Lucerna | Vasco lalá
Desde muito cedo, a educação se apresentou como um caminho de transformação na minha vida. Nasci na Guiné-Bissau e minha infância foi marcada por mudanças entre diferentes localidades. Iniciei minha escolaridade no Jardim AMIC, em Canchungo, mas, por razões familiares, precisei me mudar para Jolmete, uma pequena aldeia onde a infraestrutura educacional era limitada. Mesmo diante das dificuldades, mantive o desejo inabalável de aprender.
O regresso a Canchungo, em 2006, foi um momento decisivo para mim. Retomei os estudos no Liceu Regional de Canchungo, onde concluí o ensino médio. Durante essa fase, comecei a me interessar por tecnologia e, em 2010, formei-me em Informática na Escola Industrial de Jesus, o que me permitiu atuar como professor auxiliar de informática. No entanto, algo dentro de mim sempre apontava para um caminho maior: o desejo de me tornar médico.
Em 2011, movido por esse sonho, mudei-me para Bissau, onde me matriculei no "zero ano" da Universidade Lusófona para me preparar para o ensino superior. Durante esse período, não trabalhei, pois minha mãe cuidou de tudo para que eu pudesse focar inteiramente nos estudos. Em 2013, fui admitido na Faculdade de Medicina da Escuela Latinoamericana de Medicina, um polo da faculdade cubana em Bissau. Professores cubanos vinham lecionar presencialmente, garantindo um ensino de qualidade e rigor acadêmico.
Durante os primeiros anos da faculdade, dediquei-me exclusivamente aos estudos. Apenas no 4º ano de Medicina voltei a trabalhar, conciliando meus estudos com atividades acadêmicas e profissionais. Após anos de dedicação, graduei-me em Medicina em 2019. Logo após a conclusão da formação, comecei a atuar como médico clínico geral no Hospital Militar Principal de Bissau, inicialmente como estagiário, até ser efetivado em 2021.
Minha trajetória acadêmica, no entanto, não parou por aí. Em busca de mais conhecimento, fui agraciado, em 2020, com uma bolsa de mestrado do Instituto Camões, o que me levou a ingressar no Mestrado em Saúde Pública na Universidade do Porto.
Foi durante esse mestrado que vivenciei um dos momentos mais marcantes da minha carreira até agora. Desenvolvi um estudo intitulado "Teor de sódio do pão das padarias e mercados tradicionais em Bissau, Guiné-Bissau". No início, parecia apenas mais um desafio acadêmico, mas ao chegar ao campo para coletar os dados, percebi a complexidade real da pesquisa em saúde pública. Tive de adaptar o protocolo às condições locais, aprender a superar obstáculos práticos e desenvolver soluções rápidas. A experiência foi intensa, mas extremamente enriquecedora. Consegui realizar todo o trabalho em tempo recorde, apresentei minha tese com sucesso.
Ao longo dessa trajetória, participei de diversas jornadas científicas durante a licenciatura, sendo premiado com menções honrosas. Fui membro do grupo 7 da comissão científica dos estudantes do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP) e tive a oportunidade de assistir a seminários internacionais sobre temas como epidemia do Ébola e nutrição infantil. Além disso, mantive minha paixão pelo ensino ao longo dos anos, sendo monitor de informática durante minha graduação e, mais tarde, professor de informática no Centro de Formação Brandão (2017-2020). Recentemente, fui convidado para lecionar Educação para a Saúde no Instituto de Investigação Científica, Educação e Inovação da Guiné-Bissau.
Hoje, ao ingressar no Programa de Doutoramento em Ciências da Saúde da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, sinto que toda essa caminhada, desde meus primeiros anos em Canchungo, os desafios enfrentados para chegar à universidade e os obstáculos superados no caminho, moldaram a pessoa e o profissional que sou hoje.
Se há algo que aprendi ao longo dessa jornada, é que a Medicina e a investigação científica não são apenas ferramentas para curar doenças, mas para transformar realidades. Cada experiência, cada desafio superado, fortaleceu minha convicção de que o conhecimento deve ser usado para gerar impacto positivo na sociedade.
E assim sigo, sempre em busca de novos desafios e conquistas.
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Vasco Ialá é aluno do Programa de Doutoramento em Ciências da Saúde da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra. |
