Isto (também) é FMUC
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HUG Café – Um projeto de inclusão, sabor e afetoNo passado dia 14 de março, abriu portas ao público o HUG Café. Fruto de uma parceria entre a Associação Portuguesa para as Perturbações do Desenvolvimento e Autismo (APPDA-Coimbra) e a Universidade de Coimbra (UC), este café – situado no piso 0 do Instituto de Investigação Clínica e Biomédica da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (iCBR-FMUC), no Polo III da UC – reflete um compromisso com a inclusão social, promovendo novas oportunidades num ambiente acolhedor. Elsa Vieira, presidente da APPDA-Coimbra, e Henrique Girão, diretor do iCBR-FMUC, dão-nos a conhecer melhor este espaço, que está aberto ao público de segunda a sexta-feira, das 8h30 às 17h. Como surgiu a ideia de criar o HUG Café?Elsa Vieira (EV) - A APPDA Coimbra tem como missão garantir respostas específicas e individualizadas a pessoas com perturbações do desenvolvimento e autismo, bem como às suas famílias, promovendo a sua autonomia e o pleno exercício da cidadania. Atenta às necessidades do seu público-alvo, a associação tem procurado oportunidades concretas que contribuam para a sua inclusão social e profissional. Neste contexto, e alinhada com os direitos consagrados na Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, em especial o direito ao trabalho, surgiu a ideia do HUG Café: um espaço de restauração inclusivo, pensado para criar oportunidades de emprego em ambiente real para pessoas autistas. Esta iniciativa surgiu da identificação de uma oportunidade num espaço anteriormente explorado como bar, localizado num ambiente académico ligado às ciências da saúde. O que motivou o iCBR-FMUC a abraçar este projeto?Henrique Girão (HG) - A ideia deste projeto de parceria do iCBR-FMUC com a APPDA-Coimbra começou há alguns anos com o Professor Miguel Castelo Branco, que fez os primeiros contatos com a APPDA, através da Dra. Elsa Vieira, para podermos receber, no bar do iCBR-FMUC, jovens com perturbações do espectro do autismo. Felizmente, essas interações resultaram numa bem-sucedida candidatura ao Prémio Capacitar, financiado pelo BPI/Fundação “La Caixa”, com o objetivo de abrir, no bar do iCBR-FMUC, um espaço de cafetaria e venda de refeições ligeiras, que tanta falta faz no Polo III. Para além de permitir melhorar e diversificar a oferta no Campus da Saúde da UC, na matriz deste projeto está o desejo de contribuir para uma sociedade mais justa, equitativa e solidária, capaz de dar mais oportunidades a pessoas com maior dificuldade de integração, de forma independente e autónoma, na sociedade, nomeadamente no mercado de trabalho. Quero reforçar que ao Professor Miguel Castelo Branco, pelo seu enorme esforço e empenho, se deve a grande parte do mérito desta iniciativa. Para que este projeto se tornasse uma realidade, houve necessidade de “derrubar” algumas barreiras burocráticas, que permitissem a exploração do espaço do bar do iCBR-FMUC, em moldes especiais, sem contrapartidas financeiras para a UC. Para tal, foi celebrado um protocolo de colaboração entre a UC e a APPDA. Neste aspecto, gostaria de deixar uma palavra de especial e reconhecido agradecimento ao vice-Reitor Professor Alfredo Dias, que teve um papel fundamental para desbloquear e agilizar diversos trâmites mais complexos, permitindo ultrapassar os obstáculos que fomos encontrando, até conseguirmos concretizar este projeto. Ainda assim, demorou mais do que aquilo que gostaríamos, mas estou certo de que sem a intervenção e ajuda do Professor Alfredo Dias, nada disto teria sido possível. Apesar de toda esta demora, a Dra. Elsa Vieira teve, ao longo de todo este processo, a paciência necessária para esperar que todos os constrangimentos fossem solucionados, pelo que quero aproveitar esta oportunidade para lhe agradecer. Assim foi criado o HUG Café, um projeto pioneiro e inovador de integração social desenvolvido, em parceira, pela APPDA-Coimbra, a UC e o iCBR-FMUC, para promover a inclusão profissional de jovens autistas, dando-lhes oportunidades de trabalho, num ambiente acolhedor, tolerante e amigável, adaptado às suas necessidades. Há muito que o iCBR-FMUC e o Polo III precisavam de um novo espaço de refeição e convívio. Foi uma longa espera, mas valeu a pena, para fazermos a escolha certa. Como diretor do iCBR-FMUC, sinto um enorme orgulho por poder acolher este projeto, que muito dignifica e enobrece a instituição e a sua comunidade científica, técnica e académica. |
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Quais foram os principais desafios na implementação do projeto?EV - Um dos primeiros desafios foi dinamizar o espaço disponível de forma funcional e adaptada ao objetivo do projeto. O contacto com a D. Alda Gonçalves e o Dr. Henrique Girão revelou-se fundamental. O seu apoio e entusiasmo permitiram avançar para a celebração de um protocolo entre a APPDA e a UC, garantindo o enquadramento institucional necessário. A obtenção de financiamento foi outro grande desafio. Graças ao empenho da equipa da APPDA, foi possível conquistar apoios importantes, como o Prémio La Caixa BPI Capacitar 2022, o Prémio Caixa Social da CGD 2023 e um apoio do Instituto Nacional para a Reabilitação, I.P. em 2024. Estes financiamentos permitiram criar uma cozinha de raiz, adquirir os equipamentos essenciais, formar os futuros profissionais e constituir as equipas de trabalho. Apesar das obras no edifício onde se localiza o espaço terem atrasado o processo, o projeto conseguiu avançar, culminando com a inauguração e abertura ao público a 14 de março. A divulgação tem sido assegurada através das redes sociais, com publicações diárias de menus e novidades. Como este café se alinha com os valores e a missão do instituto?
Neste sentido, o iCBR-FMUC tem, desde há muito, promovido iniciativas para acolher jovens com deficiência. Estes jovens participam em diversas atividades, nomeadamente de ajuda ao trabalho de secretariado e gestão administrativa, com a colaboração da Alda Gonçalves, que é a grande dinamizadora destes projetos de inclusão. Quando soube da possibilidade de acolher este projeto com a APPDA, fiquei de imediato entusiasmado com a ideia. Para além do contributo que poderíamos dar à sociedade, seria também uma oportunidade para nos desafiar e obrigar a sair da zona de conforto. Este projeto muda radicalmente a forma de olharmos para o mundo e encarar a vida, e coloca-nos, a todos, à prova, em relação à nossa real capacidade e disponibilidade para saber aceitar e lidar com a diferença. Falo por mim, mas penso ser algo comum a muita gente, que é a grande dificuldade e desconforto em gerir o contato e a interação com alguém que usa outras ferramentas de comunicação, outras formas de estar e se integrar, outras maneiras de ver e sentir a vida. Sentimo-nos desajeitados, intimidados, receosos, julgados. Temos medo de falhar e não sermos capazes de lidar com isso, sermos confrontados com a inaptidão, perante um contexto que nos é estranho e alheio às nossas rotinas. A primeira reação é fingir que não estamos a perceber, tentando manter uma indiferença que aparente naturalidade, à vontade, desembaraço, que em nada pareça incomodar, afetar ou atingir quem nos olha de frente. Estou certo de que esta será uma experiência benéfica para todos. Vamos aprender a cada dia, a ser diferentes e encarar e lidar com a diferença. Para além de ser um abraço à inclusão, à empregabilidade e à autonomização de pessoas autistas, num ambiente social e profissional estimulante, responsável e interativo, o HUG Café é também uma oportunidade para a toda a comunidade aprender com o contato e com o afeto destes jovens, que têm tanto para partilhar e nos ensinar. Estou seguro de que teremos nós muito mais a ganhar do que os jovens que nos abraçam e acolhem. É uma lição de vida, que levamos para a vida. Foi por tudo isso que achei que este era um projeto com a marca iCBR-FMUC, um espaço de tolerância, inclusão, igualdade, respeito, compreensão e liberdade. Sabemos que é um espaço diferente... para melhor! Primeiro estranha-se, mas depois entranha-se. Chegamos e não queremos sair, pelo bem que nos sentimos. Todos nós vamos ser seguramente melhores, pelo que aprendemos e pela forma alegre, bem-disposta, fraterna, como somos recebidos, a cada dia. Temos problemas, sim... as experiências não correram como desejávamos, o projeto não foi financiado, o artigo foi rejeitado, a bolsa não foi aprovada... Mas ao chegar ao HUG Café, tudo é relativizado e uma nova onda de esperança e motivação se apodera de nós. Só temos de estar muito gratos por tudo o que têm a generosidade de partilhar e nos dar! |
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Como o HUG Café contribui para a inclusão e empregabilidade de jovens autistas?EV - O HUG Café nasceu com o propósito claro de criar postos de trabalho para pessoas autistas. Após uma formação específica, foram selecionados dois jovens para integrarem a equipa da cozinha, juntamente com um cozinheiro contratado, e três jovens para o serviço de bar, também acompanhados por um profissional da área. Este modelo de trabalho promove a verdadeira inclusão profissional: os jovens trabalham em funções reais, com responsabilidades concretas e interação com o público, sendo valorizados pelas suas competências e preferências. E como é feita a preparação e o acompanhamento dos jovens?EV - Após a formação, os jovens foram integrados nas equipas de cozinha e bar, sempre com o acompanhamento próximo de profissionais qualificados. O cozinheiro e a funcionária de balcão foram escolhidos não só pela experiência profissional, mas também pela capacidade de adaptação às necessidades dos colegas autistas, mantendo-os motivados e empenhados. Além disso, os técnicos da APPDA Coimbra acompanham de perto a integração e evolução de cada elemento, assegurando o bem-estar, a valorização pessoal e a qualidade do serviço prestado. Qual tem sido o feedback destes jovens e das suas famílias?EV - O feedback tem sido extremamente positivo. Os jovens sentem-se motivados, úteis e felizes por estarem a exercer uma atividade que gostam e por terem, finalmente, um emprego. As famílias manifestam orgulho e satisfação por verem os seus filhos incluídos num contexto profissional, com reconhecimento e remuneração, o que reforça o impacto positivo do projeto. E como tem sido a receção da comunidade académica e científica ao HUG Café?
É ainda de destacar, para além da forma amistosa e calorosa como somos recebidos neste espaço, todos os dias, por todos os colaboradores, a excelente qualidade da comida que é servida. |
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Considera que iniciativas como esta podem influenciar outras instituições a adotar medidas mais inclusivas?HG - Quero acreditar que sim. O sucesso desta iniciativa pode levar outras instituições a promover iniciativas semelhantes. Instituições de ensino superior ou centros de investigação podem sentir-se motivados a criar oportunidades de integração de jovens com deficiência nas suas atividades. Acredito, convictamente, que é missão destas instituições contribuir também para uma sociedade mais justa e inclusiva, que dê igualdade de oportunidades. Devemos ser um exemplo para toda a sociedade, contribuindo não apenas para o seu progresso científico e académico, mas também social, mostrando que há lugar para todos. De que forma este espaço pode contribuir para uma mudança na perceção sobre a inclusão no ambiente académico e profissional?HG - Como referi, esta iniciativa pode servir de exemplo e inspiração para que outras sigam práticas semelhantes. O HUG Café é apenas um exemplo. Para além deste, o iCBR-FMUC tem recebido, para estágios e ações de formação, jovens com deficiência. E a nossa experiência é excelente. Independentemente do tipo de limitação, a integração destes jovens faz-se de forma plena. Naturalmente que tem de haver, da nossa parte, uma abordagem diferente e especial, para que esta inclusão ocorra de forma bem-sucedida. Mas no final, é muito gratificante vermos estes jovens satisfeitos, alegres e integrados. São uma mais-valia para a instituição, não apenas pelo trabalho que desenvolvem, pela ajuda que dão, mas também por aquilo que nos ensinam e nos mostram. Estes jovens contribuem, de forma decisiva, para que nos sintamos mais inspirados e motivados para evoluir e fazer mais e melhor. Existem planos para expandir esta iniciativa?EV - Embora ainda numa fase inicial, o sucesso do HUG Café permite já sonhar com a sua expansão. A instituição está a estudar a introdução de serviços de catering para eventos académicos e institucionais, o que poderá criar oportunidades de trabalho. A replicação deste modelo em outros contextos está em análise, desde que se reúnam as condições essenciais: parcerias sólidas, financiamento adequado e uma equipa dedicada. Para já, o foco está na consolidação do projeto, garantindo a qualidade do serviço e a satisfação dos clientes e trabalhadores. Só assim será possível, de forma sustentada, criar nichos de emprego e continuar a promover a inclusão de pessoas autistas na sociedade. O HUG Café é um projeto inspirador!
fotografias iCBR-FMUC |



