ANA CAROLINA GOMES
a leitora
O sol estava a desaparecer. Ou o vestígio de luz que ainda era. Perdia-se na memória o último dia em que se fizera notar limpidamente, pois o estado normal do céu era estar vestido de uma capa densa de nevoeiro acinzentado que do sol apenas permitia uma luz pálida e adoentada.
Os livros infantis, a conta de uma mão que ainda circulava, mostravam um céu azul a rodear um círculo amarelo, mas desde o fim da Quarta Guerra esse era um cenário reservado apenas à ficção.
Terminara há mais de trinta anos e a poluição que causara (sobreposta a um planeta já ambientalmente fragilizado) permanecia. Permaneciam também os problemas de saúde, as dificuldades respiratórias, os problemas de visão causados pelo ar toxicamente carregado, a falta de partes do corpo de quem havia combatido e sobrevivido à Guerra, ou de quem tropeçara nos seus vestígios antes de serem desarmadilhados.
Hoje, os dias nunca amanheciam. Notavam-se por uma luz ligeiramente mais intensa e clara, que amarelecia ao fim da tarde e apenas refletia luzes néon e os amarelos mortiços e intermitentes da parca iluminação pública. O nevoeiro estava palidamente amarelo, por isso o sol estava a desaparecer, analisou enquanto saía de uma porta abaixo do nível da rua – o que também era vestígio da Quarta Guerra. Os destroços, cadáveres de gente e de coisas, o lixo… era tudo tanto que as ruas foram reconstruídas sobre ruínas, deixando os raros edifícios que tinham sobrevivido ao massacre tecnológico e nuclear abaixo do nível da rua.
Levou a mão à prótese mecânica que lhe substituía a perna direita. Mal adaptada, sempre a ameaçar as primeiras manchas de ferrugem, mal oleada, cada guincho que emitia era como uma dor física que sentia, esquecendo que aquela era uma extensão mecânica do seu corpo e da perna que perdera ainda pequena, que não lembrava. Tal como não se lembrava de céus azuis com uma rodela amarela de sol, embora tivesse nascido antes da Guerra.
Tinha de ir a um mecânico. A perna fora uma pechincha em segunda mão, um modelo particularmente bom e responsivo, que certamente pertencera, em tempos, a um antigo militar de alta patente, mas precisava de uma manutenção atenta e contínua. O esforço que depositava sobre ela, no trabalho de todos os dias, também não ajudava.
Ela limpava. Limpava aquilo que poucas pessoas estavam dispostas a limpar, os módulos onde vidas se sumiam, os módulos das vidas que finavam. Libertava os módulos cujos ocupantes morriam para que outros os viessem habitar, por vezes limpava os módulos também dos próprios vestígios do corpo morto. As famílias escasseavam, muitos destes módulos eram ocupados por pessoas solitárias, com família levada pela Guerra, ou sem vontade de ter uma para que outra guerra a pudesse levar.
Os módulos eram as casas. Outra ideia, como o sol, que depois da Guerra era só ideia. A área que permanecia habitável era residual, as paredes erguidas e minimamente seguras, um tesouro. Edifícios públicos, antigas escolas, antigas bibliotecas, antigas faculdades, antigas repartições de governos locais, tinham sido divididas em módulos com o espaço suficiente para dar abrigo ao descanso de quem ia sobrevivendo.
Ninguém apostaria, mas Ela gostava do que fazia, apesar de todas as dificuldades, acrescidas pela perna que lhe dava uma existência cyborg tão comum neste futuro. E gostava do que fazia, pelos vestígios de outros tempos que encontrava nos edifícios retalhados em módulos, nos recantos tornados secretos por ninguém os olhar com atenção. Um teto trabalhado em flores e arabescos, um azulejo quebrado, luzidio e resiliente ainda agarrado a uma parede, um degrau de mármore polido por incontáveis pés apressados ao longo de centenas de anos, livros já não publicados com algumas preciosas páginas legíveis.
Poucos livros existiam ou circulavam por estes dias. Mesmo antes da Guerra, alguns já eram pouco usuais em versão impressa, com o crescimento das versões digitais. Depois, tornaram-se objetos singulares, embora não necessariamente valiosos. A pouca valorização dos livros era mesmo a justificação para a sua escassez. O foco permanecia na reconstrução das condições básicas de vida (de sobrevivência), ninguém se preocupara ainda com a recolha e preservação de livros, menos ainda com a escrita de novos livros. Até a história se registava sem ser escrita, com arquivos de vídeo e fotografia. Histórias novas, mundos novos, romances, contos, poemas… nada. Talvez alguém já tivesse escrito, a Guerra não podia ter dizimado todas as pessoas que escrevem, mas estaria tudo tão guardado numa gaveta bem escondida, relegada ao lugar da vergonha de um passatempo secreto e inútil.
Ela achava que não havia coisa mais útil, principalmente num mundo sem sol. Alguma coisa tinha que magnetizar a esperança e dar alimento aos sonhos.
Chegou ao seu próprio módulo, o mecânico ficaria para outro dia, uma necessidade mais urgente pulsava-lhe no peito. Atirou-se para cima da cama coberta com uma manta cinza pardo – têxtil reciclado, sem tingimento, como quase todos os têxteis acessíveis e distribuídos nos últimos anos. Libertou-se da prótese, como que do peso do dia. Era doloroso desconectar-se do membro mecânico, como era doloroso nunca descansar da pressão que ele lhe exercia nos pontos de ligação à virilha, ou não ter autonomia suficiente para se movimentar na vertical. Uma contrariedade tríplice de dor de que não podia fugir.
Deitou-se, era a posição que se tornava mais confortável quando retirava o apêndice robótico. Recostou-se num monte de almofadas, colocando cuidadosamente uma no lugar onde terminava o pequeno vestígio da perna decepada. Procurou depois debaixo das almofadas uma companhia. Um livrinho em mau estado com poemas riscados a lápis em pedaços aproveitados de envelopes usados. Os envelopes usados riscados por uma tal de Emily Dickinson, tinham sobrevivido a séculos de domínio do poder do dinheiro e dos homens… continuavam a sobreviver.
A Guerra, até ver, tinha tornado o sistema económico omnipotente que existia antes pouco exequível (mesmo que os poderosos donos desse mundo continuassem à espreita, os de hoje, ou os de amanhã, Ela estava convencida de que seriam sempre os mesmos – e eu também e chamaria a isto capitalismo). Mas, por outro lado, a Guerra ajudara a consolidar um mundo dominado por homens durante mais uns anos. Os homens iam para a guerra, os homens matavam, os homens comandavam, os homens eram os heróis (e a isto eu chamaria patriarcado), todas as pessoas não-homem pouco importavam para a história. Mas a Emily tinha sobrevivido a tudo isto. Emily Dickinson era o herói.
Folheou com cuidado extremo o tesouro, encostando-o ao peito até encontrar a página onde tinha ficado. Encontrada a página, cheirou-a, procurando resquícios de papel para lá dos odores entranhados pela história do livro objeto. Ficou com a ponta do nariz e com as bochechas empoeiradas pelo contacto com o livro. Pouco importava, o livro agora também tinha o cheiro dela.
Cada dia perdia (ganhava) uma hora do seu dia a olhar um poema. Achava que tinha percebido verdadeiramente muito poucos, mas poderia sempre voltar atrás e reler. Elevou os dois braços colocando o poema diretamente acima dos olhos, a uma distância longe o suficiente para o ver na totalidade e com as letras focadas. Ainda via bem, mesmo sem a ajuda de óculos, era melhor aproveitar esse privilégio que poderia não durar muito mais anos.
Nesta fugaz Existência
Olhou o poema e sentiu os sons das palavras. Só depois, quando os sons das palavras se naturalizaram como uma música de embalar ouvida desde o útero onde fora gerada, arriscou perceber o sentido. Mas, na poesia, não era o sentido que procurava, gostava do som, da dificuldade desafiante de nem tudo ser direto e óbvio, do aspeto visual irregular.
Interessava-se por tudo o que era diferente da forma como tinha aprendido na escola-técnica, os textos em ecrãs, lineares, simples e pouco palavrosos, diretos, deixando o espaço mínimo para a interpretação. Os tais livros infantis do céu azul e sol redondo existiam só para ensinar a ler, depois de aprender a ler, ninguém seguia a profissão de leitora, nem os livros tinham qualquer utilidade.
Mas mesmo que as letras da legenda do céu azul ilustrado montassem frases tão despidas como “o céu é azul” e “o sol está no céu”, para Ela (que já lera alguma poesia) até essas frases simples eram uma viagem, para um mar de luz líquida e azul de lápis de cera (vamos considerar que neste futuro existem lápis de cera), como nunca nenhum céu foi azul, e um sol dançante que exige ser olhado sem perigo, como nunca nenhum sol pode ser, nem com óculos escuros. E apesar de o azul ser de cera, não derrete a abraçar o sol, rodopia também ao ritmo da mesma dança, e Ela também, rodopia e dança sem posição ou gravidade, sem membros, porque ali nada disso importa…
PI PI PI PI PI
Adormecera em cima do livro, a sonhar com qualquer coisa azul que de que já não se recordava bem. As páginas do livro ganharam uma nova mancha de lágrimas do sistema de auto-lavagem noturno dos olhos. Secaria entretanto, mas tinha de começar a ter mais cuidado, aquele livro teria que durar muitos mais dias.
Hoje ia começar a limpeza de um novo módulo. Olhava para o pequeno smart-pager, aparelho pequeno, retangular, eletrónico, só para a receção de mensagens telegráficas escritas ou, idealmente, ditas (ninguém tinha tempo a perder com tudo o que tivesse mais de cento e quarenta caracteres ou desse muito trabalho aos olhos).
BLOCO L – PISO 2 - SALA IENA
Demorou um pouco a encontrar o local, pois apesar de a mensagem dizer “piso 2”, as placas do edifício diziam “6.º andar”. Mas o esforço de subir e descer escadas valera a pena. Era por módulos assim que não pensava em ser outra coisa e permanecia empregada da limpeza de uma funerária. As paredes do módulo, maior do que a maioria deles, eram revestidas a estantes maciças em madeira, com uma rede metálica a permitir ver o conteúdo. Eram livros. Centenas, milhares de livros. Ou tinham sido, numa primeira análise estavam desfeitos na prisão das estantes.
Ela não desanimou. Uma sala que se apresentava assim, ainda teria algo mais a conceder. Várias mesas de ar pesado, na mesma madeira intemporal das estantes, empilhavam-se encostadas às janelas estilhaçadas, oferecendo a proteção que elas já não podiam oferecer. Reparou que essas mesas tinham pequeninas gavetas… talvez nalguma delas…
Umas mais acessíveis do que outras, esforçou-se por investigá-las, trepando a custo a pirâmide de mesas. Removeu a perna mecânica. Poderia ser mais difícil assim, mas pelo menos não arriscava danificá-la (mais ainda).
Numa das gavetas encontrou um papelinho, um bilhetinho, com várias mensagens enigmáticas, escritas por diferentes letras, com diferentes canetas e assinaturas. Guardou-o, serviria como marcador de livro. Noutras tantas gavetas nada além de um pó fino. Mas naquela… especialmente difícil de aceder, no topo do amontoado de mesas… Um livro. Quase intacto. Esquecido e nunca procurado ou achado.
Deixou-se deslizar pelo tampo da mesa quase perdendo o equilíbrio ao alcançar o chão com o pé esquerdo. Atirou-se à esteira que servia de cama a quem quer que tivesse vivido ali, negligenciando a sua função de limpar essa mesma esteira.
Repetiu o ritual: abriu o livro encostado ao peito, encontrou a página que queria, o primeiro capítulo, cheirou-a. Cheirou-a novamente, profundamente, bebendo toda a materialidade de sensações daquela página – o cheiro forte, quente, empoeirado, acolhedor do papel antigo – nunca o sentira tão presente. Elevou os braços e olhou o início.
Estás para começar a ler o novo romance
Ela leu. Aquelas páginas falavam com ela, obedeceu a tudo o que pediam, descontraiu, recolheu-se, verificou uma segunda vez que a porta estava fechada. Deambulou e viajou pelas páginas, até que todos os resquícios de luz desapareceram.
Atrapalhada, percebendo que o dia passara sem que nada fizesse do que lhe fora estipulado pela agência funerária, sem que fosse ao mecânico fazer a manutenção da prótese, sem que se alimentasse, saiu. Amanhã seria outro dia, compensaria o que ficara a faltar neste.
(Podia agora dizer que Ela se sentia plena e alimentada com a leitura, que nada mais importava, tinha sido o dia mais feliz da sua vida… Não é o caso.)
A caminho de casa foi ruminando uma inquietação crescente. Dos vários capítulos que lera nenhum parecia terminar. Criavam expectativas, acariciavam a atenção, aproximavam-se e insinuavam-se prometendo tudo, para depois terminarem abruptamente, sem continuação, deixando a história e as personagens penduradas, a leitora sufocada. Amanhã teria de continuar a ler o livro, trazê-lo para casa (o que esquecera no meio da atrapalhação).
Ao terceiro dia passado no mesmo módulo, já levantando suspeitas quanto à demora na execução da limpeza, terminou a leitura. Sentada na esteira, ainda coberta com os cobertores cinza pardo do ocupante morto, olhava o livro, com a atenção de um gato que se prepara para tentar apanhar um pássaro.
Deixou-o. Decidida finalmente a prosseguir o seu trabalho. Num canto, por baixo da muralha de mesas, encontrou um computador. Se era certo que era antigo, também era verdade que não era assim tão diferente daqueles com que lidara na escola-técnica, pois se era inegável que a Guerra potenciara o desenvolvimento de muita tecnologia, também era verdade que essa tecnologia não era voltada para a utilização pessoal.
Com alguma surpresa, não muita pois não era a primeira vez que encontrava um computador ainda funcional, embora os outros dois, encontrados num antigo escritório, nada tivessem de especial, carregados de tabelas e números. A máquina antiga ligou, não sem demora. Sem sequer procurar, encontrou um ficheiro áudio.
Enquanto esperava que o programa de reprodução áudio se dignasse a iniciar, foi continuando com a limpeza, pó, pó, pó… e livros transformados em pó e enjaulados, talvez há mais de trinta anos, tão pouco importantes para toda a gente que nem tentaram desfazer-se deles. Invisíveis até na impossibilidade de existência no propósito para que foram criados.
O POVO E O OVO OU O OVO DO POVO NO OVO MAIS O POVO
Irritada, chateada, zangada, o que era aquilo? Até a maquineta velha e escanifobética gozava com Ela. Deu um pontapé no computador, com a perna de cyborg, esquecendo todo o cuidado com ela. Um dos filamentos metálicos quebrou-se. Ela caiu. O computador nada sentiu e continuava a gritar.
ÀS VEZES O OVO SEM POVO MAS DEPOIS O POVO E O OVO
Arrastou-se até ao teclado, determinada a silenciar aquela voz omelete que só lhe aumentava a inquietação inaugurada pelo livro sem finais.
Enfrentando o monitor, munida do teclado, não chegou a premir a pausa do som. O som de repente dissolveu-se. Não era nada e ao mesmo tempo era um metrónomo das ideias que começavam a surgir. Nasceu-lhe uma gargalhada mal ensaiada, estranha e desconfortável para quem a ouvisse, animalesca e crua.
Começou a sentir uma força a bater desde dentro, uma vibração que nascia nas entranhas, sabe-se lá de quais, talvez de todas, uma pulsão, uma loucura ansiosa e vibrante que foi percorrendo todo o corpo em ondas até se encontrar nas pontas dos dedos.
Uma história gritou dentro dela. Trovejavam frases com todas as palavras antigas que só conhecia porque lia livros fósseis: céu azul, sol, ficção, casa, lápis de cera, capitalismo, patriarcado, poesia.
Ela escreveu.
Notas
1. “Nesta fugaz Existência” é o primeiro verso de um dos Poemas Envelope, de Emily Dickinson. [Dickinson, Emily. Poemas Envelope. edições do saguão, 2021.]
2. “Estás para começar a ler o novo romance” é o início do livro Se numa Noite de Inverno Um Viajante, de Italo Calvino. [Calvino, Italo. Se numa Noite de Inverno Um Viajante. D. Quixote, 2022.]
3. “O POVO E O OVO OU O OVO DO POVO NO OVO MAIS O POVO” e “ÀS VEZES O OVO SEM POVO MAS DEPOIS O POVO E O OVO” são excertos do texto POVO/OVO & OVO/POVO, de António Aragão. [Aragão, António. “POVO/OVO & OVO/POVO.” ARQUIVO DIGITAL DA PO.EX. https://po-ex.net/taxonomia/materialidades/fonograficas/antonio-aragao-ovo-povo-povo-ovo/. Acedido 12 janeiro 2024.]
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