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Sofia

[rss1] Enquadramento, Google Earth, março, 2024

Rua da Sofia ou da Santa Sophia

A Universidade de Coimbra foi estabelecida em 1290, inicialmente em Lisboa, por iniciativa do rei D. Dinis (1261-1325). Faz parte de um grupo restrito de quinze universidades fundadas no século XIII que ainda estão ativas na Europa. Após um período de alternância entre Lisboa e Coimbra, a transferência definitiva ocorreu em 1537, por iniciativa de D. João III (1502-1557), contando com a forte influência do Mosteiro de Santa Cruz.

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[rss2] Criação do Estudo Geral Português, com a assinatura do documento “Scientiae thesaurus mirabilis”, por D. Dinis (1 de Março), confirmado pela bula “De statu regni Portugaliae” do papa Nicolau IV (9 de Agosto), com as Faculdades de Artes, Direito Canónico (Cânones), Direito Civil (Leis) e Medicina.

Entre 1530 e 1550, no decurso da Reforma Joanina do ensino universitário, D. João III (1521-1557) pretendeu também reinstalar a Universidade em Coimbra sem o “ruído” que então prejudicava os estudos em Lisboa.

No entanto, o historiador José Hermano Saraiva, no episódio "D. João III - O Rei e a Universidade", da série "A Alma e a Gente", oferece uma explicação diferente para essa transferência definitiva, formalizada em 1 de março de 1537.

A tradição cultural e humanista do Mosteiro de Santa Cruz, associada a essa nova política de ensino, não exigia apenas melhores instalações e acomodamento, mas também uma qualidade superior nos espaços educativos. É nesse contexto que D. João III mandou rasgar a Rua da Sofia, um dos eventos mais significativos do urbanismo português.

A carta seguinte versa sobre o pedido de anexação das rendas do Priorado-Mor do Mosteiro de Santa Cruz à Universidade de Coimbra. Foi enviada ao Papa Paulo III (1534-1549), em 16 de setembro de 1546, por D. João III, com o intuito de convencer o Pontífice da importância desses rendimentos para o finaciamento dos estudos.

Meu Santíssimo etc. por que para a conservação e aumento da fé católica e bom governo espiritual e temporal em meus reinos e senhorios é necessário haver muitos letrados e pessoas doutas assim para o bom governo espiritual e temporal deles como para poderem ir e serem enviados as partes da Índia e de Goa e do Brasil e outros de meus senhorios e conquista a pregar e ensinar aos novamente convertidos a fé de nosso Senhor Jesus e assim pregar aos gentios e infiéis das ditas partes para que se converta a nossa Santa fé católica de que se seguira grande serviço de Deus ordenei fazer Universidade e Estudos Gerais na cidade de Coimbra para os quais fiz vir muitos de muitas partes de outras universidades e partes de fora de meus reinos mestres e doutores e (mestres em algumas ciências) em Teologia e Cânones em outras ciências e faculdades aos quais tenho ordenado salários e mantimentos para que hajam de ler e ensinar nos ditos estudos e por que a dita Universidade sendo coisa tão necessária e tão proveitosa e tão a serviço de Deus se não pode sustentar sem ter rendas convenientes para que pelos tempos em diante sejam pagos regentes lentes mestres e doutores que em ela é necessário convém muito ser dotada de rendas da dita renda do mosteiro de S. Cruz situado [...] na dita cidade de Coimbra [...] Pelo que peço a vosso Santíssimo por mercê que havendo respeito a essa obra ser de tão grande serviço de Deus e tão proveitosa para a Republica eclesiástica e secular desses reinos e senhorios me queira fazer mercê de anexar a Universidade as ditas rendas e direitos do dito priorado de Santa Cruz [...] [1]

A construção da nova rua terá sido concertada entre D. João III e o frade jerónimo frei Brás de Braga, em 1527, aquando da estada por 6 meses do rei em Coimbra, a partir de 10 de junho. Em 13 de outubro do mesmo ano, frei Brás é nomeado reformador dos crúzios e, em 1535-1536, este mandou abrir a rua da Sofia, na perspectiva da reforma e desenvolvimento de um Pólo de ensino privado com dimensão espiritual (material) e com supervisão monárquica, que se pretendia fazer a partir do Mosteiro de Santa Cruz. A implementação dos estudos na cidade ficou clara em outubro de 1537, quando D. João III define que a Alta receberia os estudos gerais e, a rua nova da Baixa, o Real Colégio das Artes, os colégios religiosos e habitações de suporte ao pólo escolar, de modo a comportar o grande afluxo estudantil.

Através desta reconfiguração, a Universidade de Coimbra passou a ser, até 1911, a única instituição universitária do espaço cultural e científico de influência portuguesa, com exceção do período entre 1559 e 1759, em que dividiu o ensino universitário com a Universidade de Évora. O seu impacto foi universal, sobretudo num período da história em que Portugal estruturou os primeiros impérios de escala mundial com a expansão e os descobrimentos marítimos.

[rss3] Estátua de D. João III, Pátio das Escolas, 2024 [sc]

A primeira referência que se conhece à vontade de construção da rua pode ser observada numa carta enviada por D. João III a frei Brás, onde altera a localização da construção do novo colégio crúzio de S. Miguel, precisamente para se obter maior largura para a construção de uma rua. Dois anos depois, em 1537, surge pela primeira vez a designação Rua de Santa Sophia, que significaria Sagrada Sabedoria. Poder-se-ia concluir desta designação que havia a intenção de instalar na rua instituições religiosas de ensino e do saber.

A rua foi construída no sopé das colinas da Conchada e de Montarroio. De formação linear, paralela neste troço do território à margem do rio Mondego, com 460m de comprimento e 12,5m de largura. De inspiração de campus universitário, como a rue de Sorbonne do Quartier Latin em Paris, semi-particular, ladeada pelas construções colegiais a nascente, casas urbanas a poente e portas nos extremos. Frei Brás, deixou os colégios a nascente, e, a poente, as habitações e comércio que serviriam de apoio à vida universitária - porém esta regra acabou por ser alterada, mais tarde, com a construção a poente dos colégios de São Boaventura, São Domingos e São Tomás. A construção da Porta de Santa Margarida, no topo norte da Rua da Sofia, permite reforçar o paralelismo com a rua parisiense.

[rss4] Illustris Civitatis Conimbriae ad Flumen Mundam Effigies. De Georg Hoefnagel, publicada na obra Civitatis Orbis Terrarum, de Georg Braun e Franz Hoenberg, Amsterdão, 1572 (com composição por [sc], da Rua da Sofia e Largo de Sansão).

A rua apresentava-se como uma réplica da citada rua parisiense, mas com as dimensões duplicadas no cumprimento e na altura. Para além de ter sido, à época, uma das ruas mais compridas da Europa, a mão proeminente de frei Brás de Braga, do mestre de obras, empreiteiro e arquiteto Diogo de Castilho (primeiro contrato em 5 de março de 1528, para a construção do novo dormitório e refeitório do Mosteiro de Santa Cruz) e do escultor e arquiteto João de Ruão (primeira conclusão 1531, coro alto da igreja com abóbada de Diogo de Castilho e arco triunfal de João de Ruão), fizerem desta rua e dos edifícios que a compuseram um espaço privilegiado onde se implementaram estruturas formais e decorativas da arquitetura renascentista, que se alastraram depois à cidade.

A rua da Sofia constituiu, pois, à época, um expoente urbanístico, um novo paradigma na arquitetura e um modelo de vanguarda europeu. Foi planeada como um novo eixo estruturante de crescimento urbano no limite da cidade e com um programa específico – o universitário. Para o desenho do espaço, tudo leva a crer, terá sido usado um módulo quadrado com 6 braças (13,2 metros) de lado. Para cada colégio, num total previsto de cinco, foram deixados cinco módulos de frente e quatro de fundo, o que, com o módulo para a largura da rua, perfaz quadrados de 5x5 módulos. [...] No fundo, o sistema previra 5+1 propriedades de 5x4 módulos de base 6 braças, tendo ainda mais quatro módulos de fundo. [...] As igrejas eram o interface com o público de três dos quatro colégios ... o mais inovador e coerente espaço dos colégios universitários da Rua da Sofia reside nos seus claustros de dois pisos. Nele podemos encontrar a evolução portuguesa para o apuramento de um tipo que já não é o do «horto conclusus» medieval, mas sim o elemento central de composição e de distribuição da arquitetura e da vida comunitária [3].

[rss5] Diagrama do esquema compositivo e programático da abertura da rua da Sofia (executado por Sandra Pinto) in [3]

O loteamento da frente poente da Rua foi feito em 1538-39 e, em 1541, os edifícios começaram a ser construídos seguindo vários padrões arquitetónicos:

  • de modelo conventual: os Colégios de S. Miguel e de Todos-os-Santos [K], pertencentes ao Mosteiro de Santa-Cruz, foram os primeiros a ser fundados; o Colégio de Nossa Senhora do Carmo [F]; o Colégio de Nossa Senhora da Graça [E]; e, o Colégio de S. Pedro dos Terceiros [C];
  • do tipo palaciano, num modelo posteriormente e profusamente utilizado na Alta de Coimbra, o Colégio de S. Tomás [D];
  • fora destes dois modelos, o Colégio de S. Bernardo ou do Espírito Santo [Y], o Colégio de S. Boaventura [I] e o Colégio de S. Domingos [G];

[rss5] Excerto do Mapa Thopografico da Cidade de Coimbra, com a divizão das antigas Freguezias, finais do sé. XVIII.

Os Colégios de S. Miguel e de Todos-os-Santos, foram posteriormente unificados para fundar o Real Colégio das Artes, em 1547. O início da reconstrução deste novo colégio ocorreu em 1548. Em 1555, D. João III confiará este Colégio à Companhia de Jesus e, em 1556, é transferido para o Colégio da Companhia de Jesus, na Alta. Em 1565 os Jesuítas transferem o Colégio das Artes para a Alta e o edifício é vendido à Inquisição, para ali ser instalado o Tribunal do Santo Ofício. Com esta transformação vieram novos morados para a Rua. Mas, o propósito que levou ao desenho da rua esvazia-se por completo com a Reforma Geral Eclesiástica, empreendida por Joaquim António de Aguiar, e a subsequente extinção das Ordens Religiosas. Deste modo, em 1834, os imóveis seriam incorporados na Fazenda Pública.

Quando D. João III morreu, em1557, a rua da Sofia estava ladeada por 8 dos 14 colégios da cidade. Quando êste faleceu, em 1557, já em volta do gigantesco tronco da florentíssima e frutífera Universidade de Coimbra vegetavam, exuberantes de vida, como vigorosas vergônteas à roda de feracíssima oliveira, nada menos de 14 colégios universitários! [4]

Cronologia dos Colégios Universitários

[rss6] Composição de [sc], com fonte em [5] e [6], sobre a imagem da rua da Sofia de Google Earth, 2024

Colégio de São Miguel (1535-1547) – Pertencente ao Mosteiro de Santa Cruz, recebia alunos canonistas e teólogos para fidalgos abastados. Deixou de existir em 1547 para dar lugar ao Real Colégio das Artes.

Colégio de Todos-os-Santos (1535-1547) – Pertencente ao Mosteiro de Santa Cruz, recebia alunos honrados e pobres. Deixou de existir em 1547 para dar lugar ao Real Colégio das Artes.

Real Colégio das Artes (1548-1566) – Funcionou inicialmente nas instalações do Colégio de São Miguel e do Colégio de Todos-os-Santos. A corporação colegial seria, em 1555, colocada sob tutela da Companhia de Jesus que entregaria o edifício ao Tribunal do Santo Ofício em 1566 (em 1566 é transferido para casas junto do Colégio de Jesus, na Alta; as Artes corresponderiam ao actual Ensino Secundário e eram ensinadas na Universidade como preparação para a frequência de qualquer uma das três Faculdades ditas Faculdades Maiores em contraposição à "Faculdade" de Artes, a Faculdade Menor. Por isso mesmo, D. João III, através deste colégio, retira as Artes da alçada directa da Universidade).

[rss7] Implementação do Colégio das Artes, in Ruas

[rss8] Colégio das Artes (vista Patio da Inquisição)

Colégio de São Bernardo ou do Espírito Santo (1541-1834) – Patrocinado pelo Cardeal Infante Dom Henrique, foi atribuído à Ordem de Cister.

[rss9] Implementação do Colégio de São Bernardo, in Ruas

[rss10] Colégio de São Bernardo

Colégio de Nossa Senhora do Carmo (1540-1834) – Foi mandado construir pelo bispo do Porto, Frei Baltasar Limpo, para residência de clérigos que desejavam frequentar a Universidade. A edificação do Colégio decorreu em duas fases distintas, ambas efetivadas na centúria de Quinhentos. A primeira corresponde à construção dos dormitórios, claustro, igreja e outras dependências fundamentais para a acolher a comunidade, entre 1540 e 1548; a segunda à conclusão da igreja colegial e à reedificação do claustro, entre 1597 e 1600. Foi doado em 1547 à Ordem dos Carmelitas Calçados.

[rss11] Implementação do Colégio do Carmo, in Ruas

[rss12] Colégio do Carmo

Colégio de Nossa Senhora da Graça (1543-1834) – Estabelecido por Frei Luís de Montoia para a Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho, consistia num casto complexo colegial de autoria do arquiteto Diogo de Castilho, tendo servido de protótipo para os futuros colégios monásticos da cidade. O claustro era o ponto convergente de todo o edifício, o centro vital da comunidade estudantil. Edificado em dois períodos distintos, permitia a ligação aos dormitórios, refeitórios, espaços de estudo e ao templo. Entre 1828 e 1834, serviu de hospital ao serviço das tropas absolutistas.

[rss13] Implementação do Colégio da Graça, in Ruas

[rss14] Colégio da Graça

Colégio Pontifício de São Pedro (1540-1834) – O primitivo Colégio de São Pedro da Ordem Terceira foi fundado em 1540 pelo bispo de Miranda, Dom Rodrigo de Carvalho, para que 12 clérigos pobres mirandeses pudessem estudar. O edifício acabou por passar para a Ordem Terceira Regular de São Francisco (frades Franciscanos Calçados ou frades Terceiros, vulgo "Borras"), em 1572. A igreja colegial foi renovada na primeira metade do século XVII. Corresponde a este mesmo ciclo construtivo o átrio que precede a entrada, ornamentado no século XVIII com azulejos de figura avulsa.

[rss15] Implementação do Colégio de São Pedro, in Ruas

[rss16] Colégio de São Pedro

Colégio de São Tomás de Aquino (543-1834) – Pertenceu à Ordem Dominicana e seguiu o risco de Diogo de Castilho. A traça do Colégio segue esquema de um claustro central, a partir do qual se organizavam todas as dependências pedagógicas e residenciais.

[rss17] Implementação do Colégio de São Tomás, in Ruas

[rss18] Colégio de São Tomás, atual Pálácio da Justiça

Colégio de São Domingos (1545-1566) – Mandado erguer pelos Dominicanos, apesar de não ter sido acabado, funcionou até à sua extinção em 1566.

[rss19] Implementação do Colégio de São Domingos, in Ruas

[rss20] Colégio de São Domingos, vista do atual Pingo Doce

Colégio de São Boaventura ou dos Pimentas (1543-1834) – Pertenceu aos Franciscanos Conventuais da Província de Portugal ("Venturas"), depois aos Capuchos de Santo António e finalmente aos Franciscanos do Algarve ("Pimentas"). Antes da sua extensão, sofreu uma renovação em 1715.

[rss21] Implementação do Colégio de São Boaventura

[rss22] Colégio de São Boaventura

Colégio de São Boaventura I e II

Colégio de São Tomás


Fontes

  • António de Vasconcelos, Escritos Vários, Volume I, Arquivo da UC, 1987. [4]

  • Associação Ruas, in https://www.uc.pt/ruas/inventory/mainbuildings [5]

  • João Miguel Figueiredo Silva, A In-Temporalidade da Arquitetura do Colégio da SS. Trindade, Lisboa, 2013

  • Luís António Martins dos Santos, A Evolução Histórica e Geográfica da Baixa de Coimbra- Funções e Transformações. Uma proposta de exploração pedagógica, FLUC, 2013

  • Maria de Lurdes Craveiro, A Reforma Joanina e a Arquitetura dos Colégios, Ministério do Equipamento, do Planeamento e da Administração do Território, Monumentos, 1998

  • Mário Brandão (publicação), Documentos de D. João III, 1938, [1]

  • Miguel Pires Prôa, Gaveta com Saber, in https://gavetacomsaber.blogspot.com/2007/10/quem-passa-pela-rua-da-sofia-em-coimbra.html [3]

  • Rodrigues Costa, O edifício número 70 da Rua da Sofia, in https://acercadecoimbra.blogs.sapo.pt/tag/col%C3%A9gio+de+todos+os+santos

  • Walter Rossa, A Sofia. Primeiro episódio da reinstalação moderna da Universidade portuguesa, In Monumentos N.º 25, Revista Semestral de Edifícios e Monumentos, da Direção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, 2006 [3]

Paulo Simões Lopes, março de 2024