Júlio Augusto Henriques (Arco de Baúlhe - Braga, 15 de janeiro de 1838 – Coimbra, 7 de maio de 1928) licenciou-se em Direito na Universidade de Coimbra e depois em Filosofia, onde se doutorou em 1865 com a tese “As espécies são mutáveis? Tornou-se professor em 1869 e, no espaço de três anos, leccionou botânica pela primeira vez. Na altura, a botânica no país era muito negligenciada, mas Henriques desenvolveu uma grande paixão pela disciplina e aproveitou as reformas educativas da época para alterar a situação em Coimbra. Em 1873, Henriques recebeu a Cátedra de Botânica e Agricultura e, pouco depois, tornou-se também diretor do Jardim Botânico. Utilizou a sua formação em direito e administração, aliada à sua personalidade impulsionadora, para concretizar a sua visão de um instituto universitário que combinasse ensino e investigação, apesar dos os escassos recursos disponíveis. Em poucos anos, fez de Coimbra o centro da botânica em Portugal. Organizou o disperso espólio existente numa Biblioteca e num Museu de Botânica, limpou o Jardim, criou laboratórios bem apetrechados com microscópios comprados no estrangeiro, nomeadamente em Berlim, e adquiriu em 1880 o herbário de Moritz Willkomm que serviu de base à flora Prodromus Florae Hispanicae (Willkomm & Lange, 1821-1895).
Um dos grandes realizações de Henriques foi o estabelecimento de redes de contactos no país e no estrangeiro, que contribuíram para a boa reputação do Instituto. Em 1880 fundou a Sociedade Broteriana, destinada a profissionais e amadores, que se empenharam na recolha de exemplares para o herbário, tanto em Portugal como nas suas antigas colónias. Henriques trocou sementes para o jardim com muitos outros jardins em todo o mundo e duplicados de exemplares de herbário com outros herbários europeus, aumentando muito as colecções de Coimbra. Enviou também exemplares de herbário a especialistas mundiais para determinação e correspondeu-se com eles. A publicação regular da Sociedade Broteriana, o Anuário, era também enviada por troca para todas as bibliotecas botânicas dentro e fora da Europa, o que aumentava enormemente os recursos bibliográficos botânicos de Coimbra. Em Portugal, estabeleceu ligações sólidas com outros institutos e certificou-se de que duplicados de taxa portugueses eram enviados para a Escola Politécnica de Lisboa, a qual mais tarde se tornou uma universidade (o herbário é LISU). Colegas botânicos de Lisboa e do Porto tornaram-se amigos correspondentes de longa data, como Pereira Coutinho e Gonçalo Sampaio. Na sua procura de contactos, tornou-se membro de várias sociedades científicas botânicas de renome em toda a Europa.
Como principais colaboradores, Henriques escolheu o alemão Adolfo Möller como jardineiro-chefe, Joaquim de Mariz como naturalista e Manuel Ferreira como coletor. Muito do trabalho florístico desenvolvido em Portugal e nas colónias deve muito à dedicação destes três homens. Henriques incentivou todos a colher plantas para o grande desiderato, uma nova Flora de Portugal para atualizar a publicação de Brotero de 1804.
Ele próprio, percorreu várias zonas montanhosas de Portugal, as Serras da Estrela, do Marão, Buçaco, Gerês, Caramulo, Lousã, Macieira, Castro-Daire, e foi a África, a São Tomé e Príncipe. Os seus trabalhos foram publicados no Boletim da Sociedade Broteriana e cobrem um largo espetro: plantas vasculares, gimnospérmicas, fungos, diatomáceas e incluem o primeiro relato florístico de São Tomé e Príncipe e a primeira Flora regional de Portugal, o Esboço da Flora da Bacia do Mondego. Júlio Henriques foi muitas vezes um mediador na procura de um bom botânico para trabalhar e colher em diferentes partes do império português. John Gossweiler, o suíço que colheu durante 40 anos em Angola para o governo português, é um bom exemplo disso.
Henriques sempre prestou particular atenção aos aspetos mais práticos da botânica, respondendo a todo o tipo de questões dos agricultores na Gazeta das Aldeias e dirigiu várias publicações sobre os problemas da agricultura nas colónias, como Agricultura Colonial: Meios de a Fazer Progredir e Instruções Práticas Para a Cultura das Plantas que Dão a Quina. De facto, a maior parte das plantas de Cinchona para extração de quinino enviadas para as colónias, sobretudo Angola e São Tomé, foram originalmente cultivadas no Jardim Botânico de Coimbra.
Contrastando com o vasto leque das suas atividades e com a sua obra cosmopolita, Henriques era um homem modesto, que se esquivava a várias honrarias e cargos de relevo. Uma das exceções foi a sua deslocação a Uppsala, em 1907, para representar a Universidade de Coimbra nas comemorações do bicentenário do nascimento de Linnaeus, ocasião em que lhe foi atribuído o grau de doutor honoris causa. Em 1874, casou com Zulmira Angelina de Magalhães Lima (1852-1909), de ilustre família de Aveiro, e viveram no Colégio de São Bento, onde então se situava o Instituto Botânico, ainda hoje a casa da botânica em Coimbra. Foi membro do Conselho de Artes e Arqueologia e o seu interesse pela pintura não se limitava à mera contemplação, estando conservadas no Arquivo de Botânica várias das suas aguarelas de orquídeas selvagens e cogumelos.
Júlio Henriques aposentou-se em 1918, com 80 anos, mas continuou a trabalhar como naturalista e oficialmente como diretor do Herbário durante mais 10 anos. O Herbário por ele fundado há quase 150 anos cresceu muito desde então e mantém a boa reputação original.