo que repetia aos alunos, insistindo na importância da consciência histórica e geográfica (o que se passa no resto do mundo) e alertando para o perigo de tomar como garantido o que foi, na verdade, resultado da dedicação de muitas pessoas ao longo de muito tempo.

“Sempre dei aulas aos alunos do 5º e 6º anos, prestes a terminarem o curso, e por isso sempre gostei também de lhes reforçar a ideia de que não estavam a ser formados para estarem só atrás de uma secretária, a acompanhar e tratar apenas uma doente ou uma grávida, mas igualmente para fazerem parte de algo maior, uma rede construída recentemente e cuja continuidade e eficiência dependeria também deles” enfatiza.

Sobre as escolhas que considera terem sido as que mais moldaram a sua vida profissional, Paulo Moura afirma que, sem dúvida, ter decidido ir para a Medicina foi a escolha mais importante. “Normalmente, pensamos que as nossas escolhas são produto de quem somos, da nossa vocação, não é? Mas, às vezes, acho que é um bocadinho ao contrário!”, começa por contextualizar.

“Considero que também somos produto das nossas escolhas. Ter escolhido Medicina e ter escolhido Obstetrícia foi o que mais me moldou. Se eu tivesse seguido os meus impulsos naturais e optado por áreas como a História, a Filosofia ou o Direito, que são áreas que, ainda assim, muitas vezes vieram ao de cima ao longo do meu percurso profissional, eu teria certamente sido uma pessoa diferente”, constata.

Paulo Moura afirma, assim, que ter escolhido Medicina o expôs de forma positiva. “Naturalmente, sou mais reservado. Ter ido para uma profissão e uma especialidade que me proporcionou ouvir e ter contacto mais intenso com pessoas e circunstâncias muito variadas, expôs-me, desenvolveu-me, transformou-me. Alguns músculos cognitivos e emocionais que teriam ficado fraquinhos devido à minha personalidade desenvolveram-se, ficaram bem mais robustos”, graceja, “e acho que esse contrariar de certas tendências foi muito importante para mim”.

Quando questionado acerca do equilíbrio entre a vida profissional e a pessoal, Paulo Moura responde em tom de brincadeira. “Não me cabe a mim dizer que esse equilíbrio foi bem conseguido, porque pode alguém da minha família vir dizer que não! Mas, no geral, espero que tenha corrido mais bem que mal. Eu também acho que nunca fui uma pessoa propriamente obcecada pela vida profissional. Sempre tive outros interesses, nomeadamente pelas tais áreas pelas quais já sentia muita afinidade enquanto jovem estudante, e que agora tenho mais tempo para cultivar. Acho que todos os olhares sobre as coisas, sejam científicos, artísticos, históricos, filosóficos ou literários, nos enriquecem: e seguramente enriquecem e completam a compreensão que temos sobre o que nos cerca, incluindo naturalmente na atividade profissional; espero não me ter distraído disso”, afirma.

Aposentado desde setembro de 2025, saiu “com naturalidade”, convicto de que os lugares devem abrir-se aos mais novos. Não se orgulha de si, mas sim dos outros: dos alunos e médicos que viu crescer; espera ter tocado essas outras vidas de forma positiva, como quem abre espaço, e não ter sido uma sombra perturbadora no percurso de ninguém.

Agora, pode dedicar-se um pouco mais à leitura e, quando as condições climatéricas o permitem, às caminhadas pelo Choupal. No fim, resume a profissão, e talvez a própria vida, numa ideia simples: todo o conhecimento só ganha sentido pleno quando é posto ao serviço das pessoas. O resto é curiosidade, e a esperança de ter sido, nas muitas vidas que cruzou, uma presença boa.

por Luísa Carvalho Carreira

fotografias gentilmente cedidas por Paulo Moura