ANA BRAZ

a leitora

Lotária fechou o livro e perguntou ao nosso grupo se alguém tinha mais alguma questão para fazer. Duas horas e meia depois de quinze vozes femininas a defenderem ou a atacarem com tamanha paixão as personagens de Dom Casmurro, o cansaço já pairava pelo ar.

“Bom, então a sessão de hoje está encerrada. Para o nosso próximo encontro, o livro escolhido foi O Papel de Parede Amarelo”.

Em questão de segundos, as cadeiras dispostas em semicírculo estavam vazias. Restávamos só nós as duas.

“Ludmilla, importas-te de fechar o salão? tenho uma reunião com o grupo de representantes do departamento”, disse-me e jogou um beijinho no ar antes que eu pudesse responder que sim.

Era sempre assim, minha irmã mais velha tomava as decisões por nós as duas e só me comunicava. Enquanto pensava sobre os motivos pelos quais a Capitu era inocente, colocava as cadeiras de volta aos seus lugares naquela sala austera e de chão feito com madeira maciça, já com sinais de todos os seus humanos visitantes e insetos residentes. As luzes conversavam entre si com os seus clics e trecs, talvez estivessem a defender o Bentinho e quando os ânimos se exaltavam, piscavam desordenadamente. O couro das encadernações e a fina camada de pó nas lombadas das centenas de milhares de livros que habitavam aquela sala despertavam em mim uma sensação de aconchego e, ao mesmo tempo, de desafio. Pensava em quantos mundos ainda desconhecidos por mim estavam por ali, apenas à espera do meu olhar e das minhas mãos. Se pudesse, viveria ali, sentia-me em casa no meio de tantas ideias e histórias. Uma vez, li que os livros eram a oportunidade de conversar com as mentes que viveram antes de nós e sempre que me encontrava ali, tinha uma curiosidade sobre como isso poderia ser.

A luz tremeu mais uma vez. E outra. E mais uma. Como se fossem os sinais que antecedem uma peça de teatro para na sequência, anteciparem o mergulho na escuridão. Ali, no meio do salão, não tinha a mais vaga ideia de onde estava o interruptor mais próximo.

“Julgas, porventura, que ela é inocente?”.

Achei que estava sozinha, dei um salto e, com a testa franzida, tateei às cegas a sala à procura da voz masculina e mais velha.

“Quem está aqui?”, “era uma reunião fechada”.

“Eu sei, há tempos que me apraz escutar-vos.”

“Há tempos? Nunca o vi por aqui.”

“Ando perpetuamente nas redondezas, como um fantasma a observar os eventos cotidianos.”

“Engraçado, sempre sou eu a fechar a sala e posso dizer que não, nunca esteve aqui.”

“Inacreditável, Machado, o que acabaste de fazer. Não, não acredito mesmo!”, repreendeu uma segunda voz, feminina e com um sotaque engraçado.

“Ora, essa! Mais alguém aqui? Estão brincando comigo, é? Lotária, saia de onde você estiver, esse sotaque não pode ser de verdade.”

“Meu sotaque é um eco dos lugares que percorri, das histórias que absorvi. Cada inflexão carrega consigo a poesia das minhas origens e as marcas do tempo. É um murmúrio de memórias, uma linguagem única que transcende fronteiras e se liga com a própria essência da existência.”

Risos da primeira voz. “Ah, o sotaque de Clarice, uma viagem pelos recantos da poesia e das origens, um murmúrio que transcende até as fronteiras da própria existência. Certamente, um dialeto tão refinado que as palavras se curvam diante dele, como se cada inflexão fosse uma epopeia narrada pelo tempo!”

“Ei, vocês os dois ainda não me reponderam. Quem são e onde estão?”

“Siempre en disputa, como dos ríos que se enredan en la selva de las palabras, Clarice y Machado, tejiendo un laberinto literario donde las discusiones son mariposas mágicas que bailan al ritmo de la realidad.”, uma terceira voz interrompeu-me. Era impossível eu não ter visto três pessoas aqui, impossível. Um carioca, uma pernambucana com sotaque diferente e agora um falante do castelhano.

“Já chega, a sala será fechada em cinco minutos.”

“Sin contratiempo alguno, habitamos en este rincón del mundo, donde la realidad se entreteje con lo mágico en una danza cotidiana”, respondeu-me.

“Ahn? Vivem aqui?”

“Vós ainda não me respondestes, afinal ela é inocente ou não?”, a primeira voz voltou a me perguntar.

“É uma brincadeira de mau gosto, saiam agora.”

“Detesto concordar com ele, mas não é. Vivemos, sim, aqui. E que estranha beleza há nisso....” Respondeu-me a segunda voz.

“Hark, hush! I would fain revel in the stillness.”, mais uma voz desconhecida apareceu e antes que pudesse a procurar, fui surpreendida por outra.

“Oh non, vous avez tous réveillé l’ennuyeux. ”

“Oh, Albert, mon cher, o William é chato mesmo quando dorme!”, respondeu o primeiro intruso.

“Quantos é que vocês são?”.

“Somos muitos, Ludmilla.”

“Como sabem o meu nome?”

“Ao soar do despertar de meu profundo sono, deparo-me com uma assembléia de almas ilustres, onde as palavras tecem o pano da existência. Como trovões que ressoam nos versos, Machado e Clarice, Albert e Gabriel, William e suas penas imortais, unem-se na tapeçaria dos tempos, urdindo uma trama onde a genialidade dança com a eternidade”

“Já estou perdida com tantas vozes. Será que enlouqueci?”

“Ludmilla, não te perdeste nos meandros da loucura, mas sim, embarcaste numa jornada peculiar, onde a sanidade dança com as margens do inusitado. A realidade, para ti, torna-se uma teia de possibilidades, como um livro aberto cujas páginas continuam a se escrever, repletas de encanto e desafio”

“Certo, se não enlouqueci e se não estou sozinha, poderiam, por favor, dizer quem são?”

Antes que qualquer voz se manifestasse, as luzes do salão acenderam-se. Os olhos de Ludmilla vasculharam os espaços do salão e não encontraram qualquer sinal de outras pessoas.

“Ficaram tímidos?” – Ludmilla provocou.

Nada.

“Uma segunda e última chance.” – a leitora insistiu.

Novamente nada. Ludmilla voltou a duvidar do que acabava de viver. “São as noites mal dormidas, certamente”. “Acho que preciso de férias”. Fez uma derradeira verificação e apagou uma a uma as luzes. Não confessaria a mais ninguém, mas tinha esperança de que a chamassem novamente. Demorou-se a trancar a sala. O silêncio manteve-se. Seguiu em direção à casa, frustrada e, ao mesmo tempo assustada. “Será que delirei?”.

Ao chegar, acendeu as luzes devagarinho, assim como uma criança espera o coelho da Páscoa, a fada dos dentes e o Papai Noel, torcendo para que eles se manifestassem mais uma vez. Nada. Tomou um banho. Nada. Conversou com Lotária, mas não lhe disse sobre o que aconteceu. Nada. Jantou. Nada. Fez um chá. Nada.

Não era pessoa de desistir facilmente e resolveu anotar no seu diário sobre o que havia acontecido. Tentou relembrar as vozes e as identificar. Machado de Assis, Clarice Lispector, Gabriel García Márquez, os três primeiros foram fáceis: a insistência um bocado sarcástica do primeiro, as respostas intimistas e poéticas da segunda e o castelhano inconfundivelmente fantasioso do terceiro. Curiosamente, eram os seus três autores favoritos.

Mas…e os outros? Franziu a testa e repassou mentalmente. O inglês mais antigo e a referência a William. Shakespeare, provavelmente. O francês mais sarcástico e quase contemporâneo, Albert Camus. Coincidentemente os últimos livros que lera eram deles: King Lear e A Peste. Pensara em sugerir os dois ao grupo, mas desistira porque os protagonistas eram homens e o propósito do grupo era discutir autoras.

A quinta voz parecia-lhe familiar. O português mais antigo, a entonação das vozes. Riu-se ao se lembrar do professor de literatura dos tempos de colégio. Poderia jurar que era ele a recitar algum soneto. Espera! Soneto, português mais antigo. Camões! Aquele estilo era inconfundível, sua primeira grande paixão literária.

E o último. Quem é que tentaria costurar todas aquelas vozes? O sotaque era diferente. Homem, italiano. Na teia dos pensamentos, perdeu o sono e continuou a rabiscar em seu diário. Como um painel de investigação de suspeitos daqueles dignos de séries estrangeiras de suspense, tentou estabelecer uma ligação entre as vozes. Os três favoritos, os dois que lera por último, o seu primeiro autor favorito. E a sétima voz, de quem seria então? Parecia um enigma. Já não duvidava das vozes, estava claro para si que aquilo havia acontecido, agora seu foco era entender a lógica. Claro que não confessaria a ninguém, gostava de resolver desafios sozinha.

A manhã chegou, mas a resposta à identidade da sétima voz, não. De repente teve a ideia de repetir o dia anterior, a mesma sequência de acontecimentos para ver se descobria mais alguma coisa. Fez um café, tomou um banho, vestiu-se, apanhou o metro das nove e quarenta e cinco, leu o jornal que a senhora do assento à frente lia. Desceu, andou pela calçada da direita, subiu pelas escadas da direita, cumprimentou o segurança da faculdade. Fez sua vida normal até o horário que seria o grupo de leitura. Dirigiu-se à sala, arranjou as cadeiras em círculo, abriu o Dom Casmurro na página da discussão da noite anterior e permaneceu ali durante duas horas e meia.

De som, só os clics e trecs das luzes e os alongamentos das madeiras do chão após um dia de calor.

“Estou aqui.”

“Estou sozinha.”

“Gostaria de falar convosco.”

“Tem alguém aqui?”, uma voz estranha interrompeu o silêncio.

“Sim, quem é?”, Ludmilla apressou-se a responder, cheia de esperança.

“É o segurança, preciso fechar o prédio.”

“Ah, claro, estou de saída, preciso de mais cinco minutos.”

“Sem problema, aguardo.”

Ludmilla reorganizou a sala, cadeira a cadeira. Apagou as luzes uma a uma. Não se demorou, afinal havia pedido cinco minutos. Nada, nenhuma voz a não ser a dela e a do segurança. Repetiu o caminho da volta, como fez na noite anterior. Ao chegar, acendeu as luzes devagarinho, tomou um banho, conversou com Lotária, mas novamente não lhe disse sobre o que aconteceu, jantou, fez um chá. Nada. De novo.

Levou o seu caderno de anotações para a cama e deitou-se. Estava na fronteira entre a vigília e o sono quando ouviu um estalo seco vindo do quarto ao lado. Estava sozinha em casa. Levantou-se de sobressalto e dirigiu-se ao cômodo vizinho. Acendeu a luz e notou um vão no meio da terceira prateleira de livros de cima para baixo. Sobre o velho piso de carvalho, estava ele, estatelado.

Ela esfregou os olhos, beliscou o próprio braço com força. Se isto tivesse acontecido antes do último encontro do grupo, acharia que era apenas uma coincidência, mas agora já não tinha tanta certeza. No chão, aberto ao meio, estava o seu exemplar raro de Frankenstein. As luzes tremeram e os pelos de suas costas ficaram eriçados. Antes que se movimentasse, uma voz doce e estrangeira, esforçava-se por se comunicar em português.

“Eu também anseio por participar desta dança literária. Ludmilla, minha querida, você trouxe uma chama revigorante a este reino de palavras.”

“Que-quem é você?”

Por meio das sombras das árvores a dançarem com o vento e a chuva sob a luz que vinha da rua, uma melodia suave respondeu.

“Ah, Ludmilla, minha interlocutora moderna, é verdade que sou eu, Mary Shelley. Há tanto tempo ansiávamos por compartilhar pensamentos e reflexões contigo. As páginas que você folheia carregam consigo o eco das eras, e nós, criadores de mundos e monstros, encontramos em suas leituras um portal para a contemporaneidade”.

“Ansiávamos?”

A voz de Mary Shelley, envolvida na penumbra da sala, respondeu com uma melodia nostálgica e ponderada.

“Sim, Ludmilla, não foi a primeira vez que nossas vozes tentaram contacto. Há séculos, nossos pensamentos percorrem as páginas, aguardando o momento em que a curiosidade de almas como a tua desvendaria as fronteiras do comum.”

“Porquê eu?”

“Ludmilla, nós, criadores de mundos e observadores silenciosos da humanidade, somos ligados por um fio invisível que se estende além dos confins do tempo e da imaginação.”

A voz de Mary Shelley carregava uma ponderação profunda, como se estivesse compartilhando segredos ancestrais.

“Não compreendo.”

“És a guardiã de uma chama que arde com a mesma curiosidade que inspirou minha própria jornada. A escolha dos autores é, portanto, um reflexo da simbiose entre o leitor e a literatura, uma dança eterna entre as mentes que criam e aquelas que interpretam.”

Diante da resposta de Mary, lembranças antigas ressurgiram. A tarde de primavera quando, entre brinquedos espalhados pelo quarto, arranjou duas cadeirinhas para acomodar os dois irmãos com roupas esquisitas e dizer-lhes que a menina com roupas vermelhas era mais esperta do que eles supunham e que facilmente notaria que era um lobo e não a sua avó.

O passeio pelas dunas da praia no fim de tarde em que explicava ao senhor aviador que as crianças não faziam amizade com raposas nem com flores. Ou quando sugeriu ao senhor magro e alto que um crocodilo falante e com cabelos compridos não era assustador o suficiente, pelo contrário, era muito engraçado.

Lembrou-se também da vergonha que sentiu ao contar aos seus pais sobre aquelas conversas: “essa menina tem imaginação fértil”, “filha, isso já está a ultrapassar os limites”, “não contes a mais ninguém, as pessoas vão rir de ti”. E da cara de ceticismo da psicóloga para qual foi levada pelos pais preocupados com as “visões estranhas” da filha. Antes mesmo de ouvir toda a história de Ludmilla pelas palavras da própria, a senhora doutora já tinha formulado um diagnóstico e um plano de tratamento: menos livros e mais pessoas reais para a menina.

As vozes desapareceram após o “tratamento”, mas a vontade de mergulhar por novos mundos, não. Ludmilla encontrou refúgio em casa dos avós, mais precisamente na biblioteca secreta do avô Lino, seu comparsa na clandestinidade literária e a voz das aventuras que ela ainda não conseguia decifrar. Aos seis anos, ouvia com atenção as peripécias de João Sem Medo. Aos oito, surpreendia-se com a mulher que matou os peixes. Aos dez, encantava-se com os familiares sem fim de Macondo. Aos doze, mergulhava nos olhos de ressaca da Capitu. Quando desbravariam as cidades invisíveis, foi o avô que se invisibilizou.

Aos catorze anos, o inverno deu espaço à primavera repleta de hormonas e caos e frios na barriga. Os ouvidos de Ludmilla acordaram da hibernação ao ouvirem a voz trêmula e por vezes desafinada de Otávio a declamar sonetos de Camões nas aulas de literatura. Conduzidos pelo Professor Esteves, os adolescentes começaram a colocar em quartetos e tercetos as suas angústias e seus sonhos. Como toda a rebeldia própria da idade, conforme a paixão crescia, os versos ficavam mais livres. E como disciplina é liberdade, chegaram às restrições da OULIPO, até que o Professor Esteves foi transferido e o amor acabou.

Ludmilla deixou de escrever, mas nunca deixou de ler. Para curar seu coração partido, impôs-se a uma rotina de mulheres fortes: Woolf, Austen, Espanca, Dickinson e Shelley. Surpreendia-se como mesmo separadas por tempo, espaço e contexto, elas conseguiam descrever com precisão o que se passava em seus pensamentos. Arranjou um espaço para chamar de seu e as palavras voltaram a brotar de si.

Um dia, ao espreitar o jornal do senhor que estava ao seu lado, soube de um concurso literário e sentiu o mesmo frio na barriga de quando seu avô Lino lia os livros proibidos. Não pensou duas vezes e enviou um texto seu. Durante semanas, abria a página do concurso a cada cinco minutos. Até que o resultado saiu e seu texto não estava entre os finalistas. Lotária, notou o desapontamento da irmã e com muita insistência conseguiu, depois de um grande interrogatório, descobrir o que se passava com Ludmilla. Com mais insistência ainda, arrancou o seu manuscrito e, passadas algumas horas, deu seu veredicto.

“Teu texto é bom, mas…”

“Mas o que, Lotária?”

“Falta algo!”

“Falta o que?”

“Hum, não sei…”

“Se não sabe o que, como sabe que falta?”

“O texto tem coerência, coesão, está impecável, mas falta alguma coisa que não sei o que é.”

“Faltava a tua voz, não é Ludmilla?” – a voz fantasmagórica de Mary interrompeu o devaneio da leitora.

“Espera, como sabes em que estava a pensar?”

“Na dança atemporal entre quem escreve e quem lê, uma alquimia sutil ocorre. À medida que tu, Ludmilla, mergulhas nas palavras que compartilho, e eu, Mary Shelley, sou evocada por tua leitura, juntas desencadeamos uma metamorfose em que partilhamos os nossos pensamentos. Nada permanece igual, tudo se mistura.”

“Não é possível.”

“Estás a conversar comigo, não estás?”

“Então quer dizer que quando leio não apenas me transformo, mas transformo também quem escreveu?”

“Exatamente, minha querida.”

“O que as vozes querem de mim?”

“Quando as vozes se perdem no vazio do silêncio e as letras permanecem aprisionadas em livros selados, tornam-se meros murmúrios e marcas inertes. As vozes anseiam por diálogo, enquanto as palavras buscam avidamente serem decifradas. Somente quando encontram acolhimento, ganham vida e significado. Na solidão, são apenas ecos; nas páginas seladas, são somente traços de tinta desprovidos de valor. A verdadeira essência reside na interação, onde vozes e palavras se revelam em conversas e leituras.”

Lembrou-se dos textos que escreveu, revisou e guardou num canto escondido de seu computador. Sentia-se sobre um trampolim, mas paralisada demais para saltar bem como para descer as escadas. Os músculos pareciam pedras, Ludmilla parecia uma estátua. Faltava algo, não sabia o que. Coragem? Inspiração? “E se rissem de novo de mim?”

“Aqueles que se entregam à escrita carregam consigo um temor inerente ao ato de compartilhar. Pois, no ato de tecer palavras, revelam-se não apenas as narrativas que criamos, mas também a vulnerabilidade de nossos próprios pensamentos e emoções. O medo se insinua no íntimo desejo de ser compreendido e aceito, enquanto as palavras, como seres vivos, ansiosamente aguardam a recepção dos leitores. Assim, a coragem do escritor reside não apenas na criação, mas na disposição de enfrentar o desafio de compartilhar as profundezas de sua alma com o mundo.”

“Espera, como sabias que estava a pensar nisso?”

“Desde o instante em que mergulhaste nas páginas que criei, nossas existências se tornaram uma só. A conexão que se estabelece na leitura transcende o simples ato de decifrar palavras; ela une mentes e corações, formando um laço indissolúvel que perdura além das páginas do livro. Assim, a cada palavra absorvida, tornamo-nos cúmplices.”

“Eu? Cúmplice de todos vocês?”, Ludmilla sorriu maravilhada.

“E nós os teus. Sabes isso desde pequena: Grimm, Saint-Exupéry, Lobato.”

“Todos como peças num jogo de xadrez?”

A voz não respondeu mais. Ludmilla não conseguia se acostumar às aparições e desaparecimentos repentinos. “Regras do jogo”. “Quanto mais busco, mais perdida fico”. “Eureka!”. “Descobri o dono da sétima voz!”.


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