Lucerna | Maria Laureano
Na Pedopsiquiatria, aprendi cedo que a consulta é um lugar complexo - laboratório das emoções - onde o encontro terapêutico traz para cena brinquedos e desenhos que nos amparam em construir e reconstruir biografias emocionais e relacionais.
Um pequeno desvio no funcionamento mental ou disrupção no desenvolvimento psicoemocional não é apenas um dado estatístico, é uma trajetória que estamos a tempo de reescrever. Emoção, pensamento e comportamento são o objeto de estudo que nos permite alcançar a malha neuronal, num corpo e mente que crescem em simultâneo. Mapear um território que muda, enquanto o observamos.
A doença mental pode desenhar-se desde muito cedo, transmuta-se e desafia os risos da infância. As crianças nem sempre a reconhecem como egodistónica. As famílias lidam todas de diferentes maneiras. Os clínicos posicionam-se na tradução da subjetividade para a objetividade clínica, algumas vezes em contextos organizacionais que resistem à evidência científica.
Quando procuro, em mim, o momento em que me tornei Pedopsiquiatra, encontro a raiz do interesse pelo comportamento e pelas dinâmicas relacionais que o cérebro orquestra lá atrás. Ainda no Atlântico Norte, onde se situa a minha mui nobre Ilha Terceira, onde o contexto familiar, cultural e social me cativou para olhar o outro, com a curiosidade que procura entender. Em Coimbra, amplifiquei esse interesse, somei-lhe conhecimento científico ministrado por figuras de relevo, na Faculdade de Medicina e no Hospital. Com o Dr. Aníbal Manuel, meu mentor, aprendi que o rigor clínico é a nossa maior ferramenta, que anda a par com a empatia. Com o Dr. Mário Jorge Loureiro, mestre em nos desarmar das nossas conservas culturais, aprendi a construir um pensamento clínico sistémico. Ambos ensinaram-me que o silêncio, na consulta, diz mais do que qualquer marcador biológico.
Durante muito tempo, definia-me na clínica. Hoje sei que a investigação é um caminho urgente na advocacia pela saúde mental infantojuvenil. Ensinaram-me os meus doentes. Surge, por isso, este mergulho na ciência - no Programa de Doutoramento de Ciências da Saúde - já não como observadora, mas como agente. Muitos relatam um mergulho em mares bravios. Até agora, o que encontrei foi um exercício de expansão que nos leva a criar novas competências, e generosidade e inspiração em novos mentores e novos colegas. Cérebros com ânsia de transformar variáveis invisíveis em evidência.
Atesto, então, que a minha Lucerna hoje não ilumina apenas livros e papers. Ela acompanha-me neste trajeto entre o Hospital Pediátrico e a Universidade - que curiosamente é sempre a subir, e requer gestão do esforço (será uma metáfora?) - a tentar desvendar pontos cegos onde o sofrimento dos mais novos se esconde. Onde a investigação precisa chegar.
Por fim, a convicção inicial mantém-se, o percurso é tão valioso quanto o destino. O caminho agora é alargar o passo e acompanhar os inquietos cérebros que pontuam a investigação em Coimbra.
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Maria Laureano é estudante do Programa de Doutoramento em Ciências da Saúde da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra. |
