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Quais são os principais desafios científicos e tecnológicos que os investigadores enfrentam atualmente para tornar a Computação Quântica mais acessível e aplicável?
EM - A Computação Quântica está na sua infância e enfrenta desafios científicos significativos para se tornar mais acessível e aplicável. As principais limitações atuais são a escalabilidade dos computadores quânticos (número de qubits disponíveis), a estabilidade dos qubits, a correção de erros na operação dos qubits e as questões de confiabilidade associadas ao funcionamento dos computadores quânticos.
Também existem grandes desafios no desenvolvimento de algoritmos e programas para Computação Quântica que requerem uma abordagem e uma forma de pensar completamente diferentes dos programas e algoritmos para computação clássica. Problemas de grande complexidade que atualmente não são resolúveis por meios computacionais em tempo finito poderão vir a ter soluções rápidas, mas é necessário trabalhar na formulação destes problemas com modelos matemáticos e algoritmos adequados à Computação Quântica.
Paradoxalmente, o aparecimento de soluções de Computação Quântica para resolver problemas de grande complexidade vai pôr em causa a segurança e estabilidade da nossa sociedade que assenta em algoritmos de cifra através de chaves assimétricas (RSA) cuja robustez se acredita que será, a médio prazo, posta em causa pela Computação Quântica, podendo causar o caos nas relações entre os estados e nos sistemas financeiros (toda a informação que hoje consideramos cifrada de forma segura passará a estar acessível). Para dar resposta a este desafio estão em curso atividades de investigação e normalização para encontrar esquemas de encriptação resistentes à Computação Quântica. A UC tem participado neste esforço estando em curso e em preparação projetos nesta área, envolvendo aplicações na área da Internet das Coisas (IoT) e aplicações em constelações de satélites de baixa órbita (LEO) no âmbito de uma parceria internacional envolvendo também o Instituto Pedro Nunes (IPN).
De que forma a Computação Quântica está a ser integrada nos currículos académicos e na formação de novos especialistas nesta área?
EM - Como foi referido anteriormente, a Computação Quântica aparece sobretudo integrada em unidades curriculares de cursos de Física e de Engenharias ou em cursos não conferentes de grau focados no tema, como é o caso do curso de Computação e Tecnologias Quânticas, oferecido pela UC.
A formação conferente de grau (normalmente mestrados) na área já existe em alguns países, estando a UC a preparar oferta formativa nessa área, em associação com outras universidades no espaço europeu.
Que impacto espera que a Computação Quântica tenha em setores estratégicos, como o da Saúde, nos próximos anos?
EM - As expectativas são muito altas! A Computação Quântica vem reduzir drasticamente os tempos de pesquisa e procura de soluções dos algoritmos clássicos, o que tem uma aplicação evidente na área da Saúde em que os grandes volumes e a complexidade dos dados limitam fortemente o espaço de pesquisa e diagnóstico. A Computação Quântica associada à Inteligência Artificial tem um potencial enorme no apoio ao diagnóstico de doenças, no apoio à escolha de tratamentos e na síntese de novas moléculas e fármacos utilizados nesses tratamentos.
Nesta área, a UC participa num projeto internacional que visa a utilização de Computação Quântica e Inteligência Artificial na deteção e prevenção de doenças gastrointestinais, envolvendo vários departamentos da Faculdade de Ciências e Tecnologia, a Faculdade de Medicina e o Centro de Estudos Sociais.
Em que áreas a Computação Quântica já está a ter impacto real na IBM e quais são os casos de uso mais promissores?
Ricardo Martinho (RM) - A IBM está a colaborar com mais de 275 membros da IBM Quantum Network das mais variadas indústrias e disciplinas e estabeleceu cinco grupos de trabalho em áreas em que a computação quântica está a começar a ter impacto e em que acreditamos que uma "vantagem quântica" será possível em breve: física de alta energia, ciência dos materiais, cuidados de saúde e ciências da vida, otimização e sustentabilidade.
Por exemplo, o RIKEN, um instituto nacional de investigação científica no Japão, e a Cleveland Clinic, um centro médico académico líder e uma instituição de investigação biomédica que tem um IBM Quantum System One em escala utilitária, estão a explorar algoritmos para resolver problemas de estrutura eletrónica que são fundamentais para a química. Estas iniciativas representam os primeiros passos em direção a abordagens de supercomputação centradas em computação quântica para modelar realisticamente sistemas químicos e biológicos complexos.
Os investigadores da IBM e do RIKEN realizaram diagonalizações quânticas baseadas em amostras (SQD) em ambientes de supercomputação com enfoque quântico, que fazem uso de hardware quântico para modelar com precisão a estrutura eletrónica de sulfeto de ferro, um composto presente em abundância na natureza e em sistemas orgânicos. E agora como um serviço Qiskit implementável, esta técnica SQD está a ser utilizada pela Cleveland Clinic para explorar como poderia ser implementada em simulações com enfoque quântico em ligações entre moléculas que são essenciais para muitos processos de ciência química, biológica e farmacêutica.
No setor energético, a empresa energética europeia E.ON está a colaborar com a IBM na utilização da computação quântica na otimização da complexidade das redes elétricas. O objetivo é otimizar a distribuição de energia e melhorar a eficiência dos sistemas elétricos, contribuindo para uma gestão mais eficaz dos recursos energéticos.
Um outro exemplo, a empresa de biotecnologia americana Moderna está a trabalhar com a IBM para explorar o uso da computação quântica e da inteligência artificial generativa na ciência do mRNA. Esta colaboração visa acelerar a investigação e o desenvolvimento de terapêuticas baseadas em mRNA, potencialmente revolucionando a abordagem a diversas doenças.
Estes exemplos mostram já o impacto crescente da computação quântica em várias indústrias, com a IBM a desempenhar um papel central na exploração e aplicação desta tecnologia para enfrentar desafios complexos e promover inovações significativas.
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