PEDRO PALMA

corrente de ar


a leitura é uma operação descontínua e fragmentária.

Ou melhor: o objeto da leitura é uma matéria

puntiforme e poeirenta.

Italo Calvino


A.

Tudo no ponto para sair, levo a mão à porta e nada. O mecanismo da fechadura mexia-se conforme a ideia do fabricante, mas a porta permanecia indiferente às cócegas. Nem abria para dentro como era suposto, nem para fora como nunca antes visto.

Quase não havia tempo para experimentar soluções novas. É a desvantagem de se ter a vida cronometrada. A outra desvantagem é ao fim do dia ter de absorver, organicamente, o tempo que acabou por sobrar, cujo prazo de validade é brevíssimo. Dores de barriga, cabeça tonta, fadiga, náuseas e uma má disposição generalizada são alguns dos sintomas. Resolvem-se como se combate as ressacas dos excessos alimentares.

Enfiei a chave na fechadura e comecei a experimentar, desta vez sem preconceitos. A chave rodava para ambos os lados e infinitamente. Antes não era assim, havia limites que ao serem forçados ameaçavam partir e engolir as chaves que queriam dar mais voltas do que as necessárias para o cumprimento da função. Nunca contei quantas voltas me eram permitidas precisamente porque a minha mão encontrava o fim instintivamente, graças à resistência transmitida pelo material. Agora, as chaves rodavam sem fim e sem estarem constrangidas entre paredes. Talvez por isso, um girar estéril.

Pensei bater à porta. Mas para quem abrir? Não se bate à porta de dentro para fora. Ninguém mora nos corredores. E mesmo se tivesse a sorte de, no momento da batida, um vizinho passar, ouvir e interpretar o som como eu gostaria que interpretasse, o que é que ele podia fazer mais que eu já não tivesse feito? Dois fazem mais força? Mas isto não é uma questão de força. Ou pelo menos não quero que seja, porque se for significa que só daqui saiu arrombando a porta.

Tentei lembrar-me de outra saída. Não haver alternativa pareceu-me, pela primeira vez, uma vergonha. Como é que o arquiteto, seguido por uma linha composta de fiscais, engenheiros, empreiteiros, obreiros e inquilinos, observadores e outros, como é que ninguém reparou nisto? Como foi possível toda esta gente ter aceitado viver assim? Voluntariamente separados do exterior por uma só saída, separados do interior por uma entrada única.

Já vi filmes onde os prédios tinham escadas erguidas ao longo da fachada. O meu prédio não tem escadas das janelas para o passeio. Houve andaimes envolvidos na construção, mas assim que se deu por concluída, os andaimes foram desmontados e guardados num armazém.

Não fossem os compromissos e podia esperar a porta secar. Às vezes pode ter sido a humidade que incha a madeira. (É um milagre as árvores não rebentarem como balões.) Cheio de pressa, peguei no telefone e, por me faltar imaginação, telefonei para os bombeiros.

“É o seguinte, o sucedido é, aconteceu-me que, eu moro na Rua Martim Moniz, sabe onde é? Tem só um sentido e, sabe, certo, então é assim, não consigo abrir a porta. Não, pronto, é assim, não abre. Não tenho o número de ninguém. Isto é um bocado embaraçoso, mas é que não sei mais o que fazer. Certo. Quanto tempo, mais ou menos? Ótimo. É o que tiver de ser. É como se estivesse alguém do outro lado a fazer força, mas não está ninguém do outro lado. Combinado. Obrigado, com a sua licença.”

Esperei até ao fim da esperança de um resgate atempado e, desesperançada, comecei a pensar como ia avisar não poder estar presente na apresentação pública do meu livro. A verdade era demasiado invulgar para não ser mal entendida. Por outro lado, qualquer desculpa tão em cima do acontecimento iria ser sempre interpretada como invenção. Decidi não dizer nada e começar já a pensar, com tempo, numa história para justificar tudo no futuro.

Enquanto inventava, telefonaram-me de um número desconhecido. Podiam ser os bombeiros ou os organizadores do evento a querer saber de mim. Deixei tocar até ao fim. Não pude devolver a chamada porque a dúvida, por desconhecer o nome associado ao número, permanecia. E se telefonasse diretamente para os bombeiros, com quem queria falar, a chamada podia coincidir com uma segunda tentativa por parte dos organizadores em contactar-me. O sinal de número ocupado invalidaria a alegação futura de não ter ouvido chamada nenhuma. Pelo sim, pelo não desliguei o telefone e abri uma janela para farejar sirenes longínquas.


o corpo sabe

a ciência certa da navegação no espaço

António Ramos Rosa


B.

Os processos espontâneos da vida animal, como a respiração, determinam no humano a sua vulnerabilidade, e eu não estava a respirar maravilhosamente, devido a ter inspirado pó acumulado nas partes mais expostas dos livros da minha coleção pessoal. A minha atividade profissional compromete-me com regulares visitas às prateleiras, onde as lombadas fingem ser papel de parede. Desta vez foi para puxar uma tradução sublinhada do “Processo”, de Franz Kafka, onde acreditava encontrar relações com outro livro que ia ler e comentar numa apresentação pública. Durante a procura nos sublinhados, pela objetivação das minhas crenças, respirei pó de há meses. Talvez séculos, se considerarmos ser sempre o mesmo pó, a levantar voo e a aterrar conforme as movimentações geradoras de brisas e de ventos. Suspeito terem sido estas espessas inspirações a causa de não estar a respirar maravilhosamente.

Cheguei ao evento com antecedência e a última recarga de salbutamol na bomba para a asma. Esperei até faltarem cinco minutos para a hora acordada e inspirei o sulfato broncodilatador. Não é possível falar em voz alta durante uma crise asmática. Nutrição, hidratação e oxigenação são necessidades cuja satisfação é condição para representar. Um corpo desidratado, dióxido carbonado e esfomeado é autêntico. Logicamente, aquilo que garante aos humanos boa alimentação, hidratação e hábitos respiratórios excelentes é a respetiva capacidade para a representação (de determinados papéis).

A autora do livro não aparecia e tinha o telefone desligado. Para mim, honestamente, era indiferente a sua presença. Não li sequer metade do livro dela. Dois ou três parágrafos descontinuados bastaram. Encontrei referências a Kafka e percebi haver um caracol a tentar sair de um apartamento trepando pelas paredes. Se lesse mais corria o risco de perder, ou perturbar, a linha de pensamento despertada na leitura. Não faço questão de confessar em público não ter lido a obra na sua totalidade. Mas, bem entendido, é um elogio à autora. O mérito foi ter-me dirigido para as ligações entre Kafka e caracóis, e ter-me lá deixado estar à vontade. Levou-me sem puxar e foi-se embora encostando só a porta. Que mais se pode desejar além do prazer de estar à vontade?

Estava a respirar maravilhosamente, pronto para começar, quando informaram da decisão de adiar o evento uma hora, na esperança de a autora entrar pela porta ainda que atrasada. E depois sim, começar sem ela.

“Uma hora? Não é preferível começar? Vai-se começando, se ela chegar entretanto, chegou.”

“Já informei as pessoas e elas concordaram aguardar porque querem mesmo muito estar com a autora.”

“Querem estar com ela como? Quem? Todos ao mesmo tempo? Revezam-se? Como é que isto funciona mesmo? Já agora porquê?”

“As pessoas gostam de ficar a conhecer a cara atrás dos livros.”

“Não sabia. Perguntaram-lhes e elas responderam em uníssono?”

“Diz-nos a experiência. É preciso dar às pessoas o que elas querem.”

“Eu sou pessoa e o que quero é começar.”

“Mas os outros não querem começar enquanto não houver autora. E não podemos começar assim e esquecer os outros, não é?”

Passado meia hora perguntei se alguém conhecia de vista a autora, e se não podíamos pegar e pagar a alguém para se fazer passar por ela. Seria uma graça. Mesmo havendo na plateia quem a conhecesse, não deixava de ter graça. Aliás, seria tão mais engraçado quanto melhor se percebesse a farsa. A proposta foi recusada com graciosidade. Ao fim de uma hora o evento começou sem autora, e quando me deram a palavra estava com os brônquios do tamanho de grãos de areia.

“Antes de começar pedia para, dadas as circunstâncias, fazermos um minuto de silêncio.”

Nos primeiros segundos houve rotações de pescoços, contrações das pálpebras, ligeiras vibrações das cordas vocais em tom interrogativo, logo abafadas porque fora do tempo. A meio, ouviram-se todas as coisas presentes cuja sobrevivência não depende de estar sempre a entrar e a sair dos sítios onde calham ficar: rangido de cadeiras, respiração do soalho, dilatação das canalizações. À medida que se aproximava o fim, sobrepuseram-se as coisas por perto e no exterior: carros, peões, aviões, pregações de carácter comercial, trabalhos de reparação e manutenção da via pública. O fim coincidiu com o início de outra coisa já começada e não subordinada aos ponteiros do relógio.

“Muito bem. Quero começar por ler algumas páginas deste livro, cujo título...”

“Desculpe. A autora faleceu? Não tomei conhecimento.”

“Eu penso que sim. Percebi mal?”

“Não. Eu acho que não. Ninguém avisou a organização nesse sentido. Mas sabe de alguma coisa?”

“Só de ouvido. Mas pronto. Esperemos então estar tudo bem. Então, se me dão licença, vou ler alguns parágrafos.”

Comecei. Vociferei a primeira frase. Uma frase de tamanho médio, capaz de cobrir qualquer linha sem virgular, mas sem apetite para uma segunda. Chegado ao ponto final, senti a língua seca que nem um bacalhau. Havia um oceano até ao fim. Nadando pelas frases, percorreria o oceano como um míssil. Talvez embatesse nalgum peixe esquisito. Se calhar nem isso. O vasto oceano ficaria por percorrer. Mesmo se tivesse pulmões para ziguezaguear, voltar atrás, levantar a cabeça, inspirar fundo, emergir como as baleias e mergulhar até ficar tudo escuro, nunca iria absorver na pele parte significativa do oceano. Ninguém aguenta o oceano inteiro numa tarde. Quem ouve, espera ver uma linha de duplo sentido estendida entre as margens, o suficiente para criar a ilusão de que se conquista território atravessando-o, e o território conquistado fica para trás, nosso e disponível para voltar.

Saltei o segundo parágrafo e colei o fim da fala algures a meio de outra página. Onde me pareceu bem fazer a ligação. Fui indo agarrado à frase, sem olhar para cima e cheio de medo de estar a dar seca. Quando começava a deixar cair letras, devido à acumulação de palavras nos pulmões, descolava do texto mas sem tirar o olho da trilha, de maneira a assegurar uma aterragem controlada e em local seguro.

Senti-me subitamente leve. Fisiologicamente não vi nada. O alívio só pode ter sido da dilatação alveolar promovida pela leitura. Aliviado, li mais duas páginas que o previsto, desta vez sem saltos, avançando sinuosamente com a segurança de um tubarão. No fim estava como novo, como se tivesse entornado ventilan no sino da garganta. Endireitei o pescoço e no horizonte havia pelo menos três braços erguidos. Estendi a mão a um dos náufragos.

“Diga.”

“Desculpe mas não é possível. Tem de estar cá a autora. Eu estou aqui para conhecê-la, para perceber melhor o que ela quis dizer, porque escolheu aquela palavra e não outra. Olhe! Estão a bater à porta. É ela!"

“Depois da hora não deixamos entrar ninguém.”

“Nem sair. Se ninguém pode entrar, ninguém pode também sair, dada a natureza despreconceituosa da porta. Mas, para responder ao comentário feito, diria que a confusão é pensar a autora como o acesso ao texto, quando é no texto que está o acesso à proximidade à pessoa. O caminho inverso não sei, não sou eu que o faço. Eu só leio, ler é uma atividade irreversível, de uma imprevisibilidade total. Depois de ler já está lido, não há volta a dar. Podemos não dar por isso, mas já fomos levados para outro sítio. Mais perto do Olimpo. Ler é uma atividade Olímpica. Ainda assim, o movimento não se deixa mapear. Ou seja, o leitor pode ler mil páginas, e à milésima primeira continua incapaz de adivinhar o próximo instante, o efeito da palavra, o que vai ser dito a seguir...”

“Desculpe! Tenho de sair. Não queria sair mas agora que me diz não poder sair, tenho de sair daqui. Não posso estar preso onde queria estar. Desculpe, desculpem, com a vossa licença.”

Levantou-se, correu para a porta e, mal a abriu para sair, entraram outros cinco. Eu continuei a dizer o que me parecia combinar bem com o que recordava ter já dito àquelas pessoas.

“Podemos imaginar as palavras como objetos carregados de pó. Quando passamos por elas escrevemos mensagens no pó, cujo significado é o do pó, e não o do que está a ser tocado, apesar de parecer, porque o movimento é de afastar o pó. Quando se tira o pó todo salta à vista a pele das palavras, cujo toque varia com a sensibilidade epidérmica. É uma questão de pele. Se o mundo material é manifestação do espiritual, então em nenhum dos mundos é vencida a luta contra o pó. Pequenas vitórias passageiras. E o medo é o medo da irreversibilidade disto tudo. Ninguém põe pó nas coisas, este nasce naturalmente. Da mesma maneira, quando digo, escrevo ou leio alguma coisa, vejo, oiço, cheiro, sinto, não há reversão, o caminho inverso tem o acesso bloqueado. Imaginar, ensaiar, repetir interiormente são esforços para controlar o resultado precisamente porque o momento da performance é decisivo. Depois de tirar o pó não dá para voltar a tê-lo a cobrir os objetos. Mas não vale ter medo! As limpezas não podem terminar ao pôr do sol e limitadas aos lugares conhecidos. É preciso ir mais fundo, resistir à tentação de comprar novo. Ir atrás dos eletrodomésticos sem receio de estragar os fios, ao topo dos móveis sem medo de cair.”

Enquanto falava, as saídas e as entradas repetiam-se na sala. As pessoas que começaram a ouvir não eram as mesmas a prestar atenção agora. Significava ninguém estar a entender absolutamente. Quando alguém saía, deixava um vácuo onde, a qualquer momento, outra gente podia entrar, para repetir o que a primeira gente havia feito. E eram cada vez mais. O ruído dilatava-se contra as paredes, teto e soalho. Eventualmente ia deixar de ouvir-me, seria incapaz de identificar qualquer fala atrás, por dentro ou diluída no ruído.

“Eu queria falar de Kafka. Queria falar de caracóis. Fazer a ponte entre o movimento dos caracóis e o da leitura, e o da escrita. Ele está sempre a sair de um sítio e a ir para outro do qual não pode regressar. E vai-se às cegas, a apalpar território novo com as antenas, duas antenas, como os cavalos condutores da alma da metáfora socrática. Não se descola um caracol para o ajudar a chegar a algum sítio em particular. Sente-se logo na ponta dos dedos a resistência ventosa do animal. Podemos dizer: não sabe o que é melhor para ele. Ora, dizer isto é justificar a violência exercida sobre o animal. É uma maneira de mascarar com preceitos morais um desejo infantil. Eu não sou um caracol, não sei o que é melhor para alguém que eu não sou! A prova final é ele nunca ficar no sítio escolhido. Mesmo em cima de uma folha de espinafres ele não para, só lhe interessa o movimento. O que é que isto tem a ver com o Kafka? Diga antes que lhe caia o braço.”

“Eu só comecei a ouvir a meio. É verdade que a autora, pronto, morreu?”

“Sim.” Disse outra pessoa da plateia. “Eu sabia desde o começo. Guardei segredo. É que depois de se saber algo tão final sobre a razão de aqui estarmos, deixa de ser permitido continuar no mesmo sítio a ver o tempo passar como se nada fosse.”

“Já fizemos um minuto de silêncio? Podemos repetir? Eu não estive presente.”

“Fazer fizemos, mas não foi um minuto. Alguém contou?

“Sugiro acabarmos aqui.”

Exclamou por fim alguém. Fomos saindo da sala. Atravessei a porta e desci as mesmas escadas. A passagem para o corredor que me trouxera até ali estava agora fechada por uma corda encarnada de veludo. Segui então pela porta do lado com acesso a um corredor aparentemente paralelo. Caminhando, era possível ver pelas janelas a rua e uma matilha de cães a ladrar, descontinuadamente. Encontrei um sinal de “Saída” a apontar para cima. Inclinava-me para jurar estar no piso certo, e a saída ser uma questão de progredir para a esquerda naquela altitude. Todavia, para a esquerda só havia parede.

Subi as escadas e percorri o corredor superior até umas outras escadas que desta vez desciam, para meu grande alívio pois imaginava a saída ser a descer. No fim das escadas só havia a entrada para a exposição de um artista cujo nome me era estranho, então voltei a subir. Por uma das janelas do corredor vi os cães na mesma a ladrar. Senti uma tontura e decidi fazer o caminho todo de regresso, conforme o recordava. Tive esperança de encontrar gente, pedir orientações, mas pelos corredores não atravessava vivalma.

Saltei por cima da corda de veludo. Reconheci o corredor e no fim a porta de saída trancada. Espreitei pelo olho de boi e vi os cães sentados, sem ladrar e a olhar julgo que para a janela onde me viram pela última vez. Estava prestes a telefonar a alguém quando ouvi bater à porta. Era de uma das portas do corredor. Aproximei-me e esperei até ouvir novamente. Ao segundo toque, mal abri, um homem recuou assustado.

“Estava trancado aqui dentro?”

“Quem eu? Não. Eu não.”

Sentou-se a uma mesa, abriu a gaveta e começou a tirar tudo o que havia lá dentro, como se tivesse acabado de chegar, como se fosse o comportamento esperado e fazer qualquer outra coisa, ou ficar simplesmente parado e calado, fosse inaceitável.

“Não quer sair?”

“Quem? Eu não quero sair, não. Não, obrigado.”

Na porta ao lado ressoou outro bater, o mesmo ritmo, entre o aflito e o envergonhado. Abri a porta e repetiu-se a cena. Quem lá estava dentro, mal viu a porta ceder aos nós dos próprios dedos, fez como se tivesse acabado de entrar.

“Sair? Já já, não. Já saio.”

“Mas pode abrir-me a porta para a rua?”

“O que tem a porta para a rua?”

“Está trancada.”

“É normal, já não são horas.”

“E agora? Não posso ficar aqui.”

“Ela abre. Tenha é paciência. Eu agora não posso, não tenho tempo para isso. Quem me dera, quem me dera ter tempo, mas não tenho.”

“Não pode telefonar a alguém?”

“Oh quem me dera, mas não posso. Tente o terceiro piso, no gabinete exatamente por cima deste.”

“Tento o quê?”

“Saber das chaves.”

“Obrigado, mas não vou voltar a subir. Quer que feche?”

“Encostada, por favor.”

Abri mais duas portas e o mesmo repetiu-se com ligeiras diferenças. Às vezes eram sofás em vez de cadeiras, televisores por computadores, uns sozinhos, outros acompanhados. Comum era a vontade de sair extinguir-se perante o vislumbre do corredor.

Estava cansado. Equacionei passar a noite num dos quartos, mas o medo do pó dissuadiu-me e fez-me lembrar as janelas. Abri uma e espreitei. A altura não era fatal e mais do que suficiente para despertar vertigens. Do outro lado, encostado à fachada, havia um canteiro com trepadeiras. Os cães intensificaram o ladrar quando me viram subir o parapeito. Por cima, a lua andava estranha para aquela hora. Passei uma perna de cada vez e aterrei com respeito no canteiro. Os cães explodiram. Atrás de mim espreitaram cabeças despenteadas pelo súbito vento e dedos fincados na guarnição. A lua sempre à mesma distância e o gradeamento a cadeado.


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