M. L. VIEIRA

a leitora

Chuva quente. O vapor da cidade alimentada a carvão sobe a céus cobertos de névoa. Sem estrelas, sem lua, apenas uma escuridão avassaladora. Confortável. A neblina aquece a água que derrama rios pela calçada, que reflete as cores das lanternas espalhadas pelas ruas estreitas, torcidas, quietas.

A melodia da tempestade ecoa com o dançar de trovões longínquos. As cores eletrificadas pintam veios num céu escuro. Lavínia pode jurar que vê uma forma gigante por cima da sua cabeça. Tentáculos lodosos, como serpentes num rio sem fundo. Os braços sombrios comem o teto de névoa, envolvem o mundo com uma força inimaginável.

Mas as formas sinistras do horror vão ter de esperar. Uma outra força chama-a. Atrás de uma vitrine imaculada, intocada pela chuva caída do céu, está um livro. Um livro que sorri. Mostra um sorriso torto, forçado, como se dedos invisíveis estendessem a pele da capa. Uma casca de cabedal castanho, coberta de rugas gelatinosas, bolhas e buracos recurvados.

Lavínia mantêm-se quieta debaixo de um chapéu de chuva partido. Os seus pés estão encharcados, a gabardine carregada de água, a mochila ensopada. Mas nada importa, pois nada é mais belo do que as formas latejantes daquele livro, formas que mudam com cada flash caído do céu. Ondas pulsantes ecoam pela chuva, cantam canções sussurrantes. Murmúrios numa língua desconhecida, gutural, impossível.

Ya na agnwgah’n ilya hai naftuaah,” o livro sussurra.

Lavínia respira fundo. O cheiro a carvão queimado interlaça-se com palavras cobertas de mel. O cântico ancestral rodopia à volta dela, acaricia-lhe as madeixas de cabelo molhado.

Sem perceber como, começa a andar. Um fantoche feito de carne, uma boneca de alma encaixilhada, uma marioneta manipulada por cordões invisíveis. Lavínia entra na loja.

Ring. Um sino enferrujado anuncia a sua chegada.

A rapariga fecha o chapéu. Uma cascata de água turva espalha-se numa poça aos seus pés. As botas que se entrelaçam até aos joelhos rangem contra o chão de pedra frio e a sua gabardine remendada goteja os restos de chuva que segura.

Lentamente, ela torce o pescoço em direção ao livro. O livro que vive, que sorri, que fala, que comanda. O livro feito de carne canibalesca, rasgada, esticada. O livro atrás de um vidro que falha em conter murmúrios charmosos.

Passos ecoam pela loja sombria. Do fundo de um corredor negro sai uma mulher velha, corcunda, com cataratas nos olhos escondidos atrás de cortinas rasgadas. A figura da lojista esconde-se dentro de um manto de bronze. Encarapuçada, cambaleia até ao balcão de bengala na mão.

“Que a noite esteja consigo, menina,” diz a mulher. Voz trémula escapa de um sorriso demasiado largo.

“E consigo,” sussurra Lavínia.

Sorrateiramente, o fascínio pelo livro desfaz-se com o incenso que se espalha pelo ar denso da loja. Agora que o véu se levantou, Lavínia consegue ver claramente. Vê o gorjal feito de relógios pulsantes à volta do peito da mulher. Vê o cabelo prateado que ameaça tocar na cinta carregada de fivelas de bronze. Vê o coração mecânico que palpita por cima da mesa desordenada. Lavínia sente-se como se tivesse acabado de acordar de um sono profundo.

“O que a trouxe cá?” pergunta a mulher.

A rapariga hesita. Sente o latejar das engrenagens e dos mecanismos que a mulher coleciona a martelar dentro do seu crânio. “Estava… curiosa.”

“Imagino,” a lojista ri sem rir.

“Passo aqui todos os dias, de manhã e à noite, mas não me lembro de ver esta loja.”

“É engraçado o que conseguimos ver, quando procuramos algo extraordinário.”

As palavras enigmáticas da mulher sabem a verdade, de uma forma estranha. Lavínia não procura nada, ou, pelo menos, não sabe que o faz.

“Diga-me, o que vê no céu?” pergunta a mulher.

“No céu?”

“Sim.”

“Nada.”

“Nada?”

“Escuridão.”

“E que mais?”

“Fumo. Vapor.”

Lavínia engole em seco.

“Algo mais?”

“Tentáculos.”

Um sorriso rasgado forma-se entre rugas. Sem dizer mais nada, a mulher anda até à vitrine e ao livro que a assombra. Abraça o volume com braços finos antes de cambalear de volta, atrás do balcão. Afasta os variados itens soltos, pulsantes, mecanizados e pousa o livro na madeira escura.

O volume expira uma onda de pó ao colidir com a mesa. A cara sorridente esticada na pele endurecida da capa parece ainda mais viva de perto. Como se sangue quente pulsasse debaixo das rugas e das varizes e dos sinais que cobrem a casca do livro.

“Quer que o embrulhe?” pergunta a mulher.

Incerta do que dizer, e do que querer, Lavínia simplesmente suspira um “Não.”

A estranha estende a mão ossuda. “Três cobres, por favor.”

Lavínia investiga o bolso aguado do casaco. Sozinhas numa piscina de nada estão moedas de cobre. Exatamente três. A rapariga entrega o dinheiro à mulher, cujos dedos tortos envolvem as peças de metal como as pernas de uma aranha à volta de uma presa.

“Muito agradecida, menina,” diz a mulher. “O livro é seu.”

A obra encaixa perfeitamente nas mãos de Lavínia. Ela pensava que pesava mais, aquele livro, olhando de relance para o grande número de folhas, para a capa dura, para o tamanho absoluto do bloco sombrio, risonho. Lavínia nunca imaginara a leveza que sente ao segurar no volume, no conjunto de rugas que não submete a algo tão insignificante como a gravidade. De livro nos braços, a rapariga abandona a loja.

Ring. O sino enferrujado anuncia a sua saída.

De volta a casa. A chuva torrencial espalha-se como ecos de um tiroteio. Flashes de relâmpagos azuis matam a escuridão do apartamento e são a única luz que permite a Lavínia andar em segurança até ao interruptor. Neste caminho, vultos surgem da luz cortante que rompe pelas janelas. Vultos nas paredes, nos cantos intocados pela luz. Vultos longos e magros, incorpóreos na sua corporalidade.

Lavínia chama a eletricidade. Carrega no interruptor e um flash imediato toma conta do apartamento. Tons de bronze gasto colidem com a cor das luzes quentes de candeeiros meio-mortos. O caos organizado que decora o apartamento ganha cor e os vultos que outrora assombravam a casa são dispersos por luz difusa.

Ela anda até à secretária que descansa por baixo da janela e dos raios ramificados no céu. Na mesa estão vários projetos inacabados, corpos mecanizados deixados num limbo entre a criação e a morte. Ossos de metal bronzeado, entrelaçados com engrenagens, quimeras feitas de peças soltas e estranhas umas às outras. Mas, apesar da aparente incompatibilidade das partes, algo se forma naquela pequena selva de metal. Algo que Lavínia ainda não sabe o que é.

No meio da confusão, Lavínia arranja espaço para o livro sussurrante. Deita-o na mesa com as peças e as engrenagens e os relógios perdidos no tempo. Deixa o sorriso rugoso descansar no novo espaço, debaixo da luz quente de candeeiros, debaixo da luz fria da tempestade. Deixa o livro na mesa e tenta seguir a rotina que tanto aprecia.

Um sonho. Um pesadelo?

Lavínia dorme. Deitada na cama, ela mexe e remexe entre lençóis frios. Entre ondas de suor, dores musculares, um inconsolável desconforto que teima em ficar, que queima a pele com um fogo gelado.

Lavínia encontra-se entre sombras. Numa caverna, no meio de montanhas azuis e pretas. Olha em seu redor. Só vê as formas ancestrais de rocha e água a esculpir o interior que ocupa. Com os barulhos da caverna, um murmúrio viaja com a brisa marítima.

Ya na agnwgah’n ilya hai naftuaah.

Lavínia estica o pescoço em direção ao vento. Sem pensar, segue-o pelos corredores labirínticos da montanha. Ouve os ecos da voz melosa a repetir as mesmas palavras. Palavras que não conhece, que não sabe pronunciar. Palavras de uma voz impossível.

Lavínia sente o tempo a esticar. As paredes da caverna tremem como as cordas de uma guitarra. As cores da pedra misturam-se como óleo numa palete de artista. O sal que satura o ar torna-se sólido, trespassam-lhe o corpo como agulhas de vidro. Os sons de um mar alienígena são abafados pela desordem de um sonho. Um pesadelo.

Lavínia vê o fim. A escuridão decai com o pulsar inerente de uma luz. Uma luz húmida, cerulina como o resto da montanha. Uma luz que a chama sem misericórdia, puxa-a até ao precipício.

Lavínia para no limite de pedra. Mais um passo e cairia num penhasco de rochas pontiagudas e água negra. As ondas esmagam o lado da falésia com uma força antiga e a água chega até ao topo na forma de pequenas gotas salgadas.

Uma respiração rápida. Lavínia acorda sem acordar ao dar de caras com a altura intocável do precipício, com a potencialidade sangrenta que dorme nas espadas de pedra afiadas no fundo da falésia.

Ao tomar consciência, ela sente uma presença a pairar no ar. Uma entidade que pesa sobre o vento que viaja com o mar. Uma singularidade que olha, observa, consome todo o oxigénio que vive naquele mundo.

Lavínia hesita. A visão da base mortífera do precipício gela-lhe os ossos, mas a força maligna que paira sobre a sua cabeça é indescritível. A rapariga não quer ver o que a vê, não quer perceber que presença é aquela que impõe tal sensação. Tal terror. Mas, como uma traça e uma chama, Lavínia levanta os olhos ao céu.

Num berço de mar, névoa e montanhas, uma ilha levanta um castelo angular, um triângulo de torres de obsidiana que brilham sem brilhar. O céu preto, sem estrelas, sem lua é tapado por uma massa gigantesca. Um olho. Uma bola de sombras e tentáculos enche-a de temor e veneração. A pupila preta, maciça, espelha o cenário à sua frente. Espelha as montanhas, o mar, a ilha, o castelo e Lavínia, que cai de joelhos com o terror absoluto.

Depois da troca de olhares, a rapariga ouve o pulsar de um relógio. Primeiro impercetível, longínquo, como a voz cantada que tenta adormecer um bebé. Depois gigante, ecos avassaladores que fazem a terra tremer. Tick tok tick tock. O balançar de um relógio de pendulo luta contra as marés do tempo.

O olho estica as pálpebras rugosas com o intensificar do pulsar mecânico. Sem aviso, o globo amorfo viaja quilómetros num segundo, rasga o tecido temporal que segura aquela dimensão. Lavínia observa a forma lodosa a vir contra ela como um tiro de uma caçadeira.

Ela acorda, agora de vez. Lança-se para o céu, senta-se na cama e respira com uma falta de oxigénio desnatural.

Depois de difundir o pânico, com as mãos no peito, Lavínia olha em seu redor. Vê o escuro confortável e familiar do seu apartamento. Ouve o estalar do relógio de pêndulo que herdou do avô a pulsar na sala. Sente a eletricidade fora da sua janela, a luz azul da tempestade intocável.

Um suspiro escapa pelos lábios da rapariga. Foi só um sonho.

Assombrada por suores frios, Lavínia anda até à cozinha, pelas sombras e os vultos que coleciona nos cantos mais escuros de casa. Enche um copo de água da torneira. Uma brisa refrescante enche-lhe a garganta. O toque metálico familiar abraça-lhe a língua, quando acaba de beber. Mas não sente a sede saciada. Lavínia enche o copo outra vez e leva o mar à boca. O sabor insípido da água é agora substituído por sal e algas.

Ela cospe a água salgada instintivamente. Estará ainda a sonhar? Lavínia observa o lavatório escuro e o mar que escoa pelo ralo.

Ya na agnwgah’n ilya hai naftuaah,” um sussurro dança pela sala.

Lavínia olha para trás e vê um trovão iluminar o livro que deixou dormente na secretária. Vê o sorriso rasgado de um Deus.

Ela anda pela sala desarrumada, passa pelo relógio pulsante e o tempo contado. O chão gelado esfumaça com os passos quentes de Lavínia, cuja pele borbulha com um calor febril.

Estende a mão. Toca na casca latejante, sente vibrações invisíveis a propagaram-se pela sua pele, sente a vida de algo incompreensível. Algo imortal.

Com o livro nas mãos, Lavínia treme. Gotas de suor caem como a chuva do outro lado da janela, caem na capa do livro, evaporando imediatamente como se atingissem um fogão acesso. O fumo sobe em colunas esbranquiçadas e dança à volta da cara pálida da rapariga.

Os vultos sombrios do apartamento agregam-se à sua volta. Fios pretos entrelaçam-lhe o pescoço e os braços e os dedos. Pintam uma camuflagem negra no corpo de Lavínia. Agora ela pertence ao nada que a consome.

Lavínia abre o livro.

Um mar longínquo de um sonho dança de mãos dadas com a eternidade. Uma brisa salgada esvoaça por entre as madeixas suadas de cabelo escuro. Uma luz azulada reflete as marés e os olhos de bronze que veem páginas abertas. Montanhas de obsidiana sobem aos céus sem estrelas. Um castelo angular sobrevive, sozinho, às melodias sussurrantes de um mundo sem fim.

Lavínia vive tudo e nada. Lavínia vê reinos a nascer e a cair, mundos consumidos e rasgados ao meio. Lavínia vive fragmentos de possibilidade, pedaços de vida escritos com tinta negra.

Os seus olhos de avelã brilham um laranja mecanizado. Neles está refletido o mundo. O mar, as montanhas, o castelo. A possibilidade que vive em cada gota e em cada pedra e em cada molécula que tece as páginas do livro.

Lavínia sente o poder. O poder de um Deus, de um Olho que observa um universo incapaz de compreender a verdade escondida. Num céu escuro, sem estrelas, sem lua. Nos tentáculos que serpenteiam pelas cordas invisíveis que seguram uma realidade inventada.

Lavínia sente o sangue a ferver com toda a possibilidade impossível que vê desenhado nas páginas daquele livro. O seu corpo funde-se com a capa e as folhas e a tinta. Ela sorri o mesmo sorriso assombrado da pele que acaricia a palma das suas mãos.

Corpo e alma. É consumida.

O livro está no chão. Sozinho, mas nunca só, com a escuridão gelada de um apartamento quente. Uma brisa marítima penteia as páginas amareladas, as palavras enfeitiçadas de um alfabeto alienígena. O vento desnatural sopra até ao livro fechar com uma força invisível. O sorriso torto de carne rarefeita volta a ser iluminado pela luz eletrificada de trovões longínquos, luz que escapa por entre tentáculos escuros e lodosos como serpentes num rio sem fundo.


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