GABRIELLA ANDRIETTA

a Leitora

Myra lavava a túnica com cuidado. O linho era delicado sob seus dedos calejados, como se qualquer movimento minimamente descuidado fosse capaz de rasgá-lo. O sangue contaminava tudo que tocava, o tecido, a água, o ar... Myra odiava aquele cheiro metálico, ela odiava ter que fazer aquilo, ela odiava que Kastos tinha o poder de mandá-la fazer aquilo.

Parando seus movimentos, Myra olhou para as próprias mãos. Vermelhas, feridas de tanto esfregar e manchadas pelo sangue. Consumida pela frustração, Myra joga a túnica no meio do rio e assiste a correnteza levar a roupa embora, deixando um rastro róseo para trás.

– Você acha que isso é uma boa ideia? – pergunta uma voz irritantemente familiar – Aquela túnica é muito valiosa.

– E o que você tem a ver com isso? – retruca Myra e desvia o olhar da roupa sendo levada.

A Leitora ri e se senta ao lado dela nas pedras da margem do rio, sujando sua túnica perfeitamente branca de terra e água. Ela tira as sandálias e coloca os pés na água com toda a graça do mundo.

– Não precisa ser assim – responde tranquilamente, sua voz doce e terna – eu só estou pensando no seu bem.

Agora é a vez de Myra rir, uma risada áspera, cínica.

Meu bem? – pergunta, se virando para olhar nos olhos da Leitora – Quando você já quis o meu bem?

A Leitora sorri delicadamente para ela, seus olhos cor de caramelo brilhando com diversão, como se Myra fosse uma criança que não entendia como o mundo funcionava. Myra odiava aquela expressão.

– Por que você está aqui? – pergunta, desviando o olhar novamente para o rio. A túnica estava presa em uma pedra na parte rasa da margem, o sangue parecia ainda mais vivo por baixo da água cristalina. Myra não fez nenhum movimento para recuperá-la.

– É sempre direto ao ponto com você... – suspira a Leitora. Ela fica em silêncio por um segundo até que Myra a escuta entrar na água com um movimento suave. Com passos delicados, a Leitora atravessa o rio em busca da túnica. Ela pega a peça com cuidado e passa os dedos gentilmente sobre o bordado azul.

Myra a observa com uma expressão vazia. A Leitora é uma das mulheres mais bonitas que ela já viu. Sua pele jovial não tinha nenhuma marca e seus longos cabelos dourados estavam sempre presos em tranças elaboradas e perfeitamente alinhadas. Mesmo ali, com água até a cintura e a túnica suja de terra, ela demandava a atenção de todos. A Leitora era a verdadeira imagem da perfeição. Myra nunca acreditou na perfeição.

– Por que você está aqui? – repete Myra.

– É uma pena... – continua a Leitora, mais uma vez a ignorando – Era tão bonita...

Ela devolve a túnica para o rio. Myra observa o tecido se contorcer na água, passando pelas pedras, se deixando levar pela correnteza.

– Você veio me dizer para não interferir? – perguntou enquanto via a túnica desaparecer no horizonte. Às vezes, Myra queria poder desaparecer assim, só seguir a correnteza para longe de tudo.

– Por que você acha isso? – pergunta a Leitora se aproximando novamente da margem. Ela para em frente a Myra e, com uma mão delicada, força o seu olhar a encontrar o dela – Você acha que você pode mudar alguma coisa? – seu tom doce em meio as palavras cortantes. Myra sentiu um calafrio percorrer o seu corpo.

– Por que você está aqui? – repete Myra, com mais urgência. Ela segura o pulso da Leitora com as duas mãos – Por que você veio?

A Leitora sorri.

– Eu vim trazer uma boa notícia. – anuncia, inclinando levemente a cabeça – A notícia que você espera há anos.

Myra sentiu como se o mundo tivesse desaparecido sob seus pés, como se ela tivesse realmente sido levada por uma correnteza, mas essa não era uma correnteza gentil como a do rio. Essa correnteza era violenta, temperamental, ela arrastava tudo que via pela frente sem se importar para onde ia. A Leitora se debruça e sussurra no ouvido de Myra:

– Você está livre.

As lágrimas começam a cair antes mesmo de Myra perceber o que estava acontecendo.

– Shh... – consola a Leitora, limpando as lágrimas dela com dedos delicados.

– Livre...? – pergunta Myra, sua voz fraca e patética.

A Leitora passa a mão suavemente pelos cabelos dela, como uma mãe consolando a filha.

– Sim, livre... agora somos só eu e você, chegou a hora de voltarmos para casa.

– Para... casa?

– O Templo das Leitoras – esclarece a Leitora, mas Myra não estava mais ouvindo. Ela subitamente empurra a Leitora e se levanta.

– Eu não posso ir... – sussurra, mais para si mesma do que para a Leitora – Callie precisa de mim.

A Leitora sai do rio e estende a mão para ela, mas Myra se afasta.

– Ela não pode ficar sozinha com ele – continua – não pode...

– Você não precisa mais se preocupar com isso. – diz a Leitora, sua voz calma e com tanta certeza que fez Myra estremecer.

– O que isso quer dizer? – retruca, sua voz fraca até para seus próprios ouvidos – É óbvio que preciso me preocupar, ela é minha responsabilidade. Não era você que sempre dizia que eu precisava cuidar dela? Que esse era o meu papel?

– Você não precisa mais se preocupar com isso – repete a Leitora, sua mão ainda estendida – Agora, seja uma boa menina e venha comigo.

Myra continuou se afastando, ela não gostava nem um pouco do rumo daquela conversa. Myra não gostava de se encontrar com a Leitora, sempre teve algo na presença dela, algo... inquietante. Ela era calma demais, eloquente demais, perfeita demais. Agora, olhando para a figura imaculada da Leitora, Myra soube exatamente o que a incomodava. A Leitora olha para o mundo como se nada fosse capaz de atingi-la, como se ela fosse a única coisa importante e tudo deveria girar em torno dela.

Myra conhecia a lenda das Leitoras, jovens capazes de compreender a linguagem da Escritora e ler o futuro. Jovens que só apareciam uma de cada vez. Myra sempre considerou que essas histórias eram exageradas, que a Leitora não era diferente das sacerdotisas que diziam ter o dom da profecia, que ela era uma mulher deslumbrante escolhida para passar a imagem da “escolhida pela Escritora”. Naquele momento, Myra percebeu como estava errada, a Leitora sabe de tudo, ela controla o rumo da história e tem o mundo sob seus pés.

Sem pensar, Myra começou a correr. Ela não podia olhar para trás, não podia parar. Ela precisava fugir dali, da Leitora, desse mundo que ela conduz. Mas antes, ela precisava encontrar Callie.

O caminho de volta passou como um borrão, Myra corria pelas ruas sem se importar com o que ela esbarrava ou com os olhares das pessoas. Se ela parasse, ela veria os olhos da Leitora nos rostos familiares, ela ouviria a voz da Leitora em seus ouvidos, a guiando gentilmente para uma prisão da qual ela nunca poderia escapar.

Quando Myra atravessou o portão, ela ouviu mais do que viu Eris.

– O que você pensa que está fazendo? Chegando nesse estado... – começou, mas Myra a ignorou e continuou correndo até o quarto de Callie. Vazio.

Ela ouviu passos se aproximando rapidamente, ela conhecia aqueles passos, Eris tinha vindo atrás dela. Myra não deu oportunidade para Eris falar, assim que ela passou pela porta, Myra a agarrou pelos ombros.

– Onde ela tá?

Eris ficou sem palavras, ela olhou para Myra com preocupação. Myra não podia culpá-la, ela conseguia imaginar a imagem que ela estava passando naquele momento.

– O que aconteceu com você? – perguntou cuidadosamente. Eris nunca tinha usado aquele tom com ela. Na verdade, Myra não se lembrava de ter visto ela sendo gentil com ninguém além de Callie.

– Não importa – responde Myra – só me diga onde a Callie tá.

Myra viu algo mudando na expressão de Eris, algo triste e melancólico.

– Não – disse – Não, não, não... não era para isso acontecer.

As lágrimas voltaram aos olhos de Myra, elas eram pesadas, mais pesadas do que qualquer outra coisa que ela já tinha carregado. Myra desabou no chão e sentiu algo gélido percorrer todo o seu corpo. Era isso. Era isso que a Leitora esperava dela. Esse tempo todo, ela achou que estava ajudando Callie, mas tudo que ela fez foi levá-la para as garras da Leitora, para uma morte prematura.

– Porquê? – perguntou para si mesma – Porquê tudo que eu toco quebra?

Myra olhou para as próprias mãos. O vermelho que ela viu não era mais do esforço de limpar a túnica, mas do sangue que teimosamente permaneceu em suas mãos. Fazia sentido, ela era uma assassina agora, ela soube disso assim que viu a expressão de Eris. Nunca foi a intenção dela machucar Callie, a dose não era forte o suficiente para matá-la, ela tinha confirmado isso com a boticária, mas isso não importava agora.

A voz da Leitora ecoava nos ouvidos de Myra “você não precisa mais se preocupar com isso”. Ela sabia, sabia desde o início, sabia que Myra seria a pessoa que mataria Callie. “Você acha que pode mudar alguma coisa?” a Leitora tinha perguntado, era isso, esse era o papel dela. Myra era apenas um fantoche na história da Escritora. Para a Leitora, Myra era apenas mais uma personagem na trama e ela tinha cumprido a sua função na narrativa. Agora, ela estava “livre” do seu dever.

Eris não sabia como reagir, ela observou Myra por um longo momento. Por mais que ela se irritasse com a insolência dela, Eris não tinha nenhum prazer em ver Myra assim, tão desolada, tão... apagada. Myra olhava para o chão com olhos vazios e o seu corpo inteiro tremia.

– Vamos. – disse Eris – Vou te levar para o seu quarto.

Myra não reagiu. Ela só ficou ali, sentada, olhando para o chão. Eris tentou segurar um dos braços dela para ajudá-la a se levantar, mas Myra se desenvencilhou com violência.

– Me deixa em paz. – disse sem levantar o olhar.

– Você precisa colocar a cabeça no lugar. – diz Eris, tentado mais uma vez fazer Myra se levantar, mas a reação dela foi a mesma.

– Me deixa em paz – repetiu com o mesmo tom monótono e Eris se exasperou. Ela nunca foi uma mulher paciente.

– Eu só estou tentando ajudar!

– Me deixa em paz – repetiu mais uma vez.

– Fique aí então! – respondeu Eris e saiu do quarto resmungando.

Myra ficou ali, sentada em silêncio, repassando todos os eventos da sua vida... desde que ela pisou os pés na capital, ela teve a atenção da Leitora. Myra sempre achou estranho que uma pessoa tão importante tinha se interessado por ela, uma menina vendida para a escravidão pela própria família. Ela se sentiu tão especial, a própria Leitora a tinha escolhido para servir Callie, a única filha de uma família importante.

A atenção da Leitora se tornou cada vez mais pesada, seus encontros cada vez mais frequentes e mais inquietantes. O assunto nunca mudava, ela deveria servir bem a Callie, garantir o seu bem-estar e felicidade. Não era difícil de se apegar a Callie, uma pessoa gentil e com tanta luz interior, então não foi nenhum sacrifício para Myra cuidar dela.

Tudo desandou quando Callie se casou com Kastos, o primogênito de uma família influente de mercadores. Myra nunca gostou da ideia desse casamento arranjado, ela não gostava de Kastos ou de qualquer outra pessoa daquela família. Eles eram gananciosos e orgulhosos, o completo oposto de Callie, mas o acordo tinha sido selado pela própria Leitora, ninguém podia impedir aquele casamento de acontecer.

Myra se lembrava da conversa que ela tinha tido com a Leitora quando ela anunciou a união das famílias, como ela implorou para que a Leitora mudasse a sua decisão e não deixasse Callie se casar com um homem como Kastos. A Leitora tinha olhado para ela com aquela expressão que ela tanto odiava, aquela expressão que dizia que ela não entendia como o mundo funcionava. “É a vontade da Escritora” foi tudo o que a Leitora disse, e foi o fim da discussão. Myra devia ter feito alguma coisa, ela devia ter Exrado Callie e fugido dali sem olhar para trás.

– Você sabe que é falta de educação sair no meio de uma conversa, não sabe? – pergunta a Leitora, as palavras ásperas mascaradas pelo seu tom doce. Myra não se surpreendeu com a presença dela, na verdade, ela estava esperando por isso.

– Porquê eu? – perguntou.

A Leitora se agachou em frente a ela, ela não estava mais com a túnica branca que ela usava no rio, mas com uma túnica igual à que Myra estava lavando. Um sinal claro para Myra não se opor a ela, do poder que ela tinha naquele mundo.

– É a vontade da Escritora. – diz, como se aquilo fosse suficiente para explicar toda a dor e sofrimento que a Leitora a fez passar.

– E quem é essa Escritora?! – grita Myra – Por que ela quer que pessoas morram?! Por que a gente tem que ouvir as vontades dela?!

Pela primeira vez, Myra vê a expressão da Leitora se tornar turbulenta.

– Não diga uma blasfêmia dessas.

Myra ri, um riso histérico, incontrolável.

– Isso não acabou. – diz – nunca vai acabar, não se ela continuar ditando as nossas vidas... e você, acha que você é especial? Que a Escritora não vai se livrar de você? Ou pior, fazer você viver uma vida sem um pingo de felicidade? Sem amor? Que ela não vai fazer com você o que ela fez com Callie?

– Você não entendeu – responde a Leitora, seu tom sério. – o futuro não é algo que podemos controlar, nós não passamos de personagens à mercê da História da Escritora. Sem ela, nós não existimos.

– Que se dane existir! Eu não quero existir se a minha vida se limitar a seguir as linhas traçadas por... por... seja lá o que a Escritora for! Não se isso significar que eu vou perder tudo com que eu me importo.

– Não quero mais ouvir sobre isso. – declara a Leitora se levantando, sua voz fria e sem emoção – você vem comigo para o Templo das Leitoras e nós vamos seguir com a Narrativa.

– Eu me recuso. – afirma Myra, ela nunca tinha tido tanta certeza de algo na sua vida – Eu não vou mais me submeter a isso.

– Você não tem opção. – responde a Leitora e, com isso, Myra sente seu corpo ficando cada vez mais leve até ela perder a consciência.

A Leitora se levanta e alisa a própria túnica.

– Quanto a vocês – continua a Leitora – não sei o motivo de a Escritora trazer vocês para esse momento, talvez esse seja o início da História, ou ela só queria que vocês conhecessem a Myra.

A Leitora dá de ombros. Ela percebeu a sua presença assim que você leu a primeira linha. Sim, a sua presença. Você, a pessoa que de alguma forma encontrou esse texto. Vocês são os verdadeiros Leitores, as pessoas para quem esse mundo foi criado e quem dá vida a ele.

– Infelizmente, eu não poderei responder às suas perguntas. A minha única forma de contato com o seu mundo é através da Escritora e ela não sabe quem você é ou quantos de vocês irão aparecer. – a Leitora inclina levemente cabeça – Na verdade, nem eu sei quem você é. Eu conheço a sua presença, sei que está aí agora, mas só isso...

A Leitora começa a andar, seus passos ecoando no chão de pedra.

– No fundo, nada disso importa, o que importa é que você esteve aqui, e isso deve significar alguma coisa, mesmo que nenhum de nós entenda o quê. Por hora, vou deixar você em paz para seguir o seu caminho, esse mundo já deu tudo que tinha a oferecer. Talvez nós nos vejamos de novo, talvez não...


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