AMANDA SANTO
a leitora
Aqui dancei, entre os mudos deuses egípcios,
e ri de seus rostos mutilados.
Rudyard Kipling
o livro estava em cima de Jerônima,
túmulo 123, ala 37.
Duma viu de longe o objeto capa
vermelho-sangue dimensão-formato bem diferente dos habituais buquês e coroas
florais bolos de aniversário santinhos católicos
ali estava uma nova oferenda mortuária
ou a leitura mais recente de um parente com a memória massacrada pelo luto,
nesse caso, talvez o garoto devesse esperar a pessoa voltar apressada para resgatar o
fim da história esquecida na sepultura,
respeitar o tempo do São Longuinho,
a dinâmica dos achados e perdidos.
ficaria escondido atrás de Marcondes, túmulo 118,
ele e Poe
espiaria por meia hora o descanso de Jerônima, até que o livro fosse decretado
oficialmente presente para a morta,
aberto à livre demanda dos vivos.
mas na vida e na morte poucas
coisas cabem no relógio de uma vontade
e a meia hora não viveu nem três minutos,
foi engolida pela urgência
de o garoto tomar o livro.
saltar de trás da lápide com o cão, dar passos de fuga até o 123, levantar a nuvem de areia típica da cidade-fantasma, raspar a mão no tampo de pedra, jogar o livro num tapa para dentro da camisa verde desbotada, foi mal aê, dona Jerô, vem Poe…
a urgência vinha da lembrança. na infância de Duma, a mãe costumava juntar pela cidade objetos como este, perdidos, jogados no lixo, doados aos pobres. gostava de contar ao garoto as histórias que sempre tinham o mesmo título: agora vamos ler O conto mais belo do mundo, Dumita, senta aí. era o melhor momento do dia.
agora pela primeira vez com o seu próprio livro
acompanhado do velho cão Poe
corre para casa,
para o quarto,
uma barraca improvisada dentro do mausoléu da família Tourino.
quando é época de São João, seu Samuel, ancião da comunidade, reúne em volta da fogueira os moradores da necrópole e, entre um gole e outro de licor de Genipapo, se delicia contando os causos das famílias donas dos jazigos abandonados, aquelas em que as gerações pararam de nascer. faz poucos anos que Duma ganhou idade de alguém
capaz de prestar atenção nas ladainhas de seu Samuel. desde então só deu pra gravar na memória fragmentos dos Tourinos, como o fato de que
os primeiros esqueletos do sarcófago foram de um casal morto no Grande Incêndio de 1793, os donos da fábrica de tecidos, gente do dinheiro, meus senhores, minhas senhoras, do dinheiro, gente egoísta por natureza. os descendentes mandaram construir na entrada esse baita arco faraônico onde vocês podem ler, escrito em tinta-ouro, o sobrenome - e a história se seguia para algum caminho de traição, mágoa, irmão, dívida, faca, sangue, palavras e enredos demais para Duma registrar.
talvez essa parte não captada explicasse por que a família construiu só metade do santuário destinado a enterrar os Tourinos que morreriam a seguir.
a casa é mutilad.
da imensa estátua de anjo caído, porteiro do céu, falta um braço
dos cômodos, falta banheiro
da parede dos fundos, falta tudo
aparentemente não concluída,
possivelmente derrubada.
apenas lápides restaram intactas
no lugar que no século vinte e um virou lar
de Duma e da mãe Clarita.
hoje em dia ela fica mais fora do que dentro, a Clarita. passa o dia lavando roupa suja dos clientes do bairro alto no largo das lavadeiras. era lá que ela estava quando o menino chegou em casa trazendo o livro roubado de Jerônima.
finalmente a sós
ele e a oferenda,
Guerra e paz
pra escrever esse nome o simpatia deve saber o que é nascer onde
os outros não param de morrer, tipo aqui, cidade-múmia
a gente guerreia e eles dormem, só sobrevive quem
tem carne em cima dos osso, mesmo assim,
as caveira tão sempre levando de nós
o que os homi tem de melhor
as estátua bonita
a lágrima
a dor
eu queria o céu.
o céu entardeceu durante o Tomo Um, capítulos um a doze. com um cotoco de vela acesa, Duma faz um esforço silencioso para entrar no papel,
não quer que ninguém saiba do rapto do livro.
não que entre os que vivem no cemitério prevaleça alguma lei sobre não pegar o que é dos outros, não há pronomes possessivos onde a dignidade humana foi enterrada. é por isso a cautela de Duma, aqui nada é de ninguém, deus me livre os cara do oito ficarem sabendo, vão me levar a história toda antes que eu termine as
as
duas mil páginas.
na Vila há muita pipa, pião, bola, carrinho de papelão, únicas prendas que os trabalhadores locais conseguem financiar à molecada no abono de natal. mas a verdade é que a diversão maior está sempre naquilo que cada um consegue catar dos mortos. dos vestígios, Duma já construiu um templo no canto que chama de quarto.
o altar poderia parecer uma reverência aos falecidos que moram lá, se ele se importasse.
as caixas de madeira descartadas pela feira popular, ainda com cheiro dos vegetais fermentados, suportam o peso de miniaturas de gesso, terços, bilhetes de amor, espelhos, cartões postais, imitações de arte, vasos, pedras, flores - em breve o livro. Poe não mexe, aprendeu a respeitar a quinquilharia como coisa de valor.
na cama, como chama o colchonete fino apoiado na lápide-cabeceira, acima de onde dorme a morta Tarsísa, o garoto é absorvido por Guerra e Paz.
quer saber se Vassíli vai aceitar Pierre nas partilhas do pai moribundo, se haverá outros jantares na casa de Anna Pávlovna, se o urso passa bem, se Bóris serve pra alguma coisa mesmo ou é só um filhinho inútil de uma mãe desesperada.
sua
faz 30 graus.
so luça
so luça sempre que é exposto a emoções intensas.
joga longe um osso pro cão, vai
sacode a cabeça num espasmo intencional,
ritual de expulsão da franja preta escorregadia,
precisa de espaço
livre
visão limpa para
tirar os olhos pra dançar
vai
vem p a r a. volta
sobre o texto
ora em francês, ora em
português
confusão
prazer
melodia
os olhos
dançam do jeito que nunca ant/
[.]
um barulho seco
interrompe a música.
será que são os cara?
Duma espia pelo buraco norte do lençol-parede dos fundos,
nada.
buraco noroeste
buraco sudeste
ninguém.
[já é meia noite e o céu da vila-cemitério é azul marinho profundo, como as roupas dos cortejos]
sai de casa carregando a vela murcha, pé por pé, persegue o farfalho, desvia das sepulturas,
o farulho continua
o som de folhas de outono
parece brotar de onde jaz Jerônima,
Duma se aproxima da tumba.
Poe na retaguarda, olhar enviesado.
diferente do cão, o menino não tem medo de alma penada. quando nasceu, o mundo já era uma favela instalada no Cemitério Nossa Senhora das Almas Tristes. a mãe, uma
grávida sozinha, foi uma das primeiras criaturas vivas a garantir um canto pra dormir entre os cadáveres. as 50 famílias fruto de desocupações, em 14 anos se transformaram em
100
300
500
pararam de contar.
na medida em que se multiplicavam as escavações para depósito de defuntos,
mais gente chegava e nascia, ampliando a área da Vilalém, como foi batizado o chão esquecido.
então não, criado em companhia de fantasmas e vermes, Duma não tem medo de quase nada. o quase é culpa dos caras do oito.
de repente silêncio.
as folhas estão mudas.
o nada corrói
a incerteza
e o garoto não
evita o escuro
avança
chega perto do 123,
um livro aberto
: A Paixão Segundo G.H.
um livro sobre paixões ficaria bem no seu altar de vestígios. com uma mão na vela, a outra não resiste ao toque áspero da história nova. as páginas, manchas de palavras grossas, carregam a intenção de alguém que finca três pernas no que diz. com as duas que tem, o menino volta pra casa dividido entre a ansiedade de ler G.H. e o desconforto de não entender o fenômeno recente dos livros que brotam numa tumba.
decidiu esquecer o desconforto,
entender nem sempre importa, meu filho, Clarita sempre avisou.
__ _ _ _ _ _ estou procurando, estou procurando. Estou tentando entender. Tentando dar a alguém o que vivi e não sei a quem, diz a si mesma a mulher da Paixão. Duma a devora como uma deusa
incompreensível e absoluta,
porque se há algo reconhecível
a qualquer ser humano sobre-sob a terra é a pura
Beleza
até mesmo a um garoto de 14 anos
até mesmo a um leitor inquieto que já esqueceu a necessidade de ser discreto, lê em voz alta a plenos pul mões e so luços.
mas
acima da voz dele, há um ruído
há um ruído de novo lá fora.
passos, risos, folhas
há um cachorro assustado
aqui dentro
que sem querer
bate na estante
derruba e quebra
a imagem
de São/
/Chico
Duma não se importa.
tomado pelo delírio da metafísica da barata de G.H.,
deixa os tremores de Poe
e a casa Tourino para trás.
sai pelo arco do anjo sem braço, aperta os olhos míopes, ajusta o foco, de longe consegue ver um vulto. e mais outro livro sobre o mausoléu de Jerônima. engasgado por soluços tot talmente f ora de con trole
está decidido a investigar,
chega
diante de outra aparição
outra oferenda para Jerônima,
As ondas
pela primeira vez na vida tem vontade de oração, dizer
: desculpa-porfavor-obrigada, amém
a sejaláoqueexistedepoisdenós.
por falta de uma devoção com nome e endereço, ajoelha em frente ao túmulo da morta, um espírito d deve servir. sem achar na cabeça as palavras certas para reza, resolve roubá-las. nunca tinha lido a lápide com atenção
: Jerônima Caldas
1859 - 1890
Saudades eternas. Sempre seu.
já deu tempo de a caveira velha cansar as homenagens, virar pó deslembrado, então pra quem os livro?
Duma olha mais abaixo das saudades. há um poema escrito no túmulo num idioma que não sabe decifrar. a boca do garoto começa a se mexer sem que ele tenha tomado decisão, lábios assombrados agindo em silêncio. como as espécies de vocações que chegam do além, de repente ele começa a ler a língua indeclamável em alto e bom som, com a intimidade de uma natureza crescente
Taano jẹ nigbagtoujoubo tèilẹ, paski
Ki kojas ki viné ninu wegziste
Weksepte nan fiksiton, nan imajinatyon.
Mowen latile anfanipab dekouswari, ni reyalti,
Tras ohuti wa fun pou sakipoko tii river
alto
Taano jẹ nigbagtoujoubo tèilẹ,
Paski ki kojas ki viné ninu wegziste
Weksepte nan fiksiton, nan imajinatyon.
Mowen latile
mais alto
Anfanipab dekouswari, ni reyalti,
Tras ohuti wa fun pou sakipoko tii river.
as palavras surtem o efeito de um transe em Duma, mesmo que ele não saiba responder o que significam, há a música, há o toque da letra nas cordas vocais, há os lábios que se tocam, a garganta que abre e fecha no ritmo de um vento de verão.
é como se lesse para deus.
a reza braba lota o ar vazio do cemitério. ninguém assiste ao espetáculo além das moscas. a vela morre. mesmo no breu, o leitor de túmulos enxerga o fim
: Para Jerônima, nosso poema favorito.
nenhuma oração pode dizer mais que
um poema favorito na pedra da morte.
as pálpebras de Duma, uma marrom / outra roxa, resultado de uma briga com os oito, piscam em velocidade nova, a boca seca, a saliva é mais salgada, um mar, os espasmos do diafragma, da franja, ondas se intensificam na medida de um alumbramento.
o corpo inteiro derrete
a água que escorre pelo pescoço já não vem da boca mas dos olhos.
olha para o túmulo.
não está lacrado.
passa o dedo na fenda aberta, um leve desencaixe no tampo que mais cedo estava intacto. sente um frio do inferno, coisa nova naquele areão.
tremendo, uma mão segura As ondas, a outra empurra o tampo torto,
forrrzzça… forrrzzça… forrrzzça…
não se importa com as evidências de que a esta altura há na sepultura apenas uma ossada de mulher esquálida devorada na festa das bactérias.
forrrzzça… forrrzzça… forrrzzça…
sabe que há mais felicidade embaixo do que em cima da terra,
seu Samuel ensinou, há a fertilidade fantástica dos fungos, a boemia dos vermes….
forrrzzça… forrrzzça… forrrzzça…
há colônias inteiras alimentadas pelo nosso desaparecimento,
a morte é pura Beleza e vida, meninos…
forrrzzça… forrrzzça… forrrzzça…
abre
a tumba
devagar
olha para o fundo da caixa
quase não pode acreditar.
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