RITA ANDRADE

a leitora

Era sábado de manhã e estava sol. Sábados de manhã soalheiros cheiram-me sempre a fresco, principalmente no inverno. Há qualquer coisa de inspirador na primeira luz da manhã refletida no rio, nas pessoas que saem de casa cedo sem ser para ir trabalhar. Eu cheguei à estação bastante adiantada, carregada de coisas: mala, mochila, casaco de pelo, dez quilos de roupa e dez quilos de ideias por concretizar espalhadas entre cadernos e a minha cabeça. Estas últimas eram o que me pesava mais, mas aquele sábado dava a impressão de que tudo era possível. Sentia-me leve.

Com duas horas e sete minutos de espera pela frente, acabei sentada num banco de madeira, desconfortável e sem encosto, phones nos ouvidos a tocar música clássica. Volume no máximo, sempre, para que se sobreponha a qualquer voz na minha cabeça. Não é costume meu ouvir esse tipo de música, mas naquela manhã estava a sentir-me clássica, talvez por estar a usar a camisola de malha da minha avó. Achei que as melodias do piano combinavam com a camisola, com a arquitetura romântica da estação, com a energia bucólica que pairava no ar frio e com o livro que me preparava para ler, também ele um clássico.

Começara a ler o livro há menos de um mês porque achei importante ter uma opinião sobre ele num futuro jantar de amigos. No entanto, a leitura revelara-se difícil. Não por causa das palavras. Coitadas, elas nem pediram para estar lá, presas em páginas amareladas, esmagadas umas pelas outras, espalmadas pelo peso da capa. Também não culpo a autora, ela fez a parte dela. Neste caso, o problema está mais na leitora do que no livro. Mais precisamente na minha mente com tendências nómadas que nunca está bem muito tempo no mesmo lugar estilo António Variações. Quando dou por mim, estou a pensar na roupa por lavar, nos trabalhos para entregar e no gato que deixo com a vizinha enquanto estou fora. A minha atenção viaja dos palacetes ingleses do século dezanove ao meu cesto da roupa suja numa questão de milésimos de segundo. Às tantas, o gato e a vizinha já estão a tomar chá com Mr. Darcy e é aí que eu sei que a leitura não vai bem.

Contudo, naquele sábado mágico o livro estava a ser fácil de ler. Nem me lembrava que tinha um gato. Corria as páginas ao ritmo da música de um compositor contemporâneo finlandês, de quem eu nunca tinha ouvido falar. As palavras soavam a violinos tanto quanto os próprios violinos que tocavam alto aos meus ouvidos, ao ponto de não conseguir distinguir os dois. A música e o livro fundiram-se numa melodia só.

Eu estava de tal maneira absorta na sinfonia que não reparei na chegada dela. Por esse motivo, não consigo precisar o momento em que se sentou no banco ao lado do meu, igualmente desconfortável. Podia estar ali há uma hora ou há um minuto. Não sei, mas também não interessa.

O que interessa é que assim que reparei nela acabou-se o concerto. E o romance. E a mistura dos dois.

Sou totalmente escrava da minha atenção, o antónimo de um monge budista. Contra qualquer querer, fui imediatamente transportada para o cabelo dela, castanho avelã da cor do casaco, para as calças de ganga dobradas no fim que cobriam as suas pernas cruzadas, sobre as quais repousavam duas mãos de aparência delicada e um livro. Ela lia quase dentro das páginas, com o cabelo preso atrás das orelhas e uma franja pequena, que me impedia de ver-lhe os olhos. A ideia que passava é que estava numa espécie de estado meditativo. Ela sim, tinha energia de monge budista. Talvez tenha sido por isso o que me prendeu. O ar de quem manda em si. Isso e a franja.

O comboio vinha às dez e cinquenta e três na linha dois. Quando se aproximou a hora, levantamo-nos as duas, alerta, à espera da locomotiva. Foi a primeira vez que ela ergueu a cabeça e foi também a primeira vez que lhe vi o rosto magro e fino, olhos azuis, pele tão clara como aquela manhã. Clássico, como o livro que deixara de ler há muito.

Uma voz de mulher, vinda do além ou de um altifalante qualquer, soou na estação anunciando a chegada do regional na linha dois. Porém, nem sinal do comboio. Mentirosa.

Às dez e cinquenta e três, a nossa senhora voltou a fazer uma aparição, alertando para a partida do tal comboio fantasma. Estava tudo muito metafísico. Muito metafórico. Bem me parecia que aquela manhã luminosa de sábado estava demasiado dada às artes. Até os comboios eram conceptuais. Tudo se tornou ainda mais cinematográfico quando troquei um olhar sorridente com uma senhora baixinha de meia-idade que esperava ao meu lado, e dissemos uma à outra, em perfeito uníssono, que o comboio devia ser invisível. Juro. Juro que aconteceu exatamente assim, coincidindo em cada sílaba. Era nesta altura que o realizador gritava corta. Rimos as duas da aleatoriedade, ou não, da vida.

A leitora continuava de pé com um ar confuso e uma mochila enorme às costas, daquelas que se leva para o campismo. O livro estava agora enleado nos elásticos do topo da mochila, que originalmente servem para transportar sacos-cama. Sacos-cama e livros não são assim tão diferentes: ambos servem para nos atirarmos lá para dentro. Consegui identificar o autor - Jon Fosse - mas não consegui ler o título da obra, que vinha em letras mais miudinhas. Fiquei curiosa, não sei se pelo livro, por ela, ou pela mochila gigante. Adoro pessoas com bagagem. Adoro viajantes.

O comboio chegou, para descanso de todos, cerca de dez minutos depois. Afinal ainda havia uma dose de realidade naquele sábado místico. Ainda bem, porque eu estava com vontade de voltar para casa.

Mas estava com mais vontade ainda de aproximar-me da leitora de olhos azuis. Dela e do livro. Queria saber que tipo de história era capaz de deixar alguém tão absorto, e talvez conseguir uma pista sobre a sua personalidade. Nós somos os livros que lemos, acho que já ouvi um escritor dizer isso.

Dirigi-me à mesma porta que ela e curvei-me para a frente, espreitando por cima da mochila. Manhã e noite. Entrei no comboio e sentei-me num lugar com visão desimpedida para o alvo. Comecei a questionar-me se estava a ser estranha. Possivelmente. Mas o mais provável é que ela nem tivesse reparado que eu existia. E de qualquer forma eu não controlo a minha atenção. Por mim tinha continuado a ler Jane Austen.

Ultrapassei a questão moral relativamente rápido e fui à internet pesquisar a obra. Ao que parece, Jon Fosse é um autor norueguês com Nobel da Literatura. Manhã e noite é um romance sobre o maravilhoso sonho que é viver e a aceitação do ciclo natural das coisas. Li no site de uma livraria. Maravilhoso sonho que é viver? Já concordei mais. Fiquei interessada, com vontade de ler o livro e de perguntar à leitora como é que se aceita o ciclo natural das coisas. Como? Como é que se cura a angústia existencial? Ela estava mesmo ali, à janela, com o sol a bater-lhe na cara, a franja revolucionária a teimar libertar-se das orelhas, cobrindo-lhe os olhos e aquela postura imperturbável de quem está mesmo a aceitar o ciclo natural das coisas. É de notar que eu continuava a ouvir música clássica, então tudo tinha uma dimensão mais poética. Mas ela estava mesmo muito bonita.

Duas paragens depois entrou um grupo de estrangeiros gigantes, que invadiram a carruagem com sons desconhecidos e bastante audíveis, mais audíveis que a orquestra inteira que tocava aos meus ouvidos. Dois homens loiros enormes sentaram-se entre nós, tapando completamente o meu campo de visão. Acabaram-se os olhos azuis. Olhei à minha volta. Se não fossem os bancos cor-de-laranja típicos do regional, acreditaria que estava num país nórdico qualquer. O compositor finlandês, o autor norueguês, o dialeto impercetível. As paisagens verdes e frias, lindíssimas. A sensação era de novidade e frescura, daquela que se sente quando se visita um sítio novo. Naquele sábado, eu sentia que estava a ver o mundo pela primeira vez. Tinha a impressão de que se me esforçasse via os átomos. Tinha a impressão.

A porta da carruagem abriu-se num som automático vaporizado estilo filme de ficção científica. De lá saiu o revisor, senhor com um ar aprumado e fato cinzento, como tendem a ser os revisores. O homem combinava com o dia: ser revisor é das profissões mais clássicas, vintage até. Parece que alguém se esqueceu de substituí-los por uma máquina qualquer, então eles foram avançando no tempo, passando quase despercebidos, conservando uma energia século vinte, com os mesmos fatos, os mesmos bigodes, a mesma maquineta analógica de picar os bilhetes. Começava a sentir-me não só noutro país como noutro século. Desafiar o espaço e o tempo em simultâneo pode ser perigoso.

Esforcei-me para voltar à realidade, empurrada pelo medo de desaparecer. Espreitei por cima do ombro do cavalheiro pálido que se sentava à minha frente e consegui ver a leitora. Reparei que tinha voltado ao livro e que exibia a mesma postura curvada, totalmente absorvida, totalmente fora do comboio, fora da Terra. Ela também estava noutro sítio a outra hora, algures num Universo em que Deus é um escritor nórdico. Como eu, uma viajante no multiverso da consciência. De repente a mochila pareceu-me uma metáfora, e o comboio também, e o resto das coisas. Onde é que existimos, mesmo? Perguntei-me se eram dois loiros que nos separavam ou se era o próprio livro. É que eu queria ir para onde ela estava. Ia comprar Manhã e Noite assim que tivesse oportunidade, isso é certo. Mas mesmo assim não encontraria o Universo que encontrou a leitora. Nunca completamente igual. Olhei pela janela. Onde é que eu estou? Nem foi uma pergunta filosófica, eu tinha mesmo perdido a minha paragem. Merda. Merda. Merda.

Respirei fundo e tentei aceitar o ciclo natural das coisas. Decidi que iria até ao fim da linha, e que daí apanharia um novo comboio para trás. Foi como se a minha viagem mental aleatória ziguezague ganhasse uma dimensão física. Fugir da rota de vez em quando até que é divertido. Ri-me para mim, mas por fora deitei uma lágrima. Foi sem querer.

Não sei bem porquê que chorei. Juro que não foi por ter perdido a paragem. Eu só tinha o gato à minha espera, e os gatos não se importam se chegamos à uma ou às duas. Pode ter sido pela melodia melancólica ou pelo comboio. Viagens de comboio tendem a deixar-me emotiva, mesmo que as faça como rotina. Pode também ter sido por causa daquela manhã excecionalmente brilhante, em que tudo estava mais sensível. Ok, talvez estivesse com mais saudades do gato do que pensava. Porra, estava mesmo com saudades dele. Mas acho que chorei por necessidade fisiológica. Sei lá. Ou pela passagem do tempo. Ou por saber que vou morrer. Pela leitora que nunca vou conhecer. Pelo preço das casas. Pelas crianças que morrem na guerra. Por alergia ao pó dos assentos. Pelo futuro. Por tudo o que não aconteceu. Ou pela vida no geral. Não sei.

Ela lia, eu chorava. E pensava que ela nunca iria saber da forma especial como reparei nela, porque hoje em dia já não se mete conversa em comboios, e mesmo que se metesse eu sou demasiado tímida. Já não há inocência suficiente para o amor à primeira vista. Credo, amor à primeira vista? Também não era caso para tanto. O que senti foi curiosidade. Uma curiosidade antropológica. Sim, um sentimento bastante intelectual. Talvez misturado com alguma atração física, admito. Mas tipo físico-química, uma coisa de protões, eletrões e campos energéticos. O meu corpo estava fisicamente atraído para o corpo dela como um íman se atrai para um metal, uma questão científica. E foi aí que o tempo voltou a atacar. O maldito tempo. Se não houvesse uma linha do tempo, eu falava com a leitora. Mas porque o futuro existe, fiquei paralisada a pensar no momento a seguir ao olá e em como mil sensações me poderiam invadir no segundo a seguir. A merda do medo de errar não existia num mundo sem tempo. Possibilidades infinitas. É que, matemático-racionalmente falando, o mais provável seria ela dizer olá de volta. Na pior das hipóteses, a conversa acabava aí, eu chegava ao fim da linha, fumava um cigarrinho para abafar a humilhação e voltava para o meu gato. É o tempo o meu pior inimigo. É esse trio presente-passado-futuro, que nem existe mesmo, que arruína todas as minhas possibilidades de ser feliz. É por isso que gosto de ler, para escapar ao tempo.

Depois comecei a pensar na quantidade de momentos inevitavelmente perdidos por causa do ciclo natural das coisas e aí sim, aí o choro foi consentido e totalmente consciente. Chorava cada vez mais à medida que pensava em todas as mudanças de vida que não me vão acontecer. Em todas as leitoras que vou deixar passar em comboios e no resto do mundo. Sem as ver ou sem lhes dizer que os nossos átomos são compatíveis, ou que gostei da maneira como leem, ou da forma como prendem a franja por trás da orelha.

Pensei na possibilidade de uma entidade divina que viesse pôr tudo em pratos limpos. Uma espécie de máquina, absoluta e exata, que fizesse uma exposição franca, sem erros, daquilo que ia na cabeça de cada um dos passageiros do regional. Podia ser uma voz feminina idêntica à que anuncia os comboios, a dizer a verdade toda, devaneios incluídos. Dessa forma a leitora ficaria a saber tudo. E eu descobriria em que pensava ela, o que ela estava a achar do livro, daquele esquisito sol de inverno e de tudo o resto.

No meio desse devaneio impossível, surgiu mesmo uma voz feminina do além. Endireitei-me no assento num movimento do género morri ou estou a sonhar? Quando a senhora anunciou o fim da linha, em vez de revelar ao público os pensamentos de um passageiro, percebi que continuava viva e bem acordada. Não sei se gostei de saber disso. As palavras DESTINO FINAL surgiram a vermelho no ecrã preto retro-futurista no fim da carruagem. Eu achei um bocado dramático e um tanto ao quanto determinista, até porque nos phones a música caminhava para o clímax, num ritmo absurdamente contagiante. Non possunt fugere. Non possunt fugere. Gritava uma cantora lírica que tomara o lugar do finlandês sem eu sequer dar por isso.

Coloquei o primeiro pé na pedra gasta do apeadeiro e a luz encadeou-me como se estivesse a acabar de acordar. Não fazia ideia de onde estava, a candura da manhã tinha sido substituída pelos reflexos amarelados do sol do meio-dia, mas tudo continuava mais brilhante do que o normal. Non possunt fugere. A sinfonia escalava, vozes cada vez mais agudas, cada vez mais angelicais. Tentei reconhecer o espaço, mas era uma estação como as outras: paredes tão caiadas que davam dores de cabeça, azulejos e muitos relógios, montes deles, como que a lembrar-me da minha questão a resolver com o tempo. Non possunt fugere. Fumei um cigarro enquanto vagueava entre linhas. Não para abafar a humilhação, mas o arrependimento, que é pior. Caminhei com a música, o clímax nunca mais chegava e eu também nunca mais chegava ao nome da estação gigante.

Paralisei junto à linha três. Os meus olhos estavam baços do sol e do choro e o meu corpo quase preso ao chão por causa da quantidade de mochilas e sacos que me puxavam com força para o centro da Terra. Mas sentia-me leve. Continuava a sentir-me ridiculamente leve, o tempo todo. Uma leveza etérea.

A minha cabeça estava longe de onde quer que fosse que o meu corpo estivesse. Vi o pó no ar e comecei a pensar em átomos. Se percecionarmos o Universo como um agregado de partículas, tudo é subitamente menos sólido, menos rígido, e o chão e o céu parecem uma ilusão. É tudo mais maleável e mais possível. Comecei a pensar em Deus, na origem de tudo e no destino. A música continuava. Non possunt fugere. A luz encadeava-me e eu sentia cada vez mais coisas ao mesmo tempo. Non possunt fugere. A sinfonia chegou ao seu ápice. A mistura de sentimentos desaguou num mar de falta de sentido. Fechei os olhos e não senti nada. Mas nada. Ridículo. Crise existencial na linha três. Dissociação total da realidade numa estação de comboios ao meio-dia. O quê que se passa comigo?

Foi aí que ela me tocou no ombro. Eu estremeci. Baixei os phones. Ela sorriu e eu notei-lhe os lábios pela primeira vez.

Perguntou-me se estava tudo bem.

Eu não tinha reparado que tinha começado a chorar outra vez.

Limpei a lágrima e disse que sim.

Ela perguntou-me o quê que eu estava a ler. Tive Jane Austen debaixo do braço o tempo todo.

Mostrei-lhe a capa e devolvi a pergunta, como se não soubesse a resposta.

Ela apresentou-me o norueguês.

E disse-me que gostava de chorar como eu.

Eu disse que gostava de ler como ela.

Então era isso. O maravilhoso sonho que é viver. O ciclo natural das coisas.


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