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Os Andrada e Silva: De Coimbra à Independência do Brasil

Fundados os estudos das ciências naturais pela Reforma Pombalina, houve que recrutar entre os seus mais destacados estudantes os que no futuro seriam docentes da Universidade. José Bonifácio de Andrada e Silva, natural de Santos, Estado de São Paulo, foi um exemplo notável entre os estudantes formados na Faculdade de Filosofia que depois foi uma dos seus mais destacados professores. Regressado à terra natal teve um papel de destaque no processo da independência do Brasil.[98]

José Bonifácio formou-se em Filosofia Natural e Direito Canónico, em 1787 e em 1788, respetivamente. Após a conclusão dos seus estudos em Coimbra, iniciou, em 1790, um período de estadas nos grandes centros científicos da Europa que se prolongou até 1800. Durante este período trabalhou ou conheceu os melhores institutos da França, Itália, Alemanha, Dinamarca, Holanda, Suécia, Grã-Bretanha, etc. Os seus méritos científicos permitiram-lhe ser eleito membro das Academias de Estocolmo, Copenhaga, Turim, da Sociedade dos Investigadores da Natureza de Berlim, das Sociedades de História Natural e Filomática de Paris, da Sociedade Geológica de Londres, Werneriana de Edimburgo, Mineralógica e Lineana de Jena, Filosófica de Filadélfia, etc. Foi ainda membro da Academia Imperial de Medicina do Rio de Janeiro.

Na capital francesa teve por mestres nos seus estudos de Química os continuadores de Lavoisier: Jean-Antoine Chaptal e Antoine-François Fourcroy. Estudou Botânica com Antoine-Laurent de Jussieu. Foi discípulo de René Just Haüy, o fundador da Mineralogia em França, aprendendo com ele Cristalografia e Mineralogia. Os seus conhecimentos em Metalurgia foram aprofundados sob a supervisão de Balthazar-Georges Sage, que, na época, era o diretor da Escola de Minas de Paris. Este naturalista, reconhecendo os dotes científicos de Andrada e Silva, incitou-o a prosseguir a sua peregrinação europeia. Na Escola de Minas de Freiburg foi discípulo de Abraham Gottlob Werner, o mentor do neptunismo, teoria segundo a qual as rochas da crosta terrestre se tinham formado por cristalização num mar universal que cobriu toda a Terra. Nessa mesma escola, Andrada e Silva foi colega do famoso naturalista Alexander Von Humboldt, o autor de Kosmos e irmão mais novo de Wilhelm Humboldt.

Após dez anos de intensa atividade científica por toda a Europa, regressou a Coimbra, dedicando-se ao ensino da Metalurgia.[99] José Bonifácio foi nomeado Intendente Geral das Minas e Metais do Reino (Carta Régia de 18/05/1801). Entre 1807 e 1820 desempenhou o cargo de Superintendente do Rio Mondego e Obras Publicas da Cidade de Coimbra com a missão de executar um programa promovido pelo governo mariano que visava aproveitar o potencial natural do Reino com vistas à sua modernização.[100] Paralelamente à sua atividade docente desempenhou o cargo de Intendente Geral de Minas e Metais do Reino. Foi também Administrador das minas de carvão de Buarcos e de S. Pedro da Cova e das Reais Ferrarias da Foz de Alge, situadas num afluente do Rio Zêzere. Exerceu o cargo de Diretor do Laboratório de Docimasia da Casa da Moeda em Lisboa, onde se determinava a proporção em que os metais estavam contidos nos minérios. Foi ainda da sua responsabilidade a criação de um laboratório destinado ao apoio de prospetores mineiros em Portugal e no Brasil.

O seu nome, juntamente com o dos químicos suecos Jöns Jakob Berzelius e Johan August Arfwedson, e ainda o do francês Claude Louis Berthollet, está associado à descoberta do elemento químico lítio, o terceiro da Tabela Periódica, depois do hidrogénio e do hélio. Com efeito, foi a partir dos trabalhos publicados por estes químicos que em 1818 outro grande químico, Humphry Davy, em Inglaterra, aplicou a recém-descoberta técnica da eletrólise para isolar o novo elemento, a que deu o nome de lítio, do grego lithos (pedra). Andrada e Silva anunciou a descoberta de 12 novos minerais, quatro novas espécies e oito variedades de espécies conhecidas num artigo da revista alemã Allgemeines Journal der Chemie, publicada em 1800 em Leipzig, Entre os minerais descritos estavam a petalita e o espoduménio, que são aluminossilicatos de lítio. O artigo tinha por título (traduzido para português): Exposição sucinta das caraterísticas e das propriedades de vários minerais novos da Suécia e da Noruega, com algumas observações químicas sobre os mesmos. A importância deste trabalho justificou a sua publicação em inglês no Journal of Natural Phylosophy, Chemistry and the Arts (1801) e em francês no Journal de Physique, de Chimie, d’Histoire Naturelle et des Arts (1800). Hoje em dia uma Galeria de Minerais, cuja origem remonta à época pombalina, no Departamento de Ciências da Terra da UC tem o nome de Andrada e Silva.

Outro Andrada e Silva notável, Martim Francisco Ribeiro de Andrada (Santos, 19-4-1775 - Santos, 23-2-1844), foi um naturalista com interesse especial pela mineração, também ele formado pela UC. Graduou-se em Filosofia e Matemática em 1798. Especializou-se em mineração tendo sido nomeado Inspetor das Minas e das Matas de São Paulo. Realizou um inventário mineralógico da província, pesquisa mais tarde complementada, com a colaboração de José Bonifácio, divulgada como apêndice do livro Geologia Elementar Aplicada à Agricultura e à Indústria. O inventário teve uma edição em francês com o título Amerique meridionale. Voyage mineralogique dans la province de Saint Paul, du Bresil.[101] Martim Francisco chegou a Presidente da Câmara dos Deputados e Ministro da Fazenda do Império do Brasil (1822) e foi membro da Assembleia Constituinte em 1823 por São Paulo e pela mesma província deputado de 1836 a 1842.

José Bonifácio tinha retornado à sua terra natal em 1819. Ficou conhecido como o Patriarca da Independência do Brasil. A Carta que escreveu a D. Pedro, datada de 1 de setembro de 1822 foi decisiva para a proclamação consumada no dia 7 de setembro. Afirmava:

Senhor. O dado está lançado: de Portugal não temos a esperar senão escravidão e horrores. Venha V.A.R. quanto antes e decida-se, porque irresoluções, e medidas d’água morna, à vista d’esse contrario que não nos poupa, para nada servem, e um momento perdido he uma desgraça. Muitas cousas terei a dizer a V.A.R., mas nem do tempo nem da cabeça posso dizer.

 

[98] Marques, Adílo Jorge – José Bonifácio de Andrada e Silva, Naturalista. Um lado desconhecido da Historiografia. Norte Ciência, vol. 2, n. 2. 2011. p. 59-70.
[99] VARELA, Alex Gonçalves; LOPES, Maria Margaret; FONSECA, Maria Rachel Fróes da – As atividades do naturalista José Bonifácio de Andrada e Silva em sua 'fase portuguesa' (1780-1819). História, Ciências, Saúde – Manguinhos [online]. 2004, vol.11, n.3, p. 685-711.
[100] VARELA, Alex Gonçalves – A atuação do ilustrado José Bonifácio de Andrada e Silva no cargo de Superintendente do Rio Mondego e Obras Publicas da Cidade de Coimbra (1807-1820). Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH • São Paulo, julho 2011. Disponível em http://www.snh2011.anpuh.org/resources/anais/14/1307388715_ARQUIVO_TextoANPUH2011AlexVarela.pdf. Consultado em 19/12/2011.
[101] VARELA, Alex Gonçalves – As viagens científicas realizadas pelo naturalista Martim Francisco Ribeiro de Andrada na capitania de São Paulo (1800-1805). Topoi. Revista de História do Programa de Pós-Graduação em História Social da UFRJ. v. 8, nº 14. 2007. P. 172-205.