Isto é FMUC
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Excelência científica ao serviço do envelhecimento saudávelSob a liderança do investigador João Malva e através da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (FMUC), a UC coordena o projeto europeu CHAngeing – Connected Hubs in Ageing: Healthy Living to Protect Cerebrovascular Function, uma iniciativa financiada pelo Horizonte Europa que pretende reforçar a investigação e a inovação na promoção do envelhecimento saudável e na prevenção de doenças cerebrovasculares. O consórcio formado pelo projeto reúne parceiros de Portugal e da Grécia, criando uma rede colaborativa entre universidades, hospitais e empresas. Com início em janeiro de 2023 e fim previsto para dezembro de 2026, o projeto CHAngeing obteve um financiamento total de quase cinco milhões de euros. O contexto e a relevância no envelhecimento da população europeiaConforme esclarece João Malva, coordenador do projeto, o CHAngeing foi submetido no âmbito de uma call do Horizonte Europa para os Excellence Hubs, centros de excelência que têm como objetivo o fortalecimento dos ecossistemas de inovação regional em países em expansão (widening countries). Estes centros de excelência caracterizam-se por um modelo de hélice quádrupla, envolvendo instituições académicas e de investigação, entidades empresariais, autoridades públicas e sociedade civil. O Ageing@Coimbra, Excellence Hub da região Centro – Portugal, visa a promoção do envelhecimento saudável das populações, tal como o projeto CHAngeing. “O envelhecimento, por si só, não é um problema, como é óbvio. O facto de, atualmente, as pessoas viverem mais tempo é tudo menos um problema: é uma ótima notícia! Mas a notícia deixa de ser tão boa quando constatamos que este envelhecimento não é de qualidade”, observa. “Sabemos que cerca de 40 por cento das doenças crónicas em idade avançada são evitáveis, e que estão relacionadas com estilos de vida que incluem má alimentação, sedentarismo, exposição a poluentes e tóxicos ou má qualidade do sono”, complementa. Para levar a cabo a missão da promoção do envelhecimento saudável, o projeto CHAngeing formou um consórcio específico. “Este consórcio é constituído pela Universidade de Coimbra [UC], pelo Instituto Pedro Nunes [IPN], pela Unidade Local de Saúde [ULS] de Coimbra, pelo CoLab4Ageing, que é um laboratório colaborativo focado no envelhecimento e, finalmente, pela empresa Glintt, que opera no mercado da tecnologia associada à saúde”, explica. A parceria com o Excellence Hub de Creta – GréciaUm dos requisitos da call do Horizonte Europa para os Excellence Hubs, à qual o projeto CHAngeing apresentou a sua candidatura, era o estabelecimento de uma parceria com outro Excellence Hub de um país em expansão (widening country). O Excellence Hub escolhido para a parceria com o da região Centro – Portugal foi o Excellence Hub de Creta – Grécia. “Escolhemos o parceiro de Creta porque queríamos focar na promoção de estilos de vida saudável no contexto da dieta mediterrânica. Para isso, percebemos que o parceiro ideal seria um que tivesse esse histórico relacionado com a dieta mediterrânica e que, simultaneamente, fosse muito forte do ponto de vista de ecossistema de inovação”, refere o coordenador do CHAngeing. Depois de estabelecido o contacto com Nektarios Tavernarakis, diretor da Fundação para a Investigação e Tecnologia FORTH, em Heraklion (Creta), a parceria com Portugal foi criada, contando ainda, do lado da Grécia, com a Universidade de Creta e o Hospital Universitário de Heraklion. A prevenção e reabilitação de doenças cerebrovascularesAs doenças cerebrovasculares continuam a ser uma das principais causas de incapacidade, e é nesse desafio que o projeto CHAngeing concentra também a sua atuação, já que a promoção de estilos de vida saudável, inspirados na cultura da dieta mediterrânica, surge como eixo central para fomentar um envelhecimento saudável, prevenindo doença evitável ou facilitando a reabilitação de pessoas que sofreram AVC. Tanto no Hub de Coimbra como no Hub de Heraklion, foram identificados projetos de investigação orientados para a descoberta de compostos bioativos e boas práticas que possam contribuir para a prevenção ou melhor tratamento do AVC, explorando propriedades anti-inflamatórias e anti-senescência presentes em alimentos da dieta mediterrânica. Em Coimbra, estão em curso seis projetos de doutoramento e um de pós-doutoramento focados na identificação de compostos com efeitos promissores em modelos celulares e animais. O objetivo é compreender os seus potenciais benefícios funcionais, incluindo efeitos senolíticos e anti-inflamatórios. |
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“Do ponto de vista mecanístico, a investigação analisa múltiplas dimensões, como o metabolismo, a proteção da barreira hematoencefálica, o controlo da neuroinflamação, a relação com doenças neurodegenerativas e a saúde da vasculatura cerebral. Paralelamente, decorrem estudos que procuram avaliar se células estaminais, moduladas por estes compostos bioativos, poderão ter efeitos benéficos no tratamento de pessoas que sofreram AVC”, explica João Malva. A investigação e a inovaçãoUma outra vertente do projeto aposta na dimensão translacional da investigação, procurando transformar conhecimento científico em inovação. O objetivo passa por desenvolver produtos e tecnologias com potencial de transferência para o mercado, promovendo a criação de spin-offs e novos postos de trabalho. Este esforço articula-se ainda com uma forte componente de formação avançada. O CHAngeing cria contexto para a formação de doutorandos e pós-doutorados, promovendo simultaneamente a capacitação para a inovação e para a transferência de tecnologia. O piloto e o demonstradorO projeto materializa a articulação entre a investigação e a formação avançada através da implementação de um piloto e de um demonstrador. O piloto baseia-se na criação de um toolkit, instrumento multidisciplinar para avaliação de estilos de vida, desenvolvido por um focus group interdisciplinar. Este instrumento permite avaliar medidas antropométricas e indicadores de saúde geral, bem como hábitos relacionados com a adesão à dieta mediterrânica, qualidade do sono, coesão social, prática de exercício físico e consumo de fármacos ou outras substâncias. O toolkit combina questionários informais com instrumentos validados e integra tecnologias inovadoras, desenvolvidas nos ecossistemas de inovação do IPN, em Coimbra, e de FORTH, em Creta. Através desta ferramenta, as equipas deslocam-se a ambientes urbanos e rurais, convidando os cidadãos a avaliarem o seu estilo de vida. Finda a avaliação, os cidadãos recebem um relatório com recomendações personalizadas. “A aplicação deste toolkit, que tem registado uma adesão muito gratificante, não tem o objetivo de fazer um diagnóstico médico”, esclarece o coordenador. “É quase em jeito de conselho, de melhorar estilos de vida”, acrescenta, sublinhando também a dimensão de promoção da literacia em saúde associada à iniciativa. O demonstrador, desenvolvido pelo IPN, centra-se na criação de tecnologias que apoiam a reabilitação no domicílio de pessoas após a alta hospitalar por AVC, integrando exercícios e práticas de fisioterapia apoiados por tecnologia e articulando cuidados médicos pós-AVC com soluções inovadoras que permitem reforçar a recuperação em ambiente doméstico. A ciência em diálogo com a comunidadeO desenvolvimento do toolkit e das atividades associadas resulta de um percurso iniciado antes do CHAngeing. O projeto atual representa uma segunda geração de uma iniciativa anterior, financiada pela EIT Health, que permitiu criar a primeira versão desta ferramenta de avaliação de estilos de vida. No âmbito do CHAngeing, o instrumento foi melhorado, incorporando a dimensão da dieta mediterrânica, e deu origem a uma unidade móvel de avaliação, uma carrinha preparada para levar estas ações diretamente à população. |
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O projeto CHAngeing tem vindo a promover diversas atividades em espaços públicos, aproximando a ciência dos cidadãos. Numa parceria com a Ordem dos Médicos, foi organizada e dinamizada a Praça da Saúde e da Longevidade, no Parque Verde, assinalando o Dia Internacional da Pessoa Idosa, com atividades dedicadas à promoção da literacia em saúde e à avaliação de estilos de vida. |
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Seguiram-se iniciativas como uma ação na Mealhada, integrada num evento da Comunidade Intermunicipal da Região de Coimbra (CIM), que reuniu cerca de mil participantes, e as Jornadas Sénior, em Tentúgal, onde a equipa do projeto realizou avaliações ao longo de um dia. Estas atividades, que têm sido amplamente participadas e bem acolhidas, deverão prolongar-se até o ano de 2027. “O projeto CHAngeing desenvolveu também uma iniciativa inovadora de literacia e comunicação de ciência, baseada na criação de bandas desenhadas inspiradas numa das doutorandas envolvidas no projeto, a Dani”, conta João Malva. Todas as semanas é publicada uma tira no jornal regional Diário de Coimbra, existindo a ambição de alargar a iniciativa a outros órgãos de comunicação, incluindo de âmbito nacional. O processo de criação das tiras de banda desenhada envolve o trabalho colaborativo entre um artista e comunicador de ciência, um aluno de doutoramento e o respetivo orientador. |
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As tiras de banda desenhada transmitem mensagens simples e práticas sobre alimentação, exercício físico, qualidade do sono, ligações intergeracionais e outros comportamentos, promotores de envelhecimento saudável. Ao fim de cinco meses de publicação contínua, a equipa do projeto admite a possibilidade de reunir este trabalho numa coletânea em livro, reforçando a dimensão de divulgação científica junto dos cidadãos. A importância do projeto para a região Centro“O CHAngeing é extremamente relevante, não apenas para a UC, que assume a coordenação de um projeto desta dimensão, mas também para a região Centro do País”, refere o coordenador do projeto, sublinhando a importância do foco na qualidade do envelhecimento no contexto português e europeu. “A população está a envelhecer a um ritmo muito elevado, e a região Centro é uma das mais envelhecidas da Europa, com alguns municípios a terem já o perfil demográfico que se espera para a média europeia em 2060”, salienta. |
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“Temos que desenvolver boas práticas inovadoras para promover a vida saudável das pessoas, mas também para antecipar as respostas necessárias para o futuro do envelhecimento”, acrescenta. Nesse sentido, “laboratórios vivos nas regiões das Terras do Sicó ou nas áreas montanhosas próximas da Serra da Estrela” têm servido para implementar estas boas práticas adaptadas ao território. |
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Como destaca João Malva, o consórcio Ageing@Coimbra, com o apoio da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro (CCDRC), tem vindo a trilhar um notável percurso na promoção do envelhecimento saudável, desde a sua criação, em 2013, através de iniciativas como o Encontro Regional do Envelhecimento, que distingue boas práticas inovadoras de instituições da região Centro. As redes e iniciativas em envelhecimento“Em 2013, não havia esta preocupação, tão marcada, com o envelhecimento, mas já existiam muitas pessoas a trabalhar, indiretamente, em projetos de investigação nesta área. O Ageing@Coimbra agregou essas energias e permitiu criar um contexto estruturado que levou à distinção da região como região europeia de referência para o envelhecimento ativo e saudável”, destaca. Dessa base surgiram projetos em cascata, como o ERA Chair, com a contratação de uma equipa de investigação dedicada ao estudo do envelhecimento, e o Instituto Multidisciplinar de Envelhecimento (MIA-Portugal). “O CoLab4Ageing, liderado pelo Professor Lino Ferreira, e a nossa admissão na EIT Health também são produtos do Ageing@Coimbra”, indica o coordenador, enfatizando como estas iniciativas consolidaram a estratégia da universidade e da região para enfrentar os desafios do envelhecimento. O Excellence Hub prolonga esta cadeia de inovação, permitindo ligações com outros projetos europeus. Entre estes, destaca-se a proposta de Doctoral Network em One Health e Envelhecimento, que procura investigar como a exposição a poluentes ambientais ao longo da vida pode afetar a microbiota intestinal e contribuir para um envelhecimento de má qualidade. O papel da FMUC e o prestígio internacional“Este projeto é da UC como um todo, mas o mérito principal é da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra”, sublinha o coordenador, explicando que foi neste contexto que nasceu também o Ageing@Coimbra. Com o apoio da Reitoria e do Instituto de Investigação Interdisciplinar, a FMUC deu impulso e suporte incondicional ao projeto, criando uma estratégia científica e societal que levou a ciência “fora de portas”, aproximando investigação e sociedade, promovendo o diálogo intergeracional e combatendo mensagens idadistas. Esta visibilidade permitiu ao Ageing@Coimbra integrar diversas redes europeias e atrair financiamento competitivo que, por sua vez, gerou postos de trabalho, atraiu e reteve talento e criou massa crítica na investigação em envelhecimento. Segundo o coordenador, “grandes projetos atraem grandes projetos e isso cria uma bola de neve”, consolidando a reputação internacional da UC e dos parceiros da região. As expectativas, os desafios e o impacto do CHAngeing“Tenho muita expectativa relativamente ao impacto deste projeto, mas esta tem que ser moderada”, admite o João Malva. “Acho que a minha maior ambição é a de ter uma ciência mais dinâmica, mais competitiva, que puxa pela economia e pela sociedade”, acrescenta, destacando o papel do projeto na sustentabilidade dos sistemas científicos das duas regiões envolvidas no projeto. Apesar de se tratar de um projeto com muito potencial e provas dadas, a coordenação do CHAngeing não está, naturalmente, isenta de desafios. “A coordenação de equipas muito vastas, com interesses individuais distintos, exige alinhar vontades, o que consome muita energia”, refere. A articulação entre os Hubs de Coimbra e de Creta, assim como a gestão de expectativas da própria Comissão Europeia relativamente ao desenvolvimento do projeto, demandam um delicado equilíbrio entre ambição e limites institucionais. A burocracia e as regras de contratação pública são outro obstáculo significativo. “Quando vamos a Bruxelas para nos apresentamos lado a lado com executivos de grandes companhias, temos de planear tudo e iniciar processos muito burocráticos com muita antecedência, o que consome imensa energia que deveria ser aplicada em inovação e criatividade”, exemplifica o coordenador, destacando que a tensão entre “aquilo que é uma atividade executiva ágil e a realidade burocrática” é um desafio constante. |
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Quando questionado acerca do que destacaria como sendo a principal aprendizagem resultante da coordenação do CHAngeing, João Malva destaca a consciência do valor da ciência como motor de transformação social. “Uma economia e uma sociedade instruídas com o poder da ciência têm uma robustez muito maior do que uma sociedade que não é inspirada pela ciência, mais exposta a populismos e mensagens negacionistas sobre o valor da ciência”, observa. A experiência na coordenação veio ainda comprovar que a agregação de energias dispersas em torno de uma estratégia comum aumenta exponencialmente a visibilidade e a força do projeto: “Todos juntos somos muito mais fortes do que individualmente, e nós na Universidade de Coimbra temos um enorme potencial que se vai materializando em muitas áreas. A do envelhecimento é claramente uma delas”, conclui.
fotografias gentilmente cedidas porJoão Malva e Eliane Sanches |







