Editorial

Foi há bem pouco tempo que a tempestade nos voltou a lembrar, com uma força avassaladora, da nossa fragilidade, da nossa vulnerabilidade, da nossa impotência e incapacidade para fazer frente aos desassossegos da natureza. As recentes cheias em Coimbra deixaram marcas visíveis na cidade, nas casas, nas ruas, nos campos… mas também marcas invisíveis, feitas de receio, ansiedade e perplexidade perante uma manifestação de fúria que estávamos habituados apenas a testemunhar, confortável e confiadamente, em outras paragens, bem longe daqui, através da televisão.

Ver o Mondego sair do seu percurso, invadir espaços que julgávamos seguros, obrigar famílias a abandonar as suas casas, assistir à angústia de comerciantes que veem o esforço de uma vida ameaçado pela água turva e impiedosa, é algo que nos toca a todos. Nestes momentos, há sempre duas formas de (re)agir, ou nos deixamos paralisar pelo medo e pela crítica fácil, ou arregaçamos as mangas, unimos esforços e enfrentamos a adversidade com coragem, força e esperança. E foi isso que vimos acontecer.

Num tempo em que tantas vezes se desconfia da política e dos decisores públicos, importa também saber reconhecer quando o trabalho é feito com dedicação, responsabilidade e sentido de missão. A resposta da Câmara Municipal de Coimbra, sob a liderança da Presidente Ana Abrunhosa, foi amplamente reconhecida por todos, independentemente de cores partidárias, simpatias ou posicionamentos ideológicos.

O que se viu foi presença no terreno, proximidade, coordenação. Foi a voz de comando capaz de mobilizar meios, articular instituições, ouvir as populações, tomar decisões difíceis em tempo útil. Foi liderança serena num momento de tensão, nunca escondendo as dificuldades, os perigos, mas fazendo-o de uma forma transparente, sincera, muitas vezes sentida e emocionada, sem perder a sobriedade e a serenidade. As cheias trouxeram-nos água em excesso, mas trouxeram também algo que nunca é demais, solidariedade, partilha e espírito de entreajuda.

Vimos vizinhos a ajudarem vizinhos. Estudantes a disponibilizarem-se para apoiar limpezas. Técnicos municipais e autarcas a trabalharem noite dentro, com as horas de sono afogadas nas águas que não davam tréguas. Bombeiros a enfrentarem o risco com a coragem que tantas vezes damos por garantida. Profissionais de saúde atentos às consequências físicas e psicológicas destas situações. Instituições a abrirem portas e cederem, de forma generosa e altruísta, recursos, espaços, pessoas, vontade de ajudar. Coimbra mostrou, mais uma vez, que sabe ser comunidade quando mais é preciso.

Vivemos numa época em que os desafios ambientais deixaram de ser raras abstrações científicas para se tornarem experiências vividas, com impacto direto no nosso dia-a-dia. Alterações climáticas, fenómenos extremos, eventos meteorológicos imprevisíveis… já não são projeções de relatórios internacionais, dos quais podemos desconfiar, troçar ou por em causa. São realidades, inquestionáveis, que entram pelas nossas casas, pelas nossas ruas, pela nossa vida. Por isso, não podemos olhar para estes acontecimentos apenas como episódios isolados ou raros, mas como sinais, alertas e convites à responsabilidade, à intervenção, à mudança de atitude.

A saúde não começa no hospital. Começa no território. Começa na qualidade do ambiente, na organização urbana, na prevenção de riscos, na capacidade de resposta das instituições. Começa na ciência que estuda, antecipa e propõe soluções. Começa na educação de cidadãos conscientes.

As cheias de Coimbra são mais uma chamada de atenção, desta vez mais próxima e real, depois de já termos visto devastar tantas e tantas regiões do outro lado do mundo, para não esquecermos que precisamos de planeamento sustentado, investimento inteligente, decisões corajosas, muitas vezes difíceis, inconvenientes, inoportunas e impopulares. Mas são essenciais para salvarmos este mundo que nos dá, e nos possa continuar a oferecer, abrigo, sustento e guarida. Agora que tudo parece ter passado, não podemos baixar a guarda, não podemos esquecer os tormentos por que passámos e não queremos voltar a viver. As águas hão de baixar. As marcas físicas hão de ser reparadas. As cicatrizes invisíveis, essas talvez demorem mais tempo a sarar.

É nestes momentos que percebemos que a verdadeira força da nossa cidade não está apenas na sua história, na sua Universidade ou nos seus monumentos. Está nas pessoas. Está na capacidade de se unir para cuidar. Está na liderança que assume responsabilidades. Está na solidariedade que se manifesta sem hesitação. Fica o orgulho de sermos uma cidade, um povo, que, perante a adversidade, não se resigna, não vira a cara à luta, não esquece as suas gentes. Porque os desafios, os perigos, as ameaças, esses, não desaparecerão.

Mas se estivermos juntos, instituições, autarquias, Universidade, cidadãos, seremos sempre maiores do que qualquer cheia. Aproveito para deixar um abraço solidário a todos os que foram afetados e um profundo agradecimento a todos os que estiveram na linha da frente. Coimbra mostrou quem é. E não tenho dúvidas de que, depois desta tempestade, a bonança vai deixar-nos ainda mais fortes.

E por falar em cheias, nesta edição da VoiceMED vamos perceber como é que as barbatanas trouxeram disciplina à vida de Paulo Moura e como retrocedeu para trocar o fim pelo princípio da vida. Um homem brilhante, inteligente e generoso, que deixa uma marca em todos os que com ele têm aprendido e se têm inspirado, na medicina e fora dela.

Em 4´33´´, vamos conhecer, através de Ana Cristina Santos, o mundo da diversidade sexual e de género, abordando de forma aberta e sem preconceitos temas tantas vezes incómodos, perturbadores e inquietantes, para acabarmos com desigualdades, estigmas e discriminações. É um longo caminho que foi desbravado e que não pode voltar atrás. São muitas conquistas, desde a remota juventude, que não podem ser postas em causa e perdidas durante o tempo que cruza o envelhecimento.

Em Isto é FMUC, vamos, pela mão de João Malva, numa viagem entre Coimbra e Creta, na Grécia, descobrir como estilos de vida saudável no contexto da dieta mediterrânica promovem o envelhecimento saudável e a prevenção de doenças cerebrovasculares.

Em Fora da Medicina, viajamos até Alcobaça, para conhecer o Centro de Estudos Superiores da Universidade de Coimbra em Alcobaça (CESUCA), uma estrutura descentralizada da Universidade de Coimbra, que leva ao território do litoral oeste a sua missão de ensino, investigação, extensão cultural e prestação de serviços à comunidade.

Em Lucerna, Maria Laureano, pedopsiquiatra e estudante do Programa de Doutoramento em Ciências da Saúde da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, conta-nos o valioso percurso desde a sua Ilha Terceira até ao destino Coimbra, onde se tem dedicado à advocacia pela saúde mental.

Finalmente, Teresa Gonçalves prescreve-nos uma experiência veneziana e uma visita à Basílica de S. Pedro, onde um anjo poderá ganhar asas.

Henrique Girão


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