Quercus suber L. (sobreiro) é uma árvore mediterrânica com origem na
Era Terciária (entre o período Oligoceno e Mioceno), e, segundo alguns
autores, existe desde a formação da bacia do Mediterrâneo, há mais de
60 milhões de anos. Pertence à Ordem Fagales, Família Fagaceae e Género
Quercus. O género das quercíneas possui mais de 600 espécies distintas
distribuídas por todo o mundo, entre elas o sobreiro, uma das
quercíneas mais jovens. Quercus suber é endémico do sudoeste da Europa
– Portugal, sul de Espanha, sul de França, Itália e noroeste da antiga
Jugoslávia – e norte de África – Marrocos, Argélia e Tunísia. Pensa-se que o centro primário de difusão do sobreiro tenha sido a
região actualmente coberta pelo mar Tirreno, e que a sua migração se
tenha feito através da cordilheira, que no período Mioceno unia as
regiões desde o centro primário até à Península Ibérica, agora
submersas pelo mar Egeu. Contudo, não existem ainda dados conclusivos
relativamente ao centro de difusão da árvore. A única certeza que
existe é que, independentemente do local inicial de origem, se
estabeleceram centros genéticos importantes no Sudoeste da Península
Ibérica – área actual de sobreiro mais extensa. Em Portugal, foram
encontrados fósseis do Plioceno no Alentejo.
O sobreiro é uma espécie que apresenta muitos polimorfismos, que se
distinguem por certas particularidades das cúpulas, das folhas e dos
frutos. Possui uma raiz aprumada perfuradora no início da germinação,
que assegura a fixação da árvore, e que se completa com o
desenvolvimento de raízes laterais robustas, que por sua vez se
ramificam e dão origem às radículas. As radículas desempenham um papel
activo muito importante no crescimento da árvore, o que explica a
regeneração natural do sobreiro em ambientes hostis. As folhas
persistem em geral dois anos, são pequenas, recortadas e com cutícula a
revestir a epiderme. Floresce, no nosso país, entre os meses de Abril e
Junho, podendo prolongar-se por Agosto e Setembro. A maior diferença em
relação aos outros carvalhos é a presença de um tecido suberoso – a
cortiça – a envolver o tronco e os ramos. A cortiça é constituída
essencialmente por suberina, mas possui também celulose, taninos,
lenhina, ceras e outros polissacáridos, que lhe conferem propriedades
químicas, físicas e mecânicas únicas. Por este motivo, e por ser um
tecido com capacidade regenerativa, a cortiça tem extrema importância
económica, e é utilizada em diversos sectores da indústria, em
múltiplas aplicações. A árvore do sobreiro começa o seu desenvolvimento alimentando-se
das reservas nutritivas da semente (bolota), que fornecem energia
suficiente para iniciar a formação da raiz e das primeiras folhas.
Depois de fixadas ao solo, as raízes do sobreiro, em especial as
radículas, absorvem os nutrientes minerais e a água, necessários ao
crescimento. O sobreiro cresce simultaneamente em dois sentidos:
vertical e horizontal, resultando uma árvore adulta muito robusta, que
pode atingir entre 10 e 20m de altura. Apesar das folhas persistentes,
o sobreiro não cresce durante todo o ano de modo uniforme. No Inverno,
devido ao frio, a árvore entra num período de latência, durante o qual
não produz lenho e cortiça, reduzindo ao mínimo toda a actividade
vegetativa. Na Primavera, retoma a actividade em pleno, que se prolonga
até ao Verão. No fim do Verão, princípio de Outono, quando a humidade
do solo atinge os seus valores mais baixos, ocorre de novo uma redução
na actividade. No Outono propriamente dito, a actividade do sobreiro
mantém-se mais baixa, devido à diminuição da temperatura, até chegar
novamente o Inverno. À medida que a árvore adulta se desenvolve,
diminui a formação de lenho e de cortiça, continuando o crescimento de
ramos e folhas, o que conduz ao aumento desproporcionado entre a copa e
a raiz. O sistema radicular, com o passar dos anos, começa a não ter
capacidade para alimentar uma árvore tão robusta, pois os solos
ocupados pelo sobreiro são em geral muito pobres. Assim, quando as
raízes deixam de ter capacidade para absorver a quantidade de
nutrientes mínima, necessária para assegurar o metabolismo vital,
começam a manifestar-se alguns sintomas de senescência, como o
afrouxamento do crescimento do lenho, os ramos sucessivamente mais
curtos, amarelados e secos, o aparecimento de pragas e de doenças. O
processo de envelhecimento poderá ser mais ou menos longo, dependendo
das condições ambientais.
O sobreiro é uma espécie muito resistente, com adaptações fisiológicas
xerofíticas típicas. Apesar de ser apontada como uma espécie menos
resistente a situações de stress hídrico do que a azinheira, Oliveira
constatou que as árvores de sobreiro apresentam uma disponibilidade
hídrica elevada mesmo durante o período de seca estival (potencial
hídrico de base > -0,7 MPa). A mesma autora refere ainda que os
recursos hídricos das árvores deverão estar relacionados com o seu
sistema radicular profundo e extenso, capaz de obter água a partir das
zonas mais profundas do solo e afastadas do tronco, respectivamente
(apenas as temperaturas baixas de Inverno parecem limitar a capacidade
de absorção e de transporte dos nutrientes até à raiz).
Relativamente às condições ambientais em que se desenvolve, o sobreiro é uma árvore muito pouco exigente.
“Nas condições tão frequentemente ingratas de solo e de clima do nosso
País, o sobreiro é uma árvore preciosa. Nenhuma outra espécie
florestal, que se lhe avantage ou pelo menos iguale em valimento,
consegue vegetar em terras tão secas e tão pobres e em condições de
clima tão adversas por vezes à vegetação lenhosa. Nenhuma árvore dá
mais exigindo tão pouco. (…) Extensões enormes, do Norte ao Sul de
Portugal, e até agora pouco mais do que improdutivas, podem ser
valorizadas pela subericultura. Confrange encontrar ainda,
especialmente no Sul do Alentejo, áreas extensíssimas nos terrenos
pobres do carbónico submetidas à cultura cerealífera mais primitiva,
com poisios de oito e dez anos, e onde o sobreiro, nascido pelos acasos
da disseminação natural, é exterminado pela relha da charrua ou
destruído pelos gados. Terrenos pobríssimos das nossas serras, mas com
aptidões florestais; charnecas de vegetação degradada que apenas
proporcionam mesquinha pastagem; terras miseráveis de centeio em
alcantilados serros, hoje fácil presa à erosão, podem ser utilmente
revestidas pelo sobreiro.” - in Subericultura, Natividade, J.V. (1950) .
Texto adaptado de "Diversidade de fungos ectomicorrízicos em
ecossistemas de Montado" Tese de Doutoramento de Anabela Marisa de
Jesus Rodrigues Azul (2002) |  |