Heinrich Moritz Willkomm (Mittel Herwigsdorf por Zittau, Boémia, 29 de junho de 1821, – Schloss Wartenberg, Niemes, 26 de agosto de 1895).
A experiência inicial de M. Willkomm na Universidade de Leipzig foi bastante atribulada. Na década de 1840, politicamente turbulenta, envolveu-se nas reivindicações políticas dos estudantes por uma associação e, tal como alguns outros, teve de abandonar o país. Nesta altura, já era assistente de Gustav Kunze, que, sabendo das interessantes descobertas de Boissier e Reuter na Península Ibérica, sugeriu a Moritz que aproveitasse bem este exílio e se deslocasse para lá e fizesse colheitas. E assim foi. Esta acabou por ser apenas a primeira das três viagens de Willkomm à Península Ibérica. Gostou tanto desta primeira experiência que, quando pôde regressar à Universidade, desistiu do curso de Medicina e tirou ciências naturais (botânica). Doutorou-se em 1849 com um estudo sobre a organografia e classificação das Globulariaceae.
A sua segunda viagem à Península Ibérica foi em 1850 e explorou o nordeste e o centro de Espanha. De regresso a Leipzig, casou e, em 1854, tornou-se curador do Herbário da Universidade e assistente na universidade durante um curto período após a morte de Kunze. Depois mudou-se para a famosa Academia Real de Silvicultura em Tharandt como Professor de História Natural. A silvicultura tornou-se o seu principal campo de estudo. Estabeleceu os primeiros princípios da sociologia vegetal moderna correlacionando diferentes espécies a diferentes tipos de vegetação, necessidades do solo e crescimento horizontal e vertical.
Durante as suas viagens pela Europa, conheceu o dinamarquês Johan Lange, e ambos se tornaram colaboradores no estudo da coleção ibérica de Willkomm, o Herbarium Mediterraneum Pyrenaicum et Canariense. Juntos, publicaram finalmente em 1861-80 a primeira Flora da zona, Prodromus Flora Hispanicae. Várias das suas publicações sobre a Península Ibérica foram acompanhadas de detalhadas placas litográficas coloridas para auxiliar na identificação das plantas. A sua dedicação à flora da região valeu-lhe muitos prémios.
Em 1868, Willkomm mudou-se para a universidade em Dorpat (hoje Tartu). O governo russo convidou-o como professor catedrático e concedeu-lhe várias honras, mas só ficou cinco anos devido aos efeitos adversoso do clima para a sua saúde. Antes de regressar a casa, partiu para a sua terceira e última viagem à Península Ibérica, aos 52 anos.
Em 1874, foi nomeado Professor de Botânica e Diretor do Jardim Botânico da Universidade Carolina, em Praga. Este foi o último trabalho de Willkomm. Enquanto esteve em Praga, foi contactado por Júlio Henriques, Professor de Botânica na Universidade de Coimbra, sobre a flora de Portugal. Corresponderam-se durante algum tempo e, quando Willkomm se aproximava da reforma, decidiram o destino do herbário de Willkomm. Foi comprado pela Universidade de Coimbra e a última caixa com material chegou em 1880 com a condição acordada de que seria sempre guardada separada – como acontece até hoje. Em outubro de 1878, Willkomm escreveu a Henriques explicando detalhadamente as suas condições para a venda do herbário e o seu conteúdo [“... mon herbier contenant à présent 10.000 espèces en 100.000 échantillons au moins (il será augmenté encôre par des collections considérables de plantes de la Corse et de l’Espagne, que je recevrai bientôt)...”]. A burocracia frustrou os dois homens por vezes, mas tudo acabou bem.
O Herbarium Mediterraneum Pyrenaicum et Canariense está nos 176 pacotes originais e está organizado de acordo com o Prodromus Florae Hispanicae. São mais de 31.000 exemplares montados em papel fino, ainda muito ácido, hoje bastante quebradiço. Por este motivo, não é possível solicitar o empréstimo deste material, mas todo o acervo está disponível no Catálogo online do Herbário de Coimbra.
O Herbário Willkomm inclui plantas recolhidas pelo próprio Willkomm e por outros colecionadores da época. A área geográfica é mais abrangente do que o esperado. Além do Mediterrâneo, dos Pirenéus e das Canárias, existem plantas da Europa Central e até da Ásia Central, até ao deserto de Songaria.
Willkomm reformou-se em 1893/92, mas continuou as suas viagens. Foi durante esta última viagem, em 1895, que morreu, no Schloss Wartenberg, perto de Niemes, com 74 anos.
Existem muitas publicações de Willkomm sobre a flora da Península Ibérica, sendo as mais relevantes de todas a Flora, os Icones e as Illustrationes, esta última com belas ilustrações do próprio Willkomm.