Editorial

Depois de algum tempo de interregno, a Voice*MED está de volta, com uma edição de luxo, com contributos de excecional qualidade dos nossos intervenientes.

Ao longo dos últimos meses, as várias viagens de trabalho que tenho realizado, por diversos pontos do mundo, têm servido para reforçar uma realidade que muitos desconhecem ou preferem ignorar... a UC granjeia de um enorme prestígio internacional. Naturalmente, dir-me-ão de imediato, os mais céticos e os profetas da desgraça, que isso só acontece devido à provecta e distinta idade da UC, que durante muitos séculos foi o único espaço de formação académica, científica, cultural e artística não só em Portugal, mas também para países de língua portuguesa. Por isso, a UC tem um legado único, que ninguém pode imitar, roubar ou ocultar. Temos, por isso, uma história, um património, que nos coloca numa posição privilegiada para enfrentar os desafios do futuro, pois não é possível aprender, corrigir, crescer, progredir, se não houver um passado, para sobre ele acrescentar e evoluir.

E na Medicina, isso é particularmente notório, enquanto a FMUC constituiu a única opção para satisfazer o desejo de todos aqueles que queriam dedicar a sua vida à prática da medicina e/ ou à descoberta dos segredos escondidos nas profundezas do corpo humano, ajudando a desvendar o complexo mundo das doenças, em busca de novas formas de tratamento ou diagnóstico. Essa matriz é preservada nos dias de hoje, constituindo, sem dúvida, um local de produção de conhecimento, com descobertas seminais e impactantes na área das neurociências, ciências da visão, oncobiologia e cancro, e ciências cardiovasculares. Mas estes contributos vêm, por agora, essencialmente da ciência básica, com um importante contributo da comunidade clínica. Mas temos de ser ambiciosos, querer ir mais além.

Queremos que as nossas descobertas tenham uma aplicação nos doentes, queremos ver materializado este novo conhecimento em benefício dos cidadãos. Para isso, precisamos de clínicos mais envolvidos, mais comprometidos com a ciência e investigação. Não basta, para uma Faculdade de Medicina que quer estar na linha da frente, entre os melhores, à escala mundial, ter exímios e reputados praticantes. Naturalmente que estas competências, a experiência, a habilidade, são importantes para preparar adequadamente a próxima geração de médicos. Mas os clínicos são igualmente determinantes para fazer chegar as novas descobertas à cama do doente. Para sermos bem-sucedidos nesta difícil e exigente tarefa de melhorar a vida dos cidadãos, teremos de escolher de forma criteriosa e adequada as questões que queremos investigar. Só assim poderemos ser mais eficientes e profícuos no desenvolvimento e aplicação de novas armas no combate às doenças.

O cenário está montado, o guião está escrito (pelo menos parcialmente) e os intervenientes selecionados. Clínicos e cientistas têm ao seu dispor condições únicas, sem precedente, para a realização de investigação translacional e clínica de elevada qualidade, nas mais diversas áreas que a FMUC identificou como estratégicas. Não há desculpas! Temos um biobanco, uma unidade de ensaios clínicos (CTU), um Centro Académico e Clínico (CAC), um instituto de imagem biomédica de excelência (ICNAS), um centro de investigação em franco crescimento, plataformas tecnológicas com equipamento de ponta, como sequenciação genómica, citometria de fluxo, microscopia, e, por fim, um Hospital e outras Unidades de Saúde (ULS-C e IPO), que permitem o acesso a uma base muito alargada de doentes e patologias. Estamos a trabalhar, juntamente com outros parceiros, nomeadamente IPN, ULS-C e ESEnf de Coimbra, num projeto que visa capacitar o CAC de Coimbra nas áreas da inovação e empreendedorismo, permitindo acelerar a transferência do conhecimento, a criação de valor e a concretização de soluções clínica inovadoras, com impacto na vida das pessoas. Que mais é preciso para avançarmos para uma nova e mais ambiciosa realidade, que nos permita ombrear com os melhores? Está nas mãos de cada um de nós...

Se alguém ainda duvida do impacto da poluição à escala global, não perca o testemunho, em 4’33’’, de Filipa Bessa, responsável por um projeto que permitiu demonstrar a presença de microplásticos em pinguins na remota zona da Antártida, demonstrando de forma inequívoca a invasão e disseminação destes perigosos e nocivos por todo o planeta, alertando para uma crise que se junta à perda de biodiversidade e alterações climáticas.

Em Do Curso de Medicina, Inês Laíns, uma “Coimbrinha” de gema, que se orgulha de ter ido sozinha para Boston, partilha connosco a sua bem-sucedida aventura por terras da América, onde, depois de “treinada” na FMUC, brilha agora na reputada Universidade de Harvard, a estudar “moléculas pequeninas” responsáveis pela perda de visão. A história da Inês Laíns é uma inspiração e um exemplo que deixa orgulhosa toda a sua FMUC.

Em Isto é FMUC, vamos conhecer a unidade curricular ‘Princípios e Práticas de Voluntariado’ do MIM da FMUC, que oferece aos estudantes, através de experiências de voluntariado, a formação prática que promove a empatia, responsabilidade social e uma abordagem mais humanizada à medicina, reforçando valores morais e éticos, como a integridade e honestidade.

Em Fora da Medicina, apresentamos o Semente Atelier, um novo espaço cultural, para pessoas que procuram um momento de serenidade e contemplação, convidando assim a uma pausa tranquila no ritmo frenético dos dias.

Diego Veloso, estudante do MIM, é o nosso convidado de Lucerna. Vai poder perceber, através do seu discurso, como a preocupação em cuidar das pessoas o levou de nadador-salvador ao desejo de ser médico.

Por fim, Aline Fidelis prescreve uma abordagem para pessoas boas que querem aprender a ser melhores.

Henrique Girão

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