MARGARIDA CONDE

a leitora de Dante Romano

Dante detesta aristocracia. Detesta. Os tecidos imaculados, a joalheria ancestral, a maneira como tapam a boca quando sorriem… Detesta. Quando comem, o que comem, onde comem. Como pintam os lábios e olham para si por cima do ombro.

Mas, mais do que tudo isso, Dante detesta os alunos: rapazes de famílias nobres, com títulos universitários para serem exibidos como ouro, junto dos títulos de família. A maneira como levantam a mão e fazem perguntas, a forma de interagir com os professores - Dante incluído -, cada palavra feita à medida para tentar ganhar mais afeto de sua parte do que os outros. Nota-se, ao olhar pelo mar de alunos durante um seminário, quem vem de famílias de renome, e quem cresceu com oportunidades limitadas. O primeiro grupo vê a universidade como um recreio. Um local de confraternização, de criar contactos. O segundo vê-la como a única forma de subirem na vida, um salva-vidas para si e para a sua família.

Que nunca se diga por aí que o Professor Dante “não tem preferidos”.

Apesar de tudo, Dante conseguiu ganhar uma pequena fortuna e um alto cargo na mais respeitada universidade de Itália. Não através de métodos legais, diga-se de passagem. Outra vez, os seus atos são mais motivados por desdém a certas pessoas, do que por qualquer paixão. Enquanto curador de arte, Dante é reconhecido por ser capaz de encontrar as mais raras peças. Desde galerias públicas a colecionadores privados, as obras arranjadas e conservadas por si conseguiram oferecer-lhe uma vida com certos luxos, dos quais nunca tinha experienciado antes.

E tudo bem, as obras são falsas. E daí? Dante conseguiu fugir de uma vida de pobreza, vida de um pobre homem de cor, manipulando aristocratas - aproveitando-se da pele que lhe saíra mais clara do que o resto da família -, mentindo e roubando. Fez tudo isso apenas com a sua inteligência e talento na pintura. É das poucas coisas de que se orgulha. No entanto, recentemente, a emoção que sente ao seduzir esposas e vender falsificações, não é o suficiente para o satisfazer. As pessoas não sabem que o faz, não sabem que estão a ser enganadas. Dante sente a necessidade de causar reações. Então, numa noite sem luar, acaba por ganhar coragem e toma um risco.

Curadores, colecionadores e artistas ficam de queixo no chão na manhã seguinte. Caras tão vermelhas que contrastam com os seus tecidos caros. Alguém, um vândalo, um criminoso - “Um terrorista!”, houve quem chegasse a dizer - entrou na Galleria degli Uffizi e substituiu uma das obras por uma falsificação. Alguém foi capaz de entrar e retirar a pintura sem ser apanhado. Alguém realizou uma imitação quase idêntica. Mas mais do que isso: alguém teve a… coragem? cobardia? não de roubar o original, mas de o deixar lá. No chão. Mesmo por debaixo da moldura. Alguém que provocou o mundo da arte italiana ao deixar uma mensagem tão clara como se tivesse sido escrita: “O meu é melhor.”

Essa euforia, que segue Dante por semanas, apenas o encoraja a repetir o seu ato. As emoções são fortes o suficiente para afogar o aborrecimento que lhe arranha os membros e deixa marcas vermelhas na alma. É então capaz de ignorar o quão vazia a galeria da sua mente se encontra.

Dante detesta aristocracia mesmo quando admiram o seu trabalho. A menina não pode ter mais do que quinze anos. A sua juventude contrasta com os cinquenta anos de Dante. O cabelo dela, escuro e preso num labirinto de tranças e fitas, contém vida que o seu próprio não tem, cinzento e esbranquiçado, penteado para trás como qualquer outro cavalheiro na galeria. O seu vestido elegante, de várias saias caindo até ao chão ao seu redor, demonstra a sua classe social e faz Dante revirar os olhos. A menina segura um livro - será que lê ou é para as aparências? - e o seu olhar escuro observa a pintura à sua frente, sem piscar, como se estivesse a ver através dela.

Sem nada para fazer, o professor aproxima-se e apresenta-se. A menina não desvia o olhar da pintura.

“Abigail Lestrade.”

“Está acompanhada, Menina Lestrade?”

“Estou.” - diz sem elaborar. Olhando em volta, Dante não vê ninguém.

“Vejo que gosta da obra à sua frente. Gostaria de ouvir mais sobre esta pintura?”

Ela acena com a cabeça, observando as pintas individuais de cada cogumelo representado. Dante passa quase uma hora a explicar as nuances de cada pincelada - tendo sido o próprio a fazê-lo - e a história de como a obra tinha desaparecido durante séculos, acabando por ser finalmente “encontrada”. O professor admite para si mesmo, que esta foi das suas melhores falsificações, considerando que só tinha descrições e cópias imperfeitas nas quais se basear.

“Quem a encontrou?”

“Fui eu mesmo, menina.”

Pela primeira vez, Abigail tira o olhar do quadro, fixando-o nos olhos do professor, como se estivesse a observá-lo através de um microscópio. A menina parece estar a decorar cada sarda, cada ruga na sua face, e cada dobra, cada borboto que possa estar na sua roupa. Sem dizer uma única palavra, dá meia volta e anda em direção à porta onde, realmente, está um senhor de idade à sua espera.

O ódio que Dante sente não o impede de interagir com esta gente. Adora ser convidado para os seus jantares e eventos. Aquela comida e conversas horríveis valem a pena, só pelo prazer que é ser capaz de demonstrar o quão mais inteligente é. Só para seduzir as senhoras de títulos a mais e dar um aperto de mão e abraço aos seus maridos no fim da noite. Eles têm sempre o mesmo olhar: como quem suspeita mas não tem provas, quem acha que viu mas não acredita.

É numa dessas festas fatelas que a vê pela segunda vez. Está a escutar um grupo de colecionadores a discutirem o assunto dos casos de vandalismo - pelos quais Dante é responsável - quando repara que Abigail Lestrade se encontra a um canto, ombros descobertos e peito decorado com ouro. A menina ignora a música, e os senhores que a convidam para dançar, focando-se apenas no seu livro. Aparentemente lê mesmo. O olhar, que não pisca, deixa o livro e encontra o seu no fundo do salão. Um arrepio passa por Dante. Parece que o ouviu a pensar. Tendo sido apanhado a observá-la, cavalheiro que finge ser, o professor anda até ela. Mas quando chega, a atenção de Abigail já voltou para o livro. Ele esperava um volume romântico, algo religioso, ou talvez até sobre arte. Mas o que vê nas páginas já dobradas e manchadas de uso, é um livro educativo sobre combustão interna ferroviária. Não consegue conter uma gargalhada breve.

“A menina é surpreendente, sabia?”

Ela parece irritada e abre a boca para responder, mas é interrompida por um colega de Dante, acompanhado de sua esposa.

“Menina Lestrade, ainda bem que pôde vir.”

“Prazer conhecê-lo em pessoa, John.”

John Williams não sabe se há de reagir ao uso do seu primeiro nome, ou ao ar inquisitivo do professor.

“Esta menina é uma conhecida de um grande amigo meu.” - explica. De certa forma, Dante duvida que ele tenha grandes amigos. “A sua inteligência tem uma grande reputação! O meu amigo diz que tem a maior capacidade de raciocínio do continente. Acredito que sejam exageros da sua parte mas temo que estejamos desesperados.”

“Ouvi dizer.” - responde ela. O seu italiano é perfeito, fora o sotaque inglês por detrás das palavras.

“Quando lhe contei sobre o vandalismo nas nossas galerias, a menina era a única pessoa que ele era capaz de recomendar. “Não vais precisar de mais ninguém.” dizia ele!” - John dá uma gargalhada sem humor. “Então cá estamos.”

“Cá estou.” diz, voltando a olhar para os seus comboios.

A ideia de que uma menina, que nem debutante é, seria capaz de apanhar o próprio Dante, é hilária. Mas algo nela lhe desperta um certo interesse. Talvez seja o artista dentro dele.

Após o colega desaparecer, Dante decide despedir-se também - tendo trabalho de professor à sua espera. Mas Abigail interrompe-o.

“Se quiser evitar que o seu amigo saiba que está a dormir com a esposa dele, peça à senhora para limitar o uso de perfume.”

Vários aspetos da frase chocam Dante. Mas a única coisa que lhe sobe à mente, é o facto da Senhora Williams mal perfume usar.

“E isto.” Sem tirar os olhos da página, a menina estica a mão e puxa uma fibra do casaco do professor: menos de um centímetro de comprimento, mas do mesmo tom de rosa do casaco da Senhora Williams. Casaco esse que a mesma deixou à entrada.

“Boa noite, doutor.”

Dante viaja de volta à universidade. O seu artista interior começa a esboçar o rosto de Lestrade.

Dante passa a noite toda a planear o próximo ataque ao pudor aristocrático. Durante a semana seguinte, esforça-se para descobrir o máximo que pode sobre Abigail. Não há muito a dizer, ninguém tem a certeza de nada. Mas, aparentemente, a menina tem ganho alguma fama em certos círculos. Detetive não é a palavra certa, uma vez que mal é paga. Os rumores ficam cada vez mais incríveis, à medida que Dante vai perguntando.

Domingo chega. A grande abertura da mais recente exposição da galeria de Bargello, totalmente organizada por John, causa entusiasmo entre as comunidades mais detestáveis.

John não tem qualquer percepção de arte. Mas tem, no entanto, olho para dinheiro. Ninguém faz melhores investimentos, e as suas galerias são prova disso.

Esta vez é diferente. Dante substituiu não uma, mas todas as obras presentes. Em vez de as pôr no chão por debaixo das molduras, escondeu-as pela galeria.

O esforço e noites sem dormir valem a pena quando, nessa noite, Dante assiste um grupo de trezentos adultos de renome a correrem pelos corredores, encontrando obras primas como crianças encontram ovos na Páscoa. Dante, claro, finge juntar-se a eles. A confusão começou durante a apresentação da exposição quando, pela terceira obra, os presentes finalmente se aperceberam de que eram falsas - não tendo os originais à mão de semear, como nos outros casos causados por Dante. O professor até tinha sido mais desleixado para tornar tudo mais fácil.

A sua felicidade, no entanto, não durou.

Abigail esteve presente o tempo inteiro. A menina mal analisou o que quer que fosse. Ficou parada, enquanto que os outros procuravam os originais e chamavam a polícia, com um ar aborrecido a ler o raio do seu livro.

No fim da noite, ela é interrogada por John mas não tem respostas para lhe dar. Dante regressa livre mais uma vez, sem sofrer consequências. Mas fica surpreso pela sua própria indignação. Era só uma miúda ao final de contas.

Alguém bate à porta e a figura curiosa, que o tem andado a assombrar, entra sem acompanhante no escritório de Dante. Ele admira o perfil acentuado e os cachos castanhos de Abigail, que se aproxima da janela e observa os pré-licenciados a atravessar o campus. Apercebe-se de que, pela primeira vez, ela não observa cada canto da sala por onde entrou.

“Lamento não ter sucedido na sua investigação, menina Lestrade.” Ela não reage. “Vai tentar de novo?”

“Não posso ficar na Itália para sempre. A minha vida espera-me em casa.” A repentina falta de contacto visual é arrepiante. “Para além disso, depois do que aconteceu, duvido que ele vá repetir algo tão cedo.”

Ela não está errada. A senhorita não é a única pessoa cuja vida a espera.

Mas mesmo assim, a facilidade com que desistiu é… desapontante. Aliás, pensa ele tristemente, é quase patético.

A ideia de que esta miúda esteve tão perto de o apanhar, acabando por o deixar fugir, é uma resolução anticlimática. Qualquer afeto que poderia ter por ela desaparece. O retrato de Abigail Lestrade, a viver em liberdade na mente dele, encontra-se sem cor. Se bem que, mesmo sendo difícil de admitir, a culpa também lhe pertence. Só um tolo poderia pôr as suas expectativas em pouco mais do que uma criança.

O professor desvia o olhar da menina e começa a escrever algo sem importância.

“Quem sabe,” - diz com pouco interesse. “Talvez o encontre no país para onde vai.” Não existe qualquer intenção na sua frase. Apenas uma ideia para entreter a moça, sem razão de ser.

A menina vira-se na sua direção. O sol matinal envolve-a por detrás, tornando as sombras da sua face mais escuras, e aprofundando o seu olhar.

“E porque é que o doutor haveria de fazer isso?”

Hã?

“Deixar tudo isto para trás, só para implorar que uma rapariga o persiga, não é exatamente a definição de inteligência.”

O único som no ar é o que vem daquele relógio horrendo, e o das cortinas semi-transparentes a pairar na brisa.

Ah…

Lá está…

Aqueles olhos arregalados encaram a sua própria alma. Dante mal pode conter o seu sorriso, enquanto a esperança lhe sobe à garganta com unhas e dentes. Ele levanta-se, surpreso por as suas pernas ainda funcionarem, e apoia o seu peso na secretária com as mãos.

Os dois encaram-se em silêncio. A pose da menina Lestrade deixa claro que não vai dar o primeiro passo. Se ele ficar calado agora, esta questão é capaz de desaparecer, e tudo vai voltar ao que era antes.

Dante arrancaria os próprios olhos antes de deixar isso acontecer.

“Que coisa perigosa que a menina é.”

“Seguro o seu futuro na minha mão, doutor. É sensato de sua parte dizer essas coisas?”

“E mesmo assim, cá está.”

“Cá estou.”

O professor volta a sentar-se, apoia a cabeça nas mãos e ri.

“Quando é que descobriu?”

Abigail parece surpreendida com a pergunta.

“No dia que nos conhecemos, senhor.”

“Peço desculpa se não acredito.”

“Falou comigo durante algum tempo sobre as pinceladas e emoções por detrás dos tons da pintura dos cogumelos. Gabou-se da sua sabedoria sobre o autor.”

“Lembro-me desse dia, sim.”

“Tomou crédito por a ter encontrado. E mentiu. É falsa. A verdadeira ainda não foi encontrada pelo público.”

Dante entrelaça os seus dedos.

“Como é que a menina poderia saber disso? Tenho a noção do seu talento para o detalhe mas, se estiver correta, não existe original para comparar à tal “fraude”.”

“Ah, mas existe.”

“Onde?”

“Na minha pessoa.”

A sua voz suave preenche a sala: “Foi-me dada como presente, por um homem muito agradecido. Isto depois de o ter ajudado com certas questões… legalmente dúbias.”

Não havia qualquer resposta para dar.

“O doutor devia ser melhor nisto. A chave para uma boa mentira é ter a certeza de que as provas que a expõem não saiam da sua vista.” Ela levanta uma sobrancelha como quem ralha a uma criança. “Esperava muito mais de si. Difícil de acreditar que o doutor ia ser tão desleixado. A única razão pela qual perdeu este jogo infantil, foi a sorte pura que tive em ser dona da pintura original.”

Abigail desvia o olhar com um ar deliberadamente desinteressado. O brilho no olho dela, no entanto, demonstra o quão confiante a menina se sente. É uma afronta. Ser tratado desta maneira por uma pirralha, sem qualquer contra-argumento.

Mas aquilo que sai da sua boca choca até a si mesmo: riso puro. É certo que a jovem deve achar que se passou de vez.

“Acha-me graça?” Ela faz uma expressão que provavelmente tencionava ser intimidante.

“Acho, menina, mas não é essa a questão.” - diz enquanto passa a mão pela cara. “Não tenho qualquer defesa. Esta semana não poderia ser mais ridícula, nem se tentasse. Se me quisesse prender já o teria feito. Então…” Os olhos dela focam-se nos dele novamente. “O que acontece agora?”

“Não sei.”

Huh.

“Devo confessar que me encontra confusa, doutor. Não planeei esta interação. Não tenho interesse nenhum em ameaçá-lo. Apenas pensei que seria um tédio se fosse preso. Nada mais.”

Dante vê-la, pela primeira vez, como se estivesse a ver o seu próprio reflexo ao espelho. Apenas outro pirralho aborrecido, com um cérebro maior que a cabeça, e um interesse confuso na pessoa à sua frente.

Tick

Tock

“Quer que implore que me persiga?” - sussurra Dante.

Ela brinca com a ponta da manga.

“Não é a mesma coisa se eu souber que o senhor quer ser apanhado.”

“Quer que… ofereça os meus serviços em troca da minha liberdade?”

Abigail pensa no assunto, quebrando o contacto visual, e enruga o nariz. Dante levanta-se da cadeira e dá a volta à sua secretária, encostando-se à mesma.

“Parece que nos encontramos perante um empate.” - diz, cruzando os braços.

“Era mesmo capaz de deixar isto tudo por mim?”

O professor arregala os olhos.

Tick

Tock

Dante lembra-se do quanto detesta este relógio. E a carpete horrorosa e as cortinas cheias de pó. As conversas com os colegas e os jantares e o sexo.

“Sem hesitação.”

As pupilas da senhora camuflam-se com as irises, numa poça de água negra, e Dante acredita que não seria capaz de aguentar mais um dia que fosse da vida que tem vivido. Abigail sente o seu desespero, da maneira em que um urso sente o medo.

Tick

Tock

A menina dá exatamente dois passos em frente.

“Dedica-te a mim, e nunca te aborrecerás outra vez.”

As palavras mal saem da boca dela e é como se um fio se partisse. O professor cai ajoelhado na sua frente. Toda a convicção que alguma vez sentiu é apenas ruído de fundo e Dante sabe, naquele momento, que é o homem mais hipócrita que alguma vez viveu.

Claro como o sol, escrito no retrato colorido de Abigail Lestrade pendurado nas paredes da sua mente, está o entendimento sobre a quem é que pertence o corpo e alma de Dante Romano.


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